Resinas vegetais: Demanda por produtos renováveis

Avança a demanda por produtos de origem natural e renovável

A extração, transformação e a comercialização de resinas vegetais vêm se firmando, no Brasil, como um negócio promissor, puxado pela indústria química. Graças a diferenciais técnicos e econômicos em comparação aos sistemas poliméricos tradicionais, a demanda por resinas vem surpreendendo fabricantes que fornecem derivados para uma gama de produtos industriais. Um deles é o impermeabilizante da Imperveg, cujo crescimento do consumo foi classificado como exponencial pela companhia que desde 2008 se dedica à produção de poliuretano vegetal.

Oriundo da transformação do óleo de mamona (Ricinus communis), conhecido também como resina de mamon, o produto vem gerando um faturamento anual da ordem de R$ 5 milhões para a companhia, como informou o diretor comercial, Donizeti Curcio Luciano. O montante resulta de um volume de produção estimado em 100 t/ano, com aplicação garantida em empresas de saneamento, indústrias químicas, alimentícias, papel e celulose entre outras.

A evolução do setor tem se mostrado gradual, porém, constante tanto no mercado interno, como no externo, avalia Roberto Rodrigues, diretor técnico da Sinergia, empresa especializada igualmente na produção de resinas poliuretanas vegetais. As de maior demanda são as utilizadas na construção civil, para revestimento de reservatórios de água potável, pisos industriais e lajes de cobertura (com e sem trânsito de veículos), informa Rodrigues.

A flexibilidade de aplicação se destaca como uma característica comum do portfólio das duas empresas já que ambas buscam ampliar as oportunidades de vendas em áreas distintas de seus respectivos carros-chefes. Por exemplo, além de impermeabilizantes, a Imperveg disponibiliza matriz aglomerante para materiais compósitos, campo que se tornou mais atrativo após a pandemia. Esse segmento também está na mira da Sinergia, tido como um destino natural para o aproveitamento de resíduos sólidos de diversas cadeias de transformação. O foco da estratégia comercial da companhia estende-se ainda para a indústria náutica, conforme revelou Rodrigues.

A conjuntura favorável às resinas decorre tanto de fatores de mercado como de suas vantagens competitivas. Quanto ao impermeabilizante da Imperveg, destacam-se características de sustentabilidade e resistência mecânica, inclusive contra desgaste decorrente de fatores do próprio meio ambiente.

Resinas vegetais: Demanda por produtos renováveis ©QD Foto: Divulgação
PU formulado com derivados de óleo de mamona, da Sinergia

“Nosso material é altamente impermeável e apresenta grande resistência a produtos químicos. Sendo assim, nosso produto atende a necessidade dos clientes que buscam um revestimento anticorrosivo. Além disso, apresenta menor custo comparado aos poliuretanos minerais”, afirma Luciano.

O impacto positivo no custo de produção dos clientes é lembrado por Rodrigues, como um atrativo a mais do produto disponibilizado pela Sinergia. O ganho resulta, segundo ele, do menor consumo de energia. O executivo acrescenta que as resinas ofertadas são renováveis, com degradabilidade praticamente sem resíduos tóxicos, ressaltando a preocupação da companhia com a preservação ambiental.

Contudo, no que diz respeito à transformação das resinas em subprodutos usados por diversas cadeias produtivas, cada empresa tem seu modelo de negócio diferenciado. A Sinergia produz e envasa conforme a necessidade do cliente, procurando evitar custos com sobras desnecessárias, informa Rodrigues. Por sua vez, a Imperveg compra o óleo de mamona e o processa quimicamente para obter o poliol e o pré-polímero, pois não produz a matéria-prima virgem, explica Luciano.

Formulações técnicas – Boa parte dos atributos que enfatizam a qualidade dos produtos derivados de resinas vegetais decorre da matéria-prima e das especificações definidas pelas empresas fabricantes. Algumas formulações valorizam mais o caráter amigável dos poliuretanos em conformidade com a sustentabilidade ambiental, enquanto outras reforçam o status de não liberarem voláteis. Essas apostam em maior aderência do mercado, quando a demanda é voltada para aplicações em ambientes fechados.

A Imperveg ressalta, por exemplo, que seus produtos são isentos de solventes e metais pesados, pois são oriundos de fonte vegetal renovável e são 100% sólidos. Graças a essas características seu portfólio se alinha aos requisitos de proteção ambiental, observa o diretor comercial, Donizeti Curcio Luciano. Ele acrescenta que os itens ofertados não deixam resíduos, pois são biodegradáveis e também compostáveis.

Roberto Rodrigues, diretor técnico da Sinergia, explica que o portfólio da companhia é composto por itens originários de resinas com estrutura de cadeia molecular fechada. São também 100% sólidos, não emitem VOCs, o que as tornam ideais para utilização em ambientes fechados. De quebra, são considerados de fácil aplicação (com rolos de pintura, rodos ou espátulas), dispensando mão de obra especializada.

Para que os produtos sejam manipulados adequadamente, agregando valor ao negócio dos clientes, as duas empresas prestam serviço do tipo pós-venda, orientando-os sobre melhores práticas de uso das resinas etc. A Sinergia dá suporte técnico na preparação da superfície, antes da utilização dos produtos e mantem equipes de plantão, em finais de semana e feriados. O objetivo é esclarecer dúvidas de empresas que optam por esses dias para fazer manutenção de pisos e reservatórios de água.

A Imperveg, por sua vez, dá treinamento aos clientes sobre como usar seus produtos, incluindo construtoras, e empresas prestadoras de serviço na área de impermeabilização. A intenção, segundo Luciano, é manter os clientes satisfeitos, garantindo sua fidelização.

O executivo acrescenta que, adicionalmente, a companhia contribui para elevar a vida útil das instalações de seus parceiros. Não por acaso, os intervalos entre as atividades de manutenção tronaram-se maiores, diz Luciano.

Todas essas iniciativas representam apenas uma pequena amostra do potencial do mercado doméstico no segmento de resinas vegetais, marcado por uma diversidade de produtos e aplicações. A produção brasileira de goma-resina ocupa uma posição de destaque no mercado global, onde o país representa o segundo maior produtor mundial, ao lado da Indonésia, tendo à frente apenas a China.

Porém, as maiores agregações de valor e de conteúdo tecnológico ficam por conta dos derivados da resina de pinus. Essa substância pode ser utilizada como matéria-prima por diversas cadeias produtivas industriais

Tendências globais impulsionam inovações na Klabin

A procura por resinas de origem renovável, como as originárias de pinus, tem aumentado, assim como as pesquisas para ampliar suas possibilidades de aplicação no mercado global. A constatação é de Francisco Razzolini, diretor de tecnologia industrial, inovação, sustentabilidade e projetos da Klabin, que, por meio de pesquisa e desenvolvimento, busca ampliar o uso múltiplo dos componentes da madeira. Dentre os projetos de maior interesse da companhia, no momento, destacam-se os que estudam os químicos oriundos das espécies de pinus, extraídos durante o processo de produção da celulose, visando a diversificação do seu portfólio.

De certa forma, as pesquisas da companhia são motivadas pelo movimento do mercado global na busca de soluções renováveis, como as resinas vegetais, capazes de substituir insumos de origem fóssil. Razzolini explica que as aplicações estão sendo testadas e aprovadas por grandes players mundiais, interessados em experimentos vegetais, como os do pinus, que confiram boa performance tecnológica aos produtos, agregando importantes atributos de sustentabilidade.

Resinas vegetais: Demanda por produtos renováveis ©QD Foto: Divulgação
Razzolini: derivados de pinus têm aplicações diversificadas

“Para a Klabin, a sustentabilidade está atrelada à sua estratégia de negócio e a inovação é parte essencial dessa jornada. Possuímos um robusto programa de pesquisa e desenvolvimento visando ampliar as possibilidades de soluções renováveis e, para isso, contamos com uma equipe de cientistas e pesquisadores altamente capacitados”, afirma o executivo.

Os estudos da companhia se concentram tanto na linha de biorrefinaria, como no desenvolvimento de produtos com base em lignina e na hemicelulose da fibra da madeira. Trabalha também na aplicação das próprias fibras de celulose, nas suas versões micro e nano – celulose microfibrilada e celulose nanofibrilada.

O segmento de cosméticos é um dos mais relevantes dentre os que estão no radar de mercado da companhia, subsidiado pelo Centro Tecnológico localizado em Telêmaco Borba-PR. “Temos obtido sucesso ao substituir determinada base cosmética que utiliza ingrediente fóssil pela resina polimérica, ou animal, como a lanolina, por solução vegetal oriunda do pinus, agregando valor ao produto”, revela Razzolini.

Os estudos sobre os químicos derivados do pinus abordam o CTO (crude tall oil), um óleo vegetal extraído do licor preto gerado no processo de cozimento da madeira. Trata-se de uma substância rica em ácidos graxos de ampla aplicação nas indústrias de cosméticos, combustíveis, solventes e colas especiais (têm transparência adequada para selagem de embalagens também transparentes).

As pesquisas incluem ainda a terebintina sulfatada, também extraída no processo de cozimento da madeira. “É uma fonte rica em terpenos, canfenos e pinenos, com aplicações em alimentos (aroma de baunilha sintética), cosméticos, fármacos e produtos de limpeza delicada”, detalha o diretor.

De acordo com informações da Klabin, a lignina, que representa cerca de 30% da composição química da madeira, extraída durante o processo de produção de celulose, é normalmente utilizada como combustível para a geração de vapor e energia nas fábricas. Contudo, ela é rica em compostos fenólicos, podendo ser consumida como insumo antioxidante para a indústria química.

Em uma linha de estudos inédita, realizada na planta-piloto de lignina, no centro de pesquisa da companhia, constatou-se a capacidade antioxidante da lignina do pinus aplicado em compostos de borracha. Em sua maioria, esses produtos utilizam um antioxidante sintético, de origem fóssil, a TMQ (trimetil quinolina), que não é produzida no Brasil.

Em decorrência desses estudos, Razzolini acredita que se o composto pudesse ser produzido no mercado interno, representaria uma das soluções mais inovadoras para a indústria de borracha, a qual tem interesse em tornar seus processos e produtos mais sustentáveis.

Outras linhas de aplicações da lignina do pinus estão sendo desenvolvidas. Os projetos incluem o uso em adesivos, colas para madeira, como prebióticos na alimentação animal, e até como precursores de fibras de carbono, informa o executivo da Klabin.

Por muito tempo, diz, os materiais ora utilizados em pesquisa, foram descartados para o tratamento de efluentes, dentro do processo de fabricação de celulose e papel. Contudo, o avanço da economia circular, assim como a evolução das aplicações e do entendimento do valor dos insumos para outras cadeias, ampliando os usos da madeira, levaram a Klabin a prospectar outras rotas de destinação.

Com isso foram encontradas soluções importantes, com diferenciais competitivos como a alta concentração de ácidos graxos, devido ao tipo de pinus que a companhia utiliza. Destaca-se também a pureza dos insumos usados nos processos de produção, resultante de investimentos recentes em tecnologia.

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