Resinas para tintas oferecem novas funções

Tintas e revestimentos: Evolução das resinas busca incrementar funcionalidades e aprimorar sustentabilidade

O mercado de resinas para tintas investe em novas funcionalidades, melhoria de desempenho e baixo impacto ambiental.

Em meio a um contexto econômico de aparente calmaria, no qual tanto os preços dos insumos quanto a demanda sugerem estabilidade, as projeções apontam para índices positivos. Por ora, as condições são favoráveis. Segundo recente levantamento da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), a indústria de tintas na América do Sul tem registrado taxa de crescimento anual de 2,5%, em volume físico.

Outra contribuição importante diz respeito aos preços dos insumos demandados pelo setor de tintas, pois eles voltaram aos patamares tradicionais. Para Camilo Alvarado, do Marketing e Inovação de Dispersões, Resinas e Aditivos da Basf para a América do Sul, nos últimos doze meses, houve uma queda significativa nesses preços, após os aumentos ocorridos em 2020 e 2021.

No momento, as expectativas remetem à estabilização, apesar de Alvarado não desconsiderar totalmente possíveis alterações decorrentes da demanda do mercado, das flutuações nos preços das matérias-primas e das condições econômicas globais. “Isso pode impactar de diferentes formas os diversos insumos utilizados no setor de tintas”, comenta.

De qualquer modo, as previsões de Alvarado para 2024 são positivas e se baseiam sobretudo na possibilidade de ocorrerem investimentos voltados aos setores de infraestrutura e da construção no Brasil, o que teria reflexo direto no crescimento do consumo das tintas imobiliárias e de performance. Outra aposta da companhia se refere ao segmento de repintura.

“Ele é de muita importância para a indústria automotiva e a expectativa é de que continue com um bom desempenho nos próximos anos”, estima.

Esta confiança se reflete nos investimentos da empresa. Alvarado anuncia a ampliação do portfólio de soluções produzidas na fábrica de Guaratinguetá-SP. Esses produtos não apenas oferecem alto desempenho, mas também melhoram a competitividade ao reduzir a complexidade da cadeia de fornecimento. Além disso, há o apelo ecológico, pois a logística simplificada resulta também em uma redução nas emissões de CO2.

Considerada a maior produtora de monômeros acrílicos no mundo e a única com capacidade produtiva na América do Sul, a Basf produz em escala mundial o ácido acrílico, usado na produção de tintas, revestimentos, produtos de tratamento de água, vernizes, adesivos e aglomerantes; o acrilato de butila, aplicado em resinas, tintas à base de água, revestimento de papel, colas e adesivos; e o acrilato de 2-etilhexila (2-EHA), empregado na produção de resinas, emulsões acrílicas, adesivos e selantes.

Pensando nestas áreas de negócio, Adriana Lima Domingos, gerente de vendas de Monômeros Acrílicos da Basf, explica que o cenário econômico ainda afeta o poder e a intenção de compra dos consumidores, assim como a competitividade dos importados, tanto para as matérias-primas como para o produto acabado, em alguns setores.

Tintas e revestimentos: Evolução busca incrementar funcionalidades ©Q Foto: iStockPhoto
Adriana: consumidores estão retardando suas compras

“Estes fatores têm afetado a demanda e limitado o crescimento e novos investimentos”, diz.

No entanto, ainda assim, segundo ela, há uma demanda de mercado estável no primeiro semestre de 2024, com pico concentrado nos primeiros meses, impulsionado pela reposição dos estoques na cadeia em geral, pós-período de fechamento do ano fiscal.

Embora o mercado de tintas tenha enfrentado desafios significativos em 2023, com questões relacionadas à demanda, disponibilidade e flutuações de preços, a Dow mantém uma postura cautelosamente otimista em relação ao segmento de resinas para tintas.

No ano passado, segundo Leo Moura, gerente de marketing para Revestimentos Arquitetônicos da Dow, houve uma contração da demanda no primeiro semestre, seguida por uma recuperação gradual, nos seis meses seguintes.

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Moura: tecnologia Avanse dá alta cobertura com menos TiO 2

“Para 2024, prevemos um cenário semelhante, com desafios persistentes relacionados à demanda, especialmente no primeiro semestre, em que ainda podemos enfrentar pressões de produtos importados e uma possível contração”, diz.

No entanto, na segunda metade do ano poderá haver uma recuperação mais robusta, impulsionada por uma estabilização econômica e recuperação de demanda reprimida. A expectativa da Dow é de encerrar o ano com crescimento entre 2% e 3% em comparação com 2023.

Leandro Lemos Alves, gerente de desenvolvimento de Novos Negócios na Syensqo (empresa surgida da divisão dos negócios do Grupo Solvay), aponta que, nos últimos tempos, aumentou o interesse por surfactantes livres de alquilfenol etoxilado, um reflexo direto da demanda do mercado por produtos mais sustentáveis e com menor impacto ambiental. Essa tendência, não se limita apenas ao Brasil, mas se estende por quase todo o continente americano, evidenciando uma mudança significativa nas preferências dos consumidores e nas práticas de produção.

Em relação ao segmento de surfactantes e monômeros especiais, até o momento, Alves não observou a entrada de novos players significativos, nem entre os fabricantes de emulsões e resinas. “Isso sugere um mercado relativamente estável em termos de competição, mas não sem inovação”, afirma.

De acordo com Andressa Francez, assistente técnica de laboratório da SQ Química, o segmento de tintas UV experiencia uma fase próspera, por conta de seu crescimento estimulado pela alta procura por sustentabilidade, uma vez que essa tecnologia dialoga com o conceito – é livre de compostos orgânicos voláteis (VOC).

Além disso, este tipo de produto tem a sua aceitação facilitada, porque pode promover alta resistência química e aderir a uma variedade ampla de substratos. Outro fator responsável pelo avanço do segmento é a adoção crescente de lâmpadas UV-LED, em vez das tradicionais, de mercúrio.

Andressa conta, no entanto, que apesar de a tecnologia UV oferecer diversos benefícios, existem alguns requisitos para utilizá-la e isso acaba sendo um desafio por conta dos altos custos iniciais, das limitações nas espessuras de camada e de seus rigorosos requerimentos de segurança para proteção dos operadores dos equipamentos UV.

Considerando os novos rumos da indústria, Andressa aposta no sistema de impressão 3D como tendência para o mercado de resinas UV-LED. Uma das justificativas está na versatilidade desta tecnologia.

Tintas e revestimentos: Evolução busca incrementar funcionalidades ©Q Foto: iStockPhoto
Andressa: cura por UV ganha mercado por eliminar solventes

“Podemos realizar a impressão de qualquer objeto, com uma definição extremamente boa nas peças”, diz.

A companhia define o segmento de unhas UV-LED, artesanato UV-LED e a impressão 3D como sinônimos de inovação. Andressa explica que as unhas convencionais, à base de solvente, e artesanatos feitos com sistema bicomponente epóxi, levam horas ou até dias para secar por completo, enquanto a tecnologia UV-LED realiza a cura (secagem) em segundos, com um excelente acabamento e alto brilho.

Mudanças no mercado de resinas para tintas

O mercado de tintas, assim como outros setores, vem passando por transformações importantes, nos últimos anos. No caso do segmento de emulsões e resinas para tintas, essas mudanças podem ser categorizadas em três eixos principais, segundo Alves. A inovação é um deles e se apresenta no sentido de agregar funções ao produto final.

“Isso inclui o desenvolvimento de resinas e emulsões que não melhoram apenas a qualidade e o desempenho das tintas, mas também oferecem diferenciais competitivos no mercado”, afirma.

Segundo ele, o setor demanda produtos que ofereçam mais do que simples estética, ou seja, agreguem valor, com benefícios reais e perceptíveis ao consumidor, incluindo funcionalidades como melhorias na durabilidade, propriedades antibacterianas e facilidade de limpeza.

Não por acaso, no segmento de tintas imobiliárias, segundo Alvarado, os produtos que tragam mais de uma funcionalidade e aumento da durabilidade dos revestimentos são os mais procurados atualmente. Moura segue a mesma linha de raciocínio. Para ele, os consumidores têm buscado tintas de maior durabilidade. “Isto é, que tenham maior resistência à sujeira e, uma vez suja, que seja de fácil remoção”, diz. Até por isso a Dow oferece este atributo em seu portfólio, com as resinas Primal AC-6510 e Evoque 5040, entre outras.

A sustentabilidade também marca presença na trajetória do setor. “Tem se tornado uma prioridade cada vez maior, tanto para os fabricantes, quanto para os consumidores”, diz Alves. Esse movimento envolve desde a seleção de matérias-primas até a adoção de processos de produção que sejam mais amigáveis ao ambiente, visando produtos que minimizem o impacto ecológico.

Por fim, vem a saúde financeira dos produtos, que para Alves, tem sido crucial ao setor. Ela engloba estratégias para reduzir custos, otimizar a logística, mitigar disrupções no fornecimento e simplificar as complexidades fiscais. “Tais medidas são essenciais não apenas para sustentar a competitividade no mercado, mas também para assegurar a rentabilidade a longo prazo”, finaliza.

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Soluções

Entendendo essa nova dinâmica do mercado, a Syensqo (empresa originada da divisão da Solvay) se destaca pela especialização em resinas à base de água, oferecendo um portfólio de soluções que incluem surfactantes e monômeros especiais.

Tintas e revestimentos: Evolução busca incrementar funcionalidades ©Q Foto: iStockPhoto
Alves: insumos sustentáveis não são muito mais caros

“Este enfoque reflete não apenas o compromisso da empresa com práticas ambientalmente responsáveis, mas também seu forte DNA de cocriação, trabalhando lado a lado com clientes para desenvolver soluções sob medida”, diz Alves.

A Syensqo possui um portfólio versátil, capaz de atender uma ampla gama de demandas, incluindo produtos mais econômicos que são especialmente relevantes para mercados em desenvolvimento na América Latina. A sua produção local está situada em Itatiba-SP, o que, para Alves, permite o atendimento de maneira mais eficiente, reduzindo os impactos logísticos e tributários associados aos produtos importados.

Líder mundial em emulsões acrílicas, a Dow ampliou o seu portfólio com o lançamento da resina Dirtshield12, emulsão 100% acrílica. O produto apresenta reticulação proprietária, projetada especificamente para tintas elastoméricas, que assegura resistência superior à sujeira em ambientes exteriores. Ela se destaca pela versatilidade de aplicações e excelente adesão a substratos cimentícios, segundo Moura. A resina também oferece excelente resistência ao intemperismo, garantindo a performance mesmo em condições climáticas adversas, de acordo com o fabricante.

“A nova solução, além de aumentar a durabilidade dos revestimentos exteriores, visa também reduzir as emissões de carbono”, completa.

A Dow está trabalhando no mercado brasileiro com a emulsão Primal DC-420 e com a tecnologia Avanse, que proporciona alto poder de cobertura e permite a redução de dióxido de titânio na formulação de tintas. Moura cita também o Primal RN-1000V, emulsão 100% acrílica e multifuncional, projetada para tintas interiores de alto desempenho. É um produto que incorpora materiais de fontes renováveis, facilitando a formulação de tintas de baixo odor e reduzido VOC.

As unidades de ácido acrílico e acrilatos da Dow estão localizadas no Texas (EUA). No Brasil, a companhia importa esses monômeros para a produção de emulsões e poliacrilatos no site de Jacareí-SP. Esses produtos são utilizados em plataformas de tecnologia que possibilitam aos clientes desenvolverem soluções de alto desempenho para diversas aplicações. No segmento de tintas e revestimentos, são produzidas diversas resinas para melhorar o desempenho de tintas arquitetônicas, industriais e de demarcação viária.

A SQ Química, por sua vez, tem parceria com o fornecedor alemão Röhm, distribuindo suas linhas Degalan, Degadur e Degaroute, as quais são resinas metacrílicas (com base em MMA) e podem ser utilizadas para diversos segmentos, tais como demarcação viária, pintura de pisos e até mesmo sistemas de cura por UV. Alguns destaques do portfólio são o aditivo promotor de adesão DEA SilanUV4; oligômero metacrilado, Sealado 226851NH, e o monômero metacrílico Sea Hema-C.

Há ainda o DEA Dis1668N, aditivo dispersante indicado para sistemas por cura UV que utilizam sílica fosqueante e o Sealado ADCure78, aditivo de cura especialmente desenvolvido para sistemas de cura UV e cura UV-LED; além do aditivo acrilado modificado DEA WX-100 e a blenda de fotoiniciadores PI-LED2022.

Como novidade, a empresa anuncia a reforma do seu laboratório de desenvolvimento localizado em Itajaí-SC. Além disso, avisa que está em processo de implantação da ISO 9001, prevista para o segundo semestre de 2024. Em seguida, promoverá melhores práticas na planta, seguindo os conceitos de Environmental, Social and Governance (ESG).

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