Resinas: Clientes apontam aumento de consumo

Mas a instabilidade global segue elevada e afeta os preços

Inúmeras variáveis, a maioria delas ainda sem desdobramentos nítidos, dificultam traçar as perspectivas do mercado brasileiro de resinas para este ano.

Algumas delas, a exemplo da pandemia e dos problemas na logística mundial, têm alcance global; outras, como o impacto das eleições nos investimentos empresariais, apenas cunho local.

Há, é certo, a percepção de um incremento na demanda superior ao do crescimento do PIB nacional, perspectiva não muito alentadora, pois esse PIB deve crescer pouco, na visão de muitos economistas.

No final do ano passado foi possível observar como as expectativas podem se alterar rapidamente.

Afinal, 2021 parecia anunciar uma conjuntura mais promissora que aquela registrada no final do ano, quando os transformadores, relata Marta Loss Drummond, especialista em inteligência de mercado na área de commodities da MaxiQuim, passaram a consumir seus estoques, comprando pouca resina nova.

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Marta Loss Drummond, especialista em inteligência de mercado na área de commodities da MaxiQuim

“2022 também começou difícil, com consumo de resinas ainda fraco”, enfatiza.

Ao longo deste ano, projeta a consultoria global ICIS, a expansão da demanda nacional por PP e PE pode superar, respectivamente, 4% e 3% (no caso do polietileno, PEBDL e PEAD crescendo mais que PEBD).

Nesse mercado das poliolefinas, detalha Mayara Correa, gerente de desenvolvimento de mercado da ICIS, as embalagens de alimentos provavelmente manterão “forte desempenho”, enquanto a indústria automotiva, mesmo afetada por problemas com suprimentos, deverá elevar suas taxas de ocupação, favorecendo o PP e em menor escala o PE.

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Mayara Correa, gerente de desenvolvimento de mercado da ICIS

“A construção deve aumentar a demanda por PE para tubos e cabeamento, e o setor de eletrodomésticos traz otimismo para o PP”, complementa Mayara.

Mais reciclados – Resinas recicladas, projeta Laercio Gonçalves, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast), permanecerão este ano em sua trajetória de expansão, enquanto as resinas virgens serão comercializadas em volume similar ao de 2021, com possibilidade, dependendo da evolução do PIB e do consumo, de uma expansão próxima a 5%.

Crescerão mais, específica Gonçalves, as vendas de PE e PP, podendo elevar-se também a demanda por plásticos de engenharia por parte da indústria automobilística. Já o segmento da saúde, extremamente importante nos dois últimos anos, deve se manter estável; e surgirão, ele crê, mais oportunidades para o PS em descartáveis e em brindes.

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Laercio Gonçalves, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast)

“Devem se ampliar as aplicações que utilizam PCR, especialmente R-PET (PET reciclado).”

“E biopolímeros e biodegradáveis têm condições exponenciais de crescimento em todos os segmentos”, afirma o dirigente da Adirplast.

Secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas do Estado de São Paulo (Siresp), Eduardo Sene Filho também vê possibilidade de recuperação do setor automobilístico e confia na continuidade da expansão das vendas para o setor agro.

“Dependendo da resina e das famílias de produto, em 2022 a demanda pode crescer no Brasil algo entre 3% e 5%”, estima Sene, vinculando esse desempenho aos impactos das eleições no mercado e à expansão das economias brasileira e global.

PET e PVC – Fatores como o clima propício ao consumo de bebidas não-alcoólicas envasadas em PET, como refrigerantes, água e sucos, e eventos como a Copa do Mundo, que também estimulam esse consumo, garantirão bom desempenho para a resina no decorrer deste ano, observa Auri Marçon, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet). “Embalagens PET devem apresentar crescimento próximo de 5% durante o ano”, projeta.

Segundo Marçon, em 2021, imaginava-se estabilidade, ou mesmo alguma queda, na demanda por PET, que no ano anterior se expandira significativos 13,5%. “Mas as estimativas mostram que podemos ter tido um crescimento de 1% a 2%”, diz Marçon.

Ele aposta incisivamente na expansão do reciclado (R-PET), cada dia mais integrado aos portfólios de embalagens das grandes marcas de produtos de consumo.

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Auri Marçon, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet)

“Segmentos como lácteos, perfumaria, cosméticos e produtos de limpeza têm investido bastante no desenvolvimento de embalagens com R-PET”, detalha.

As vendas de PVC podem crescer mesmo com possíveis impactos negativos da alta dos juros na construção civil, destino de cerca de dois terços dessa resina (incluindo fios, cabos e tubulações).

“O PVC vem em uma etapa posterior das obras, e a demanda deve ser impulsionada por projetos lançados em 2021”, pondera Alexandre de Castro, diretor comercial de PVC da Unipar.

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Alexandre de Castro, diretor comercial de PVC da Unipar

“O pequeno varejo de materiais de construção também deve seguir bem, pois as pessoas seguem ficando mais em suas casas e investindo nelas”, acrescenta.

Sistemas de irrigação, lembra Castro, também usam muito PVC e são utilizados por um setor em contínua expansão: o agro. Por sua vez, o uso dessa resina em filmes segue em seu ritmo habitual de evolução, enquanto a indústria calçadista, que havia reduzido suas compras, paulatinamente volta a elevá-las. Resultado:

“Este ano, a demanda por PVC no Brasil cresce de maneira orgânica, voltando a uma trajetória normal, sem explosão, mas também sem nenhuma retração”, avalia o diretor da Unipar.

Mas, em janeiro último, relata Mayara, da ICIS, baixou a demanda por PVC, cujos fornecedores nacionais mantiveram elevados seus preços por mais tempo, apesar de uma tendência de queda nos preços globais da resina a partir de novembro.

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Eduardo Sene Filho, Secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas do Estado de São Paulo (Siresp)

“Esse cenário é propício para queda de preços em fevereiro, e até certo ponto pode despertar interesse de compra. Mas as incertezas em relação à inflação e o impacto contínuo da pandemia criaram um ambiente muito volátil”, pondera.

A demanda, projeta Mayara, pode se recuperar plenamente apenas após o primeiro trimestre, ou mesmo após o meio do ano. “Projetos do governo sempre ajudam a manter ativo o mercado de PVC e, por ser um ano de eleições, pode haver um avanço nos investimentos em infraestrutura”, observa.

“Em menor grau a indústria automotiva também contribui para a demanda, mas ela ainda segue com produção impactada a curto e médio prazos”, complementa.

Poliamidas e estirênicas – Elevou-se no ano passado expressivos 15% a demanda nacional por poliamidas, estima Jane Campos, CEO da Radici na América do Sul.

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Jane Campos, CEO da Radici na América do Sul

“Cresceram todos os mercados: linha branca, eletroeletrônicos, elétrico, alimentos; a exceção foi o setor automobilístico”, detalha. Neste ano, prossegue Jane, “a demanda deve se manter estável, no máximo apresentará pequeno crescimento”.

A Radici, ela ressalta, deverá expandir seus negócios, até porque em 2021, graças um trabalho logístico bem realizado, conseguiu não apenas atender seus clientes tradicionais, mas conquistar outros.

Está até ampliando a capacidade da planta brasileira, onde formula os compostos de poliamidas. “Em 2021, trabalhamos muito perto da capacidade total, isso é um risco”, justifica Jane.

Também no mercado do poliestireno a demanda deve se manter estável, relativamente a 2021, prevê Marcelo Natal, diretor comercial da Unigel. Mais pessoas transitando por bares, restaurantes e eventos incrementarão a demanda por PS para descartáveis.

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Marcelo Natal, diretor comercial da Unigel

“Mas no mercado da refrigeração há alguma incógnita, pois as pessoas talvez voltem a gastar mais em lazer externo”, pondera o profissional da Unigel, referindo-se a um segmento relevante para o consumo de PS, beneficiado no ano passado porque as pessoas, permanecendo mais tempo em suas residências, investiram mais em equipamentos de refrigeração.

Para ele, 2021 foi um “bom ano” para o PS, que no Brasil foi demandado em volumes entre 1,5% a 2% superiores aos de 2019 (ele desconsidera 2020, pelos impactos iniciais da pandemia). Houve investimentos na ampliação da capacidade de transformação de XPS, modalidade de PS usual no delivery de alimentos.

“Ainda este ano teremos na empresa ampliações de capacidades de XPS. Pode, porém, haver capacidade ociosa, até porque se hoje a demanda por XPS é superior à de 2019, ela já é inferior à do primeiro semestre do ano passado; e isso deve se manter em 2022”, observa Natal.

A Ineos Styrolution trabalha com “perspectivas positivas” para todas as resinas que comercializa no Brasil, afirma o diretor Fabio Bordin. E contribuirão para concretizá-las algumas questões específicas da empresa.

Por exemplo, no mercado do ABS, onde motivos de força maior em algumas de suas plantas comprometeram, em 2021, a oferta da Ineos Styrolution.

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Fabio Bordin, diretor da Ineos Styrolution

“Mas agora essa oferta está mais equilibrada e deve se fortalecer ainda mais este ano”, diz Bordin.

No mercado do ASA, as perspectivas são “ainda mais favoráveis”, até porque resinas da Ineos devem ser utilizadas em importantes projetos do setor automobilístico.

“No SAN, muito usado em copos de eletrodomésticos, talvez a demanda fique mais contida no primeiro trimestre, pois muitos clientes importaram grandes volumes no ano passado e seguem com estoques elevados. Mas para o total do ano projetamos bom desempenho também nesse segmento”, acrescenta.

Ainda neste primeiro semestre, diz Bordin, empresas brasileiras devem começar a utilizar o Terluran ECO, resina de ABS cujos grades podem conter 50% ou 70% de reciclado pós-consumo. “Já recebemos respostas positivas de clientes brasileiros do segmento de cosméticos que estão em fase final de aprovação do Terluran ECO”, afirma.

2021 e preços – Comparativamente a 2021, no ano passado a demanda nacional por resinas cresceu algo entre 2,5% e 3%, calcula Marta, da MaxiQuim. “O ano deve fechar no positivo graças ao primeiro semestre”, ela enfatiza.

Os associados da Adirplast distribuíram, no ano passado, 234 mil toneladas de produtos, queda de 46,57% relativamente a 2020. “Tivemos alta da inflação, falta de energia e dólar caro”, explica Gonçalves.

No segmento das poliolefinas, informa a ICIS, houve em 2021 no Brasil crescimento de 6,8% na demanda por PP, 3,5% por PEBDL, 3,4% por PEAD, 3% por PEBD. E não deve, prevê Mayara, haver problemas no abastecimento dessas poliolefinas no decorrer deste ano.

“Principal fonte das importações brasileiras de resinas, os Estados Unidos estão adicionando novas capacidades de PE e PP”, lembra a profissional da ICIS. Ela prevê quedas nos preços dessas resinas em relação aos picos registrados em 2021, vinculadas a fatores como evolução da logística global e preços do petróleo, entre outros.

No caso do PVC, a não ser que surjam imprevistos, “esperam-se quedas acentuadas nos preços do PVC a partir de fevereiro”, especifica Mayara.

Mas José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), relata que uma sondagem mostrou as empresas prevendo a manutenção de preços de resinas em patamares ainda elevados.

“Desde janeiro de 2020 esses preços aumentaram de 95% a 210%”, ressalta.

O desbalanceamento das cadeias produtivas e da logística global têm papel importante nessa elevação de preços, reconhece Roriz.

“A demanda brasileira já está muito próxima da capacidade local de produção e as importações seguem limitadas com alíquota alta do imposto de importação, além de medidas de defesa comercial sobre as principais regiões produtoras de resinas, notadamente PP e PVC”, critica. “Qualquer aumento de demanda pode ocasionar situações de desabastecimento.”

Parecem fortalecer essa afirmação os números do comércio exterior nacional de resinas no ano passado, quando os transformadores tinham dificuldades para obter matéria-prima e ao mesmo tempo conviviam com problemas na logística global, e com uma conjuntura cambial desfavorável às compras no exterior.

Dados levantados pela MaxiQuim mostram que em 2021 a importação de resinas foi 21% superior à de 2020, atingindo 2,4 milhões de toneladas; a exportação caiu 9%, somando 1,3 milhão de toneladas. O déficit de 1,1 milhão de toneladas foi quase o dobro das 580 mil toneladas registradas em 2020 (por sinal, volume cerca de 150% superior às 230 mil toneladas de 2019).

No caso dos transformados, o tradicional déficit da balança comercial pode este ano atingir US$ 2,5 bilhões, prevê Roriz, que se mostra pouco otimista com as perspectivas do setor. “A expectativa é de preços de insumos e resinas mantendo os elevados patamares observados em 2021 e não haverá ambiente para crescimento da produção e das vendas”.

Referindo-se ao poliestireno, Natal, da Unigel, observa que “caso não ceda o câmbio e, conforme preveem as consultorias, ocorra aumento da demanda global no primeiro semestre, a tendência é de estabilidade ou até de aumento de preços”.

A demanda, ele argumenta, pode ser prejudicada pelo desemprego elevado e pelo real desvalorizado. “Mas também pode ser beneficiada pela injeção de recursos por meio do Auxílio Brasil”, pondera Natal.

Jane, da Radici, lembra que, assim como os custos e as margens dos fornecedores, também os preços das resinas podem ser impactados pelos problemas da logística internacional, que “segue muito complicada, exigindo que trabalhemos com estoques maiores, antecipações nos contratos logísticos, absorvendo os custos do risco cambial”.

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