Resíduos industriais: Terceirização de serviços e tecnologia melhoram perspectivas do mercado

Empresas de gerenciamento de resíduos industriais passam a ofertar serviços globais de terceirização, os chamados TWMs, ao mesmo tempo em que aumentam as alternativas tecnológicas de destruição do lixo industrial

Química e Derivados: Resíduos: global.Apesar de ainda bem longe do ideal em gerenciamento de resíduos industriais, alguns movimentos de modernização do mercado brasileiro têm conseguido aplacar um pouco as previsões mais críticas e catastróficas. Se ainda 70% das quase 3 milhões de toneladas anuais de resíduos são dispostos inadequadamente em lixões ou em qualquer lugar, pelo menos em termos de oferta de alternativas corretas para destinar e destruir resíduos, e de empresas especializadas em gerenciamento, o País começa a ficar bem servido. Além da boa disponibilidade de unidades de incineração, co-processamento e de aterros especiais para resíduos classe 1 e 2, crescem os pedidos de licenciamento de novas operações e sistemas de tratamento e nota-se uma evolução nos tipos de serviços disponíveis no mercado.

Uma tendência modernizadora em curso nas principais empresas de gerenciamento de resíduos é a oferta dos serviços de TWM (total waste management) ou, em português claro, gerenciamento global de resíduos.

Experiência muito difundida em países desenvolvidos, trata-se da terceirização completa dos serviços de manuseio, acondicionamento, armazenagem, reciclagem e destinação de toda a gama de resíduos, desde os recicláveis de escritório até os mais perigosos, em unidades industriais ou outros estabelecimentos de porte.

Química e Derivados: Resíduos: Leon - TWM deve incluir seguro ambiental.
Leon – TWM deve incluir seguro ambiental.

Novidade no Brasil, os gerenciadores lentamente começam a fechar contratos importantes de TWM e, de maneira ininterrupta, fazem propostas a todos os tipos de possíveis clientes, nos mais variados setores, entre eles o químico e o petroquímico.

Nessa primeira fase do TWM, as empresas de gerenciamento preparadas são as mais verticalizadas, com estruturas que englobam não só o gerenciamento técnico-comercial, bem como a mão-de-obra de operação e até as tecnologias de destinação, em parcerias, ou mesmo com incineradores, usinas de blendagem de resíduos para co-processamento e aterros próprios. Isso sem falar que, por pertencerem a megagrupos empresariais, também têm condições de financiar obras e oferecer operações do tipo BOT (build, operate and transfer).

Com esse perfil verticalizado, há três grupos impulsionando a tendência do gerenciamento global: Vega, da francesa Suez; Cavo, da empreiteira Camargo Corrêa; e a Resicontrol/Onyx, da também francesa Veolia (que até 30 de maio de 2003 se chamava Vivendi Environnement). Seguindo o movimento, há outras empresas com estratégias de ampliação de oferta de serviços de gerenciamento, como a Tribel, de Belford Roxo-RJ, joint-venture entre a Bayer e a francesa Tredi. Além dos seus serviços tradicionais de incineração e destinação em aterro classe 1, a Tribel passou a operar com co-processamento em fornos de cimento e inicia operações TWM. Há ainda grupos de menor expressão, como a Silcon Ambiental, de São Paulo, que seguem rota semelhante de diversificação. Antes essa empresa atuava apenas com incineração e recentemente anunciou que entrará no mercado de co-processamento.

Filosofia – A filosofia do TWM é a mesma de qualquer serviço de terceirização ou quarteirização (quando um gestor administrativo terceirizado contrata outro prestador de serviço): permitir ao cliente concentrar-se no seu core-business, na produção, deixando as operações marginais de utilidades (água, energia e meio ambiente) nas mãos dos especialistas. As vantagens apontadas também são as mesmas. Em primeiro lugar, o custo com as utilidades tem grande chance de cair, porque as gerenciadoras possuem escala para barganhar compras, fretes e destinações de resíduos, entre outros aspectos considerados. Além disso, em termos tecnológicos, a qualidade do gerenciamento pode melhorar, porque os prestadores de serviços possuem maior rol de contatos e informações ligadas ao meio ambiente industrial.

Química e Derivados: Resíduos: mapa_twm.Não é por acaso que os serviços de terceirização em resíduos, pelo menos nessa primeira fase, sejam ofertados mais por grandes empresas. Além do fato de possuírem estrutura verticalizada, podendo atender quase todas as demandas de tratamento de resíduos, pesa muito a favor delas a garantia de responsabilidade ambiental. Afinal de contas, depois de assinado o contrato, o cliente quer ter certeza de que não correrá o risco de entregar a um terceiro um serviço com séria possibilidade de lhe complicar com a Justiça. “Podemos absorver qualquer risco, incluímos cláusulas que nos obrigam pagar até multas e ainda possuímos seguro ambiental para acidentes provocados em nossas operações para clientes”, explicou o diretor comercial da Resicontrol/Onyx, Leon Tondowski.

Para o diretor, esses detalhes importantes do contrato, que tornam o gerenciador co-responsável pelas operações de TWM, devem ser os principais aspectos levados em conta quando uma indústria resolver optar pela terceirização. Esses cuidados compreendem a escolha certa do tipo de empresa com que se pretende trabalhar. “Não adianta contratar um consultor de gerenciamento, por mais especializado que ele seja, pois ele nunca terá condições estruturais e muito menos financeiras para arcar com um eventual problema”, alertou Tondowski. O alerta do diretor se baseia na constatação de haver um boom no mercado ambiental de oferta de serviços de consultoria e de pequenas empresas de gerenciamento. “Esse negócio é muito arriscado para entregar nas mãos de qualquer um”, conclui.

Rumo ao TWM – A trajetória da Resicontrol/Onyx no Brasil serve como bom exemplo do desenvolvimento dos serviços de TWM. Desde que a unidade de blendagem para resíduos para co-processamento da nacional Resicontrol, de Sorocaba-SP, foi adquirida no final da década de 90 pelos franceses da antiga Vivendi, atual Veolia, a intenção foi criar uma superestrutura para atender todas as necessidades de destino e manipulação. A seguir, houve a compra do Aterro Sasa (ver QD-387, outubro de 2000), de Tremembé-SP, equipado com células para aterro doméstico e industrial (classe 1 e 2), então de propriedade dos americanos da Waste Management International. Na mesma linha de aquisições, a empresa passou a contar com a transportadora Intranscol, especializada em logística interna de resíduos e também em transporte externo.

Química e Derivados: Resíduos: polos_residuos.Além das negociações locais, a empresa ainda conta com outras ramificações anteriores, de empresas pertencentes ao grupo Veolia, e que cooperam com a prestação do serviço TWM. Uma delas é a Veolia Water, com subsidiária atuante no Brasil no fornecimento de sistemas e equipamentos para tratamento de água e efluentes, cujos serviços podem ser úteis para projetos de replanejamento e de obras novas. Há ainda a Dalkia, especializada em energia, infra-estrutura e em serviços de mão-de-obra; também a Tecori, para descontaminação e tratamento de ascarel; e a Proactiva (joint-venture da FCC com a Veolia), proprietária do aterro Formacco, em Florianópolis-SC, que recebe resíduo classe 3, hospitalar e possui depósito temporário de classe 2 e 1.

Apesar do diretor Tondowski afirmar fazer parte dos planos de curto prazo ofertar soluções térmicas diferenciadas para destruição de resíduos, a única tecnologia não disponível dentro do grupo é a de incineração. Mas, para suprir a lacuna, o grupo conta com acordo comercial com a Cetrel, da Bahia, detentora de três incineradores em operação. Essa alternativa visa principalmente a queima de organoclorados e outros resíduos perigosos (ascarel, pesticidas). Por esses fornos não incinerarem resíduos contendo metais pesados, essa demanda é atendida por outro acordo comercial, com a empresa Suzaquim, de Suzano-SP, especializada em recuperação de metais e de solos contaminados.

Química e Derivados: Resíduos: Zucon - ação independente dos ativos de destinação.
Zucon – ação independente dos ativos de destinação.

O portfólio de alternativas fez o negócio de TWM na Resicontrol/Onyx crescer consideravelmente nos últimos anos. Entre os clientes no gerenciamento global de resíduos alinham-se empresas como Alcan, Volkswagen, Petrobrás (Revap e Recap) e Solvay (ver pág.14 ). Em comum, são contratos que ainda não contemplam todas as correntes e necessidades de tratamento e manipulação, mas de boa parte da gestão. Isso porque nessa primeira fase da tendência, segundo Tondowski, os clientes ainda não têm coragem de terceirizar todo o serviço. “É normal as empresas inicialmente se acostumarem com a modalidade, mas aos poucos elas devem liberar todo o gerenciamento”, explica. O sistema mais completo realizado pelo grupo Veolia em TWM é na Usinor, de São Francisco do Sul-SC. Siderúrgica com entrada em operação marcada para ainda este ano, sua central de utilidades foi totalmente terceirizada para o grupo francês, que criou um consórcio denominado CLE (chave em francês) para construir e administrar todas as necessidades de água, meio ambiente e energia da fábrica. Trata-se de investimento de R$ 80 milhões, sob contrato de 15 anos, bancados pela Veolia.

A confiança no TWM ganhou tamanha dimensão na Resicontrol que em breve o grupo transformará o atual departamento da área, sob direção de Leon Tondowski, em uma empresa independente. “Queremos ter autonomia para poder ofertar as melhores alternativas para o cliente”, diz o diretor. Isso significa que a futura empresa pode se tornar mais “livre” para optar por alternativas de destinação ou tratamento que não estejam dentro das empresas do grupo, utilizando-se de aterros ou incineradores de concorrentes. “Já fazemos isso, mas independentes podemos ganhar mobilidade nessas transações”, explica.

Química e Derivados: Resíduos: Bezerra - Vega amplia serviços no setor privado.
Bezerra – Vega amplia serviços no setor privado.

Os TWMs ofertados podem incluir qualquer tipo de serviço. Desde operações complexas como a da Usinor até clientes onde a empresa se encarrega do gerenciamento de todos os aspectos da logística do resíduo, inclusive dos materiais recicláveis, com exceção da contratação e destinação. Esse último caso tem sido muito comum, tendo em vista que os clientes ainda querem ter o controle sobre o destino dos seus resíduos, seja em virtude do custo ou da responsabilidade. Há ainda casos em que o TWM inclui a mudança de destinação proposta pela gerenciadora, visando redução de gastos, e até mesmo a proposta de criação de aterros próprios para os clientes ou a remediação de áreas contaminadas in-situ. Para esta última hipótese, a Veolia conta com a cooperação das empresas francesas do grupo (GRS Valtec/Sarpi) e com esse know-how realiza biorremediação de hidrocarbonetos no solo da refinaria de Capuava-SP (Recap).

Sócios concorrentes – O conceito de um TWM completo começa pela fase de inventário dos resíduos e suas etapas de caracterização, auditorias e documentação legal. Passa ainda pelo acompanhamento de envio, movimentação interna, responsabilidade pela área, cadastramento, segregação e transporte interno e externo, e culmina com a destinação, as estatísticas, projetos de redução e até de implantação de sistemas de gestão e de coleta seletiva. É com essa meta de serviço completo que os três principais fornecedores (Vega, Cavo e Resicontrol) trabalham. E também é dessa forma que as três empresas tentam ampliar os serviços aos clientes já conquistados.

Química e Derivados: Resíduos: Gagliardi - clientes aos poucos aderem ao TWM.
Gagliardi – clientes aos poucos aderem ao TWM.

Há ainda outras semelhanças entre as prestadoras de TWM que transcendem o atual estágio de receptividade dos clientes. Além do fato de a Resicontrol pertencer ao grupo francês Veolia, que concorre direta e mundialmente com a conterrânea Suez, proprietária da Vega, esta última é sócia, em outra empresa, com a Cavo. Trata-se da Essencis, 50% Cavo e 50% Suez, a maior operadora do País de alternativas de destinação de resíduos, proprietária de várias centrais de tratamento (que inclui aterros classe 1, 2 e 3 e unidades de preparação de resíduos), incinerador em Taboão da Serra-SP, empresa de remediação de solos (Ambiterra), de blendagem de resíduos (Ambiência) para co-processamento em vários fornos de cimento e até de uma especializada em coleta seletiva e reciclagem (Koleta Ambiental).

A aparente contradição de grupos concorrentes possuírem sociedade em uma empresa serve como boa explicação sobre a estratégia encontrada pelos competidores de atuar no gerenciamento global de resíduos. Apesar de os grupos buscarem a verticalização de tecnologias e operações, quando atuam no TWM precisam buscar redução de custos para além dos próprios braços empresariais. Isso evita cabotinismo na escolha por destinações. Indicar ao cliente a destruição do resíduo em um aterro ou incinerador do próprio grupo poderia gerar desconfiança. Como empresa independente de TWM, que pode fazer cotações no mercado, tende-se a diminuir o risco. Não é por outro motivo que a Resicontrol também pretende criar uma empresa independente, nos moldes das duas concorrentes.

A análise sobre o modo de operar da Cavo Serviços e Meio Ambiente e da Vega GRI (Gerenciamento de Resíduos Industriais) torna mais fácil o entendimento da estratégia. Ambos os grupos fazem uso do arsenal de alternativas da Essencis, mas não deixam de contratar serviços de terceiros quando consideram mais conveniente ao cliente.

Química e Derivados: Resíduos: caracteristicas_queijo. “Se induzimos os clientes a processar ou destinar os resíduos nas unidades da nossa controlada, eles tendem a achar que queremos lucrar com a destinação, quando na verdade a proposta de gerenciamento deve contemplar também a minimização da geração”, explicou o diretor de operações da Cavo, Afrânio Zucon. Pelo mesmo motivo estratégico, a Vega preferiu atuar separada da Essencis. Segundo o gerente de desenvolvimento da Vega GRI, Reginaldo Bezerra, o único acordo que existe com a Cavo é não participar das mesmas concorrências. “Queremos evitar acusações de concentração do mercado”, diz.

Apesar da afirmação, fica difícil não analisar a movimentação estratégica dos dois grupos como uma espécie de concentração. Sobretudo ao se levar em conta a união dos ativos de destinação reunidos na Essencis, que sem dúvida dão muito mais competitividade aos dois grupos. Só de centrais de tratamento de resíduos (CTRs) são quatro: Curitiba-PR; Caieiras e Itaberaba, em São Paulo; e Catarinense, em Joinville-SC. De unidades de mistura para co-processamento em cimenteiras, são duas: Magé-RJ e Rio Branco do Sul-PR (antiga Ambiência). Isso sem falar do incinerador de Taboão da Serra-SP (ex-Teris), da Ambiterra, e de várias empresas do grupo Suez pelo mundo, que constantemente dão suporte tecnológico às necessidades locais.

Privado paga – Há outros pontos em comum entre os grupos Cavo e Vega. Para começar, ambos originalmente operavam com gerenciamento de lixo urbano, com prestação de serviços de coleta e limpeza e varrição de ruas. A Cavo já prestou o serviço na cidade de São Paulo e Campinas, e atualmente é responsável pela limpeza urbana em vários municípios. Já a Vega é a principal do setor, sendo uma das responsáveis pelo serviço em São Paulo e outras cidades. O outro ponto em comum é os dois grupos procurarem migrar seus negócios cada vez mais para o setor privado. Por um motivo simples: o alto nível de inadimplência das prefeituras.

A Vega tem como meta se aproximar da segmentação de clientes de sua controladora francesa, a Sita, braço de gerenciamento de resíduos da Suez. Com atuação na Europa, a Sita fatura metade da sua receita com o setor privado. No Brasil, de acordo com o gerente Reginaldo Bezerra, a indústria responde ainda por apenas 10%. Mas a meta é dar atenção total à nova estratégia. Com faturamento atual de R$ 6 milhões, a Vega GRI pretende atingir R$ 10 milhões em 2004. “Estamos fazendo propostas a plena carga”, afirmou Bezerra.

Da mesma forma, a Cavo invade a seara privada para fugir um pouco dos calotes públicos. O fenômeno começou em 1999 quando o pico da inadimplência chegou a patamares preocupantes. “Por estratégia, desistimos de várias contas, o que reduziu nosso faturamento em até 30%”, lembra o diretor de operações. Mesmo com a situação melhorando com as responsabilidades impostas às prefeituras pela Lei de Responsabilidade Fiscal, a Cavo preferiu promover mudanças profundas que culminaram com a reestruturação do grupo em 2003. Foi criada então a Cavo Serviços e Meio Ambiente, segmentada em cinco divisões, denominadas GTRs (gestão total de resíduos): GTR Municípios, GTR Serviços de Saúde, GTR Indústrias, GTR Serviços Especiais e GTR Grandes Geradores.

Montadoras começaram – A Vega GRI foi constituída em 2001, originária de uma divisão de clientes privados criada em 1995 para atender o gerenciamento global de resíduos na Mercedes-Benz, de São Bernardo do Campo-SP. Essa divisão também atendia empresas como supermercados e shopping centers, que pela Prefeitura de São Paulo são obrigados a contratar uma empresa gerenciadora de resíduos quando geram mais de 200 litros por dia de lixo. Desde então, a Vega GRI, com 90 funcionários, possui dez clientes industriais privados em TWM. São, nessa primeira fase, principalmente montadoras (GM, PSA Peugeot Citroën, Ford e Volkswagen), siderúrgicas (Cia Vale do Rio Doce e CSN) e outras empresas, como a Flextronics, de Sorocaba-SP, e a Galvasud, de Resende-RJ.

Segundo Reginaldo Bezerra, os pioneiros no TWM foram as montadoras de automóveis. “Eles implantaram a demanda por determinação de suas matrizes, que possuem política de terceirização”, diz. Mas mesmo assim o gerente considera a tendência na fase de amadurecimento até nesse setor. Isso porque nessas fábricas a Vega ainda não é responsável por todas as correntes de resíduos. “Com o tempo, ganhando confiança, a tendência é a terceirização completa”, diz Bezerra. Atualmente a Vega GRI trata, em média, pouco mais de 3.000 t/mês de todos os tipos de resíduos (classe 1, 2, 3 e recicláveis). Só para se ter uma idéia de como as empresas ainda não confiam todos os resíduos a terceiros, apenas a GM gera 2.000 t/mês de rejeitos.

Também na concepção da Cavo, os clientes ainda aprendem a lidar com a possibilidade de terceirização. Segundo seu superintendente de operações, Lucio Gagliardi, além da novidade da oferta essa fase imatura tem outras explicações. Em primeiro lugar, há empresas, mais atrasadas, em que o departamento de meio ambiente ainda fica subordinado ao setor de compras.

Ou seja, são corporações que ainda consideram as questões ambientais de maneira pontual e pulverizada, sem política definida e cuja atuação na área limita-se a aquisições de sistemas e produtos para controle. No oposto, o outro tipo de empresa reticente ao TWM é a que por ter setor de meio ambiente não acha necessário terceirizar a atividade. Apesar dessas dificuldades de convencimento, a Cavo conseguiu fechar cerca de 30 contratos de gerenciamento de resíduos industriais, com validade de 12 a 48 meses e remunerações variadas, ou fixas mensais ou por tonelada de tratamento. Vale destacar contrato com a siderúrgica Cosipa, de Cubatão-SP, onde a Cavo é a maior empresa terceirizada, com cerca de 350 funcionários full-time realizando limpeza predial, industrial (21 áreas compreendendo recebimento de matéria-prima, sinterização e coqueria, auto-forno, aciaria e laminações), urbana (varrição e coleta de ruas, pátios e avenidas) e limpeza dos sistemas de drenagem. Por terem origem, bom ressaltar, em limpeza urbana, tanto o TWM da Cavo como o da Vega pode contemplar serviços de varrição e limpeza comum nas fábricas.

Química e Derivados: Resíduos: Losada - serviços feitos com o cliente.
Losada – serviços feitos com o cliente.

Conta importante da Cavo, não por coincidência, é em uma montadora: a Renault, em São José dos Pinhais-PR. Na unidade fabril, a Cavo gerencia os resíduos industriais com uma equipe fixa de 35 funcionários, onde possui três centrais de armazenagem de resíduos. Nelas, os operadores da Cavo, encarregados pela logística interna, separam, armazenam, enfardam e identificam rejeitos para futuro destino. Mas a Cavo também possui clientes na indústria química e petroquímica.

Na refinaria de Paulínia-SP, a Replan, gerencia os resíduos industriais da parada programada. Na unidade da Dow, no Guarujá-SP, o serviço de gerenciamento englobou análise de caracterização, licenciamento, coleta, transporte, destinação e até o envolvimento da Ambiterra na recuperação e remoção de áreas degradadas. Também é cliente da área a Union Carbide, de Cubatão-SP, incorporada há alguns anos pela Dow. Setor também adepto de TWM é o alimentício: a Cavo possui contrato com unidades da Nestlé (Cordeirópolis, Araras e São Bernardo do Campo, de São Paulo).

Segundo o superintendente Gagliardi, a Cavo procura outras parcerias para complementar suas terceirizações e possibilitar inclusive BOTs com recursos próprios ou captados no mercado. Podem, por exemplo, construir aterros nas propriedades dos clientes para qualquer classificação de resíduos, com o apoio da CNEC Engenharia, do grupo Camargo Corrêa, especializada em energia, meio ambiente e saneamento. Para projetos de reciclagem e reuso de efluentes, e outras investigações ambientais, mantém parceira com a consultoria Zank-Fairbanks.

A estrutura grande e diversificada das empresas de gerenciamento, aliada à mudança de mentalidade dos clientes, criam um futuro promissor para o mercado, com boas taxas de crescimento. A Cavo, desde que voltou seu foco para o setor privado, passou a registrar aumento considerável nas vendas. Sua receita bruta consolidada, das cinco divisões, em 2002, foi de R$ 140,2 milhões, 35% acima sobre o ano anterior (sendo desse total R$ 26,4 milhões da Essencis). Isso reflete o desempenho do mercado nacional como um todo. Segundo estimativas da Vega GRI, esses serviços crescem a um ritmo superior a 20% ao ano. Levando em conta o fôlego dos competidores, e o déficit no tratamento de resíduos industriais, as taxas devem se manter nessas alturas por um bom período.

Química e Derivados: Resíduos: Valaci - custo e estoque norteiam destinação.
Valaci – custo e estoque norteiam destinação.

Solvay terceirizou gerenciamento

Um dos primeiros casos de TWM na indústria química ocorre na unidade da Solvay, de Ribeirão Pires-SP. Desde 1998, a Resicontrol/Onyx, do grupo Veolia, se encarrega do gerenciamento de todas as 122 correntes de resíduos das cinco fábricas da multinacional belga, produtora de soda-cloro, monômero de cloreto de vinila, PVC e polietileno.

No parque fabril incrustado ao pé da Serra do Mar, a Resicontrol possui escritório próprio em uma das casas da histórica

Vila Elclor, onde dez funcionários seus se empenham full-time com o lixo industrial do grupo. Porém, de acordo com o gerente de contas da Resicontrol, Franco Losada, os trabalhos são feitos em conjunto com a divisão de meio ambiente da Solvay, que tem sempre a última palavra nas decisões sobre o gerenciamento.

“É bom lembrar que a Solvay já possuía um gerenciamento global dos resíduos, a única diferença é que a Resicontrol assumiu a parte operacional e fez algumas otimizações”, explicou. Os trabalhos da Resicontrol começam com a identificação e a codificação de todos os resíduos, cujos tambores, preenchidos por operários da Solvay, ganham números para rastreabilidade no local de geração. São criadas então as fichas de acompanhamento de cada tambor. Após isso, e ao se formar um determinado lote, a equipe terceirizada, por meio de operadores da transportadora Intranscol, passa recolhendo os tambores para guardá-los em um armazém especialmente concebido para estoque de resíduos perigosos.

Química e Derivados: Resíduos: O armazém temporário - 3.700 tambores de resíduos.
O armazém temporário – 3.700 tambores de resíduos.

O armazém tem capacidade para 3.700 tambores e ficam mapeados, em uma sala de controle, e com amostras de controle recolhidas. No local, ficam definidas a destinação, sob comum acordo com a Solvay, que pode sofrer alterações de acordo com a disponilidade de verba e estoque para seguir a um aterro, co-processamento, incineração ou reciclagem.

“Esperamos formar uma quantidade rentável e necessária para despachá-los”, explica o assessor de qualidade e meio ambiente da Solvay, Valaci Monteiro da Silva. Outra possibilidade também é o resíduo ficar em quarentena, para estudo prévio de sua melhor destinação.

A Resicontrol recebe um pagamento mensal pelo serviço de gerenciamento e também pelo trabalho de coleta seletiva. Além da operação logística e de armazenagem, a empresa toma conta de toda parte burocrática, desde a preparação de CADRI (certificado de aprovação de destinação de resíduos industriais) até a elaboração de relatórios mensais sobre a quantidade de resíduo gerado e os destinos que eles tiveram. Esses cuidados estatísticos e a dedicação intensiva na manipulação fizeram a Solvay reduzir a geração de resíduos por tonelada de material produzido de 0,80%, em 2000, para 0,57%, em 2002. De lixo comum, referente à coleta seletiva, também houve redução. Em 1997, as fábricas geravam 1.030 toneladas, em 2001, caiu para 338 toneladas.

Destinadores ampliam opções tecnológicas

Química e Derivados: Resíduos: Forno a plasma térmico - Chang (no destaque) precisou levá-lo para Resende.
Forno a plasma térmico – Chang (no destaque) precisou levá-lo para Resende.

O déficit nacional no tratamento de resíduos industriais alimenta não apenas os lixões clandestinos ou inapropriados, mas também os planos de investimento de grupos e empresários interessados em fazer negócio com as aproximadas 3 milhões de toneladas de lixo industrial geradas por ano no Brasil. Além desse número poder ser muito maior (tanto é assim que a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos, a Abetre, se esforça para incentivar a elaboração de um novo inventário nacional), o fato é que qualquer nova unidade de incineração, aterro industrial ou forno de cimento para co-processar resíduos que entre em operação terá a carteira de pedidos rapidamente preenchida. Isso, é claro, se as indústrias forem cada vez mais fiscalizadas e obrigadas a cumprir as leis ambientais.

O panorama de permanente potencial faz as empresas com tecnologia de destinação ficarem sempre pensando em aumentar seus leques de atuação. O fenômeno se dá nas três principais técnicas – o confinamento em aterros, a incineração e o co-processamento. Mas também envolve sistemas novos de tratamento de resíduo industrial.

O melhor exemplo em nova tecnologia fica por conta da breve inauguração do primeiro forno a plasma do Brasil, da empresa Ecochamas, um projeto antigo que finalmente deve sair do papel depois de uma tentativa frustrada em São Paulo (ver QD-387, pág. 16, outubro de 2000).

Química e Derivados: Resíduos: .
Chang Horng Lin

Uma solução para cinzas de incineração e lodos galvânicos, e outros resíduos sem poder calorífico, o forno deveria entrar em operação em São Paulo, onde chegou a ser montado em um galpão na Avenida Presidente Wilson, próximo ao centro da capital paulista. Mas depois de idas e vindas de fiscais do órgão ambiental local, a Cetesb, seu funcionamento foi desaconselhado. “De início, tivemos apoio da Cetesb, do Sebrae e de toda a indústria, principalmente a galvânica, mas com as dificuldades criadas pela fiscalização, resolvemos procurar outro lugar”, afirmou um dos proprietários do forno, Chang Horng Lin.

Por dificuldades entenda-se que a Cetesb passou a considerar o lugar escolhido pela empresa como de alta densidade populacional, em suma, uma região urbana. O órgão ambiental entendia que o trânsito de resíduos perigosos naquela região seria arriscado.

Com o impedimento paulista, a Ecochamas encontrou como parceiro na empreitada a multinacional Clariant, que cedeu estrutura e espaço para a empresa instalar o forno na sua unidade em Resende-RJ. “A Clariant se interessou muito pelo projeto porque, além de ser tecnologia brasileira, pode solucionar um problema seu: a geração de cinzas de incineração”, explicou Lin. A Clariant, não custa lembrar, é proprietária do incinerador mais antigo do Brasil (de 1987), em Suzano-SP, no qual destrói cerca de 7,5 toneladas de resíduos diariamente, gerando 10% desse volume em cinzas, que até o momento são enviados para o aterro classe 1 da empresa em Resende.

Química e Derivados: Resíduos: Plasma transforma resíduo em pedras inertes.
Plasma transforma resíduo em pedras inertes.

De acordo com o diretor da Ecochamas, o forno está pronto para a partida. Mas só pode começar a receber os resíduos quando sair a licença de instalação e operação do órgão ambiental carioca (Feema), entre junho e julho deste ano. Sua capacidade é para 1 t por hora, cerca de 400 t/mês. O preço para a destruição será em média de R$ 1.500 por tonelada, um pouco mais barato que a incineração (de R$ 1.700 a R$ 2.000). A razão para o preço relativamente alto está no consumo intensivo de energia elétrica, por volta de 500 kWh. Mas, para Chang, isso não será um impeditivo para o sucesso da empreitada, tendo em vista as peculiaridades do forno.

Em primeiro lugar, a tecnologia de plasma, já muito utilizada em reações de laboratório e industrial, não é uma simples queima, mas sim uma transformação física e química dos resíduos. Podendo atingir temperaturas de até 3.000ºC no interior do forno e de 15.000ºC na chama do reator (onde o gás argônio ionizado e dissociado em temperaturas elevadas passa por arco elétrico), o contato dos resíduos nesse ambiente os transforma em matrizes reaproveitáveis e inertes.

As moléculas orgânicas são quebradas, transformadas em matrizes cerâmicas semelhantes a rochas vulcânicas, e os metais pesados absorvidos na chamada matriz férrea. São espécies de pedras, onde os elementos químicos passam por um chamado rearranjo cristalino que os tornam inertes ao meio ambiente. A parte cerâmica (sílica, alumina e óxidos cerâmicos), vendida por preço simbólico, será utilizada por uma empresa de Guarulhos-SP para substituir pedra britada em enchimento para construção e pavimentação. A matriz férrea, em forma de lingotes de ferro e outros metais, vai ser comercializada para uso em metalurgia.

Química e Derivados: Resíduos: grafico_residuos1.Além de terem passado por testes de solubilização e lixiviação para provar a característica inerte, nessas aplicações como cerâmica as matrizes possuem até vantagens se comparadas com a pedra britada. Isso porque o resíduo de galvanoplastias, o principal a ser tratado no plasma, é rico em cálcio, aumentando a resistência mecânica da matriz. Também a cinza de incineração, em sua fase cerâmica é rica em sílica. Para alimentar o forno com esses resíduos, aliás, o diretor da Ecochamas estima em uma demanda superior a 1.000 t/mês de cinzas secas de incineração e de 2.000 a 3.000 t/mês de lodos de cerca de 600 galvanoplastias, situadas principalmente na região de Campinas-SP e Limeira-SP.

Química e Derivados: Resíduos: Yushiro - todas cimenteiras querem co-processar.
Yushiro – todas cimenteiras querem co-processar.

Embora Chang Horng Lin prefira não revelar o montante investido, estima-se no mercado que um projeto dessa envergadura seja da ordem de US$ 3 milhões. Para a instalação, a Clariant ofereceu suporte tecnológico e de montagem. Faz parte da unidade um sistema de lavagem de gases para particulados e uma estação de tratamento de efluentes. Foi necessário também construir um sistema de pré-tratamento, com filtro-prensa, para remover impurezas (plásticos, metais e madeiras) do lodo e de um forno secador para abaixar a umidade. Na questão de emissão de gases, aliás, uma vantagem do sistema é a baixa probabilidade de formação de dioxinas. Esse poluente só é formado na fase de oscilação de temperatura que atinge a média de 900ºC. “No plasma, o tratamento abaixa rapidamente a temperatura de 1.300ºC para 80ºC, não dando tempo para formar a dioxina”, explica Lin. Vale acrescentar que a temperatura operacional do forno da Ecochamas é de 1.600ºC a 1.800ºC.

Co-processamento em alta – Enquanto a tecnologia de plasma não cumpre a promessa de ser o processo térmico do futuro para destruição de resíduos industriais, as outras formas de tratamento ganham espaço. A mais promissora é o co-processamento em fornos de cimento, tecnologia que aproveita resíduos com poder calorífico para substituir combustível na produção do clínquer ou rejeitos que contenham matérias-primas do cimento (cálcio, alumínio, silício e ferro) para ser incorporados na formulação. Trata-se de solução definitiva para resíduos perigosos, sem geração de cinzas, que ficam incorporadas na massa do clínquer, que chega a temperaturas operacionais de 1.500ºC.

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Química e Derivados: Resíduos: Norio - Cetesb apóia processos térmicos.
Norio – Cetesb apóia processos térmicos.

Há no Brasil 18 fábricas de cimento licenciadas para o co-processamento (ver tabela pág.24 ) e mais cinco em processo de licenciamento. E a tendência, segundo afirmou o líder de tecnologia da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), Yushiro Kihara, é esse número crescer cada vez mais, atingindo quase a totalidade das 51 fábricas produtoras de clínquer de cimento. Os motivos começam pela possibilidade de substituir o combustível (óleo, coque, carvão) por um produto, no caso o resíduo, que ainda pode render uma renda extra, no caso de R$ 150 a R$ 700 por tonelada co-processada. A média de substituição de combustível nos fornos é de 5% a 30%. Levando em conta que a energia (térmica e elétrica) na produção de cimento chega a 30% do custo total, os ganhos são evidentes.

O interesse pelo co-processamento fez as indústrias cimenteiras do País, segundo dados da ABCP, destruírem de 1991 a 2000 cerca de 700 mil toneladas de resíduos perigosos, principalmente borras oleosas, mas também borras de tintas, pneus, solventes, serragem de madeiras, solos contaminados e resíduos orgânicos. Em 2002, estima-se uma queima de 300 mil t. É um volume considerável, mas ao se considerar as estatísticas de outros países nota-se que ainda há muito a crescer. Na Europa (principalmente Reino Unido, Bélgica, França e Áustria), os fornos de cimento co-processam cerca de 2 milhões de t anuais de resíduos (600 mil t de resíduos líquidos combustíveis, 450 mil t de pneus, 200 mil t de papel, 250 mil de plásticos e o restante de outros lixos). Mas o exemplo mais impressionante é o do Japão. Lá a média é de 25 milhões de toneladas por ano, sendo os principais resíduos co-processados a escória metalúrgica (14 milhões), o lodo de esgoto (1,7 milhão) e óleos (2,2 milhões de t).

Num primeiro instante, o aspecto mais impeditivo para convencer uma cimenteira a adotar o co-processamento é o alto investimento. Por ser obrigada pelos órgãos ambientais a ter controle de emissões e assim cumprir a resolução Conama 264, que dispõe sobre tratamento térmico de resíduos, as indústrias precisam investir em equipamentos caros. Em média, o aporte precisa ser de US$ 5 milhões a US$ 10 milhões. O sistema mais caro é o precipitador eletrostático (cerca de US$ 4 milhões), que retém particulados com eficiência de 99,99% de eficiência, mas ainda há necessidade de modificações no queimador, no sistema de injeção, em silos de estocagem, de monitoramento contínuo e em equipamentos de informatização e intertravamento automático de dosagem de resíduos (caso a alimentação possa ocasionar emissões além do permitido, queda brusca de tensão, etc). “Além desses custos, o outro ponto encarecedor é a elaboração do EIA-Rima”, explicou o assessor técnico da ABCP, Vagner Maringolo.

Química e Derivados: Resíduos: Incinerador da Clariant - o primeiro do Brasil.
Incinerador da Clariant – o primeiro do Brasil.

Atendendo a norma, depois de fazer o investimento, o processo de licenciamento leva, pelo menos em São Paulo, de um ano e meio a dois anos. Isso depende do Estado, pois uns são mais exigentes que outros. O Estado paulista, onde apenas dois fornos estão licenciados, é considerado o mais rigoroso. Talvez por ter sido o pioneiro em criar procedimentos de licenciamento, com a criação de documento normativo, há seis anos, que serviu de base para a resolução Conama. “Em primeiro lugar, a empresa precisa passar por um teste em branco, sem resíduos, para provar que não emite particulados acima do permitido (70 mg/Nm³)”, afirmou Milton Norio, assistente executivo da diretoria de controle de poluição ambiental da Cetesb. Se passar nesse teste, então a empresa passa pelos procedimentos de documentação para licenciamento (RAP, EIA-Rima).

Ser rigorosa para a aprovação e o licenciamento, porém, não significa que a Cetesb tem alguma restrição ao co-processamento. Pelo contrário, segundo explica Milton Norio. Segundo ele, o órgão ambiental chega a considerar esse tratamento térmico como uma das melhores saídas para o grande problema dos resíduos sólidos. “É bom para todo mundo, tanto para a sociedade, que se livra do lixo perigoso de maneira segura, como para as cimenteiras, que reduzem o custo de produção”, diz. Aliás, para Norio, as soluções térmicas devem ser consideradas com mais atenção para resolver também o problema do lixo urbano.

Química e Derivados: Resíduos: Romão - cuidados na escolha do destino.
Romão – cuidados na escolha do destino.

“Nós não temos mais espaço para aterros e a reciclagem sempre vai ser parcial. É impossível dar um fim a esse círculo vicioso da geração do lixo sem pensar em alternativas de incineração”, completa. Não é por acaso que a Sabesp estuda, junto com a ABCP, a possibilidade de co-processar as montanhas de lodo de esgoto doméstico produzidas por suas estações de tratamento e que, recentemente, a estatal tenha assinado compromisso com o grupo Votorantim para estudar a possibilidade de usar o lodo em seus fornos.

Incineração – Em condições normais, o co-processamento não chega a concorrer com a incineração em fornos rotativos. Seus mercados são distintos: o primeiro se concentra nos resíduos com poder calorífico, oleosos, enquanto o segundo deve ser voltado para substâncias com toxidez de mais risco, como organoclorados, agrotóxicos e solventes.

Mas há observações no mercado que atentam para uma confusão entre as duas tecnologias, sobretudo por causa da ascensão do co-processamento, de uma hora para outra considerada uma panacéia.

Compartilha dessa opinião Paulo Romão, gerente de energias da Clariant, dona do primeiro incinerador do Brasil, em Suzano-SP, que destrói 7,5 toneladas por dia de resíduos. “Não deveríamos ser concorrentes, mas estamos sentindo uma certa migração de alguns resíduos para os fornos de cimento”, alertou.

Casos exemplares são panos contaminados, que deveriam ser fragmentados para o co-processamento, resíduos com alta umidade, que diminuem a energia do forno, e organoclorados, com risco de gerar outros gases perigosos. “Um forno de cimento tem 80 metros de comprimento, contra 7 metros do incinerador; só pela sua dimensão já dá para perceber que os cuidados têm que ser maiores”, completou o gerente de infra-estrutura da Clariant, Daniel Sindicic. “O volume de gás é 100 vezes maior do que o incinerador”, diz.

Química e Derivados: Resíduos: Sindicic - controle atmosférico no forno de cimento é maior.
Sindicic – controle atmosférico no forno de cimento é maior.

Resíduos ricos em cloro, embora sejam aceitos para o co-processamento com algumas limitações (temperatura do forno deve estar a 1.200ºC e tempo de retenção de 9 segundos), devem ser vistos com cautela pelas cimenteiras.

De acordo com Vagner Maringolo, da ABCP, eles podem provocar corrosão e entupimento nos metais dos fornos e, pior, gerar dioxinas e furanos nas emissões.
Esse risco o incinerador não corre, pois possui um sistema de resfriamento brusco de temperatura pós-lavagem de gases (quencher), que impossibilita a formação do poluente.

Mesmo com a possível perda de clientes, os incineradores no Brasil (ver QD-384, pág. 36, julho de 2000) estão operando com estoque de queima considerada normal, para um mês em média. Mas o preço atualmente cobrado, cerca de R$ 2 por quilo, não foi suficiente para embutir o aumento dos custos operacionais dos últimos anos, em energia, gás, água e produtos importantes, como soda, para neutralização de gases e tratamento de efluentes.

Química e Derivados: Resíduos: Sphor - Tribel ampliou serviços para além da queima de seu incinerador (ao fundo).
Sphor – Tribel ampliou serviços para além da queima de seu incinerador (ao fundo).

De acordo com Miguel Spohr, presidente da Tribel, responsável pela operação do incinerador da unidade da Bayer, em Belford Roxo-RJ, houve um aumento médio de 35%. “A solução foi diminuir nossa margem operacional”, diz.

Diversificar é preciso – A outra solução encontrada pela Tribel foi ampliar o leque de opções de tratamento para além do incinerador com capacidade para 8 mil t/ano (forno estático e rotativo) e do aterro classe 1, que opera para receber cinzas de incineração (2 mil t/ano) e outros inorgânicos, situado em terreno ao lado dos fornos. Desde que passou a ser uma joint-venture 50/50 entre Bayer e a francesa Tredi (especializada em gerenciamento de resíduos), a Tribel vem recebendo investimentos (US$ 2 milhões, em 2002, e US$ 1 milhão, em 2003) para se tornar gerenciadora completa. Uma de suas estratégias foi começar a também preparar/misturar resíduos para co-processamento em fornos da cimenteira Lafarge, em Cantagalo-RJ. “Já fazíamos blendagem prévia, em pequena escala, para homogeneizar resíduos para incineração”, lembrou Spohr. Em galpões próximos ao aterro, a Tribel, agora em escala maior, tritura e prepara a granulometria, umidade, a estabilização, o poder calorífico, e analisa os elementos químicos de resíduos do Brasil inteiro para destruição em Cantagalo.

“Os clientes querem algo a mais do que apenas tratar”, diz o presidente da Tribel. Ao perceber isso, começaram a ofertar serviços de turn-key de gerenciamento, que incluem transporte, manipulação, embalagem, licenciamento, tratamento até a entrega do certificado de destinação do resíduo. Mas, depois de algum tempo, a Tribel percebeu que apenas o turn-key não era suficiente. A saída foi partir para o gerenciamento global, o famoso TWM. “Existem vários outros resíduos, afora os perigosos, como varrimento e de escritório, que muitas vezes as empresas não sabem como gerenciar melhor”, afirmou. Daí a empresa partiu para a terceirização e a co-responsabilidade, possuindo hoje dez contratos de TWM.

Química e Derivados: Resíduos: piramide..

Química e Derivados: Resíduos: Duas células do aterro em Belford Roxo criaram morro (acima) e a terceira está para ser fechada.
Duas células do aterro em Belford Roxo criaram morro (acima) e a terceira está para ser fechada.

Hoje a Tribel emprega 66 funcionários e fatura R$ 17 milhões por ano. Com os investimentos em curso, a empresa pretende inaugurar neste ano prédio próprio na área próxima do incinerador. Outra meta para 2003 é abrir a quarta célula de seu aterro industrial classe 1. Com área total licenciada de 220 mil metros quadrados, duas células encerradas (com 26 mil metros quadrados e 700 mil t de resíduos) e uma terceira célula aberta quase cheia (10 mil m²), o aterro tem sobrevida de mais um século.

Por ser apenas de resíduo inorgânico (um terço de cinzas de incineração), sem possibilidade de lixiviação e chorume, e confinado com argila compactada e mantas de polietileno, a área do aterro tem a aparência de um morro arborizado com mata atlântica bastante aprazível. Sua boa aparência, mesmo escondendo lixo industrial, contrasta com uma favela vizinha, cujo esgoto sem tratamento é despejado no Rio Sarapuí.

Química e Derivados: Resíduos: Del Bel - aterros estão com dias contados.
Del Bel – aterros estão com dias contados.

Fantasma – É consenso no meio técnico ambiental que a opção por disposição em aterros deve ser a última. A razão é óbvia. Mesmo confinado em área previamente escolhida por suas características geofísicas, o resíduo sempre vai estar ali, como um fantasma que um dia pode ressurgir das trevas. Não por acaso, a Europa, segundo explicou o diretor-executivo da Abetre, Diógenes Del Bel, tem metas de proibir novos aterros a partir de 2005. “Eles sabem que o aterramento de lixo é uma atividade finita”, afirmou.

Mas enquanto não há processos térmicos ou de reciclagem suficientes para destruir todos os resíduos, inclusive as cinzas dos incineradores, os aterros devem continuar a existir por um tempo. Prova são os investimentos na área.

Segundo o seu diretor de operações, Luiz Gomes, a intenção é formar bases regionais de operação. A Região Sul já está bem atendida com duas CTRs (Joinville e Curitiba) e São Paulo possui duas centrais (Caieiras e Itaberaba). Falta ampliar um pouco o raio de atuação. “No Rio, por exemplo, apesar de ter unidade de blendagem para co-processamento em Magé, há necessidade de se criar um aterro classe 1”, afirmou o diretor.

Nessas bases operacionais, de acordo com Gomes, todos os resíduos daquela região devem passar para ser analisado em laboratório, sofrer uma preparação prévia e ficar armazenado com segurança até ser designado seu destino, seja ele o incinerador de Taboão da Serra-SP, os fornos de cimento ou, em última hipótese ou conforme o desejo do cliente, a disposição no aterro da própria CTR.

Química e Derivados: Resíduos: Gomes - à procura de áreas para aterros.
Gomes – à procura de áreas para aterros.

Os pré-tratamentos anteriores à disposição em aterro podem incluir adição de cimento ou argila, cal ou sulfato de sódio em misturadores. Para ser estabilizado, corrige-se o pH, para minimizar o potencial contaminante. Podem também ser solidificados, com cimento, e remover umidade para retirada de líquidos livres. E ainda há a possibilidade de microencapsulamento, para fixar metais dentro da massa do cimento e dificultar a lixiviação. As CTRs também servem como unidades de blendagem para o co-processamento.

Além dessa forma moderna de aterro, que passou a ser uma central de tratamento, outro fato que ajuda a melhorar a imagem dessa tecnologia de destinação é a possibilidade de reaproveitamento do biogás gerado por lixo orgânico. Como vários desses aterros industriais também possuem células para resíduos domésticos, a canalização do gás metano gerado pela decomposição orgânica pode se tornar uma forma inteligente de gerenciar o aterro. Foi o ocorrido no Aterro Sasa, do grupo Veolia, de Tremembé-SP, que possui aterro para classe 1, 2 e 3. Desde 2001, o aterro passou a utilizar o biogás canalizado, que antes era queimado em flaire, para alimentar um evaporador de chorume que evita o tratamento desse tipo de efluente.

Química e Derivados: Resíduos: Palma - biogás gerou créditos de carbono.
Palma – biogás gerou créditos de carbono.

Mas o melhor da iniciativa ainda estava por vir. Em 2003, o aterro Sasa entrou em concorrência do governo holandês para venda de crédito de carbono, mecanismo de compensação do Protocolo de Kyoto que permite às nações desenvolvidas comprar de países em desenvolvimento as chamadas CERs (toneladas de CO2 equivalente) e assim reduzir suas metas de emissão de gases do efeito estufa.

Como deixa de emitir metano com a tecnologia, o Sasa, e também a Usina Catanduva que faz co-geração com bagaço de cana, venceram a concorrência que lhes permitirá lucrar de 2 a 6 euros por CER. O aterro permitirá a compensação ao governo holandês de cerca de 700 mil toneladas de gás carbônico em dez anos. De acordo com o diretor do Sasa, Breno Palma, com o dinheiro será possível investir em um sistema para gerar energia interna com o biogás excedente do evaporador, que hoje é reaproveitado em cerca de 50%.

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