Resíduos – Destruição de passivos e entrada de informais sustentam crescimento

Na esteira das medidas oficiais, as iniciativas privadas, de investidores atentos ao potencial de mercado, podem complementar o combate ao problema. Nesse caso, é um bom exemplo o projeto liderado por uma pequena distribuidora de produtos químicos sediada em São Roque-SP, a Santalc, que criou recentemente uma divisão chamada Faex Serviços em Tecnologia Ambiental, cujo propósito é dar uma solução interessante para pequenos geradores de resíduos.

A idéia central foi criar um galpão de 633 metros quadrados em São Roque, o qual foi todo impermeabilizado e projetado com canaletas e caixas coletoras, para evitar danos de vazamento, e assim armazenar temporariamente tambores com resíduos de pequenos geradores. A partir daí, sob a coordenação de um profissional especializado, quando o estoque chega a um determinado limite (80 a 100 tambores de 200 litros cada) torna-se viável economicamente a sua destinação. Desde setembro, o local está com licença de operação emitida pela Cetesb e em fase inicial de trabalhos.

De acordo com o coordenador da Faex e mentor do projeto, Flávio Bragante, o foco é trabalhar com o co-processamento em fornos de cimento. Para isso, a empresa se encontra em fase de requisição de um Cadri para poder enviar resíduos para uma unidade de blendagem de resíduos da Silcon Ambiental em Juquiá-SP (que normalmente destina as blendas para fornos da Votorantim em Rio Branco do Sul-PR). A meta do coordenador é até o final do primeiro semestre de 2009 enviar duas cargas por mês de resíduos para a blendagem.

Química e Derivados, Flávio Bragante, coordenador da Faex e mentor do projeto, Resíduos - Destruição de passivos e entrada de informais sustentam crescimento
Flávio Bragante: solução para os pequenos geradores

Segundo Bragante, químico industrial com especialização em gestão ambiental, a escolha pelo co-processamento foi motivada pelo aspecto tecnológico e também por seu preço, considerado razoável. “No custo-benefício ambiental, é a melhor solução. O passivo desaparece, por ser agregado ao clínquer, e substitui o combustível não-renovável, promovendo o reaproveitamento do resíduo”, explicou. O plano é cobrar dos geradores por tambor estocado, transportado e destinado, embutindo no preço todos esses custos. Caso o cliente prefira, a Faex poderá também fazer a gestão total, responsabilizando-se pela emissão do Cadri, a caracterização, a retirada do resíduo e, por fi m, o armazenamento e a destinação final.

Sem opções – Mas o envolvimento da Faex com o co-processamento também explica a própria criação do negócio. Isso porque antes de se tornar sócio dos proprietários da Santalc e assim fundar a divisão de resíduos, Bragante trabalhava para uma importante operadora de coprocessamento, a Resotec, empresa do grupo cimenteiro Holcim. Há cerca de dois anos, procurado pelos atuais sócios para criar uma solução aos cerca de dois tambores de resíduos gerados pela Santalc por mês, Bragante foi obrigado a confessar que a Resotec apenas trabalhava com cargas acima de 50 tambores. “Assim como qualquer outro gestor do mercado”, explicou.

Daí para a sugestão de criar o negócio foi um pulo que agora se concretiza com a intenção de trabalhar com um mercado considerado a descoberto pelo executivo. “Ou os pequenos geradores estocam os resíduos em suas fábricas, que na maioria das vezes é impossível por falta de espaço e perigoso por falta de cuidados técnicos, ou eles recorrem a saídas clandestinas”, disse Bragante. Infelizmente, na sua opinião, a última alternativa é a mais escolhida.

Mesmo na hipótese de o pequeno gerador ter as condições necessárias para armazenar os resíduos até criar um lote viável para ser destinado, o fato de ele precisar esperar muito tempo na fábrica pode colocar a operação em risco. “Eu já vi cliente com resíduos há mais de dez anos estocados, por falta de opção de uma destinação correta”, afirmou. Apesar de tratar-se de uma exceção (a maioria não tem a mesma paciência), o zelo dessa indústria em armazenar seu lixo internamente lhe custou caro: ao resolver remover a carga da área de armazenagem para um caminhão e assim finalmente destiná-lo, os tambores começaram a vazar. “Isso porque os gases gerados durante o longo período de armazenagem criaram uma pressão interna dentro dos tambores”, completou Bragante.

A licença a título precário da Faex permite que a empresa opere com os mais variados tipos de resíduos, desde solventes contaminados, borras de tintas, lodos de ETES e galvânicos, até embalagens, solos, óleos e EPIs contaminados. Com capacidade para armazenar até quatro mil tambores, na percepção de Flávio Bragante, a empresa deve receber não só resíduos de pequenas empresas, mas também de grandes indústrias geradoras de pouco lixo perigoso, como a eletroeletrônica, a automobilística e a de autopeças. “Os clientes devem ser empresas que geram no máximo cinco tambores por mês”, revelou. Para ser viável a destinação, a operação envolverá resíduos classe 1. “Mas há empresas que por determinação da matriz também querem destruir alguns classe 2.” Bom acrescentar que todos os tambores serão segregados e terão rastreabilidade por lotes.

Química e Derivados, central da Faex, Resíduos - Destruição de passivos e entrada de informais sustentam crescimento
A central Faex armazenará resíduos para posterior co-processamento

Solos nos fornos – Iniciativas como a da Faex/Santalc são um item a mais para a criação de um cenário inteiramente favorável para os grandes gestores de resíduos industriais. Apesar de os lotes pequenos muitas vezes não serem interessantes para a operação, a formação de intermediários deve aumentar a ocupação das tecnologias de destinação, sobretudo a de co-processamento em fornos de cimento, uma das soluções de maior crescimento no Brasil. Mercado com nove unidades de blendagem e 32 cimenteiras licenciadas, a perspectiva é a marca atual de cerca de 800 mil toneladas de resíduos co-processados anualmente chegar cada vez mais próxima da capacidade total de 2,5 milhões de t/ano desses fornos que recebem resíduos com poder calorífico para substituir combustíveis como o óleo de coque.

Química e Derivados, Resíduos - Destruição de passivos e entrada de informais sustentam crescimento
Receita do setor privado de tratamento de resíduos chegou a R$ 1,6 bilhão

Mas para colaborar com esse crescimento não basta a entrada de lotes vindos de pequenos. Outras tendências recentes cooperam com a evolução dos negócios na área do co-processamento. Uma em evidência é a que envolve a eliminação de solos contaminados. Uma das maiores do ramo, a Resotec, do grupo Holcim, que co-processa atualmente de 150 mil a 200 mil toneladas (2008) de resíduos em fornos em Barroso e Pedro Leopoldo em Minas Gerais e em Cantagalo-RJ, investe para preparar e usar nos fornos mais quantidades desse tipo de resíduo.

De acordo com o gerente-geral da Resotec, Edmundo Ramos, nas unidades de Barroso e Cantagalo foram criadas áreas para homogeneização dos solos contaminados com borras oleosas e outros materiais, onde são realizados o balanço químico com agregações de argila e calcário e moagem em moinhos de terra. Além disso, um sistema de exaustão remove gases contaminados e os desviam para queima no forno. Segundo Ramos, o investimento visa a acelerar a alimentação do forno com o solo, dando mais agilidade para clientes que estão querendo eliminação rápida de seus passivos. “A preparação permite ao forno operar sem sobressaltos técnicos que retardam sua operação”, disse.

Química e Derivados, Edmundo Ramos, gerente-geral da Resotec, Resíduos - Destruição de passivos e entrada de informais sustentam crescimento
Edmundo Ramos: demanda para destruir solos contaminados explodiu

Para o gerente-geral, a necessidade dos investimentos veio para atender a uma verdadeira explosão da demanda na área de passivos ambientais.Na sua opinião, isso ocorreu porque várias grandes empresas, motivadas pelo boom econômico dos últimos anos, precisaram expandir a capacidade produtiva. Para conseguir espaço dentro de seus sítios, resolveram então recuperar áreas contaminadas para fazer as ampliações. “Como a necessidade era imediata, deram preferência a fazer grandes remoções de solos contaminados, em vez de investir em remediações demoradas”, explicou. No mesmo sentido, os órgãos ambientais passaram a condicionar os novos licenciamentos para expansão a essas recuperações. “Os fi scalizadores usaram essa ferramenta como moeda de troca”, completou Ramos.

Não por menos, as estatísticas da Abetre demonstraram o crescimento da destinação de passivos ambientais em seu último levantamento conjuntural. Se em 2006 esse item representava 16% do total dos resíduos industriais tratados, ou 691 mil toneladas, em 2007 o índice pulou para 25% do total, ou quase 1,5 milhão de toneladas, sendo que boa parte disso para soluções térmicas, além do co-processamento a dessorção térmica (realizada in-situ) e a incineração.

No caso da Resotec, vale a pena lembrar que a empresa co-processou recentemente solos contaminados com borras oleosas vindas do tristemente famoso aterro Mantovani, de Santo Antônio de Posse-SP, antigo lixão industrial onde 330 mil toneladas de resíduos de várias empresas contaminaram o solo e a água da região do aterro, cujo processo de remediação é feito pela empresa Geoklock. A operação foi realizada nos fornos da empresa em Minas e no Rio de Janeiro e envolveu cerca de 15 mil toneladas de solos contaminados.

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