Repelente de Insetos: alternativa na proteção da dengue

Alternativa primordial na proteção da dengue e outras arboviroses. ABC

Considerando a relevância do tema e os impactos na saúde humana, a proteção individual por meio do uso de repelentes de inseto está relacionada à prevenção de doenças transmitidas pelos mosquitos.

O Aedes (Stegomyia) aegypti (Linnaeus, 1762) é o principal vetor de arboviroses, que são doenças infecciosas virais transmitidas por artrópodes como mosquitos, carrapatos e flebotomíneos (SANTOS, AUGUSTO, 2011). Ele pode transmitir mais de 50 diferentes patógenos, sendo as principais doenças a Dengue, Chikungunya, Zika vírus e febre amarela urbana. Além dele há outros mosquitos de importância de saúde pública, como os gêneros Anopheles, transmissor da malária e Culex, da filariose.

Segundo Lozovei & Marcondes (2001), Ae. aegypti apresenta grande capacidade de adaptação a criadouros artificiais, o que possibilita o aumento de sua população e, por conseguinte, o aparecimento de epidemias devido ao seu hábito antropofílico, isto é, ele vive próximo ao homem.

Sua disseminação em áreas urbanas é muito grande, visto que uma grande parte da população vive em locais precários, sem saneamento básico, com resíduos nas ruas e dentro das casas que servem como criadouros, como potes, copos descartáveis, vasos de plantas entre outros. Esse vetor está se adaptando e se fortalecendo biologicamente, visto que o ovo pode sobreviver por um grande período em um local seco, sem que seja afetado (DE LIMA, 2021). Dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) citam que doenças transmitidas por mosquitos são responsáveis por 700 mil mortes por ano. Estima-se que cerca de 96 milhões de pessoas correm o risco de contrair dengue no Brasil (BRASIL, 2023).

O aumento de casos de dengue

Relatos demostram que os casos de dengue aumentaram de 500 mil em 2000 para 5,2 milhões em 2019. No caso da Chikungunya, até o fim de março de 2023, foram registrados 135 mil casos nas Américas, em comparação com 52 mil no mesmo período do ano anterior (BRASIL, 2024).

Medidas preventivas, como usar roupas para minimizar a exposição da pele e repelentes, são recomendadas para evitar picadas de mosquitos (WHO, 2016).

De acordo com a Agência de Vigilância Sanitária – Anvisa, os produtos de ação repelente são enquadrados em duas categorias: cosméticos para uso nas áreas expostas da pele e saneantes para o uso no ambiente. Neste artigo, abordaremos os repelentes para aplicação sobre a pele humana, normatizados de acordo com a Resolução da Diretiva Colegiada – RDC 19/2013 (BRASIL, 2013).

O mecanismo de atuação dos repelentes de insetos

Os primeiros repelentes de insetos tiveram como fonte de pesquisa, algumas plantas produtoras de óleos essenciais de característica olfativa. As plantas aromáticas contêm diferentes estruturas moleculares no reino vegetal, resultando em efeitos sinérgicos para uso de produtos de ação repelente, devido à alta evaporação de óleos essenciais para proteção das plantas. Deste modo, inspirada na natureza, surgiu a demanda aos pesquisadores na busca de novas soluções com proteção mais eficaz e mais prolongada, considerando que os repelentes atuam formando uma camada de vapor com odor repulsivo aos insetos sobre a pele.

O mercado

Relativo à segmentação de mercado, os repelentes se apresentam nas diferentes formas físicas. Desde Spray, Aerossol, Cremes e Loções, Géis até Misturas Líquidas são comercializados por meio dos seguintes canais de distribuição: supermercados, drogarias, sistemas de atacado e varejo caracterizados como atacarejo e pelos canais de e-commerce. As principais regiões de consumo estão situadas nas capitais e cidades do Norte, Nordeste, Sudoeste, Sul, e nas regiões rurais, sendo destinados ao usuário.

O crescimento dos repelentes de insetos no mercado se deve aos seguintes fatores:

  • Crescimento de doenças transmitidas por mosquitos.
  • Crescente conscientização da população do uso de repelentes
  • Aumento da temperatura global.
  • Vulnerabilidade da saúde.
  • Marketing e posicionamento estratégico.
  • Crescimento da População.
  • Aumento na demanda de repelentes com botânicos.
  • Crescimento da Urbanização.
  • Migração populacional das áreas rurais para urbanas.
  • Adaptação dos mosquitos às condições climáticas.
  • Maior interesse de P&D em universidades.
  • Oportunidade de novos Negócios devido à demanda

Ativos repelentes

As matérias-primas sintéticas usadas em formulações cosméticas de ação repelente aprovadas pela Anvisa são o IR 3535®, Icaridina e DEET. Descreveremos a seguir as suas respectivas características:

  • IR3535®: INCI Name: Ethyl Butylacetylaminopropionate. Nome Quimico:3-[N-n-butyl-N-acetyl] aminopropionic acid ethylester – (EBAAP), cuja molécula é de baixa toxicidade. De ocorrência natural, o aminoácido ß-alanina foi usado como modelo molecular básico, e protege contra as picadas dos mosquitos sem prejudicar a saúde ou o meio ambiente. É conhecido em muitos países como um agente repelente altamente confiável devido à curta degradação metabólica e rápida excreção, sendo efetivo contra diversos tipos de mosquitos como do Anopheles gambiae, Anopheles funestus, Aedes albopictus (SORGE et al, 2007; STEFANI, 2009)

©QD Foto: divulgação ABC

  • Icaridina: INCI Name: Hydroxyethyl Isobutyl Piperidine Carboxylate. Nome Químico: 1-piperidinecarboxylic acid 2-(2-hydroxyethyl)-1¬methylpropylester, cuja substância conhecida também como Picaridina ou KBR 3023 é indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Um estudo africano comprovou a eficácia da potência do KBR 3023 não só contra os vetores que transmitem as doenças como Aedes aegipty mas também contra o Anopheles gambiae, transmissor de patógeno causador da malária. Na concentração de 10% confere proteção por um período de três a cinco horas e a 20%, de oito a dez horas (KNEPPER, 2004).

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  • DEET: INCI Name: Diethyl Toluamide. Nome Químico: N,N-dimetil-meta-toluamida ou N,N-dimetil-3-metilbenzamida ou Benzamida. Segundo o Center for Disease Control and Prevention (CDC, 2017) de Atlanta, o DEET foi desenvolvido pelo exército dos EUA durante a 2ª Guerra Mundial. Relativo às condições de segurança e eficácia, elas dependem do tempo de ação que, em média, é de quatro horas, mas pode ser de duas horas em concentrações inferiores a 10% e até seis horas, dependendo da dosagem; da temperatura ambiente; do nível de atividade física do usuário; da quantidade de transpiração, da exposição à água, da remoção por atrito, entre outros.

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  • P-Menthane-3,8-diol: INCI Name: 3,8 Paramentanodiol. Posteriormente sintetizado, apresenta-se como uma variante de opção natural de repelente de insetos e é obtido através de síntese química parcial, utilizando-se precursores terpênicos naturais. Derivado terpênico encontrado nos óleos essenciais da citronela e eucalipto citriodora (EPA, 2000).

Cuidados e Precauções no uso de repelentes de insetos

Após sair da área de exposição às picadas é recomendado lavar os locais de aplicação na pele ou se banhar e lavar as roupas que receberam o repelente, principalmente se houver uso contínuo por vários dias. Em caso de alergia, lave o local da aplicação e pare de usar o repelente. Para alergias mais graves procure auxílio médico e apresente a embalagem do produto utilizado.

Aplique apenas o necessário para cobrir a pele, de acordo com a orientação do fabricante descrita no rótulo.

Rotulagem dos repelentes

Os produtos devem apresentar obrigatoriamente no rótulo as disposições exigidas pela Anvisa, de acordo com a RDC 19 – 10/04/2013 que são:

I – o tempo para reaplicação do produto com base no resultado do teste de eficácia da espécie de mosquito que resultou em menor tempo de repelência, obedecendo, quando for o caso, o número de aplicações máximas;

II – o ingrediente ativo e sua concentração;

III – as frases de advertência:

a) “Aplicar nas áreas expostas somente quando necessário.”;

b) “Não utilizar se a pele estiver irritada ou lesionada.”;

c) “Cuidado com os olhos.” (em destaque ou negrito);

d) “Lavar as mãos com água e sabão após o uso.”;

e) “Cuidado: perigoso se ingerido.”

Desde a descoberta da relação do Ae. aegypti como vetor de arboviroses de importância médico-sanitária por suas taxas de morbidade e suas consequências para a saúde do indivíduo infectado, este mosquito se tornou um problema de saúde pública, sendo o controle de sua proliferação fundamental para a redução dos índices da Dengue e das demais doenças.

Assim a preocupação no combate a essas doenças resulta na necessidade da constante conscientização da população brasileira, mitigando o número de criadouros juntamente com as ações dos Agentes de Saúde do governo e o uso de repelentes cosméticos.

Referência Bibliográfica

BRASIL. Ministério da Saúde. ANVISA. Resolução – RE nº 19 de 19 de abril de 2013. Dispõe sobre os requisitos técnicos para a concessão de registro de produtos cosméticos repelentes de insetos e dá outras providências. Diário Oficial (da) República Federativa do Brasil; Brasília-DF, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0019_10_04_2013.html. Acesso em 05/04/2024.

BRASIL. Consumo e Saúde. ANVISA. Disponível em <https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/seus-direitos/consumidor/boletins-para-o-consumo/boletim-consumo-e-saude/anexos/consumo-e-saude-no-41-os-cuidados-na-escolha.pdf> (www.gov.br), 2015. Acesso em 05/04/2024.

BRASIL. Boletim Epidemiológico, Disponível em <http://www.gov.br/saúdept-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/aedes-aegypti/monitoramento-das-arboviroses>. Acesso em 12/03/2024.

CDC (Centers for Disease Control and Prevention-USA). Biomonitoring Summary N,N-Diethyl-meta-toluamide (DEET), 2017. Disponível em https://www.cdc.gov/biomonitoring/DEET_BiomonitoringSummary.html. Acesso em 05/04/2024.

DE LIMA, Luana Ponciano; DA SILVA, Elaine Machado; DE SOUZA, Alex Sandro Barros. Aedes aegypti e doenças relacionadas: Uma revisão histórica e biológica. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v. 4, n. 3, p. 3429-3448, 2021.

EPA (Environmental Protection Agency – USA). p-Menthane-3,8-diol (011550) Fact Sheet, 2000. Disponível em:
https://www3.epa.gov/pesticides/chem_search/reg_actions/registration/fs_PC-011550_01-Apr-00.pdf. Acesso em 05/04/2024.

KNEPPER, Thomas P. Analysis and mass spectrometric characterization of the insect repellent Bayrepel and its main metabolite Bayrepel-acid. Journal of chromatography A, v. 1046, n. 1-2, p. 159-166, 2004.

LOZOVEI AL, Marcondes CB. Culicídeos (mosquitos). Entomologia médica e veterinária. 1ª ed. São Paulo: Atheneu; 2001.

SANTOS, L. S; AUGUSTO, S, G, L. Modelo multidimensional para o controle da dengue: uma proposta com base na reprodução social e situações de risco. Revista de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, p. 177-196. 2011.

SORGE F, IMBERT P, LAURENT C, MINODIER P, BANERJEE A, KHELFAOUI F et al. Children arthropod bites protective measures: insecticides and repellents. Arch Pediatr; v.14, p. 1442-50. 2007

STEFANI, G.P. Repelentes de insetos: recomendações para uso em crianças. Revista Paulista de Pediatria, v. 27, p. 81-89, São Paulo, março de 2009.

World Health Organization. Yellow fever fact sheet. Updated May 2016. Disponível em : http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs100/en/ . Acesso em 05/04/2024.

Os Autores: Enilce Maurano Oetterer e João Paulo Correia Gomes

Enilce Maurano Oetterer é sócia-diretora da Encosmética Consultoria Ltda. e membro da Comissão Técnica de Cosméticos (CTCOS) do CRQ-IV.
E-mail: [email protected].

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Enilce Maurano Oetterer

João Paulo Correia Gomes é biólogo, pós-graduado em entomologia urbana, mestre em saúde pública e doutorado em materiais e inovação, também é colaborador do CTCOS.
E-mail: [email protected].

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João Paulo Correia Gomes

ABC Cosmetologia

E foi assim que nasceu a ABC ©QD Foto: Divulgação ABC

A Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC Cosmetologia), é uma entidade sem fins lucrativos, fundada em 10 de abril de 1973, com objetivo de promover o desenvolvimento da cosmetologia nacional.
Formada por um grupo de profissionais das áreas de Farmácia, Química e afins, ligados a universidades e empresas de produto acabado e matérias-primas para a indústria de higiene pessoal, cosméticos e perfumes, a ABC promove atividades tecnológicas, científicas e de regulamentação em prol do setor.
Mais informações: https://www.cosmetologiabrasil.com/

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