Remediação de Solos – Empresas de remediação crescem para atender o boom imobiliário

Apesar do muito ainda a ser feito, é consenso que o Brasil caminha para melhorias no campo da remediação de áreas contaminadas. O aperfeiçoamento no arcabouço legal, dentro do qual a iniciativa da lei paulista pode ter papel desencadeador para o resto do país, é um bom indicativo, mas felizmente também não é o único. Hoje há uma oferta bastante grande de empresas e consultorias especializadas em projetos e obras de remediação, de capital nacional e estrangeiro, aumentando as alternativas para as empresas com passivos em solos e águas subterrâneas.

Há uma indicação também de que o setor hoje já não se limita apenas a produzir diagnósticos, como era corrente dizer anos atrás. Sobretudo por causa do boom imobiliário e da consequente busca por remediar e ocupar áreas contaminadas para novos usos, a impressão é de que várias obras de fato começam a ser feitas. Embora os projetos sejam normalmente resguardados por contratos de confidencialidade, visto que poucos responsáveis legais têm a coragem de assumir um erro passado e a inteligência de divulgar à sociedade que estão reparando o dano, muitas empresas de remediação afirmam estar realmente colocando a mão na massa (com luvas especiais, é claro).

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Eskes: primeiros projetos com oxidação química em São Paulo

A empresa de origem norte-americana Aecom, por exemplo, no Brasil há 12 anos nessa área, por meio da controlada ENSR, é uma das que afirmam estar com muitos projetos sob sua coordenação. Segundo seu diretor técnico, Sander Eskes, além de ter remediado mais de mil postos de combustível por todo o Brasil, por intermédio de um contrato corporativo com uma grande distribuidora, a Aecom já contabiliza alguns projetos na indústria, com emprego de tecnologias até então inéditas, a maioria deles ainda em andamento.

De acordo com Eskes, em 2004 a Aecom realizou o primeiro grande projeto de oxidação química in situ de solos e águas subterrâneas contaminadas com solventes clorados (cloroetenos), com uso de permanganato de potássio, na região metropolitana de São Paulo e sob acompanhamento da Cetesb. “É uma reação redox (redução e oxidação), instantânea e fácil”, disse o diretor. O permanganato de potássio, importado normalmente da China, vem sólido e a dissolução dele é feita de 1% a 3%, na hora da injeção, quando é distribuído no solo por pressão hidráulica. “Ele age tanto na zona saturada (com água), como na insaturada”, disse.

Além de oxidar os contaminantes, o permanganato de potássio também age contra as matérias orgânicas e metais reduzidos. “Mas isso não tem impacto no tipo de solo em que injetamos, um sítio industrial que não será utilizado para agricultura”, explicou Eskes. Além disso, as injeções são feitas a partir de quatro metros de profundidade no solo. “Em todo caso, depois da remediação, a população microbiana do solo volta ao normal depois de um ano ou mais, o que comprovamos com o monitoramento”, complementou.

Outro caso, em 2006, fez pela primeira vez a empresa injetar óleo vegetal solubilizado para biodegradação anaeróbica de compostos orgânicos. O óleo serve como fonte de carbono, para criar condições anaeróbicas e assim as bactérias degradarem organoclorados. Importado, o óleo é uma melhor alternativa a uma outra fonte de carbono que começou a ser usada há alguns anos por empresas de remediação no Brasil, o melaço de cana. “O problema do melaço é que ele pode gerar metano”, disse.

Apesar de ressaltar o crescimento do uso de oxidantes químicos (além do permanganato de potássio, o peróxido de hidrogênio com catalisador férrico Fenton e o perssulfato de sódio) e de agentes para biorremediação anaeróbica, Eskes faz questão de ressaltar que todos os casos precisam ser engenheirados. “Não existe bombril para remediação, ou seja, uma solução que serve para todas as contaminações. Uma investigação detalhada e a necessidade de ocupação do solo é que vão orientar a melhor tecnologia a ser empregada”, disse.

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Susanne: tecnologia para investigar em alta resolução

Melhor investigar – Até mesmo no aspecto da investigação, também há a necessidade de busca por melhores tecnologias. Outra empresa da área, a ERM, envolvida em vários projetos de remediação no Brasil, está desenvolvendo fornecedor para passar a contar com sistema de investigação em alta resolução. De acordo com a gerente da ERM, Susanne Loebmann, o sistema é uma sonda especial chamada membrane interface probe (MIP), que perfura o solo, medindo a condutividade e identificando o contaminante por difração a profundidades de até 20 metros. A parceira da ERM no projeto é a alemã Fugro.

Para Susanne, contar com boa tecnologia para investigação é fundamental. “A fase de diagnóstico é a mais importante”, disse. Apesar disso, a empresa também faz testes piloto de uma tecnologia chamada ART (art in well), que realiza a remediação dentro do poço perfurado, com um raio de influência ampliado. “O sistema promove um turbilhamento com o agente remediador e recircula por stripping a água contaminada para tratamento na superfície”, explicou.

A ERM, segundo a gerente, é muito focada em contaminações industriais. Conforme diz, 90% dos clientes têm problemas com solventes clorados. Nesse sentido, Susanne confirma a ascensão do uso de oxidantes químicos, assim como o da biorremediação anaeróbica por meio da injeção de óleo vegetal. No caso da oxidação química, ela revela que o persulfato de sódio tem se mostrado uma alternativa mais fácil de manipular, por ser mais solúvel que o permanganato de potássio. “A oxidação resolve o grosso do problema de uma maneira muito rápida”, completou.

Também vem realizando um projeto com injeção de oxidante a Walm, empresa que agora opera em consórcio com a Enfil, empresa de engenharia ambiental (água, resíduos e ar). Segundo revelou o diretor da Enfil-Walm, Aldérico Marchi, em um dos quatro primeiros casos conseguidos recentemente com o consórcio há o uso de bissulfito de sódio para oxidar cromo hexavelente. Trata-se de área industrial contaminada no Rio de Janeiro em fase de remediação para dar origem a um condomínio residencial. No local, já houve fase de remoção da fonte primária de contaminação para incineração (20 mil t de terra contaminada), pump-and-treat para remover água contaminada e a oxidação química, que também agirá para combater arsênico (com uso de outro oxidante não revelado por Marchi).

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Marchi: mais competitivo com empresa de engenharia

Operando com a Enfil há menos de seis meses, Marchi acredita que a oferta dos projetos de remediação ganha força com a parceria. “Isso dá condições para a remediação fluir como deve ser: como um projeto de engenharia, com planejamento, custos e prazos acordados no contrato. Além de dar agilidade operacional e de construção dos sistemas de remediação, já que a Walm era focada na consultoria apenas”, disse. Nessa linha, os projetos seguem compromissos de finalização de seis a oito meses, e se determina ainda um período posterior de monitoramento.

Lixões fechados – Além da ocupação de áreas industriais para novos usos, uma outra área com grande potencial para os remediadores é o fechamento e a ocupação de lixões. Isso tem sido incentivado principalmente por causa de determinação do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que obriga municípios a fecharem esses depósitos irregulares até 2014. “Estamos com uma oferta nacional especial para essa área, com uma demanda enorme”, afirmou Giovanna Galante, a superintendente da Essencis Engenharia e Consultoria Ambiental.

Segundo Giovanna, apenas em São Paulo há 140 lixões interditados, Minas Gerais tem 275 e por aí vai, Brasil afora. Como a Essencis tem oferta integrada – além da remediação também opera aterros especiais próprios, incineradores e blendagem de resíduos, entre outros serviços ambientais –, a atuação nessa área fica mais competitiva. “Temos a tecnologia para fechar o lixão, para remover e/ou destruir os resíduos e para propor a remediação adequada”, explicou.

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Giovanna: de olho nos fechamentos de lixões municipais

Nessa demanda, a Essencis já conta com obras importantes. No Porto de Santos, finaliza para a Brasil Terminal Portuário (BTP) remediação e fechamento de antigo lixão do porto, terreno que será ocupado para expansão operacional do sobrecarregado terminal. “Removemos muito resíduo de lá, levamos para nosso aterro de Caieiras, e chegamos a construir uma estação de tratamento para os efluentes”, disse.

Também como obra de revitalização e recuperação de lixão há um contrato com a siderúrgica Vale, em Itabira-MG. A Essencis está fechando o lixão municipal da cidade, contratada pela Vale, cujo terreno será recuperado e transformado em um aterro regular, com a melhor tecnologia da área.

Faz parte do projeto captar o gás metano gerado e o chorume para tratamentos adequados. Ao se confirmar essas demandas por encerramentos de lixões, o Brasil mostrará que caminha com firmeza na gestão ambiental, deixando para trás a triste forma de pensar e agir que gerou todos esses esqueletos a aterrorizar as cidades brasileiras.

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