Remediação de Solos – Empresa nacional inova com tecnologias In-Situ

Uma solução para remediação de solos e águas subterrâneas começa a ganhar força no Brasil com a atuação da empresa Tratch-Mundi, do grupo Ecotech, de Valinhos-SP. Já uma realidade em países desenvolvidos, mas ainda dando seus primeiros passos no Brasil, a empresa está difundindo, com sucesso, o chamado processo oxidativo avançado (POA) para remediações in-situ de áreas contaminadas.

O pulo do gato da empresa é contar com uma licença tecnológica – o sistema Fentox – originária do laboratório de química ambiental da Unicamp, coordenado pelo professor Wilson Jardim, que permite aplicar a tradicional tecnologia Fenton (peróxido de hidrogênio + catalisador de ferro) com muito mais eficiência em solos e águas. A tecnologia desenvolvida por Jardim, e agora de uso exclusivo da Tratch-Mundi, faz com que a aplicação desse POA supere seus dois grandes obstáculos: o pH limitado de aplicação e o arriscado aumento de temperatura no local contaminado.

“O Fentox mantém o pH ácido, necessário para a reação ocorrer, e não deixa a temperatura subir para até 60ºC, como pode acontecer no Fenton convencional, colocando em risco ambientes de alta volatilidade explosiva”, explicou o diretor técnico da Tratch-Mundi, Marcelo Bárbara. A pesquisa da Unicamp conseguiu complexar o metal ferroso e torná-lo possível de ser aplicado com pH de três a dez, sem necessidade de acidificação do solo ou da água, e também controlou a temperatura da reação (isotermia) em uma média de 24ºC, o que torna a operação segura em remediações de hidrocarbonetos, por exemplo.

Mas não foi só a patente adquirida da Unicamp o trunfo para os projetos com POAs estarem indo bem e despertando o interesse de grandes corporações da área de distribuição de combustível que possuem muitos passivos ambientais, segundo revelou o outro diretor técnico da empresa, Samar dos Santos Steiner. “Descobrimos um meio de aplicar melhor os reagentes, por meio de outra patente nossa, um equipamento montado em um caminhão, que pode misturar vários tipos de oxidantes e redutores, com sondas e sob alta pressão, com uma metodologia que controla a profundidade, a vazão e a concentração do processo reagente exatamente nos locais necessários”, explicou Steiner.

Segundo ele, a combinação do Fentox com o equipamento inclui ainda um detalhe importante da aplicação: dosar e visar o POA primeiro para atacar a fase adsorvida dos contaminantes no solo. “Assim não dá rebote, ou seja, a água não corre o risco de voltar a passar pela contaminação no solo”, disse. Egressos de várias outras grandes empresas de remediação (Aecom, Geoklock etc), tanto Steiner como Bárbara afirmam que o normal no mercado, quando os POAs são a tecnologia empregada, é atacar apenas a água subterrânea contaminada. “Só que a contaminação é dinâmica, se a fase adsorvida não for eliminada primeiro, depois o lençol volta a se contaminar”, complementou Bárbara.

Química e Derivados, Equipamento Móvel Tratch - Mundi
O equipamento móvel da Tratch Mundi usa alta pressão nos POAs

Um erro comum dos primeiros casos de aplicação de Fenton no Brasil, segundo Bárbara, é a forma pouco estudada e primitiva como os dois reagentes (o catalisador metálico e o oxidante, peróxido de hidrogênio) são dosados. “As empresas simplesmente colocam um tambor de cada lado e, com uma sonda perfuratriz, injetam os produtos no solo”, disse. Com o equipamento montado no caminhão, o problema foi resolvido. Com uma ponteira também patenteada, e a pressão altíssima, possível de atingir até 50 metros de profundidade, consegue-se fazer a dissolução entre os produtos da reação, em turbilhão, para ativar o Fentox de forma muito mais eficiente do que com os misturadores convencionais. “E ele pode ser usado para qualquer oxidante ou redutor”, disse Bárbara.

Para saber onde está a maior concentração do produto, é feita uma investigação detalhada do meio físico, segundo Steiner, dos extratos do solo, da distribuição da granulometria em 3D de vários pontos, as zonas preferenciais e, enfim, onde estão e como se distribuem as concentrações do contaminante no solo. “Com esses dados, começamos o trabalho de oxidação avançada (ou redução, dependendo do caso, com outros produtos, como óleos ou melaço), que elimina o problema de forma muito rápida”, explicou. Segundo ele, há casos em que o cliente estava com remediações implantadas, de extração física, conduzida por longos seis anos, que eles resolveram em três dias, com comprovação da Cetesb.

“É uma quebra de paradigma. Por que ficar extraindo água e vapores por anos, gastando energia, tempo, expondo os trabalhadores da remediação, se é possível oxidar ou reduzir o contaminante em questão de dias?”, explicou Marcelo Bárbara. Com o equipamento criado, um controle digital determina a profundidade, a vazão e a concentração dos produtos para cada ponto do solo, dosando mais reagentes em áreas argilosas e menos nas arenosas. E o melhor, segundo eles, é ser possível atacar com o POA diretamente na fase livre do contaminante, o que já foi feito com sucesso e até gerou patente para a empresa. “Temos um caso em que as pessoas achavam arriscado, pois podia gerar explosão e que já vinha sendo tratado convencionalmente por quase três anos. Mas no fim em 14 dias eliminamos a contaminação, que tinha uma fase livre de um metro”, disse Steiner.

Para os dois técnicos (geólogos formados na Universidade de São Paulo), os POAs são o futuro da remediação, uma etapa à frente da fase da extração forçada (pump-and-treat, extração multifásica) e que coloca a remediação in-situ como solução única de transformação dos contaminantes. “Na remediação convencional, os técnicos têm como via de regra primeiro retirar com força, a vácuo, os contaminantes principais e depois combinar com o solo para tudo dar certo e testar algum polimento final, com biorremediação ou oxidação”, disse Steiner. “Mas é possível resolver o problema de uma vez, quando for necessário”, disse.

Na opinião de Steiner, aliás, remediações muito complexas, regionais, precisariam ser mais bem avaliadas para saber se realmente demandam caros e demorados projetos. Na Inglaterra, por exemplo, eles só determinam a remediação quando há risco direto para a população, ou seja, quando há volatilização de contaminantes em locais fechados, moradias ou prédios. “É a medição real do contaminante em área de risco à população que vai determinar; caso contrário, eles apenas monitoram e fecham poços da região”, disse. “O mesmo faz o Exército Americano, responsável por várias áreas de guerra contaminadas. Quando o problema é muito grande, eles monitoram e criam barreiras para evitar o afloramento. Isso sem falar que a própria natureza vai degradar os componentes, por vários processos bióticos e abióticos, ao longo dos anos”, completou.

Já no Brasil, ao contrário, a base de atuação dos órgãos ambientais é por modelos matemáticos, importados de países europeus, em que as remediações são obrigadas a serem feitas conforme o resultado desses cálculos. “Aqui os órgãos analisam a água e usam o modelo teórico para dizer que, sob certas condições de solo e de profundidade, o contaminante vai migrar no solo e entrar no ambiente e criar uma condição de contaminação”, disse Steiner. “Embora isso pareça estimulador e rigoroso, ao obrigar remediações em quase todos os casos avaliados, na verdade a agência desestimula os projetos, porque as empresas simplesmente não têm dinheiro para pagar essas obras caras e ficam protelando a solução”, complementou Bárbara.

Química e Derivados, Samar dos Santos Steiner e Marcelo Bárbara, Tratch-Mundi
Steiner (esq.) e Marcelo: extração de contaminantes é coisa do passado

“O que é tido como ideal hoje, em termos de viabilidade econômica e preocupação com o meio ambiente, é restringir as obrigatoriedades para onde há risco à saúde humana”, completou.

Mas quando há a necessidade, na visão de Steiner, não faz sentido manter sistemas parrudos de extração, com alto consumo de energia de bombas, de carvão ativado para tratamento, de pessoal se expondo a riscos de contaminação, de transporte de solos contaminados com produtos perigosos e por aí vai. “É muito mais limpo resolver o problema no local e da forma mais rápida possível”, disse Bárbara. “O Fentox, por exemplo, só gera água e oxigênio como subprodutos e um pouco de ferro, incorporado no solo”, complementou. Quando não há outra alternativa, no seu entendimento, a tecnologia é muito melhor do que extrair, escavar e mexer no contaminante em uma área do solo que não vai oferecer risco a ninguém.

A Tratch-Mundi, segundo o diretor de desenvolvimento Washington Yamaga, está para fechar grandes contratos para tratar postos e centrais de distribuição de combustível de uma grande empresa da área. “Eles querem resolver logo o problema, não querem ficar anos em processos de extração”, disse. Aí entrará a fase de negociar grandes contratos, não só com o novo cliente, como com algum produtor de peróxido de hidrogênio, para abastecer os POAs empregados no Fentox. Se bem que uma vantagem do sistema patenteado, segundo ele, é utilizar menos oxidante, em comparação com o Fenton.

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