Refino: Refap S/A revê cronograma e anuncia partida para 2005

A nova unidade da Refinaria Alberto Pasqualini (Refap S/A), em Canoas, cidade industrial distante 20 quilômetros de Porto Alegre, deveria entrar em operação ainda em 2004, mas com a revisão do cronograma inicial, as obras de ampliação serão concluídas em 2005.

Química e Derivados: Refino: Unidade de craqueamento catalítico de resíduos em fase de montagem. ©QD Foto - Divulgação - Refap
Unidade de craqueamento catalítico de resíduos em fase de montagem.

Quando estiver definitivamente turbinada, a Refap processará 30 milhões de litros de petróleo por dia, um aumento de 50% em relação à sua capacidade atual, o equivalente a 5.509 litros de gasolina por minuto – suficiente para encher o tanque de mais de 100 carros, e 8.309 litros de diesel por minuto, correspondendo a 40 tanques de caminhões, além de uma tonelada de GLP por minuto ou 76 botijões de 13 quilos por minuto. De quebra, irá gerar 69 MW de energia elétrica capazes de iluminar uma cidade com 200 mil habitantes. Após a conclusão da obra, a Refap será a quinta maior refinaria de petróleo do Brasil.

Além da revisão de prazos, o orçamento também foi esticado de US$ 650 milhões para US$ 800 milhões. A readequação dos valores ocorreu por conta de três fatores. O projeto original previa duas parcerias. O reator de ácido sulfúrico para a produção de enxofre puro, teria o aporte de uma outra empresa que não se consolidou, assim como a British Oxigen Company, que saltou fora do acordo para a montagem da unidade de hidrogênio. Com isso, a Petrobrás decidiu bancar a conta sozinha, e, somente nessas duas áreas, a despesa ficou em mais US$ 100 milhões. Além disso, como explicou o presidente da empresa, Hildo Henz, a revisão do escopo do projeto exigiu um aporte de mais US$ 50 milhões.

Do total mobilizado, US$ 511 milhões já foram empregados e correspondem a 60% das obras físicas concluídas, incluindo o projeto de engenharia e o pagamento de todos os equipamentos como vasos, reatores, trocadores de calor, bombas, montagem das tubulações e o regenerador de FCC, aliás, todos já instalados assim como a nova torre fracionadora de 60 metros de altura por oito de diâmetro. Na medida em que as etapas são cumpridas os novos equipamentos entram em operação. Do projeto novo, já entraram em atividade, em 2002, as duas tochas do sistema, sendo que as antigas foram desativadas. Em dezembro fica pronta a unidade produtora de enxofre.

Química e Derivados: Refino: Henz - refinaria processará mais óleo pesado nacional. ©QD Foto - Divulgação - Refap
Henz – refinaria processará mais óleo pesado nacional.

Em fevereiro, a de hidrogênio, empregada no hidrotratamento do diesel, também estará finalizada. Como é dela que sairá o H2S, matéria-prima do enxofre puro, a partida da planta desse produto acontecerá em abril de 2005. Em maio, Henz quer dar partida na área de FCC. Em junho, com o sistema de coque pronto ocorrerá a partida da totalidade da nova planta.

No andar da carruagem, alguns setores irão passar por adaptações para a ampliação do volume de refino. A chamada Unidade-50 de destilação entrou em obras em agosto próximo e ficará parada por 45 dias, resultando na suspensão de 50% da capacidade de refino atual ao longo da manutenção.

Para não criar problemas de abastecimento a Refap montou um esquema especial de estoque. “Há um gerenciamento para o mercado que nem vai sentir o reflexo da parada”, garante Henz. Outra unidade, a 01, será adaptada em março com alterações e interligações. Atualmente 6 mil pessoas estão envolvidas na ampliação. Na parada que acontecerá para as reformas mais 2 mil serão incorporadas . “Essa obra é grande. Houve parceria com o Senai, responsável pela capacitação dos recursos humanos”, explicou

Quatro empreiteiras montaram bases de operações dentro da área da refinaria. “A construção foi rápida porque toda a parte de alvenaria é pré-moldada e vem pronta em caminhões”, assinala o diretor-presidente.

O principal objetivo com a ampliação da Refap é a conversão da refinaria, hoje equipada para processar 75% de óleo leve, proveniente do Oriente Médio e 25% de óleo pesado extraído na plataforma continental do Brasil. O novo sistema a plena carga poderá processar 80% de óleo brasileiro e 20% do óleo árabe, pois era a refinaria da Petrobrás com menor capacidade de refino do petróleo brasileiro. As demais vêm sendo adaptadas gradativamente ao longo dos últimos anos. No caso da unidade gaúcha, a decisão foi no sentido de readequá-la de uma única vez.

Conforme Hildo Henz, a empresa está triplicando os processos. A capacidade equivalente de destilação (unidade de medida para refino de petróleo) subirá de 430 para 1.300 quando as duas plantas estiverem operando conjuntamente a plena carga. Antigamente, ensina Henz, quando o Brasil processava apenas petróleo leve, as refinarias procediam basicamente a destilação, sem a necessidade de intervenções químicas. A primeira planta construída no Brasil pela Ipiranga, na cidade de Uruguaiana, a 500 quilômetros de Porto Alegre, na década de 30, destilava um óleo super leve por batelada.

Quando o petróleo é pesado, acrescenta, Henz, os procedimentos se tornam mais complexos, exigindo sistemas de destilação normal, destilação a vácuo, unidades de FCC, de tratamento e de coque, a fração de petróleo rica em carbono e pobre em hidrogênio. Nesse aspecto, a engenharia da Refap lançou mão da criatividade. Como o coque precisa ser queimado para liberar o catalisador, os gases provenientes da operação movimentarão uma turbina de 25 MW de energia. Para isso, contará com uma válvula especial dotada de uma espécie de diafragma interno que fecha a metade do diâmetro, impedindo a passagem de vapor de um lado e liberando a saída do outro de maneira intercalada. Na eventualidade de algum problema técnico indicando a necessidade de desligar a turbina, a válvula abre um dispositivo na parte superior para jogar o vapor na atmosfera por razões de segurança.

A ampliação da Refap não significa necessariamente que a grade de produtos crescerá na mesma proporção da atual. O óleo combustível está fora dos planos. A prioridade será a obtenção de diesel e em segundo lugar a de gasolina. Essa é a grande mudança que atende às novas exigências do mercado. Conforme Hildo Henz, há uma perda de competitividade do óleo combustível para o gás natural como fonte energética. Já a gasolina, que na Refap respondeu por 22% do volume de vendas, mas hoje equivale a 18% do faturamento, os motivos para a diminuição são o aumento do consumo do gás natural veicular (GNV), queda do poder aquisitivo da população, andando menos de carro, e o surgimento dos motores flexíveis. No entanto, explica Henz, há boa margem para aumentar a exportação do combustível.

Logística especial – Com a expansão que saiu definitivamente do papel em maio de 2001, a Refap S/A tornar-se-á refinaria de grande porte, capaz de competir no mercado mundial, enfrentando também a quebra do monopólio do comércio de combustíveis no Brasil. A obra conta com a operação decisiva da empresa japonesa Toyo, que construiu as novas unidades de processo: somente a nova torre de craqueamento catalítico fluido (FCC) tem 14 metros de diâmetro. Outros equipamentos foram fabricados na Coréia do Sul, Espanha, Canadá, Alemanha, Estados Unidos, Itália, Brasil e Índia. O projeto é monitorado por sistema on line, interligando as diversas unidades de produção dos equipamentos, permitindo sinergia e simultaneidade na execução das diversas etapas.

A logística para transportar os equipamentos dos países de origem até a Refap exigiu uma engenharia à parte. As grandes peças viajaram do Pacífico em embarcações oceânicas. No Rio de Janeiro, foram içadas por guindastes e colocadas desmontadas em carretas de 90 rodados, em média, que por sua vez, eram embarcadas em navios especiais para a entrada de veículos nos porões. Do Rio, as peças viajar até o porto de Rio Grande, no litoral gaúcho. De lá, eram repassadas para barcaças fluviais que desciam a Lagoa dos Patos e acessavam a Ponte do Guaíba, na zona norte de Porto Alegre. Os cavalos mecânicos especiais saíam da embarcação lentamente, acompanhados por aproximadamente 30 técnicos entre engenheiros, operadores, motoristas, fiscais de trânsito e agentes das Polícias Rodoviárias Estadual e Federal. Normalmente durante a madrugada, as carretas trafegavam por 20 quilômetros em rodovias federais até a Refap, em Canoas, a cerca de três quilômetros por hora.

Refinaria “verde” opera desde 1968

A partida de refino da Refap ocorreu oficialmente em 16 de setembro de 1968 com a inauguração do complexo petrolífero de Canoas. A Alberto Pasqualini – Refap S/A foi constituída em janeiro de 2001, deixando ser uma unidade de negócios dos Sistema Petrobrás e passando à condição de empresa subsidiária da estatal, detentora de 70% do capital votante. Os outros 30% pertencem ao grupo espanhol Repsol, que na troca desses ativos, entregou, ao grupo brasileiro, uma refinaria e uma rede de postos de combustíveis na Argentina.

A reengenharia administrativa é considerada hoje como fator-chave de sucesso para o avanço tecnológico pelo qual a Refap vem atravessando em busca de mais força competitiva. Também os recursos humanos são preocupação constante da empresa. Baseado num cenário de maior produtividade e rentabilidade, o Planejamento Estratégico da Refap mantém programas permanentes para formação e aprimoramento de seus 669 funcionários. Nos últimos anos, a empresa investiu R$ 26 milhões em atualização tecnológica, valores excluídos dos cálculos da obra de ampliação.

O aumento da produção é acompanhado da preocupação com a segurança e a proteção ao meio ambiente. Exemplo disso são os R$ 60 milhões investidos no novo sistema de tratamento de águas – a Estação de Tratamento de Detritos Industriais(ETDI). Considerada em todo território nacional como a Refinaria Verde, a Refap localiza-se numa área de 580 hectares, com lagos, gramados e matas que abrigam espécies raras de plantas e animais, onde situava-se uma fazenda para criação de gado leiteiro. A operação é toda automatizada e a história da empresa não registra qualquer acidente grave para funcionários e meio ambiente.

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