Química

16 de outubro de 2011

IYC 2011 – Química Verde – Preocupação ambiental incentiva a renovação de conceitos e práticas

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Os óleos vegetais já contam com uma estrutura mundial de aproveitamento montada e muito forte em alguns países, como a Malásia. Um derivado, a glicerina, registra aumento de oferta pela maior produção de biodiesel. “Da glicerina podem ser feitos a epicloridrina (para epóxis), ácido acrílico e outros produtos”, comentou. Até o propeno, mas Morschbacker não recomenda seguir por esse caminho. “Nesse caso, é preciso retirar três átomos de oxigênio de cada molécula, implicando perda de rendimento, o que não acontece quando se faz o propilenoglicol”, comentou.

    Novidade a ser explorada é o campo da biotecnologia, segundo Morschbacker. “É a química que acontece dentro das células, exigindo outros conhecimentos e outro tipo de formação profissional, envolvendo genética molecular, biologia, mas também química e engenharia”, explicou.

    O aprimoramento das fermentações abriu uma estrada larga para inovações, a começar pela obtenção de propanodiol em uma só etapa fermentativa, feita pela primeira vez pela DuPont e pela Genecor. “O Brasil tem chances de crescer nesse campo, pois já domina as mais tradicionais fermentações, como a alcoólica, a láctica e a acética”, considerou.

    Avanços projetados – As iniciativas da química verde foram incorporadas às diretrizes da Rhodia, empresa do grupo Solvay, há vários anos. “Exemplo disso é o programa Rhodia Way, que avalia o impacto de cada atividade da companhia em relação às partes interessadas, sempre em busca da menor pegada ambiental”, comentou Thomas Canova, diretor de pesquisa e desenvolvimento para a América Latina.

    A observância de todos os princípios de química verde, ecoeficiência e eficiência energética nos processos abre caminhos para a introdução de inovações tecnológicas, indo além da visão tradicional. “Isso vai mudar o perfil dos profissionais do setor, que precisarão estar mais atentos às fermentações e biodigestões, além de conhecer as rotas químicas clássicas”, salientou Canova.

    Ele avalia, porém, que a química verde está na fase das descobertas, com reflexos diretos na avaliação econômica das propostas. “Ainda estamos longe dos rendimentos finais, há muito espaço para melhorar”, disse. Ele recomenda pensar nas condições que estarão disponíveis daqui a dez ou vinte anos para projetar os avanços. “Teremos restrições ambientais mais fortes, as matérias- primas ficarão mais escassas e faltará água”, afirmou, para justificar a ênfase em obter melhores rendimentos dos processos verdes.

    Canova identifica quatro momentos pelos quais a química verde está passando e ainda vai atravessar. No primeiro deles, os paradigmas não são quebrados, apenas se busca aproveitar melhor os insumos e diminuir a geração de resíduos, áreas dominadas pela engenharia química. Na segunda etapa, o objetivo é colocar ingredientes de origem natural em processos conhecidos, a exemplo do que se faz hoje com o eteno de álcool. Os paradigmas usuais ainda não são quebrados, mas a pegada ambiental sofre redução.

    Ao ingressar na terceira fase, novos projetos começam a ser concebidos, considerando análises prévias de ciclo de vida de produtos. A partir desse ponto, os paradigmas começam a ser rompidos. “Essa fase vai começar quando for preciso erguer novas fábricas, pois fica muito caro adaptar as instalações existentes”, avaliou. Segundo Canova, a Rhodia mantém equipes pesquisando novas rotas de produção para seus produtos.

    A quarta fase começa com o questionamento profundo de tudo o que está sendo fabricado. “Vamos querer saber se um polímero é realmente o ideal para uma aplicação, ou se ele está sendo sub ou superdimensionado para ela”, explicou. As lacunas evidenciadas motivarão o aparecimento de novas moléculas mais eficientes e com menor impacto ambiental.

    Canova cita o caso da linha de solventes Augeo, elaborada com um percentual de glicerina de biodiesel. “Questionamos o papel dos solventes disponíveis no mercado e verificamos que podíamos manter o desempenho desejado ou até melhorá-lo com um produto mais amigável ao ambiente”, explicou.

    Outra linha de atuação verde foi a criação de uma formulação de poliamida 6.6 modificada capaz de reduzir em 15% o consumo de energia na etapa de transformação para gerar autopeças. “Esse trabalho foi todo feito no Brasil e recebeu o prêmio da Anpei deste ano”, comemorou.

    A maneira como são conduzidas as análises de ciclo de vida de produtos ainda revela problemas. “Falta metodologia internacional uniforme para a padronização desse estudo”, apontou Canova. Dependendo do alcance desse estudo, as suas conclusões podem ser distorcidas. Ele cita o exemplo da comparação entre fibras sintéticas e as naturais. Caso se considere todo o ciclo de produção, a fibra sintética se revela melhor do ponto de vista ambiental. “A fibra natural consome muita água na etapa agrícola”, explicou. Há estudos com plásticos que ignoram a reciclagem dos materiais pós-consumo, confundindo os resultados.

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    Canova: no futuro, indústria química quebrará paradigmas

    “Além disso, a comunicação com o público em geral precisa ser muito cautelosa para não criar falsos conceitos, como no caso das sacolinhas plásticas biodegradáveis”, criticou Canova.

    Ele confirma que a química fina tem mais facilidade para adotar conceitos e procedimentos verdes, assumindo com mais velocidade as propostas de inovação. “Essa área tem mais margem para bancar as mudanças, ao contrário das commodities”, justificou. Para ele, essa adaptação será paulatina, chegando aos poucos às linhas de alta produção.

    Canova informou que 90% dos projetos de P&D da Rhodia em todo o mundo estão ligados à sustentabilidade. Cada projeto passa por várias fases de seleção antes da implementação. Já na primeira fase, as propostas devem sempre apresentar impacto ambiental igual ou menor que os produtos existentes. “Os pesquisadores precisam ter isso em mente desde a concepção dos projetos”, explicou Canova, ressaltando que várias companhias adotam esse procedimento.


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