Química

16 de outubro de 2011

IYC 2011 – Química Verde – Preocupação ambiental incentiva a renovação de conceitos e práticas

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Indústria atenta – A indústria química brasileira está atenta às oportunidades representadas pela química verde. Conta com o apoio de uma excelente fonte de sacarose e biomassa, a cana-de-açúcar, cultivada em grande escala e acompanhada de um parque produtor de etanol e sacarose de tamanho compatível. Há também a possibilidade de aproveitar os óleos vegetais, disponíveis em profusão, para vários fins.

    “A química verde para nós já é uma realidade”, afirmou Antonio Mor­schbacker, líder de tecnologias renováveis da Braskem, maior produtora de resinas plásticas das Américas. Em suas instalações de Triunfo-RS, a companhia produz eteno pela desidratação de etanol. Com essa olefina verde, gera polietileno vendido para clientes no Brasil e no exterior para a confecção de embalagens, com vantagens ambientais no balanço total das emissões de CO2. Em setembro, a Braskem assinou um contrato para fornecer eteno verde para a unidade gaúcha da Lanxess, que o usará para produzir até 10 mil t/ano de borracha EPDM (dímero de eteno e propeno).

    Morschbacker avalia em um milhão de toneladas anuais o mercado mundial de biopolímeros na atualidade. “A Braskem produz um terço do que esse mercado consome, é o maior produtor mundial”, salientou. O polietileno feito com o etanol é o biopolímero mais barato entre todos os disponíveis. A explicação reside na alta eficiência da cana-de-açúcar para produzir e armazenar açúcares. Além disso, o processo produtivo é simples, bastando extrair o caldo e fermentá-lo. “O milho, por exemplo, armazena amido e é necessário hidrolisá-lo antes de iniciar a fermentação, impondo um consumo adicional de energia e de água”, afirmou. Com isso, enquanto o aproveitamento da cana gera 9,3 unidades de energia para cada unidade de energia fóssil consumida, o milho só gera 1,4 unidade.

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    Morschbacker: etanol é o ponto de partida mais viável no país

    Apesar disso, Morschbacker reconhece que essa produção do polietileno verde não é um feito inédito. “Estamos reinventando a química, que começou usando produtos naturais, como os óleos vegetais e o etanol”, disse. A antiga Salgema, de Alagoas, hoje incorporada à Braskem, operou até a década de 80 a maior planta de eteno de álcool do mundo. “O petróleo se tornou mais competitivo e dominou a petroquímica”, recordou. Em relação às unidades de eteno do passado, ele aponta ganhos de eficiência e de escala de produção.

    O polietileno obtido do etanol tem propriedades idênticas ao do similar derivado de petróleo, facilitando a etapa de transformação. Mas eles não se confundem. A norma ASTM D6866 determina o método para identificação do isótopo 14 do carbono (C14) na resina para comprovar sua origem natural e renovável. “O petróleo é um produto muito antigo, elaborado ao longo das eras geológicas, não contém mais nada de C14, enquanto um material obtido de fonte renovável apresenta 1,2 parte por trilhão de C14”, explicou Morschbacker. Todos os lotes de resina verde que saem da Braskem são analisados por um laboratório localizado nos Estados Unidos e têm a origem garantida.

    A disponibilidade de álcool, embora comprometida nos últimos anos por deficiências nas agroindústrias, ainda permite avançar em outras frentes. “Daqui a dois anos a Braskem lançará o primeiro polipropileno com origem no álcool etílico, criado no Centro de Tecnologia Braskem em 2008”, informou. Ele não confirmou a rota tecnológica a ser adotada, a despeito de muito ter se falado na dimerização e metátese de eteno. “É um dos caminhos possíveis”, esquivou-se.

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    Tabela 2: Os vencedores do prêmio presidencial – Clique para ampliar

    Além dessa produção, a Braskem e a Unicamp continuam pesquisando e desenvolvendo uma tecnologia alternativa para produzir a mesma resina com fontes renováveis. Há também uma parceria firmada com a Novozymes para a criação de enzimas específicas para apoiar a produção de polipropileno. “Estudamos a fundo quinze rotas diferentes para obter propeno durante os últimos cinco anos e notamos que algumas oferecem melhores possibilidades”, aduziu.

    A petroquímica mantém outros convênios de pesquisa com universidades no Brasil e no exterior, a exemplo da UFRJ (propeno e glicerina), e com o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio). “As universidades nacionais têm boas estruturas de pesquisa e pessoal qualificado, mas sofrem demais com a burocracia”, afirmou Morschbacker. “Em algumas delas, para se comprar um pãozinho é preciso que o reitor assine um cheque.”

    Além disso, ele lamenta que os investimentos feitos em pesquisa sejam tributados no país, reduzindo a competitividade nacional. Também os mecanismos de fomento à ciência e tecnologia poderiam ser melhores. Apesar disso, na química verde o Brasil tem alcançado sucesso para transpor o conhecimento acadêmico para a produção industrial. “Somos bons nisso, mas ainda fazemos pouco, precisamos aproximar mais a pesquisa das indústrias”, defendeu.

    Considerado o Oriente Médio da química verde, o Brasil tem recebido investimentos de várias companhias estrangeiras interessadas em aproveitar as vantagens agroquímicas daqui. “Em geral, elas trazem pacotes fechados de tecnologia, mas precisarão adaptá-los para as condições locais e isso poderá ser feito em parceria com as universidades”, disse.

    O desenvolvimento das atividades industriais de química verde dependerá muito da disponibilidade de matérias-primas adequadas. No Brasil, o etanol é ponto de partida preferencial. Saliente-se que ainda não está sendo produzido o etanol de segunda geração, que aproveitará a celulose e a hemicelulose do bagaço residual para gerar etanol. “Esse álcool precisa disputar espaço com a geração de eletricidade pela queima do bagaço, uma fonte atual de receita importante para as usinas”, avaliou.


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