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IYC 2011 – Química Verde – Preocupação ambiental incentiva a renovação de conceitos e práticas

Marcelo Fairbanks
16 de outubro de 2011
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    Tabela: Os doze principios – Clique para ampliar

    A análise de ciclo de vida é fundamental para evitar alguns enganos. “Substituir solventes derivados de petróleo por produtos de origem natural é sempre a melhor solução?”, indagou. Bazito comentou que, apesar da origem renovável, esses solventes também geram smog fotoquímico e têm uma toxicidade determinada. “Seria melhor, quando possível, usar o solvente convencional expandido com CO2 no estado supercrítico, no qual o consumo energético da compressão é compensado pelo ganho ambiental de consumir uma quantidade muito pequena do solvente”, explicou. Há casos, também, de difícil substituição por produtos de origem natural, como a produção de artefatos de borracha.

    Outra forma de substituição de componentes por insumos de origem renovável que está em crescimento é o uso do álcool etílico de cana-de-açúcar, uma especialidade brasileira. Já se produzem polímeros com ele, aproveitando a estrutura petroquímica existente. “Essas substituições são válidas, com certeza, mas ainda estamos seguindo os conceitos petroquímicos tradicionais”, comentou o pesquisador. “Precisamos quebrar paradigmas, ‘pensar fora da caixa’. As fermentações, por exemplo, geram produtos totalmente diferentes; as biorrefinarias, idem.”

    Bazito considera que as mudanças no caminho de uma química mais sustentável serão feitas progressivamente. A velocidade será ditada pelas pressões sociais e pela adoção de políticas públicas mais ou menos restritivas.

    “Atualmente, não há nenhuma isenção tributária para projetos de pesquisa em química verde, nem isenção de impostos para importar equipamentos de laboratório e os juros dos financiamentos são os mesmos, sem incentivos”, criticou Bazito. Da mesma forma, a preferência concedida pelo governo federal para os investimentos no pré-sal foi fruto de uma decisão política. Ele cita como exemplo a criação, nos anos 90, de programas como o Clean Production Act e o Prêmio Presidencial para Química Verde nos Estados Unidos, ambos desencadeadores de pesquisas e negócios. “Química verde é um grande negócio, porque, em princípio, todas as iniciativas propostas são mais eficientes do que as existentes, portanto geram lucro”, explicou.

    O Prêmio Presidencial é concedido a cada ano ao melhor desenvolvimento tecnológico para prevenir a poluição em processos industriais, com três áreas de concentração para grandes indústrias: rotas de síntese, condições de processo e design de compostos, todos eles menos agressivos ao ambiente. Há duas outras categorias específicas para pequenas empresas e pesquisadores científicos. (Veja quadro com os vencedores dos últimos três anos).

    Do ponto de vista econômico, Bazito pondera que o retorno da aplicação dos conceitos de química verde seja maior nas linhas de produção da chamada química fina. Segundo informou, grande parte da produção mundial de fármacos ainda depende de reações estabelecidas há mais de cinquenta anos, com baixos índices de eficiência. “A modernização delas dá um grande impacto econômico, mas o mesmo não acontece com a produção das commodities”, comparou. Além do retorno financeiro, as atividades de química fina têm maior afinidade com os laboratórios de pesquisa, habituados a processos com várias etapas de síntese e de alta complexidade.

    Em âmbito mundial, aparecem com destaque as pesquisas ligadas à química verde nas linhas de catálise, com muitos desenvolvimentos e associada à ciência dos materiais para facilitar a introdução de novos tipos. Outra linha promissora está nos materiais de origem renovável, como poliuretanos e poliésteres. O uso de solventes alternativos em processos, como líquidos iônicos e fluidos supercríticos ou associações entre eles, também tem grande potencial de crescimento. Bazito, aliás, desenvolve pesquisas com CO2 no estado supercrítico. “Ele não está mais limitado às extrações, mas pode ser aplicado com êxito em sínteses de polímeros, encapsulamento de tensoativos e até na descontaminação de policloreto de bifenila, o temível ascarel (óleo usado em transformadores elétricos antigos)”, comentou.

    química e derivados, análises de ciclo de vida,  Reinaldo Camino Bazito, Universidade de São Paulo

    Bazito: análises de ciclo de vida devem orientar mudanças

    Bazito recomenda acompanhar os desenvolvimentos dos métodos de intensificação de processos usando reações sequenciais em microrreatores, já conhecidos no exterior e que começam a chegar ao Brasil (Veja QD-513, de setembro deste ano).

    Resta a dúvida quanto à viabilidade de substituir a produção química atual por sistemas mais verdes. “Isso será viável quando as regras ambientais forem efetivamente fiscalizadas e o descumprimento custar caro; e também quando a população estiver disposta a pagar um pouco a mais para adquirir produtos com alguma vantagem ambiental”, considerou. Do contrário, a importação de bens de consumo feitos em outros países, sobre os quais não se sabe se seguem as mesmas leis de proteção ambiental daqui, continuará crescendo e prejudicando a indústria local.

    Em resumo: a chave para um quadro ambiental melhor depende de melhorar a educação em todos os níveis, desde a pré-escola. “O ensino científico é muito fraco no Brasil, daí nasce o preconceito e o desejo de soluções mirabolantes para todos os problemas”, criticou o pesquisador, com experiência anterior no ensino secundário. Ele identifica que as novas gerações já não alimentam grandes temores contra a Química, apenas não se interessam por ela. “Costumo mostrar para os alunos que o iPad por eles idolatrado é feito com muita química”, comentou. Em geral, ele sente nos jovens secundaristas um desapreço por todas as ciências. “Eles não gostam porque acham que elas exigem muito estudo”, disse.



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