Química Fina – Exportações de farmoquímicos crescem com novos investimentos

Química e Derivados - Química Fina - Reatores farmoquímicos da ITF, na BahiaQuímica Fina – A balança comercial da cadeia produtiva farmacêutica brasileira continua deficitária, mas um dos setores-chaves dessa indústria sinaliza um avanço: pela primeira vez em dez anos, o índice de exportações de farmoquímicos e adjuvantes, que cresceu 35% em 2010, superou o das importações, que teve uma elevação de 14,8% no mesmo período.

Em volume financeiro, as exportações desses insumos superaram a casa dos US$ 500 milhões, passando de US$ 441 milhões, em 2009, para US$ 596 milhões no ano passado. O salto nas importações, ainda volumosas, foi menor: as compras de insumos no exterior por parte da indústria farmacêutica e dos laboratórios oficiais passou de US$ 2,108 bilhões para US$ 2,421 bilhões. O saldo negativo de US$ 1,825 bilhão em insumos farmacêuticos se reflete na dependência do país desses itens, essenciais para a produção de medicamentos.

O volume de exportações de medicamentos, que também atingiu um marco histórico, chegando a US$ 1,1 bilhão (com um crescimento de 16,5% em relação ao ano anterior), ainda está aquém das importações, que aumentaram 38%, chegando a US$ 5,6 bilhões, gerando um déficit de US$ 4,5 bilhões no ano passado.

No total, as importações de toda a cadeia farmacêutica (farmoquímicos, insumos, vacinas, derivados de sangue e medicamentos acabados) chegaram a US$ 8,36 bilhões no ano passado, contra exportações de US$ 1,697 bilhão, resultando num saldo negativo de mais de US$ 6,66 bilhões.

Os gastos com importações foram altamente impactados pela aquisição de vacinas para uso humano e derivados do sangue, que aumentaram 76,6% no ano passado, devido às ameaças de epidemias, como a gripe suína (H1N1), gripe aviária (H5N1), entre outras, que levaram o governo a adquirir esses insumos extremamente dispendiosos, depois de ser acusado de lentidão no enfrentamento das crises.

Os números são preocupantes, considerando ser o Brasil o nono mercado de medicamentos do mundo e, disparado, o maior de toda a América Latina, com uma demanda crescente devido ao aquecimento da economia e o maior acesso da população a eles.

Mas há alguma perspectiva de melhora, no longo prazo, uma vez que embora as importações tenham aumentado 164% desde 2005, quando o país adquiria no exterior mais de US$ 3 bilhões, as vendas ao exterior vêm crescendo em ritmo maior, saltando de US$ 613 milhões, em 2005, para o montante atual (de US$ 1,697 bilhão), ou seja, um incremento de 277% nesse período.

“Efetivamente, consolidamos alguns marcos nos últimos cinco anos, entre os quais o suporte para a criação do Laboratório de Análise de Medicamentos e Insumos (Lami), na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), inaugurado em 2008”, observou José Correia da Silva, presidente da Associação Brasileira da Indústria Farmoquímica e de Insumos Farmacêuticos (Abiquif).

“No ano passado, superamos duas barreiras importantes: a dos US$ 500 milhões/ano de exportações do setor farmoquímico, e de US$ 1 bilhão de exportações do setor farmacêutico”, complementou o executivo, também presidente da Formil Química, empresa brasileira fundada em 1973 que produz em Barueri-SP, por síntese química ou extração, insumos farmacêuticos ativos (IFAs) para o mercado interno e externo, atendendo às demandas das indústrias farmacêuticas humana, veterinária e cosmética.

Ele confirma ser a primeira vez que o índice de crescimento nas exportações de insumos farmacêuticos é maior que o das importações, “em condições de mercado aberto”, frisou o dirigente. Há países que adotam mecanismos de reserva de mercado para esses itens.

Ainda que otimista, o dirigente da Abiquif é cauteloso quanto a projeções para os próximos dez anos. “Creio que fazer prognósticos no longo prazo é sempre perigoso. O que podemos destacar é que a luta é sempre pela redução, pois déficit nesse segmento é uma característica de quase todos os países, exceto Índia, China e outros, com mercados menores”, afirmou.

Correia frisou que essa autonomia só se tornou possível nos grandes países devido ao forte controle do segmento por parte do governo, que incentiva a produção local por meio de subsídios. “O problema é que possibilitam também desvios das boas práticas de fabricação e de controle, de qualquer medida nesse sentido. Quando essas excrescências forem corrigidas, muito provavelmente esses países serão deficitários também”, analisou o presidente da Abiquif.

Segundo ele, o ideal é que as importações correspondam a não mais que o dobro das exportações. “O que significa dizer que precisamos exportar muito mais do que agora”, contabilizou Correia. Em 2010, o setor farmoquímico teve um volume de importações quatro vezes maior do que as vendas externas. No entanto, essa relação nos últimos era pior: desde 2008, as importações têm representado 500% do volume de vendas externas da indústria brasileira.

Química e Derivados - Tabela - Química Fina - Cadeia Produtiva Farmacêutica
Tabela 1 - Cadeia Produtiva Farmacêutica: Clique para

O dirigente observa que poucas ações têm sido realizadas pelo governo para reduzir esse saldo e ampliar as vendas brasileiras. “O governo tem feito muito pouco nesse sentido, ao mesmo tempo em que a importação é altamente estimulada pela valorização do real. Mas estamos estudando como poderemos interagir com o governo para termos melhores resultados”, observou Correia.

Ele lembrou que a Abiquif, que em 2013 vai completar trinta anos, foi fundada com a missão básica de promover a produção local e a exportação. “Temos trabalhado duramente nesse sentido e o aumento das exportações é, sem dúvida, resultado do empenho de afiliados e não-afiliados que acreditam na aventura da exportação”, disse.

O executivo frisou ainda que os resultados positivos do ano passado são fruto não só desse trabalho, mas também decorrem da necessidade de o empresariado brasileiro trabalhar muito mais na direção da qualificação industrial e documental de seus fornecedores. Daí a importância do laboratório de análises de insumos farmacêuticos, o primeiro do país.

Química e Derivados - Tabela - Os dez principais itens importados - Química Fina
Tabela 2 - Os dez principais itens importados - Clique para ampliar

De acordo com Correia, não houve nenhuma novidade, em termos de demandas externas, que influenciassem as exportações brasileiras de insumos farmacêuticos. “Ela se deveu principalmente ao desejo dos empresários de buscar alternativas para novos clientes, uma vez que temos uma produção local de qualidade assegurada, assim como a necessidade de prospectar novos mercados”, afirmou.

Para ele, o governo precisa ver as questões da exportação e da internacionalização no setor farmoquímico-farmacêutico como questões de ‘estado’, de forma que a cadeia produtiva e os organismos estatais entendam a necessidade de exportar.

Química e Derivados - Tabela - Os dez principais itens exportados - Química Fina
Tabela 3 - Os dez principais itens exportados - Clique para ampliar

“Incentivar a empresa que se disponha a exportar ou substituir produtos importados é um desafio econômico industrial que precisa ser feito muito rapidamente”, alertou, lembrando que o Brasil é dependente dessas operações por ter tido um parque industrial farmoquímico reduzido nas últimas décadas.

Ele acredita que as parcerias público-privadas (PPPs) nesse setor podem apoiar o esforço nacional para buscar melhores resultados nas exportações e atender o mercado interno. Elas garantem condições especiais às empresas que queiram investir em moléculas de largo uso pelo governo para a produção de remédios nos laboratórios oficiais, principalmente para atender à demanda do SUS.

O dirigente da Abiquif assegura que a entidade pretende manter seus esforços para ampliar a produção e as vendas externas, dando continuidade aos projetos implementados nos últimos anos. “A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e a Financiadora de Pesquisas (Finep) têm sido importantes aliadas em nossa estratégia de difusão da capacitação das empresas locais e das modernas instalações de produção industrial como trunfos para o ingresso no mercado externo”, pontuou.

“O balanço da CPhI e do PSI é muito positivo, pois houve, efetivamente, uma quebra de paradigma ao levarmos os empresários para participarem de eventos no exterior, nos quais além de terem a oportunidade de conhecer melhor o mercado internacional, puderam expor suas vantagens competitivas, com grande sucesso”, afiançou Correia.

A indústria local vem buscando ampliar sua atuação no exterior e também no mercado interno por meio da inovação e da produção de novas moléculas. Segundo Correia, existem várias empresas que estão iniciando a produção de moléculas farmacêuticas no Brasil. Não necessariamente novas, do ponto de vista da inovação radical, mas de moléculas que até então eram importadas, como é o caso da ITF Chemical.

“As expectativas da Abiquif em relação à produção de moléculas no mercado brasileiro são muito promissoras. Existem várias empresas em incubadoras pelo país afora e qualquer uma delas pode desenvolver um ou mais produtos do universo de itens importados”, concluiu Correia.

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Equipado com instrumentos de última geração, o Laboratório de Análise de Medicamentos e Insumos (Lami), localizado no Parque Científico e Tecnológico (Tecnopuc), da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), está apto a realizar análises de alta complexidade e ministrar cursos de capacitação nesse segmento.

Inaugurado em outubro de 2008, o laboratório se tornou um centro de referência na análise de insumos farmacêuticos, além de ser essencial para o desenvolvimento tecnológico e industrial dos setores farmoquímico e farmacêutico brasileiros. Resultado de uma parceria entre a Abiquif, Ministério da Saúde, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Finep e PUC-RS, o laboratório atua em sintonia com os órgãos governamentais e a iniciativa privada, realizando testes e treinando pessoal técnico, gerando, dessa forma, receita para sua manutenção.

O laboratório dispõe dos mais avançados recursos tecnológicos pa­ra caracterizar, avaliar e monitorar os insumos farmacêuticos e, ainda, a sua utilização nas diversas apresentações. Considerado uma estrutura única na América Latina, o laboratório consumiu investimentos da ordem de R$ 4,5 milhões, bancados pelo Ministério da Saúde (50%) e pela Finep (50%).

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