Química: Panorama atual de mercado estimula investimentos

Fábricas químicas e suas clientes operam cheias e mercado mundial sustenta preços elevados

O agregado de atividades econômicas referentes à química inicia 2005 com expectativas otimistas, ao contrário de períodos anteriores, sempre congestionados de nuvens cinzentas no horizonte.

Com céu de brigadeiro, o setor espera resultados tão robustos quanto os obtidos durante 2004, quando obteve faturamento líquido de US$ 58,7 bilhões, 28,7% superior ao de 2003.

Cotado em reais, esse faturamento cresceu apenas 23,2%. A diferença representa a valorização do real frente ao dólar.

Considerando apenas os produtos químicos destinados à subseqüente industrialização, o faturamento alcançou US$ 33 milhões, 37% a mais que em 2003.

O crescimento da demanda interna, além do aumento das exportações (de US$ 4,1 bilhões para US$ 5,0 bilhões), ocupou mais as unidades produtivas nacionais, que operaram com média anual por volta de 87%, contra as médias de 82%, em 2003, e 80%, em 2002.

Química e Derivados: Perspectivas: perspct_quimica. ©QD

No aspecto internacional, a boa exportação não conseguiu compensar o aumento do déficit químico, que passou de US$ 4,8 bilhões para US$ 6,7 bilhões em 2004. As importações chegaram a US$ 11,7 bilhões, alimentadas pela maior compra de fertilizantes, defensivos agrícolas e ingredientes farmacêuticos, responsáveis por US$ 5 bilhões de compras externas.

“Os números indicam a necessidade de o setor voltar a investir para atender à evolução da demanda”, analisou o presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Carlos Mariani Bittencourt.

Ao mesmo tempo, ele salienta que o País apresenta reduzido número de projetos de investimentos no setor, pelo menos com conclusão prevista até 2008.

Mesmo assim, esses projetos pouco ajudariam a reduzir o déficit setorial, pois os itens já mencionados, os mais importantes na relação dos importados, dificilmente seriam feitos no Brasil.

Nos fertilizantes, as fontes de potássio situam-se todas no exterior e os nitrogenados não apresentam condições de suprimento de matéria-prima (gás natural) e logística satisfatórias para reversão do quadro.

Nos agroquímicos e farmacêuticos, a estrutura mundial de produção de ingredientes ativos se baseia em unidades produtivas únicas de escala mundial, poucas da quais de fácil implantação no País.

Para o segmento petroquímico, o principal entrave diz respeito à garantia de suprimento de matérias-primas, como gás natural, nafta e condensados de petróleo, a preços internacionais.

Química e Derivados: Perspectivas: perspct_quimica2. ©QD

“O déficit químico apenas aponta oportunidades de investimento, mais nada”, afirmou Mariani. Uma vez que o Brasil é uma economia aberta e conta com câmbio flutuante, não há problema nenhum. “Só a Europa e o Japão têm superávit químico em todo o mundo”, considerou.

Além disso, essas importações ajudam a compor cadeias produtivas de outros setores econômicos, por sua vez exportadores.

É o caso da agroindústria: os fertilizantes e defensivos são consumidos na produção de soja e milho, exportados na forma de grãos, produtos industrializados ou como carnes, pois são ingredientes para a formulação de rações para aves e mamíferos.

A China, por exemplo, importa 60% dos termoplásticos que transforma e depois exporta. “São os campeões do draw-back”, disse.

Segundo Mariani, 2005 herda de 2004 um panorama de negócios animador.

A demanda por produtos químicos encontra-se robusta em todos os países, mantendo altos os preços.

Do ponto de vista dos custos, a elevação drástica das cotações do petróleo ocorrida em 2004, de US$ 30 para a casa dos US$ 50 por barril tende a se estabilizar, embora em uma média bem acima da anterior.

O dirigente setorial salienta o fato de a economia mundial pouco ter sido afetada pela elevação do insumo.

Química e Derivados: Perspectivas: Mariani - nem a alta do petróleo atrapalhou setor. ©QD Foto - Cuca Jorge
Mariani – nem a alta do petróleo atrapalhou setor.

“A inflação no Brasil não disparou, nem em nenhum lugar do mundo, ou seja, os preços foram contidos dentro das cadeias produtivas antes de chegar aos consumidores”, comentou.

No setor petroquímico, a nafta pegou a onda altista do petróleo: subiu de US$ 333/ t em janeiro de 2004 para US$ 480/t em outubro.

“Mas a alta de preços só ocorreu e se sustentou por efeito da demanda mundial”, disse.

Segundo informou, há poucos projetos de novas capacidades produtivas confirmados também no exterior.

Os poucos verificados situam-se no Oriente Médio, valendo-se de gás natural a preços módicos. “Se a demanda mundial continuar crescendo, os preços continuarão subindo e alguns produtos podem tornar-se escassos”, disse.

Os indicadores econômicos nacionais apóiam uma visão otimista para 2005. “A economia nacional vai bem em todos os setores e já se percebe uma recuperação de poder de compra da população”, afirmou Mariani.

A partir do segundo trimestre do ano, ele prevê aumento significativo da oferta de crédito internacional para projetos de investimento em países do porte do Brasil.

Química – Final animador

O economista e consultor José Roberto Mendonça de Barros, da MB Consultores, iniciou sua apresentação no Encontro Anual da Indústria Química (Enaiq), em dezembro, comentando as vicissitudes do trabalho de “pitonisa econômica”.

Em um breve mea culpa, ele lembrou que suas previsões para 2004 eram pessimistas, indicando expansão máxima do PIB de 3,5%. O crescimento obtido foi de 4,9%.

“Os dados disponíveis na ocasião justificavam a análise mais conservadora, mas os resultados posteriores da exportação de produtos, influenciada pelo câmbio flutuante, mudaram completamente a situação”, explicou.

Segundo o experiente economista, a conjuntura econômica mundial favoreceu o desempenho brasileiro em 2004.

Com todo o mundo desenvolvido em forte recuperação, liderado pelos Estados Unidos, e com a contínua expansão chinesa, até as commodities agrícolas e industriais (químicas inclusive) alcançaram cotações muito remuneradoras.

Essa pujança, no entanto, pode ser um problema para 2005. A demanda mundial por petróleo e gás natural continua muito alta, mantendo os preços bem acima dos praticados em 2002, antes da guerra no Iraque.

Também o desempenho chinês preocupa, pois o crescimento segue próximo a 10% ao ano, embora o próprio governo da China já tenha promovido medidas para conter a expansão.

“Algumas cidades chinesas já sofrem com falta de água e luz, e a inflação se torna preocupante”, explicou. O crescimento chinês absorve a produção de aço e de metais em todo o mundo.

Além disso, no panorama internacional, a situação da economia norte-americana não é estimulante. Os déficits gêmeos (fiscal e de contas correntes) assumem proporções monumentais e exigirão medidas drásticas de contenção.

Segundo Mendonça de Barros, as famílias americanas apresentam grau zero de poupança, enquanto o governo de lá está em poupança negativa.

“A diferença entre produção e consumo é financiada pelas economias asiáticas, como China e Japão, que absorvem dólares, mesmo com prejuízo, para manter fluxos de exportação”, afirmou.

“Caso os bancos centrais de lá resolvam desovar dólares, a economia mundial ficará toda desarrumada.”

No campo interno, a economia brasileira vai fazendo sua lição de casa. A situação das contas correntes nacionais melhorou muito, embora o superávit comercial de US$ 21 bilhões ainda seja pequeno, igual às dívidas de curto prazo.

“O governo está exportando a riqueza nacional, é o que se espera de quem precisa pagar as dívidas que contraiu no passado”, disse. A redução da dívida externa do setor privado também indica que investimentos não estão sendo feitos no País.

Para Mendonça de Barros, a meta de 4,5% de inflação anual pode ser considerada ambiciosa. O Chile, economia apontada como modelo, levou 12 anos para chegar a esse patamar de inflação anual.

“Como a meta é árdua, os juros devem se manter muito elevados durante o ano”, considerou.

Em 2004, a inflação foi de 7,4% (pelo IPCA). Ao mesmo tempo, o aumento da atividade econômica redunda em aumento da massa salarial da ordem de 4%, ou seja, menos da metade da queda verificada em 2003. Porém isso também pressiona a inflação.

A previsão do analista é de uma expansão do PIB da ordem de 3,7% em 2005, abaixo dos 4,9% de 2004.

A redução do índice pode ser explicada pelo fato de a base de comparação ser maior e também pela expectativa pessimista em relação a produtos agrícolas.

A soja, por exemplo, encontrará preços menores no mercado externo e terá custos de produção mais elevados, por causa da ocorrência da ferrugem. A carga tributária se aproxima de 36,5% do PIB, desestimulando a atividade econômica.

“Basta verificar que a formação bruta de capital fixo é muito baixa; os produtores preferem apenas aumentar o grau de ocupação das fábricas a investir em novas capacidades”, lamentou.

O zelo oficial com os desembolsos públicos, que impede até mesmo a recuperação da malha viária nacional, preocupa os investidores. “Temos graves deficiências de infra-estrutura e não há iniciativas para saná-los”, criticou.

Agronegócio preocupa

O diretor da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda), Eduardo Daher confirma a preocupação com o desempenho do agronegócio neste ano.

Química e Derivados: Perspectivas: Daher - safras dos EUA e Europa preocupam. ©QD Foto - Cuca Jorge
Daher – safras dos EUA e Europa preocupam.

“A expectativa de safra de soja e milho nos EUA e na Europa é muito alta para este ano e, se confirmada, vai derrubar os preços internacionais”, comentou.

Porém, segundo informou, já foram detectados os primeiros focos de ocorrência da ferrugem asiática nos EUA, que, como o Brasil, ainda não tinha a doença fúngica.

Dependo do grau de infestação, a safra daquele país pode ser afetada, tal como aconteceu com a brasileira em 2004.

“Mas, se a infestação lá for muito forte, pode ser que faltem fungicidas em todo o mundo, ou pelo menos seu preço fique ainda mais alto”, ponderou.

De outra forma, caso o mercado de carnes (suína, bovina e de aves) se fortaleça, as vendas de grãos ficarão asseguradas.

O encarecimento da produção e as baixas previsões de preços tornaram mais conservadoras as empresas fornecedoras de insumos para o setor. “Estamos muito mais seletivos na concessão de créditos, de modo a evitar exposição elevada a prejuízos”, explicou.

Em 2004, o setor de fertilizantes apresentou ligeira queda no volume comercializado. Segundo Daher, essa redução foi explicada pelo fato de 2003 ter sido excepcional para o setor, inclusive porque muitos produtores anteciparam suas compras para formação de hedge.

Além disso, em 2004 ocorreram problemas logísticos, o maior deles representado pela falta de navios para fretes no Atlântico Sul, quase todos atraídos para a região da China.

Tintas crescem

A indústria brasileira de tintas espera crescer 5%, em faturamento, durante 2005, segundo Dilson Ferreira, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati).

Em 2004, a recuperação de negócios acarretou crescimento de 14% no faturamento, alcançando total líquido estimado em US$ 1,5 bilhão.

Na linha imobiliária, a tendência é de crescimento de vendas, ao redor de 5%, motivada pela expansão do crédito imobiliário, que passou a contar com maior volume de recursos, além da expansão dos limites financiados para também favorecer a classe média.

O segmento, que detém 60% do volume produzido no País, pleiteava essas mudanças há anos.

Na parte industrial, o setor automotivo, maior cliente do setor, obteve bons resultados em 2004. Só não foram melhores porque foi grande a exportação de veículos no regime CKD (desmontados, com pintura no destino).

A partir da recuperação do poder aquisitivo local, as vendas internas devem ser reforçadas, com bons reflexos para os fornecedores de tintas, que esperam aumentar suas vendas em torno de 5%.

Entre os fatores negativos da economia nacional, Ferreira destaca os juros e os impostos muito acima do razoável, impedindo melhor desempenho de todas as atividades produtivas.

Química e Derivados: Perspectivas: Ferreira - Insumos das tintas ficaram mais caros. ©QD Foto - Cuca Jorge
Ferreira – Insumos das tintas ficaram mais caros.

“Também os nossos insumos, como o aço, dióxido de titânio e os derivados de petróleo, apresentam demanda mundial aquecida, com constantes elevações de preços”, afirmou.

Como o mercado nem sempre aceita o repasse direto dos custos, a indústria acaba absorvendo-os, cortando a lucratividade.

Petroquímica desperta

O setor petroquímico deixou para trás mais um longo período sem investimentos e inicia novo ciclo de inversões justificado pela elevação dos preços mundiais e dos índices de ocupação de capacidades produtivas existentes.

A Rio Polímeros, associação entre os grupos Suzano, Unipar e Petrobrás, inicia operações comerciais em alguns meses, na Baixada Fluminense, com potencial para fazer 500 mil t/ano de polietilenos a partir de gás natural.

Além disso, o pólo petroquímico paulista recebeu apoio explícito do Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, para a muito aguardada (e sempre postergada) ampliação, agora prevista para 2007.

Combinando suprimentos de gás natural, gases de refinaria e nafta (importada), a Petroquímica União poderá acrescentar 240 mil t/ano à sua capacidade nominal de 500 mil t/ano de eteno.

Como prevê aumento também da pirólise de cargas líquidas, os derivados aromáticos também apresentarão maior oferta na região.

Com base nessa disponibilidade de matérias-primas, a Companhia Brasileira de Estireno (CBE), do grupo Unigel, pretende duplicar a capacidade produtiva atual de 120 mil t/ano de monômero de estireno, instalada em Cubatão-SP.

Química e Derivados: Perspectivas: Santos - estireno paulista crescerá com a PqU. ©QD Foto - Cuca Jorge
Santos – estireno paulista crescerá com a PqU.

“A demanda interna já superou a marca de 520 mil t/ano em 2004, exigindo importação de aproximadamente 100 mil t/ano do monômero”, explicou Roberto Noronha Santos, diretor de desenvolvimento e novos negócios do grupo.

Seus dados apontam uma tendência de aumento do consumo de estireno de 5% a 7,5% ao ano.

A produção de resinas termoplásticas (poliestireno) consome perto de 60% da oferta local do monômero.

Outros usos importantes se encontram na fabricação de borracha sintética (SBR), látices (estireno-butadiênicos) e na obtenção de resinas para revestimentos.

Todas essas aplicações estão em fase de ampliação de produção. “No campo dos polímeros existe ainda capacidade ociosa a ocupar”, comentou.

Além da ampliação da oferta, o projeto da CBE, que inclui a substituição da linha atual de produção do etilbenzeno por uma unidade maior, trará vantagens do ponto de vista ambiental.

“Estamos buscando fornecedores das tecnologias mais modernas do mundo, tanto no etilbenzeno, quanto na produção do monômero”, afirmou Santos.

A unidade de EB usará zeólitas em fase líquida, alternativa mais amigável que a atual, com cloreto de alumínio. Já a obtenção do monômero contará com desidrogenação catalítica moderna, que também será aplicada na unidade antiga, após atualização.

“Faremos o dobro dos produtos com volume de emissões muito menor “, informou o diretor. Essa melhoria é fundamental, inclusive, para a obtenção das licenças ambientais.

O investimento total previsto é de US$ 70 milhões, em parte a financiar, e as operações estão sendo conduzidas de modo a paralisar a produção por, no máximo, 45 dias, em julho de 2007, acompanhando o cronograma da PqU.

No ano passado, os preços do estireno dispararam depois de terem amargado anos de baixa constante. O movimento pode ser explicado pela ocorrência de dificuldades operacionais em alguns produtores e também pela forte valorização do benzeno.

O aromático recuperou mercado na formulação de gasolina nos EUA, depois de ter sido ameaçado de substituição pelo MTBE.

“Os americanos voltaram atrás e desistiram do MTBE provocando uma alta do benzeno que afetou toda a cadeia produtiva dependente do aromático”, explicou.

No caso do Brasil, o suprimento de benzeno não deve ser problema, pois a gasolina nacional não o emprega como componente, sendo o País um exportador significativo.

Nem no mercado de solventes o benzeno tem vez: foi proibido por determinação dos Ministérios da Saúde e do Trabalho. Há disponibilidade do produto nas refinarias da Petrobrás, nas centrais petroquímicas e nas coquerias siderúrgicas.

Já o eteno depende das expansões petroquímicas. “Nosso fornecedor único da olefina já é e continuará sendo a PqU”, afirmou. Em ambos os casos, Santos prevê que os preços acompanhem as tendências internacionais.

O grupo Unigel também atua no campo dos acrílicos, produzindo tanto o monômero metacrílico (MMA), quanto o polímero (PMMA) e chapas, além de acrilatos. A Proquigel Química, instalada em Candeias-BA, ampliará até o final deste ano a produção de MMA, das atuais 30 mil para 40 mil t/ano.

“A médio prazo pretendemos dobrar essa capacidade”, informou Santos. A linha de PMMA, de 15 mil t/ano, também deve ser duplicada. O diretor comenta que 2004 foi muito bom para a cadeia metacrílica, tanto nas chapas, quanto na resina, muito consumida para a fabricação de autopeças.

Distribuição animada

Depois de fechar 2004 com aumento de 27,7% no faturamento, as distribuidoras de produtos químicos no Brasil iniciam 2005 com esperança de ampliar tanto o faturamento quanto a participação no comércio total de produtos.

Química e Derivados: Perspectivas: Medrano - 'Custo Brasília' aumenta tributação. ©QD Foto - Cuca Jorge
Medrano – ‘Custo Brasília’ aumenta tributação.

“Certamente não cresceremos tanto quanto em 2004, cujo resultado tem por base o fraquíssimo ano anterior, mas há espaço para conseguir entre 10% e 15% a mais”, comentou o presidente da Associquim/Sincoquim, Rubens Medrano.

Ele justifica o entusiasmo pelo bom desempenho industrial, em especial o de produtos destinados a outros países, e também como resultado da revogação da cumulatividade dos impostos PIS e Cofins, embora estes tenham sido majorados.

“A incidência em cascata nos tirava competitividade; agora podemos oferecer mais serviços aos fabricantes”, explicou. Também ajudará muito a melhoria da imagem setorial a partir da implantação do Programa de Distribuição Responsável (Prodir).

Medrano explica que a perda de valor do dólar frente ao real foi compensada pela elevação das cotações internacionais dos produtos químicos. Ele prevê a estabilização do câmbio na faixa entre R$ 2,70 e R$ 2,80 por US$ ao longo de 2005. “Para o comércio, não importa muito a cotação, ruim é a excessiva volatilidade da moeda, que representa um risco elevado para as operações”, explicou.

Junto com as entidades representativas da atividade comercial, o comércio químico desenvolve campanha contra a alta carga tributária, porém propõe a mudança do enfoque.

“Não há como reduzir essa carga a curto prazo porque as despesas do País são muito altas”, disse. “Por isso, é preciso reduzir o ‘Custo Brasília’, os gastos excessivos dos três poderes, e aumentar sua eficiência geral.”

A elevação da taxa primária de juros pelo Banco Central é classificada de medida excessivamente cautelosa. “Se acabar com a inflação, talvez valha a pena; prefiro dar um voto de confiança ao governo nesse ponto”, afirmou.

Equipamentos

Dólar fraco e preço do aço inibem crescimento

Indústria de bens de capital, apesar do bom desempenho de 2004, prevê queda no ritmo de expansão

Química e Derivados: Perspectivas: Equipamentos de saneamento - recuperação. ©QD Foto - Divulgação
Equipamentos de saneamento – recuperação.

Apesar do clima de otimismo advindo da recuperação da economia brasileira, 2005 corre o risco de não ser tão positivo para o setor de bens de capital mecânicos como foi o ano passado. Há motivos concretos para a desconfiança.

Para começar, a desvalorização do dólar tem inibido a curva de crescimento das exportações, não só de máquinas como das indústrias clientes, tirando força de uma estratégia que vinha dando bons resultados.

Contam também contra as expectativas a queda da cotação internacional das commodities agrícolas, que deve arrefecer o consumo de máquinas colheitadeiras e de outros equipamentos da área, e os brutais aumentos do preço do aço, cujo valor dobrou em 2004 com firme possibilidade de continuar a crescer em 2005.

Esses três fatores apontados em recente levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) devem, em uma análise menos pessimista, diminuir o ritmo de crescimento do setor, vindo de um ano considerado muito bom.

Mesmo ainda sem competitividade internacional, tanto em escala produtiva como em tecnologia, os fabricantes finalmente conseguiram se recuperar em 2004 de uma longa época de letargia pós-abertura de mercado da década de 90.

Pelo menos a melhora se revela nos últimos números divulgados pela Abimaq: o faturamento total de 2004, de cerca de R$ 44 bilhões, cresceu 28,7% sobre 2003, e as vendas externas, mais representativas no quesito competitividade, subiram 35%, ante os US$ 4,94 bilhões exportados em 2003.

Trata-se do melhor resultado dos últimos 15 anos, a despeito do aumento de custo produtivo do setor também considerável, em alguns casos de cerca de 20%.

A dúvida com 2005, porém, se fundamenta em notada queda nos pedidos do último trimestre de 2004, que já provocam sinais negativos e fazem a Abimaq estimar crescimento de apenas 10% no faturamento e de 15% nas exportações do próximo ano.

A cautela ganha mais força ao se levar em conta que as importações brasileiras de máquinas registraram alta em 2004, de 13,8%, totalizando US$ 6,6 bilhões.

Com o ritmo de valorização do real em curso, esse déficit comercial tem chances reais de crescer ainda mais. Principalmente acrescentando-se à tendência a falta de competitividade inerente aos custos tributários brasileiros e, mais especificamente, a proveniente do aumento de 100% no preço do aço, responsável por 17% do custo de produção de máquinas e equipamentos.

Se depender da grita e da mobilização do setor, porém, o cenário preocupante pode ser minimizado.

Além de reclamações formais e informais ao Governo Federal (a Abimaq, por exemplo, ultimamente alardeia releases de repúdio à postura do Banco Central com relação à queda do dólar, à elevação das taxas de juros e à política de metas inflacionárias), os fabricantes também agem por meio de investimentos em modernização.

Segundo a Abimaq, entre 2001 e 2003, os fabricantes de máquinas e equipamentos investiram em média R$ 3 bilhões ao ano (a maior parte em manutenção).

Mas no ano passado, em virtude do desempenho recorde de vendas, as inversões dobraram para R$ 6 bilhões.

Segundo a Abimaq, a desconfiança com 2005 não impedirá os fabricantes de aumentarem em 25% os investimentos em modernização e ampliação, para uma média de R$ 7,5 bilhões.

Com os fabricantes ciosos de ganhar escala e mercados mais exigentes, o aumento se justificaria, com a ressalva de poder gerar ociosidade no futuro próximo, caso a desconfiança com o desempenho de 2005 se concretize.

Modermaq entusiasma

Outro fator para acreditar no maior investimento é o desenvolvimento da nova linha de financiamento para renovação do parque produtivo nacional, o Modermaq, do BNDES, lançada em agosto de 2004.

Um primeiro levantamento do BNDES revela que até 30 de dezembro de 2004 o Modermaq aprovou R$ 136,8 milhões em 299 operações. E a análise da Abimaq sobre a linha é positiva.

Com recursos de R$ 2,5 bilhões (até julho de 2005), juros de 14,95% ao ano, cobertura de 90% do valor financiado, prestações fixas e prazos de pagamento de até cinco anos, com seis meses de carência, a linha deve responder por um terço dos investimentos previstos pela Abimaq para 2005.

Mas o programa oficial não recebe só elogios. Voltado originariamente para micros e pequenas empresas, o Modermaq na verdade privilegiou bem mais as maiores, com faturamento acima de R$ 60 milhões/ano, com 76% do valor liberado até agora.

Apesar dessa distorção poder ser resolvida na medida em que o programa ganhar mais visibilidade, outros problemas só podem ser solucionados com mudanças profundas na formatação do Modermaq. A principal delas tem sido motivo de críticas dos dirigentes setoriais.

Trata-se de uma emenda que permite o financiamento de máquinas usadas, o que fere o princípio de “renovar” a produção nacional, ao permitir a compra de equipamentos velhos.

A outra falha apontada é o valor disponibilizado para financiamento (R$ 2,5 bilhões), considerado baixo para atender as necessidades do setor.

Mais cautela

Embora seja positiva a análise geral do setor de bens de capital mecânicos, que inclui máquinas e equipamentos para os mais diversos usos, quando se especifica o enfoque para um determinado segmento a leitura pode ser mais preocupante.

Isso tanto com relação ao desempenho de 2004 como na perspectiva para 2005. É o que ocorre com o mercado de bombas industriais, tradicional segmento que reúne 47 associados na Abimaq.

Segundo informa o presidente da câmara setorial de bombas e motobombas (CSBM), Corrado Vallo, mesmo que os associados tenham registrado em 2004 um aumento no faturamento total de cerca de 17,65%, passando de R$ 765 milhões para R$ 900 milhões (os números ainda não fecharam), a análise realista da situação não permite muita euforia.

Química e Derivados: Perspectivas: Vallo - alta no custo de produção anulou acréscimo no faturamento. ©QD Foto - Cuca Jorge
Vallo – alta no custo de produção anulou acréscimo no faturamento.

“Se considerarmos que os aumentos de custo para o segmento, até outubro de 2004, foram da ordem de 19%, vê-se claramente que não houve aumento real do faturamento”, explica Vallo, também diretor da fabricante Omel.

Por aumento de custos, Vallo cita, de início, o aço, insumo importantíssimo para o mercado de bombas, especialmente nas empregadas em óleo, gás e petroquímica. Nesse caso, o presidente da CSBM lembra que os aumentos foram superiores a 100% e devem continuar a subir.

Mas houve também outros insumos cooperando negativamente com o custo de produção das bombas. Segundo ele, o ferro fundido, cobre, aços planos e motores elétricos tiveram acréscimos de preço entre 30% e 50%, bem acima da inflação declarada de 6%.

As expectativas para 2005 também precisam ser cautelosas, na opinião do presidente da CSBM. Além da contínua escalada de preços e juros, os motivos para cautela ainda são os mesmos de muitos anos.

Bombas importadas do Extremo Oriente continuam a chegar ao País com preços baixos, em virtude das vantagens que seus países de origem oferecem, com juros de até 3% ao ano em financiamentos de exportação, contra uma média de 3% ao mês no Brasil.

Química e Derivados: Perspectivas: Mercado bombas espera obras na indústrias. ©QD Foto - KSB Divulgação
Mercado bombas espera obras na indústrias.

“Essa desvantagem competitiva tem potencial duplicado com a nossa atual taxa de câmbio, que favorece ao extremo o importador e impossibilita nossa participação no mercado externo”, diz. “Isso sem falar que o câmbio também favorece a compra de instalações completas em regime de turn-key, com seus acessórios todos incorporados.”

Nem mesmo a novidade do Modermaq, para Vallo, atenua a sua leitura crítica de 2005. Para ele, embora seja uma idéia boa, a demora na implementação, a burocracia e a tramitação difícil para conseguir os financiamentos têm prejudicado o uso da linha.

“Nenhum de nossos associados utilizou o Modermaq”, revela o dirigente. Além disso, no seu entender, a taxa de juros empregada (14,95% ao ano) não é propriamente de “pai para filho”, mas ainda superior às praticadas no exterior.

Apesar do aparente desânimo, Corrado Vallo acredita em negócios interessantes para 2005. Há grandes investimentos anunciados em todos os setores, sobretudo em petróleo e gás (refino e produção), petroquímica, açúcar e álcool, siderurgia e papel e celulose.

Com relação à Petrobrás, as expectativas são especiais. Afinal de contas, com seu plano total de investimentos de quase US$ 70 bilhões até 2010, do qual uma parte já foi aplicada, dá para se imaginar uma grande quantidade de bombas em oleodutos e plataformas.

“Não é possível esquecer também que neste ano saem as primeiras licitações destinadas ao refino, que ampliará o leque de fornecedores de bombas para a estatal”, diz.

Segundo ele, somente na ampliação da Refinaria do Vale do Paraíba (Revap), de São José dos Campos-SP, haverá um investimento de US$ 800 milhões.

Como maior compradora de bombas do País, responsável por cerca de 20% das vendas dos fabricantes, a Petrobrás terá condições de movimentar bem o segmento, mas não será a única a atrair a atenção.

A siderurgia tem investimentos da ordem de US$ 10 bilhões, nos próximos cinco anos, e projetos isolados, como a da transposição do Rio São Francisco, devem beneficiar os fornecedores de grandes bombas e bombas de irrigação.

Uma outra eterna promessa, que pode se tornar realidade em virtude da proximidade das eleições de 2006, é o saneamento básico, até o momento esquecido pelo governo Lula.

Dinheiro parado

De acordo com o presidente do Sindicato Nacional de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental (Sindesam), Gilson Cassini Afonso, mais do que de crescimento, 2005 tem chances de ser um ano de recuperação.

Isso porque, ao contrário do restante do mercado de equipamentos, 2004 foi o pior ano da história da indústria de saneamento.

Os motivos são a ausência de projetos, de licitações das companhias estaduais e das municipalidades.

O mais triste do desempenho de 2004 foi saber que havia dinheiro para ser investido: R$ 1,9 bilhão liberado para futuros projetos pela Caixa Econômica Federal, em dezembro de 2003, e R$ 2,5 bilhões, em maio de 2004.

Ocorre que, por motivos “difíceis de compreender”, segundo Cassini, praticamente nada foi contratado ou desembolsado.

Uma tentativa de compreensão talvez envolva reconhecer a incompetência, tanto da União como dos possíveis tomadores de empréstimo, em fazer bom uso do dinheiro que, por sinal, está bem aquém das necessidades do País. Para universalizar os serviços de água e esgoto, a demanda é de R$ 10 bilhões por ano, nas próximas duas décadas.

Mas a chance de 2005 pelo menos tirar da ociosidade os fabricantes de equipamentos para saneamento público e privado não é gratuita. Por ser um ano pré-eleitoral, Cassini acredita que a partir do primeiro semestre as licitações começarão a surgir.

Química e Derivados: Perspectivas: Cassini teme desmobilização tecnológica no saneamento. ©QD Foto - Cuca Jorge
Cassini teme desmobilização tecnológica no saneamento.

“As obras em saneamento demoram no mínimo doze meses, por isso os governantes só começariam a colher os frutos eleitorais em 2006”, diz.

Levando em conta a urgência para a população carente em contar com o esgoto tratado e água encanada, é triste saber que o setor funciona ainda assim.

Aliás, a urgência desses investimentos, para Cassini, também serve para os fornecedores de sistemas e equipamentos.

“Estamos correndo o sério risco de desmobilizar tecnologicamente o setor”, diz. E o pior, segundo ele, não é o lado fabril tornar-se ocioso e com o tempo obsoleto, mas principalmente a desmotivação do pessoal da área. Afinal de contas, com a falta de trabalho, a mão-de-obra qualificada começa migrar para outros meios de ganhar a vida.

“O Brasil demorou no mínimo trinta anos para formar técnicos e engenheiros para saneamento, que já começam a mudar de ocupação”, completa Cassini.

Também diretor da Aquamec, fabricante nacional de sistemas e equipamentos para água e esgoto, de São Paulo, Cassini afirma que, no caso das fábricas, o que vem ocorrendo é a migração de serviços para outros setores.

A Aquamec, por exemplo, tem procurado aumentar as vendas de equipamentos para mineração. Outras empresas da área, de origem multinacional, procuram aumentar a venda inter-company para suas matrizes.

Além da sonhada recuperação com as obras de saneamento, o presidente do Sindesam soma a seu otimismo a retomada da indústria.

Sua esperança é a de que ainda no primeiro semestre a fase de investimentos em ampliações, em curso em algumas indústrias de transformação, chegue ao fim-do-tubo, ou seja, nos efluentes.

“Primeiro as indústrias aumentam a capacidade e depois começam a ampliar as estações para tratar a maior quantidade de efluentes gerados”, diz.

Com as perspectivas delineadas, basta esperar para ver se o otimismo do executivo se transforma ou não em obras.

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