Edificações – Tecnologias da química ajudam indústria da construção

Edificações – Tecnologias da química ajudam indústria da construção a atender norma de desempenho em edificações

 

Esta é a terceira matéria da série de reportagens sobre as soluções da indústria química para a construção civil. Nas últimas edições, a Química e Derivados mostrou que as inovações da indústria de produtos químicos podem aumentar a eficiência energética das edificações, reduzindo até 40% do valor da conta de luz, e que a diversificação de materiais nos sistemas construtivos – associando o concreto ao plástico, por exemplo – pode levar à redução das emissões de gases de efeito estufa e ao aumento da produtividade das obras. Para fechar a série, falaremos sobre as colaborações da química para a melhoria do desempenho das edificações. 

 

Em vigor há dois anos, norma técnica regula parâmetros mínimos de desempenho para construções habitacionais. a indústria química fornece soluções para melhorar o desempenho térmico, o isolamento acústico, a durabilidade, a resistência ao fogo, entre outras exigências da abnt.

Neste mês de julho, a norma ABNT NBR 15575:2013, que regula o desempenho em edificações habitacionais, completa dois anos em vigor. Dividido em seis partes, o texto da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) define parâmetros de desempenho gerais, requisitos para os sistemas estruturais, de pisos, de vedações verticais internas e externas, de coberturas e hidrossanitários.

Para especialistas do setor de construção civil, a norma não impôs orientações difíceis de serem cumpridas, apenas regulou um setor que carecia de definições mais objetivas. “Para aqueles que já vinham praticando uma engenharia de qualidade, a norma de desempenho não causou nenhuma surpresa significativa. Só veio a agregar conceitos que até então não estavam muito claros. A partir desse processo, em que se estabeleceram metodologias, critérios e requisitos, criaram-se parâmetros para definir o que é o bom desempenho”, afirma José Maria Paula Soares, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil da Região Noroeste do Paraná (Sinduscon Maringá), entidade associada à Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

Química e Derivados, Piso com Elastopave®, composto de poliuretano para pisos drenantes com até 87% de permeabilidade.
Piso com Elastopave®, composto de poliuretano para pisos drenantes com até 87% de permeabilidade.

A indústria química é uma das fornecedoras de soluções ao mercado da construção para atendimento aos requisitos da norma, principalmente nas exigências referentes à resistência a impactos, segurança contra incêndio e resistência ao fogo, ao desempenho térmico, à isolação sonora e impermeabilidade. Além disso, a norma recomenda privilegiar as soluções que minimizem o consumo de energia, água e matérias-primas. Como já mostramos nas reportagens anteriores desta série publicada por Química e Derivados, o uso de materiais como o poliuretano e o poliestireno expandido (EPS) ajudam no controle térmico das edificações, reduzindo o consumo de energia para refrigeração ou aquecimento do ambiente, além de minimizar o desperdício de água no canteiro de obras. Segundo Flávia Ribeiro, coordenadora de Estratégia para a Indústria da Construção da Basf, microcápsulas aplicadas no dry wall podem reduzir em até 34% o uso do ar condicionado. Também existem pigmentos para tintas com a função de deixar as superfícies mais frias, placas de EPS que garantem até 40% de economia de energia, hiperplastificantes que aumentam a hidratação do cimento, reduzindo o uso de água em até 40%, e pisos drenantes com até 87% de permeabilidade, evitando o empoçamento e possibilitando o aproveitamento da água da chuva. Ainda, a utilização de sistemas construtivos mais leves, proporcionados pelas inovações da química, exige menos matérias-primas para estruturar as edificações.

Ana Paula Freyre, responsável técnica pela área de Construction and Coatings da Dow no Brasil, ressalta a participação da química na melhoria do desempenho em durabilidade dos materiais utilizados nas edificações, como aditivos e polímeros que deixam a argamassa mais forte e robusta. Também já existem, no mercado de fabricação brasileira, tecnologias de revestimento de alto desempenho, que apresentam resistência a produtos agressivos, impactos e temperaturas extremas. Os parâmetros de impermeabilidade determinados pela ABNT NBR 15575 também podem ser alcançados com revestimentos desenvolvidos pela indústria química. Em relação à segurança contra incêndios, produtos como o Basotect® promovem o isolamento acústico com elevada resistência ao fogo. De acordo com a coordenadora da Basf, Flávia Ribeiro, trata-se de uma espuma orgânica que não emite fumaça escura e tóxica, não propagando chamas em situações de incêndio, atende as normas de segurança ao fogo determinadas pelo Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo e não oferece risco à saúde ou ao meio ambiente, além de ter ação fungistática e bacteriostática.

Química e Derivados,Pisos permeáveis têm baixo consumo de água e de areia em sua fabricação e impedem o empoçamento.
Pisos permeáveis têm baixo consumo de água e de areia em sua fabricação e impedem o empoçamento.

Todas essas inovações da química para a construção civil foram geradas a partir da demanda não apenas da norma, mas das necessidades do mercado e da procura por soluções mais sustentáveis. Na opinião da especialista Flávia Ribeiro, os produtos inovadores ainda podem trazer inúmeros benefícios para as construções. Quem corrobora essa avaliação é a pesquisadora do Laboratório de Componentes e Sistemas Construtivos do Centro Tecnológico do Ambiente Construído do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Fernanda Belizario Silva. Para ela, no âmbito dos fabricantes de materiais, vários produtos estão passando por modificações. “No caso das esquadrias, por exemplo, têm sido observadas algumas mudanças nas vedações e configurações de perfis para atendimento aos requisitos de acústica da ABNT NBR 15575. Alguns fornecedores têm alterado também a forma de se comunicar com os seus clientes, informando dados de desempenho ou até mesmo publicando ferramentas para especificação com base em desempenho”, observa a pesquisadora do IPT. Ela percebe ainda uma mudança nos padrões da cadeia da construção, pois as construtoras passaram a exigir dos fabricantes as caracterizações de desempenho de seus produtos. “A obtenção de dados de desempenho dos materiais, componentes e sistemas utilizados nas edificações em si pode ser considerada um grande avanço para o setor de construção civil, conquistado em parte pela norma de desempenho. Com isto, espera-se que haja melhorias significativas nas edificações habitacionais”, prevê Fernanda.

Segundo análise da pesquisadora, já é possível observar mudanças estruturais implementadas a partir da vigência da norma, em 2013. “Antes havia uma tendência do setor [de construção] de redução das espessuras de paredes e lajes, visando a redução do custo. Para atendimento aos requisitos de acústica, por exemplo, tem sido necessário adequar algumas especificações, como adotar laje com contrapiso em lugar da chamada ‘laje zero’, e aumentar espessuras de lajes e de paredes”, afirma Fernanda.

Além de parametrizar, a norma define as responsabilidades de cada ator em uma edificação, atribuindo também ao consumidor o dever de realizar as manutenções recomendadas pelos fabricantes, a fim de garantir o desempenho prometido. Segundo o advogado especializado em construção civil e consultor da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Carlos Pinto Del Mar, a norma permite aferir a qualidade do produto e o cumprimento das obrigações pelos fornecedores, mas também prevê a responsabilidade dos usuários. “As administradoras condominiais deverão cumprir a norma no tocante à gestão de uma parte fundamental, indispensável para a obtenção da qualidade e vida útil dos sistemas construtivos, que é a realização da manutenção. Cabe aos usuários realizar a manutenção necessária e recomendada, como condição para que o sistema construtivo atenda o desempenho que dele se espera, e caberá às administradoras condominiais gerir a realização dessa manutenção pelos usuários ou terceiros contratados”.

De acordo com Del Mar, que também participou da Comissão de Estudos da ABNT NBR 15575, além das construtoras, incorporadoras e projetistas, o texto atingiu indiretamente também os fabricantes de materiais para construção. “A maioria dos insumos já é objeto de normas técnicas específicas, que terão que ser revisadas para se ajustarem aos conceitos da norma de desempenho e estabelecerem, para os diversos produtos e materiais de que tratam, referências de durabilidade e desempenho”. Nesse sentido, o presidente do Sinduscon Maringá, José Maria Paula Soares, chama a atenção para a importância de haver uma forte sinergia entre os diferentes setores que servem a indústria da construção para melhorar continuamente o desempenho das edificações. “Vários setores têm de trabalhar juntos nesse processo para atender a norma”, destaca.

Química e Derivados, Basotect® promove o isolamento acústico e não oferece risco à saúde ou ao meio ambiente.
Basotect® promove o isolamento acústico e não oferece risco à saúde ou ao meio ambiente.

Por se tratar de uma norma da ABNT não citada por Lei, não há órgão fiscalizador. No entanto, segundo o advogado Del Mar, “para o Direito, o atendimento às normas técnicas é uma presunção de regularidade”, ou seja, se uma edificação estiver adequada aos parâmetros da norma, o Direito automaticamente supõe que a obra seja regular. A pesquisadora do IPT, Fernanda Belizario Silva complementa que o próprio setor se fiscaliza, por meio, por exemplo, da exigência de dados de desempenho dos fornecedores pelas construtoras. Para Fernanda, o usuário também pode ser um agente de fiscalização, pela avaliação dos requisitos de desempenho.

Na opinião do advogado Del Mar, a norma altera a forma de desenvolver a construção que era adotada até então no País, que ele chama de ‘cultura da construção’. “Como toda mudança cultural, leva um certo tempo para ser assimilada e implementada. Isso acontece com menos dificuldade nos grandes centros urbanos, em que as empresas já têm uma tradição de atendimento às normas técnicas. Mas, em um país com dimensões continentais como o Brasil, em que há diferenças de toda ordem, culturais, econômicas, de mão de obra, de acesso a materiais, de custos, é natural que em algumas regiões haja mais dificuldade e demora no atendimento aos padrões de qualidade estabelecidos, demandando um período de transição”. Esses dois anos passados de vigência da norma ainda não foram suficientes para que essa padronização fosse concluída, mas, para o presidente do Sinduscon Maringá, “o setor vai reescrever a história da engenharia no momento em que todo ele aderir ao processo”. Soares concorda que essas mudanças impõem alterações de paradigma nos processos construtivos e no relacionamento dos construtores com os consumidores. “As relações passam a ser de reciprocidade, na cadeia produtiva como um todo”, conclui José Maria Paula Soares.

Adriana Silva Nakamura é jornalista e assessora de comunicação da Abiquim

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