Protetores solares – Produtos agregam funções

Química e Derivados - Protetores solares - Produtos agregam funções ©QD Foto: iStockPhoto

Protetores solares – Produtos agregam funções além da defesa da pele contra a radiação UV

A multifuncionalidade se consagrou como a grande tendência da indústria de protetores solares. Por isso, um sistema de filtros fotoestáveis e com amplo espectro, mesmo que atenda a todos os quesitos de segurança e eficácia, hoje acaba incluindo benefícios extras na sua composição. Em paralelo a esse movimento, há uma corrida dos formuladores para abastecer o mercado com lançamentos capazes de assegurar sensorial agradável (seco), alta espalhabilidade e controle da oleosidade da pele.

Existe uma nova geração de sistemas multifuncionais de fotoproteção. A indústria inovou e passou a entregar ao consumidor muito mais do que a proteção ultravioleta. Por isso, é cada vez mais comum adicionar benefícios de tratamento aos protetores solares, com a incorporação de ativos diversos como os antioxidantes, hidratantes e seborreguladores.

Química e Derivados - Priscila: hidratação evita danos à pele pela ação solar
Priscila: hidratação evita danos à pele pela ação solar

A hidratação, aliás, é um dos itens essenciais. Priscila Moncayo, gerente científica de fotoproteção da Natura, explica que se a exposição ao sol for intensa, além de perder líquido pelos poros, as camadas mais internas da pele podem se desidratar durante o processo inflamatório dos tecidos, ressecando-a a ponto de rachar e descamar. Por isso, hidratar já no momento da aplicação do protetor solar é uma estratégia bastante eficaz frente aos danos causados pela radiação solar.

Ainda sobre o caráter multifuncional dos produtos, o consultor e pesquisador em cosmetologia Lucas Portilho, farmacêutico e diretor científico do Instituto de Cosmetologia e Ciências da Pele, destaca as formulações com propriedades antipoluição. O surgimento desse segmento, em alguma medida, trata-se de uma resposta dos formuladores à comprovação científica de que a poluição possui a capacidade de danificar a barreira da pele, levando a um processo inflamatório.

“O benefício de um ativo antipoluição não se restringe à proteção da pele de metais, cigarro, poluição veicular, dentre outros; mas oferece uma proteção, por exemplo, clareadora ou proteção contra manchas na pele causadas pela poluição”, reforça o farmacêutico-bioquímico Alberto Keidi Kurebayashi, diretor da Protocolo Consultoria em Dermocosmética.

Outra tendência do setor dá conta do combate à radiação visível. Por ser de médio poder energético, ela atinge camadas intermediárias da pele, podendo desencadear o envelhecimento precoce e os melasmas. Conforme explica Corina Godoy, farmacêutica de desenvolvimento de produto, da Pink Cheeks, essa luz corresponde a cerca de 40% da radiação total que chega ao planeta. “É a iluminação que somos capazes de enxergar, que é capaz de iluminar objetos, tornando-os visíveis”, diz. Porém, além de ser uma radiação solar, a luz visível provém da iluminação das lâmpadas artificiais e das telas de equipamentos eletrônicos como televisão, celular, computador e tablet.

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Química e Derivados - Corina: é preciso proteger também contra a luz visível
Corina: é preciso proteger também contra a luz visível

Apesar de este tipo de proteção ainda se restringir a um nicho, essa tecnologia permeia os novos projetos e movimenta o setor. A Allergisa, empresa pioneira em testes de segurança e eficácia de produtos cosméticos, não por acaso, tem desenvolvido propostas de metodologias para atender este tipo de demanda. “Os tópicos em alta são proteção à luz visível e infravermelho. Recentemente, vem aparecendo informação científica sobre os mecanismos de dano dessas faixas espectrais. Assim, mecanismos de proteção efetivos podem ser desenvolvidos”, diz Lucas Guerra, diretor de pesquisa da Allergisa. Em tempo, sobre os raios infravermelhos ainda não há um consenso científico acerca dos seus efeitos deletérios.

A procura por fotoprotetores com cor (ou com base) também está em ascensão. Esses produtos trazem em sua composição os óxidos de ferro e justamente por isso proporcionam um efeito similar ao da maquiagem. Mas não é só isso. O que mais tem chamado a atenção dos formuladores é o fato de servirem como barreira física à radiação da luz visível.

“Os protetores com cor vieram para ficar”, anuncia Portilho, porém faz uma ressalva. Segundo ele, assumiu-se como verdade que protetor com cor protege mais do que aquele sem cor. Mas nem sempre essa informação é verdadeira, pois a proteção depende da cobertura, e a proteção a mais se restringe à luz visível. “Se considerarmos dois protetores com FPS 30 e UVA 10. Um possui cor de base e o outro não. A proteção contra raios UVB e UVA é a mesma, mas a proteção contra a luz visível tende a ser maior no protetor com cor de base”, exemplifica.

O setor – O mercado de proteção solar encerrou o ano passado com R$ 1,4 bilhão de faturamento, um crescimento de 16,8% em relação a 2018, segundo o Painel de Dados de Mercado da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec). Apesar da retração econômica dos últimos anos (altas taxas de desemprego e inflação), nota-se o aumento da conscientização do consumidor brasileiro quanto à importância do uso de produtos de fotoproteção.

O problema é outro. Há algum tempo, o avanço do setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos é comprometido pela tributação. A carga tributária média ao consumidor final do protetor solar é de 35% (esse é um percentual médio, oscilando para cada unidade da federação por conta dos regimes tributários estaduais). Vale dizer que essa categoria passou do oitavo produto mais tributado do setor industrial (em 2014) para o segundo (dados atuais).

Apesar disso, a indústria brasileira de cosméticos segue investindo em inovações. Na avaliação de Kurebayashi, os produtos cosméticos produzidos no Brasil são hoje uma referência global pela sua qualidade, conceito, segurança, eficácia e sensorial. Esse último quesito, aliás, é uma das principais exigências do consumidor, que não tolera sensorial ruim. O diretor explica que atender essa premissa é um grande desafio, porque os formuladores precisam lidar com a larga paleta de tons da pele e a miscigenação da população, além da variação climática de um país extenso como o Brasil.

Por falar nas particularidades do mercado nacional, deve-se considerar também a oleosidade da pele do brasileiro, reforçada pelo clima tropical (quente e úmido). Segundo Guerra, essa característica faz com que os protetores solares adquiram textura pegajosa e “derretam” no rosto. “Atuar em cima disso tem sido o maior ponto de diferenciação entre os produtos premium no mercado”, afirma.

No geral, os fabricantes de protetores solares têm respondido ativamente às tendências e às necessidades dos consumidores. Com a proposta de associar tratamentos específicos à proteção solar facial, a marca Chronos, da Natura, atua em várias frentes. O Natura Chronos Protetor Clareador FPS 70 é um exemplo. Por conta da ação conjunta do extrato da aroeira e da niacinamida, ele age contra a formação de manchas, clareando áreas escurecidas e uniformizando o tom da pele.

Química e Derivados - Multiprotetor FPS 50 (esq.) e FPS 30 antioleosidade
Multiprotetor FPS 50 (esq.) e FPS 30 antioleosidade

O Natura Chronos Protetor Antioleosidade Redutor de Poros FPS 30, por sua vez, contém o prebiótico de babaçu, ativo com ação de absorção e controle da oleosidade, e o P-Refinyl, ativo clássico da dermatologia. Oferecido na versão incolor e em duas cores de pigmentação, o produto possui uma combinação de filtros que proporciona UVB 30 e UVA 10. “Eles atuam absorvendo a oleosidade e minimizando os poros, com controle da oleosidade de forma imediata e ao longo de todo o dia, além de hidratar a pele”, comenta Priscila.

Outro destaque da linha trata-se do Chronos Fluido Multiprotetor FPS 50, um protetor facial de uso diário que além de proteger a pele das radiações UVA (fator 18) e UVB (fator 50), atua contra agressores que aceleram o envelhecimento precoce. “Ele reduz em 62% a perda de colágeno da pele, hidrata e minimiza os efeitos da interação da poluição com a pele”, diz Priscila. Segundo ela, o protetor possui toque seco e aveludado, além de não apresentar resíduo branco.

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Química e Derivados - Renata: protetor esportivo resiste a 2h debaixo d’água
Renata: protetor esportivo resiste a 2h debaixo d’água

Focada no segmento esportivo, a Pink Cheeks também investe em produtos multifuncionais. Não por acaso, os fotoprotetores Pink Stick e Shine foram considerados “o filtro do ano” em 2017 e 2018, sucessivamente, pela Abihpec. O primeiro, aliás, é o carro-chefe da marca. Ele tem fórmula enriquecida com vitamina E, antioxidantes que combatem os radicais livres e o envelhecimento cutâneo, além de oferecer opções de tonalidades que ajudam a uniformizar as imperfeições da pele. “O Pink Stick é composto por filtros químicos nobres e filtros físicos que se complementam para oferecer altíssima proteção contra os raios UVA e UVB”, afirma a publicitária Renata Chaim, responsável pelo marketing da empresa.

Enquanto o Shine reúne propriedades de proteção solar e de efeito iluminador, com resistência à água e ao suor, em um formato dry oil. Outro destaque da marca fica por conta do Sports’It (FPS 75 e FPUVA 45), eleito o filtro solar do ano de 2019 pela Abihpec. O produto, entre outros atributos, possui resistência – comprovada por laboratórios credenciados – de duas horas de submersão na água, sem perder seu fator de proteção original. Hipoalergênico, não possui cheiro e proporciona toque seco, segundo o fabricante.

Para Renata, a empresa tem sofrido o impacto negativo do isolamento social. “Mesmo com a necessidade do uso de proteção solar dentro de casa, o consumo cai”, relata. No entanto, os investimentos devem continuar. Em 2019, ampliou a linha de filtro solar e até o final do ano prevê mais um ou dois lançamentos. “A depender da recuperação do mercado depois da pandemia”, avisa.

Essa linha fronteiriça entre as indústrias farmacêutica e cosmética se mostra cada vez mais tênue. Prova disso é o recente anúncio da aquisição da marca de fotoprotetor Sunmax (ex-GKS) pelo grupo farmacêutico Megalabs. No Brasil, a empresa tem duas fábricas (Rio de Janeiro-RJ e Porto Alegre-RS) e está em processo de transferência de tecnologia para produzir protetores solares por aqui. Vale dizer que o grupo também comprou as marcas Fisiogel e Clindo.

Química e Derivados - Principal fábrica da Megalabs está localizada no Uruguai
Principal fábrica da Megalabs está localizada no Uruguai

A companhia já flertava com a área cosmética. No final do ano passado, lançou a linha Umbrella, principal marca da Medihealth, uma linha de especialidade dermatológica do grupo. O primeiro produto a chegar ao país foi o Umbrella Intelligent 99+, um protetor solar de amplo espectro que possui alto efeito antioxidante e protege a pele dos danos causados pelas radiações UVA, UVB, UV-Visível e infravermelha (IR-A). O sistema combina nanotecnologia, biotecnologia e a liberação inteligente de moléculas dermatologicamente ativas. “O Umbrella Intelligent potencializa os mecanismos de prevenção, fotoproteção, reparação e reestruturação da pele”, afirma Marcelo Forti, gerente geral da Megalabs Brasil.

A tecnologia Solhydra presente nos produtos Sunmax, por sua vez, atende a requisitos de hidratação, proteção e prevenção do ressecamento da pele. “Ela contém avançados filtros UV de amplo espectro e reconhecida fotoestabilidade”, conclui Forti.

Química e Derivados - Linha Sunmax aplica tecnologia para hidratar e proteger a pele
Linha Sunmax aplica tecnologia para hidratar e proteger a pele
Química e Derivados - Kurebayashi: cosméticos feitos no país são referência global
Kurebayashi: cosméticos feitos no país são referência global
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Legislação – No Mercosul e no Brasil, os protetores solares são classificados como cosméticos por meio da Resolução GMC 07/ 2005 e Resolução RDC 07/2015, permitindo amplo acesso do consumidor pelos mais variados canais de distribuição e varejo. Segundo Kurebayashi, no Brasil, o produto entra na categoria de cosmético, com exigência de registro, seguindo as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nos Estados Unidos, por sua vez, o Food and Drug Administration (FDA) entende que o uso do fotoprotetor está diretamente relacionado à saúde e à prevenção do câncer de pele e, portanto, ele é considerado um medicamento de venda OTC (over-the-counter).

Mas apesar do protetor solar ser considerado um medicamento OTC, os norte-americanos têm fácil acesso ao produto, pois é permitida a sua livre comercialização em diversos tipos de estabelecimentos comerciais. Já por aqui, as regras são outras. Na prática, em território nacional, os medicamentos (incluindo os OTCs) são produtos que possuem sua comercialização restrita exclusivamente a drogarias e farmácias. Por isso, a Abihpec ressalta que uma eventual mudança na classificação dos protetores solares seria um ato contraditório e prejudicial ao consumidor brasileiro.

Na história recente do mercado, Kurebayashi destaca a Resolução da Diretoria Colegiada – RDC 288, de 4 de junho de 2019. Trata-se de uma atualização dos requisitos técnicos estabelecidos pela RDC 07/2015 para a regularização de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfume, de modo que apenas documentos com relevância sanitária sejam requisitos obrigatórios para essa regularização. “A eliminação de documentos que não contribuam para a avaliação de segurança e eficácia dos produtos permite que o setor regulado e a Anvisa concentrem esforços na avaliação daquilo que é relevante”, observa o diretor da Protocolo Consultoria em Dermocosmética.

Entre os diversos aprimoramentos sanitários propostos, ele comenta a exclusão da apresentação do Certificado de Venda Livre Consularizado (CVL). Outros pontos foram a inclusão da faixa de teor de ingredientes ativos em produtos das categorias repelentes, protetores solares e alisantes, e a inclusão da determinação das substâncias ou grupo de substâncias funcionais principais no caso de repelentes de insetos e protetores solares ou, quando previsto em regulamento específico, nos estudos de estabilidade.

Também fundamental no universo dos protetores solares são as regras globais para estudo de Fator de Proteção Solar (FPS). “A incongruência entre importância e acurácia dos métodos é o que torna o tema relevante“, afirma Guerra. Por isso, a International Organization for Standardization (ISO) age intensamente para harmonizar e melhorar a performance dos métodos de quantificação da fotoproteção. “Eles (os métodos) são extremamente complexos e apresentam grande variabilidade. Ou seja, atualmente são bastante deficitários”, atesta.

No final das contas, o mercado como um todo ganha com essa padronização e melhoria de precisão dos procedimentos. As indústrias que exportam conseguem trabalhar com uma coerência de resposta para a mesma fórmula, e o consumidor passa a contar com o mesmo grau de proteção independentemente de onde comprar o produto. Vale dizer que a norma ISO é aceita em todos os países, exceto EUA, onde o FDA prevalece.

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“O Brasil está bem atualizado quanto às normas de fotoproteção”, ressalta Guerra. Aliás, por aqui, as duas metodologias são aceitas. O que muda entre os países é a lista de ingredientes permitidos (e máxima concentração) e as regras de rotulagem. O senão se dá quanto ao controle de qualidade produtivo. Não existe regulação específica e, muitas vezes, o produto testado na fase de desenvolvimento é diferente do que sai da fábrica.

Química e Derivados - Portilho: ensaios de eficácia precisam ser atualizados
Portilho: ensaios de eficácia precisam ser atualizados

O consultor e pesquisador em cosmetologia Lucas Portilho aponta uma grande polêmica atual: o uso de seres humanos em alguns tipos de estudos de eficácia da proteção com raios UVB. “Num mundo onde estudos de dock molecular (modelos matemáticos usados para prever resultados) são uma realidade, irradiar as costas de pessoas parece um pouco absurdo”, observa. No entanto, mudanças estão por vir. A ISO tem trabalhado para propor alternativas menos invasivas ou in vitro. “Isso ainda deve levar alguns anos de trabalho intensivo para ser viável”, prevê Guerra.

Controversos mesmo são os dados apresentados em congressos internacionais associando a morte de corais aos filtros solares presentes nos fotoprotetores. Para Portilho, alguns médicos, no entanto, isentaram os químicos, indicando o aquecimento global como o responsável. De qualquer forma, alguns estados norte-americanos baniram filtros químicos derivados de cânfora, benzofenonas e metoxicinamatos, por considerá-los um risco aos corais.

Por aqui, nenhum respingo da polêmica. O mercado nacional não sofreu restrições nesse sentido. Aliás, segundo Portilho, no país são aprovadas todas as classes de absorvedores nas formulações. “No Brasil, costumo dizer que estamos no paraíso dos filtros”, conclui.

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