Processos melhorados deixam rótulos limpos

FiSA: Ingredientes seguros e processos melhorados deixam rótulos limpos

Química e Derivados - Processos melhorados deixam rótulos limpos - FiSA 2019

Termos como plant based e clean label ecoaram como um mantra entre os expositores da Food Ingredients South America – FiSA, realizada entre os dias 21 e 23 de agosto, no Transamerica Expo Center. Mais do que uma tendência, o movimento em prol da naturalidade consagrou os alimentos à base de vegetais e os produtos com rótulos considerados limpos, ou seja, com pouco ou quase nenhum aditivo químico.

“O consumidor quer um produto como o que a vovó fazia”. Essa fala de Laurence Botinhon, gerente da Kraft Heinz, proferida na abertura do congresso Summit Future of Nutrition, resumiu o clima do evento. Na ocasião, especialistas da indústria de alimentos foram unânimes ao reconhecer que o conceito clean label criou um novo paradigma para o setor. Hoje restritos a um nicho, os produtos com esse perfil seguramente responderão por uma parcela significativa do mercado de ingredientes. “O clean label não tem volta. Ele vai crescer forte no futuro”, Botinhon ressaltou.

A falta de regulamentação para essa categoria entrou na discussão. Segundo Botinhon, trata-se de um entrave, sobretudo porque essa lacuna dificulta a comunicação com o consumidor. Aliás, ter transparência e fluidez no diálogo com a sociedade é de suma importância para o avanço da indústria de alimentos, defendeu Sergio Pinto, executivo de novos negócios e inovação da BRF. Para ele, o consumidor quer saber o que está ingerindo e quais benefícios a alimentação lhe trará.

Por falar em regulamentação, o coordenador técnico do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), Raul Amaral, propôs uma reflexão. Segundo ele, é preciso ter em mente que se o alimento foi aprovado para consumo ele é seguro e não contém veneno, como muitos aditivos vêm sendo estigmatizados. A referência se deu em relação a conservantes e emulsificantes. “O regulatório precisa ser respeitado”, frisou.

A importância de ter domínio sobre a tecnologia de processo e de embalagem foi outro ponto chave da conversa. “A indústria não é feita somente de ingredientes”, destacou Renata do Nascimento, diretora de pesquisa e desenvolvimento da Seara. Segundo ela, para desenvolver produtos naturais, é preciso ter este conceito bem claro. Como exemplo, expôs um case da Seara. A companhia desenvolveu linhas de salsicha e linguiça sem a utilização de fosfato, apenas explorando o processo.

“Tem muita modificação física que podemos fazer sem entrar na transformação química”, corroborou Adriana Rached, diretora de estratégia e desenvolvimento de negócios da Ingredion. Juliana Lofrese, gerente de Nutrição, Saúde & Bem-Estar da Nestlé, endossou a ideia. “As novas tecnologias têm ajudado muito. Hoje não preciso de um edulcorante para fazer um produto sem açúcar”, afirmou.

Química e Derivados - Proteína de ervilhas Tupro foi apresentada pela DuPont
Proteína de ervilhas Tupro foi apresentada pela DuPont

Inovações – Na categoria de carnes, Renata apontou alguns avanços, como os produtos conservados e produzidos com ingredientes 100% naturais da Seara. Não por acaso, a linha Nature, de produtos cárneos feitos sem conservantes e sem aditivos, foi a vencedora na categoria de Produto Mais Inovador da Fi Innovation Awards 2019, premiação dos desenvolvimentos mais inovadores da indústria de alimentos, realizada no primeiro dia da exposição.

O segundo lugar ficou com o hambúrguer vegano da Superbom. Ele apresenta aroma, sabor, cor e textura semelhantes ao de origem animal e traz o apelo plant based, por ser feito à base de ervilha. A terceira colocada foi a Best Veja, da Atlhetica Nutrition. Trata-se de uma proteína vegetal que conta com adoçantes naturais e baixa dosagem de sódio.

A premiação contemplou ainda o ingrediente funcional mais inovador. A Naturex consagrou-se campeã e vice-campeã na categoria. O primeiro lugar ficou com o Ultimine, fonte de ferro orgânico produzido mediante um processo patenteado de fermentação do koji (Aspergillus oryzae). A segunda colocação foi do TurmiPure Gold, extrato de cúrcuma padronizado em curcuminoides e formulado para ter a mesma funcionalidade de um extrato de cúrcuma convencional, porém em dosagens cinco vezes mais baixas.

A Gelita ganhou o terceiro lugar com o Tendoforte. Trata-se de peptídeos bioativos de colágeno, indicados para estimular a biossíntese de novas moléculas da matriz extracelular em tendões e ligamentos. No quesito Produto Funcional Mais Inovador só houve um vencedor: o Olichia, um óleo composto de chia e azeite de oliva, da Produza Foods.

Química e Derivados - Amido funcional Novation Lumina forma cremes suaves
Amido funcional Novation Lumina forma cremes suaves

Entre os ingredientes mais inovadores venceram o Gran Flavor (Duas Rodas), Danisco Vege (DuPont) e Versasweet 1024 (Ingredion), nessa ordem. O Gran Flavor é um potencializador e fixador de aroma, enquanto o ingrediente da DuPont permite a produção de alimentos e bebidas fermentadas à base de vegetais. Já o produto da Ingredion atende à tendência de redução de açúcar nos alimentos. É um xarope de glicose com baixo teor de mono e dissacarídeos.

Química e Derivados - Márcia: consumidor procura produtos com apelo saudável
Márcia: consumidor procura produtos com apelo saudável

Novas soluções – As inovações não ficaram restritas ao pavilhão do Fi Innovation Awards. Setecentas e cinquenta marcas estiveram reunidas para apresentar aos visitantes as mais recentes soluções da indústria de ingredientes alimentícios. “A FiSA antecipa tendências de mercado, como o fez ao prever a crescente conscientização de consumidores, que hoje estão ávidos por produtos com apelos saudáveis”, afirmou Márcia Gonçalves, gerente da FiSA.

Em linha com esse novo perfil de compra, a BRF Ingredients destacou o portfólio de aromas naturais de carne. Obtido pelo cozimento lento e em baixa temperatura da carne que fica no osso após o refilamento, o produto foi apresentado como alternativa ao aditivo natural, nas versões líquido e em pó. “Ele é uma resposta para a alimentação natural, rica em sabor e sem adição de condimentos (aditivos, temperos, corantes ou saborizantes)”, disse Gabriela Dal Vesco, gerente de marketing e inovação da BRF Ingredients. Foram mais de três anos dedicados ao desenvolvimento. “Chegamos ao aroma por causa do processo, da tecnologia e da inovação”, ressaltou.

O sulfato de condroitina também esteve em destaque no estande. Não somente por se tratar de um produto novo para a companhia, mas, sobretudo, por ser nutracêutico. Fabricado com matérias-primas tiradas de suínos, aves e bovinos, o ingrediente ajuda no reestabelecimento das cartilagens. “Um diferencial nosso é o controle que temos de toda a cadeia produtiva”, afirmou Gabriela. Foram expostas ainda as linhas de farinha de empanamento, óleos e gorduras vegetais, além da proteína de soja. Essa última, segundo a fabricante, é tratada termicamente e apresenta ótimas características funcionais e sensoriais.

A importância do processo se fez presente também na exposição da Döhler. A companhia apresentou seu portfólio de frutas e vegetais liofilizados. “É um congelado enzimático que faz com que permaneçam as cores, os princípios e toda a funcionalidade da fruta ou vegetal”, explicou Jane Vieira, gerente de marketing da América do Sul, da Döhler América Latina. A empresa exibiu também a linha de concentrado de aveia, desenvolvida para reduzir o açúcar de modo natural nas formulações, além de sucos fermentados sem álcool, feitos a partir de bactéria láctea. “Nesse processo, são usados os açúcares próprios da fruta. É a frutose da fruta. Por isso, no rótulo você declara como um açúcar de fruta”, pontuou Jane.

Química e Derivados - Sucos da Döhler são adoçados pelas próprias frutas
Sucos da Döhler são adoçados pelas próprias frutas

A Döhler também divulgou sua plataforma de proteínas de fonte vegetal e de concentrados de cor, além da infusão de stévia, esta foi exibida com a proposta de o fabricante poder declará-la como chá em vez de edulcorante.

A Corbion, empresa líder de mercado em ácido lático e seus derivados, divulgou a aquisição da Granotec. “Fortalecemos a nossa presença no segmento de panificação no mercado brasileiro”, comentou Ingrid Spengler, gestora de marketing da Corbion. Um destaque ficou por conta das linhas de farinha de malte e a massa madre, produtos com apelo sensorial capazes de favorecer a personalização da produção com textura, aroma e sabor diferenciados.

Química e Derivados - Compra da Granotec fortaleceu Corbion em panificação
Compra da Granotec fortaleceu Corbion em panificação

Para a exposição, a companhia montou um menu com aplicações de seus ingredientes, como o sanduíche de carne louca, feito com o Purasal HiPure P Plus – sal potássico do ácido L-lático natural, produzido via fermentação de açúcar. Ele é indicado para prolongar a vida útil da carne. Outro exemplo ficou por conta do molho chimichurri, criado com PuraQ Arome NA4, um aromatizante natural sabor carne, capaz de reduzir a taxa de crescimento de microrganismos e diminuir o teor de sódio na formulação. “Estamos abordando as tendências clean label para carnes e pães, sempre pensando na saudabilidade que os consumidores têm buscado”, disse Fabiola Grasso, coordenadora do marketing (Latam) da Corbion.

Carolina Melo, gerente técnica da Ingredion, aproveitou a feira para falar sobre o mercado do plant based. Segundo ela, 19% dos americanos já utilizam a proteína vegetal como principal fonte de consumo e a tendência é esse movimento se fortalecer no país. “Entre os consumidores brasileiros, 27% dizem já estar reduzindo o consumo de carne”, comentou. Uma das linhas que atendem a essa demanda é a Vitessence Pulse. Ela é composta por concentrados proteicos de três fontes: fava, lentilha ou ervilha. Carolina também destacou a linha de farinhas de leguminosa Homecraft Pulse. Disponível em quatro fontes: lentilha, ervilha, grão de bico e fava, o ingrediente melhora o perfil nutricional e agrega crocância ao alimento.

Outro exemplo ficou por conta da linha de amidos nativos funcionais, Novation Lumina. O ingrediente oferece as funcionalidades dos amidos modificados e assegura ao fabricante a possibilidade de usar uma rotulagem mais simples. Esse amido auxilia na criação de texturas cremosas e suaves, sem impactar nas cores claras e em sabores delicados, por exemplo.

Química e Derivados - Os vencedores do Fi Innovation Awards 2019
Os vencedores do Fi Innovation Awards 2019

A participação da sueca AAK teve a proposta de reforçar sua imagem no mercado nacional como importante player de gordura vegetal especial e semiespecial. Os produtos são utilizados como substitutos de gordura láctea e manteiga de cacau, como alternativa zero trans para recheios de chocolate e produtos de confeitaria.

“Estamos trabalhando mais forte do que em outros anos na sustentabilidade”, comentou Rossana Cabral, gerente de marketing e desenvolvimento da AAK. Não por acaso, no estande estavam oferecendo hambúrguer vegano para degustação. “Ele traz uma solução de gordura específica para o segmento plant based”, comentou sem entrar em detalhes.

Cores naturais – O apelo à naturalidade vem calcando os novos desenvolvimentos em corantes. A Roha apresentou o Infusion, uma gama de cores baseadas em extratos e corantes naturais. O pulo do gato é destinar-se a aplicações em bases oleosas. “Viemos preencher uma lacuna do mercado”, apontou Wilson Onorio, gerente técnico da Roha Group. Conforme explicou, o processo permite que os corantes hidrossolúveis se tornem dispersíveis em óleo, otimizando as características físicas dos pigmentos e tornando a coloração homogênea e estável.

Química e Derivados - Roha se destacou com corantes naturais em base oleosa
Roha se destacou com corantes naturais em base oleosa

Outro ponto importante se refere à intensidade da coloração. Em geral, em bases oleosas é difícil replicar a tonalidade obtida nas soluções aquosas. Um exemplo é o vermelho, antes limitado ao carmim. “Trouxemos uma alternativa natural que consegue ser vibrante”, destacou Onorio. O produto – basicamente o pigmento e óleo de girassol – é recomendado para uso em cobertura de bolos, sobremesas e recheio de biscoitos.

Química e Derivados - Corantes da GNT são extraídos de frutas e hortaliças
Corantes da GNT são extraídos de frutas e hortaliças

Com o slogan “colorir alimentos com alimentos”, a holandesa GNT distribuía sorvetes coloridos com a Exberry, sua marca de concentrados de cor naturais para alimentos e bebidas. Fabricado com água e métodos físicos, como corte, prensagem, filtração e mistura, os ingredientes são comercializados em pó ou na forma líquida. “Nossos concentrados de frutas e vegetais trazem a vantagem da rotulagem limpa”, observou Javier Brill, diretor de vendas da GNT. Nos sorvetes as cores escolhidas para a exposição foram kiwi (espirulina e cúrcuma), laranja com pimenta dedo de moça (pimentões vermelhos e cúrcuma), red velvet (beterraba e pimentões vermelhos) e lavanda com mel (beterraba e espirulina).

O lançamento da Lonza foram duas cápsulas de hidroxipropilmetilcelulose (HPMC), nas cores espirulina azul e a purple carrot. Thatyane Almeida, representando a Lonza, explicou que o diferencial dessa linha VCaps Plus se refere à pigmentação.

No primeiro caso, vem de algas marinhas, e no segundo, da cenoura roxa. “As cápsulas têm um grande apelo visual e refletem o aumento substancial da demanda por produtos veganos”, comentou. Vale lembrar que, em geral, as cápsulas disponíveis no mercado são de gelatina – feita com colágeno retirado de osso e pele de animais. A Lonza tem no portfólio as duas opções. Hoje, cerca de 70% da linha é de cápsulas de origem animal. “Nosso sonho de consumo é que a venda dos produtos veganos supere a dos de gelatina”, afirmou. Na comparação entre os dois tipos, as cápsulas de HPMC custam o dobro do preço.

Além de visitar os estandes, o público participou também de diversas atrações como o Seminar Solutions e o Industry Insights, espaços reservados para palestras de breve duração sobre tendências, cases e lançamentos, e o Tasting Experience, área em que foi possível degustar algumas aplicações de inovações desenvolvidas pela indústria, como o Trupro Pea Protein, da DuPont Nutrition & Biosciences, e a Giralec, da Lasenor. O primeiro é uma proteína de ervilha isolada, aplicada ali no refresco Piña CoolVeg, enquanto a Giralec é uma lecitina de girassol, que, no caso, estava na formulação de um chocolate.

O público fez fila para conseguir provar as novidades do Tasting Experience. Agora resta saber se o interesse comprova o sucesso do movimento em prol da saudabilidade ou trata-se apenas de um modismo.

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