Precisamos falar da indústria

O agronegócio brasileiro é motivo de orgulho, assim como a nossa capacidade de exportação de commodities, ela traz divisas, garantindo posição privilegiada nos rankings mundiais.

Mas esses segmentos da pauta exportadora são de capital intensivo e não geram os empregos suficientes para a nossa população.

Diferentemente da agropecuária e da exploração mineral, o setor industrial se destaca pela sua complexidade e sofisticação.

De todos os subsetores produtivos é o que mais exerce os efeitos do encadeamento intersetorial, inovações e progresso técnico.

O desenvolvimento das atividades industriais “carrega” junto muitos outros setores, e oferece empregos formais e bem remunerados.

É pesaroso ver o encolhimento da indústria brasileira. Perdemos o bonde da industrialização e da sofisticação produtiva.

Passamos de uma situação em que um engenheiro recém-formado podia escolher entre diversas oportunidades de empregos para aquela em que os engenheiros viraram suco.

E, agora, os engenheiros são trocados por especialistas em planejamento tributário.

Estamos há uma década sem crescimento do PIB per capita, amargando uma taxa elevada de desemprego.

Dos anos 80 para cá, a discussão sobre economia, papel do Estado e da abertura comercial virou hegemonicamente para o discurso do mercado.

 Precisamos falar da indústria ©QD Foto: iStockPhoto
Milton Rego é presidente da ABICLOR

“Durante anos, nosso governo gastou demais, regulamentou demais, fazendo com que nossas taxas de crescimento diminuíssem e nossa inflação e taxas de juros aumentassem. Tomamos medidas ousadas para corrigir esses problemas e estamos confiantes de que terão sucesso – não amanhã nem na próxima semana, mas nos próximos meses e anos.”

A citação, que caberia na boca de qualquer economista neoliberal de hoje é de Ronald Reagan, republicano que governou os EUA entre 1981 e 1989.

Tal postura impregnou o ambiente da mídia econômica. Ela induz, de uma maneira resumida, a uma percepção de que a economia é gerida por leis universais, baseada na matemática e que o livre mercado (a contrapartida dessas leis) é sempre a melhor solução, para o capital, para as relações entre agentes econômicos e entre os países.

Mas nem todos os economistas pensam assim. Para Dani Rodrik, professor em Harvard, a resposta certa a qualquer pergunta sobre política econômica é: “depende”. E parece que é assim mesmo, tanto que a forma dos governos em lidar com a crise de 2008 e agora com a pandemia nada teve de neoliberal.

A discussão é relevante, pois conforme o modelo conceitual em que se analisa a indústria no Brasil, tanto o diagnóstico como a cura serão diferentes. Seguem alguns problemas que precisam ser equacionados:

-As empresas têm dificuldade para planejar o futuro, o que inibe e posterga os investimentos. Um planejamento financeiro bem feito ganha de qualquer ação de melhoria no chão de fábrica.

Enquanto as questões tributárias tiverem mais relevância, ficaremos patinando na competitividade.

– Questões relacionadas ao custo Brasil, e a energia está entre as mais importantes, impedem avanços. Para as indústrias eletrointensivas é a diferença entre ser competitivo ou não.

– Como o país não consegue avançar, a pauta exportadora está se primarizando e, ano a ano, a produção industrial perde complexidade. A abertura econômica, por sua vez, é vista como ameaça ou como remédio milagroso.

– No quesito de Pesquisa e Desenvolvimento, estamos no pior momento da história recente. O setor privado diminuiu investimentos pela baixa perspectiva de crescimento e a P&D do setor público praticamente acabou.

O Brasil precisa repensar o papel da sua indústria e propor alternativas para mitigar a perda de competitividade. Para enfrentar esse desafio, é preciso haver uma coordenação governamental para nos dar condições de avançar.

Antes de mais nada um disclaimer: é legitima a crítica dos neoliberais sobre “gastar mal” ou sobre “a criação de campeões nacionais”.

O Brasil obteve um resultado pífio quando tentou fazer política industrial.

Mas imaginar que “o mercado” irá resolver tudo e nos levar ao paraíso, não encontra respaldo em exemplos convincentes.

Não há nação que tenha dado o salto da renda média renunciando a uma estratégia industrial robusta.

Deveríamos aprender com os países que deixaram de ser pobres.

Nesse sentido, o debate não deve ser se devemos ter uma política industrial, mas como ter uma boa política industrial.

Como observa o professor Ha Jon Chang, especialista em desenvolvimento, “países bem-sucedidos são aqueles que conseguiram encontrar soluções ‘boas o suficiente’ para seus problemas e passaram a implementar políticas.”

O que aconteceu durante a pandemia foi eloquente: não teria sido possível operar eficientemente grandes desafios sem uma coordenação pública sobre os esforços econômicos privados.

E isso também vale para a capacidade de inovação.

A Pfizer só foi capaz de elaborar uma vacina através de RNA mensageiro porque teve a pesquisa anterior de uma agência do governo norte-americano.

E isso também vale para os semicondutores, um produto de que todos falam agora.

Não há consenso sobre o papel do Estado, mas é importante analisar o que fez a Coréia do Sul, o Japão, a Ásia Oriental e ver o que podemos emular.

Esses países tiveram a mão do Estado para desenvolver e preservar segmentos estratégicos; tiveram financiamentos compatíveis e tiveram muito P&D.

Da mesma forma, olhando esses países, a abertura econômica precisa ser feita de forma estratégica, para dotar de competitividade as cadeias produtivas internas antes de se abrir a um processo competitivo mundial que não está fácil.

Termino aqui com um exemplo europeu. Mais ou menos na mesma época em que aqui “política industrial” virava palavrão, lá se transformava em política de Estado.

Os dois maiores países da Europa, Alemanha e França, pontuavam:

“Se a Europa ainda quer ser uma potência industrial em 2030, precisamos de uma verdadeira política industrial europeia (…) só podemos ter sucesso se reunirmos nosso financiamento, nossas habilidades e nossa experiência.” E, mais a frente:

“A escolha é simples quando se trata de política industrial: unir nossas forças ou permitir que nossa base e capacidade industrial desapareçam gradualmente. Uma indústria forte está no centro do crescimento sustentável e inclusivo. E, acima de tudo, é o que dará à Europa sua soberania econômica e independência.”

*Milton Rego é engenheiro e economista e presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor).

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