Farmacêutico e Biotecnologia

O Brasil importa umas 21 t/ano dos três principais ingredientes do coquetel anti-aids

Albert Hahn
4 de abril de 2001
    -(reset)+

    Essa decisão foi tomada tendo em vista a evolução do mercado de antivirais em geral, não apenas de combate à aids, mais visível e mediático, como também a certas formas de hepatite e a outras doenças virais. Um dos fatores dessa evolução tem sido a proliferação de mutantes – só do vírus da aids já foram identificados 254 –, o que irá acabar fragmentando o mercado de princípios ativos. A continuar nessa batida, acabaremos com coquetéis tailor-made para cada paciente e, em paralelo, multiplicam-se as oportunidades para os descobridores de novas drogas, sempre com o benefício do tratamento fast track dispensado pela FDA. Nos países ricos, aids já está deixando de ser tópico de grande interesse. Virou doença de pobre. Isso fez arrefecer o entusiasmo de grandes empresas farmacêuticas, como Glaxo, Bristol-Squibb ou Merck, mas poderá multiplicar as oportunidades justamente para empresas inovadoras de porte menor.

    Os antivirais são o setor de maior crescimento do mercado farmacêutico, de quase 35% ao ano, ao longo do período 1996-2003 (proj.). Em 1996, representavam 10% do segmento que liderava o setor, o dos cardiovasculares; em 2003, projeta-se 50%. O campo mais promissor é o dos inibidores de protease, moléculas quirais que se vendem a US$ 2.500-6.000/kg. Exemplos são o nelfinavir e o indinavir, cujas vendas mundiais já são superiores a US$ 400 milhões e US$ 200 milhões/ano, respectivamente.

    Mas, nesse meio tempo, sábios do BNDES se declararam pela eutanásia da química fina brasileira, baseando esse obiter dictum na ausência de massa crítica e de economias de escala, e na dificuldade – essa talvez real – de conseguir homologar pela FDA uma planta cGMP no Brasil. A discussão pública do tema ainda costuma subentender o conceito cepalesco da substituição de importações, que nesses círculos vem custando a morrer.

    Basta olhar para países como Irlanda, Coréia, Índia, China, cada um com uma success story para contar; e isso, em pouco tempo, duas décadas se muito. Ou seja, um pouco mais do que o tempo durante o qual se vem discutindo o destino dos ativos químicos do Grupo Econômico. E não só esses países, pois até Portugal tem uma história a contar. A Hovione, controlada pela família Villax, que começou a vida modestamente com a química dos esteróides e hoje opera duas plantas de síntese altamente diversificadas – uma perto de Lisboa e a outra em Macau (!), ambos belos exemplos de ausência de massa crítica – acaba de anunciar sua intenção de investir algumas dezenas de milhões de dólares numa operação sediada em New Jersey.

    Parece até que, por algum decreto tácito, a única reação química hoje em dia merecedora das atenções do setor público é a de polimerização. O resto … Uma política menos imediatista e casuística acrescentaria, é bem verdade, uns US$ 5-10 milhões anuais ao orçamento de US$ 300 milhões do programa de combate à aids. É pouco diante dos potenciais benefícios futuros para o país, seus químicos e sua indústria de síntese orgânica.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *