Planejamento executado com disciplina gera bons resultados

Aos 45 anos, o engenheiro de produção química Elias Nahssen de Lacerda assumiu a presidência da Evonik para a América do Sul e Central, prosseguindo a carreira iniciada na companhia em 1996, como trainee, e depois ampliando suas responsabilidades sobre produtos e unidades de negócios.

Em 2006, foi transferido para a Alemanha, onde trabalhou por 12 anos com êxito, tendo sido reconhecido como o melhor gestor emergente da indústria química em 2013, recebendo o Handelsblatt Stratley Award.

Retornou ao Brasil em 2018, como CFO (chief financial officer, ou diretor financeiro) e vice-presidente regional da área de Nutrition & Care.

Com a aposentadoria programada de Weber Porto, assumiu o cargo máximo da companhia na região.

Lacerda recebe uma estrutura de produção e comercial consolidada, com fábricas no Brasil (Americana-SP, Aracruz-ES e Castro-PR) e Argentina (Rosário), com escritórios comerciais, centros de serviço e laboratórios de desenvolvimento operando em vários países.

Tem a meta de continuar o trabalho iniciado pelo antecessor, conforme o plano estratégico da companhia, enquanto pretende imprimir sua marca pessoal de gestão e se adaptar aos solavancos políticos e econômicos típicos da região.

Depois de ter visitado pessoalmente os principais centros de negócios sob sua direção, Lacerda recebeu Química e Derivados no moderno escritório central da Evonik para a América do Sul e Central, instalado em São Paulo, ao lado do Shopping Center Morumbi.

Química e Derivados – O sr. assume um cargo elevado de uma empresa global em um período muito complexo, em meio a uma guerra comercial entre Estados Unidos e China, além de prenúncios de um próximo período recessivo mundial. Como o sr. avalia esse cenário para negócios?

Elias Nahssen de Lacerda – Há muita incerteza no panorama global de negócios. Começa pela incerteza política, que se torna econômica. Isso cria um clima muito ruim para investimentos. Mas é preciso salientar que a humanidade nunca viveu tão bem quanto hoje.

Estamos vivendo o maior período contínuo sem guerras entre os principais países, sem escassez de produtos, com uma qualidade de vida sem precedentes, que vai se estendendo para todos os países, aos poucos. Mas há muitas incertezas, mesmo assim.

QD – Que aspecto é mais crítico, na sua visão?

ENL – Vejo os EUA e a China fechando o acesso aos seus mercados. Outros países, como o Brasil, também apontam na mesma direção. Isso é ruim, tira a dinâmica de negócios que estava sendo praticada. Mas, ao mesmo tempo, toda crise também abre novas oportunidades.

QD – A região América do Sul e Central está passando por momentos complicados, temos países em péssima situação, como a Venezuela, outros com fortes incertezas políticas, como a Argentina e, de certa forma, também o Brasil. Como o sr. pretende lidar com isso? A Evonik investiu muito em fábricas no Brasil e Argentina recentemente, os resultados serão bem recebidos pela matriz?

ENL – A Evonik está no Brasil e na região há muito tempo, desde os tempos da antiga Degussa. A companhia não faz nenhum movimento sem um planejamento sólido preliminar e sem ter uma estratégia bem definida. Por isso, essas instabilidades regionais já estão quantificadas.

Além do mais, a evolução dos investimentos recentes está perfeitamente alinhada com as expectativas iniciais, obtendo bons resultados. Com base nesse planejamento, temos segurança para seguir adiante, logo chegaremos a ocupar a capacidade máxima das fábricas e, depois, pensar em novos passos.

QD – Como se desenha a estratégia de uma grande empresa de especialidades químicas como a Evonik?

ENL – Quando entrei na Degussa, em 1996, ela ainda era uma empresa mais metalúrgica, ligada a metais preciosos, do que uma indústria química. Só em 1999-2000, com a separação da dmc2, é que ela se assumiu como empresa de especialidades químicas realmente focada nos clientes para aproveitar ao máximo esse potencial de negócios.

Seguimos três diretrizes: manter o portfólio de produtos sempre diversificado e especializado; apoiar a inovação; e promover uma cultura interna aberta para gerar valor para todos os participantes envolvidos na cadeia. Nesse sentido, cada produto tem seu ciclo de vida na estratégia da empresa.

O negro-de-fumo, por exemplo, é um excelente produto, de alta qualidade, mas não atendia aos nossos parâmetros de sustentabilidade e demandava investimentos em novas fábricas para manter a competitividade. Nós vendemos esse negócio, assim como o de colorantes, que veio da Hüls, eles tinham encerrado o seu ciclo para a companhia, embora fossem rentáveis.

QD – É preciso ter sempre uma renovação de portfólio? Os ciclos de vida estão ficando mais curtos?

ENL – Depende de cada mercado. Sempre haverá a necessidade de aminoácidos, como a lisina e a metionina. É preciso entender a cadeia de valor para ver como cada molécula se encaixa. Mas a inovação é o motor do portfólio, sempre estamos introduzindo novos itens adequados à estratégia de negócios.

É bom notar que o ciclo de desenvolvimento e inovação está cada vez mais curto, a tecnologia acelerou muitas operações e abriu novas possibilidades.

QD – Qual a importância da cultura interna da companhia?

ENL – É fundamental, um dos quatro pilares estratégicos. Em quase 20 anos, atuei em diversos países de todos os continentes, tendo contato com o nosso pessoal de diferentes origens. Posso assegurar que a cultura interna é a mesma, apoiada em abertura (ou transparência, sinceridade) que gera confiança entre as partes.

Quando você confia no outro, as decisões e procedimentos se tornam mais ágeis e permitem aumentar a performance. Isso vai além do compliance corporativo.

QD – A diversidade precisa ser administrada?

ENL – A diversidade faz a beleza da companhia. Não se esqueça que cada empresa é movida por pessoas que, no fundo, querem ser respeitadas, ouvidas, querem ter algum conforto e feedback sobre seus erros e acertos, com transparência. Isso não muda, é constante em todo o mundo. Esse é o segundo pilar da Evonik: o respeito às pessoas.

Estamos agora nos adaptando a uma mudança geracional significativa, nós estamos convivendo bem com as cinco últimas gerações, desde os baby boomers (nascidos no pós-guerra) até a geração Z. A estrutura precisa ter flexibilidade suficiente para acomodar todo esse pessoal, com suas diferenças.

Um exemplo é o dress code. Não cabe mais instituir paletó e gravata, ou saia e blusa. Hoje eu digo para o pessoal: vistam-se de forma confortável e elegante. Isso basta.

QD – Mesmo no Brasil, onde há muita gente que extrapola nas atitudes de convivência?

ENL – Os brasileiros são reconhecidos pela criatividade, flexibilidade e sensibilidade no relacionamento pessoal. Isso é muito bom. Porém há a possibilidade de essas atitudes se degradarem em práticas não ortodoxas, até ilegais, quando não há algum controle. Entendemos que um colaborador não é um número, ele merece respeito.

Mas ele será sempre capacitado, treinado e avaliado, há programas internos para isso. As avaliações compreendem vários aspectos. Muitas vezes quando uma pessoa tem baixo desempenho isso reflete algum problema da sua liderança.

O papel de um líder é extrair o melhor de cada um, não apenas registrar os erros. Com base nessa visão, também há uma abertura para trabalhar em outros países. A Evonik tem mais de 30 mil colaboradores, muitos estão fora de seus locais de origem.

QD – Tanto brasileiros no exterior, como estrangeiros por aqui?

ENL – Nos dois casos, eu sou um exemplo do primeiro, fiquei 12 anos na Alemanha. Temos pessoas de vários países trabalhando aqui, mas há alguma dificuldade em atrair gente para cá principalmente pela questão da segurança pública.

QD – O sr. mencionou outros dois pilares estratégicos, quais seriam?

ENL – Nossas 17 linhas de negócios também se apoiam em crescimento. Todas precisam superar o desempenho do PIB de seus países e, para tanto, devem conhecer muito bem os mercados e os produtos. O último pilar diz respeito ao relacionamento com a comunidade, em sentido amplo.

A Evonik não está no vácuo, mas inserida em um ambiente com o qual se relaciona, somos responsáveis pelos nossos colaboradores e também pelas suas famílias, precisamos nos importar com a formação de bons seres humanos.

Em Barra do Riacho-ES, onde temos nossa planta brasileira de peróxido de hidrogênio, oferecemos às crianças e jovens da região, dos 7 aos 17 anos, um programa complementar ao horário escolar. Nesse período, eles recebem reforço escolar, atividades esportivas e de recreação.

Já estamos recrutando pessoal entre os jovens que passaram por esse programa, são bem formados. Como a região está se desenvolvendo e há carência por pessoal, os demais alunos são empregados por outras companhias. Estamos contribuindo para o crescimento dessa comunidade.

QD – Na região, que representou 4% das vendas mundiais da companhia em 2018, o que o sr. poderia destacar como pontos fortes?

ENL – Temos operações desde a Guatemala até a Argentina, passando por Costa Rica, Colômbia, Peru, Chile, Equador e o Brasil, maior mercado regional. Na Argentina, apesar do momento político, consolidamos nossa operação com metilato de sódio, catalisador para a produção de biodiesel, temos uma fábrica moderna por lá. Eles têm uma produção de soja e outras oleaginosas muito interessantes.

A Colômbia vem apresentando resultados econômicos consistentes e consome uma gama ampla de nossos produtos, é o foco operacional para a região andina. O Equador tem boa participação nas vendas de nutrição animal, assim como o Chile, um importante produtor de salmão. Infelizmente, a Venezuela está fora de qualquer cogitação.

QD – Como está o Brasil, na sua avaliação?

ENL – Voltei para cá em 2018, a economia já estava começando a se recuperar depois de dois anos de recessão. Não posso avaliar como estava antes. Em 2019, com o novo presidente, entendo que o ministro da economia, Paulo Guedes, apresenta propostas que fazem sentido.

Caso as reformas anunciadas tenham apoio amplo e sejam efetivadas, elas ajudarão muito a manter um ritmo de crescimento. Acredito que haverá mais recursos disponíveis para investimentos no país em 2020 e nos anos seguintes. Claro que isso depende do comportamento da economia global. A Alemanha, por exemplo, já está se preparando para uma possível crise.

QD – No Brasil, o que desperta mais interesse econômico?

ENL – Tudo o que é ligado ao agronegócio é importante. Para ele e por ele. Ou seja, todos os insumos consumidos pela agropecuária, como fertilizantes, defensivos, nutrientes para animais e outros, mas também o que deriva do agronegócio: oleoquímicos, aminoácidos produzidos do milho. É o caso da nossa fábrica de Castro-PR, que faz o Biolys (l-lisina).

O Brasil é tremendamente eficiente para produzir eucalipto e, com ele, celulose e papel. Por isso fabricamos o peróxido de hidrogênio na maior região de consumo. Além disso, a mobilidade é um grande campo para negócios.

O país é grande e tem pouca estrutura de transportes. Produzimos sílica precipitada de alta dispersão em Americana-SP, é um produto ligado à fabricação de pneus de baixo consumo de combustível, mas que também é aproveitado na indústria de tintas e terá aplicações nas futuras baterias dos carros elétricos.

Existe muito mercado na proteção do ser humano, mediante o uso de produtos cosméticos e de higiene pessoal.

Montamos uma fábrica de tensoativos especiais para isso e para household, também em Americana. A região é quente, a população daqui é a que mais toma banhos no mundo. E também troca de roupa e usa cremes corporais mais que os europeus.

QD – Há novos investimentos a caminho para o Brasil? O sr. pretende mudar alguma diretriz no comando da região?

ENL – No momento, estamos digerindo os investimentos recentes, que foram grandes. Além das fábricas citadas, também foram construídos laboratórios técnicos para desenvolvimento de soluções para os clientes. Não haverá rupturas em relação á administração anterior.

Conheço o Weber Porto há 20 anos, ele fez um excelente trabalho ao qual darei continuidade. Seguirei o planejamento e a estratégia traçados, não há lugar para amadorismo de nenhum tipo. Tenho meu estilo, aos poucos isso será mais perceptível. Além disso, precisamos nos adaptar às mudanças regionais e também aos humores mundiais.

QD – Que mensagem o sr. deixaria para jovens recém-formados ou em fase de escolha de uma profissão aqui no Brasil?

ENL – Acreditem na indústria química! É uma área de enorme potencial de crescimento. A cada dia eu agradeço por ter escolhido a área química na época da faculdade e por ter seguido carreira no setor. Nunca, em nenhum momento, eu me arrependi dessa escolha.

Recomendo que os jovens busquem informação de qualidade e avaliem a fundo a indústria química como um todo. Procurem identificar os problemas do setor, que serão os desafios que eles enfrentarão no futuro. Vejam que ainda importamos muita coisa de outros países que poderíamos fabricar aqui.

Mas o Brasil tem energia muito cara, o gás natural é caríssimo, a disponibilidade de matérias-primas é baixa e a infraestrutura é deficiente. Caso se resolva tudo isso, o Brasil irá longe. É possível.

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