Pigmentos – Recuperação da indústria automobilística afasta a crise dos pigmentos de efeito

Química e Derivados, Pigmentos, Pigmentos de efeito

Imagine dois vizinhos tomados pelo espírito natalino. Um deles exibe em sua varanda uma árvore de Natal grande, repleta de bolas e luzes coloridas. O outro, a duras penas, consegue comprar uma árvore, mas ela é menor e está apagada, sem enfeites. O setor de pigmentos de efeito para tintas vive situação semelhante neste fim de 2009. Algumas empresas fornecedoras do insumo driblaram a crise mundial iniciada em 2008 e fecharão o ano com resultados satisfatórios, alimentando boas esperanças para 2010. Outras companhias se mantêm no mercado, mas balançam como o sino de Papai Noel, ainda sentindo os efeitos negativos das turbulências externas.

No grupo que não teve o ano perdido estão empresas como Merck, Basf, Clariant e Aldoro. Todas elas viram os negócios envolvendo a área de pigmentos de efeito serem duramente prejudicados entre o quarto trimestre de 2008, quando a crise mundial se agravou, e os primeiros meses de 2009. O momento desfavorável então vivido por essas companhias refletia o clima de incerteza que tomou conta da indústria automotiva brasileira, maior consumidora das cores com efeitos metálicos ou perolizados. No entanto, o socorro dado a partir de dezembro de 2008 pelo governo federal ao setor automobilístico, com a redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), para a compra de veículos novos, surtiu o efeito esperado e as vendas de carros voltaram ao ritmo de crescimento registrado antes da crise. Dessa maneira, os fornecedores de pigmentos de efeito que têm grande parte dos negócios atrelados ao mercado automotivo (pintura original e repintura) voltaram a respirar e foram, mês a mês,retomando os níveis normais de venda.

Porém, as distribuidoras e revendedoras de pigmentos de efeito que abastecem os pequenos e médios fabricantes de tintas não tiveram a mesma sorte. Sem o porto seguro das grandes fornecedoras de tintas para montadoras de veículos, elas dependem de outras atividades, como as tintas industriais e as de impressão gráfica. Esses clientes, por sua vez, são altamente sensíveis ao comportamento geral da economia. Ao primeiro sinal de crise, eles imediatamente reduzem custos. Ou seja, em períodos de maré brava, substituem os sofisticados pigmentos de efeitos por outros pigmentos mais baratos. Ou  simplesmente engavetam seus projetos.

Para esse tipo de fornecedor de pigmentos de efeito, 2009 foi um ano para esquecer, totalmente atípico. Nos últimos meses, houve uma sensível melhora nas vendas desses segmentos, mas os negócios do ano ficaram muito aquém dos volumes vendidos em 2008.

Dois problemas ainda afligem essas empresas. O primeiro é a grande dificuldade que seus clientes (e os clientes deles também) estão tendo para levantar crédito. Os bancos estão muito mais seletivos, mas os salários, impostos e  pagamentos aos fornecedores precisam ser realizados religiosamente, vendendo ou não. Como as vendas não decolaram como elas estavam aguardando, a falta de crédito agrava a situação.

O outro entrave é a falta de pigmentos e aditivos, geralmente importados, para atender aos pedidos que começaram a ser feitos pelo mercado. Como os estoques não estavam sendo repostos pelas importadoras, que foram surpreendidas com grandes inventários pela parada brusca de negócios no fim de 2008, demandas emergentes não podem ser supridas de imediato.

O período natalino, que teoricamente ajudaria a aquecer o mercado de pigmentos de efeito para embalagens, não deve trazer grande impacto para as vendas aos pequenos e médios fabricantes. As decisões para o Natal sempre são tomadas muito antes, a partir de julho, período em que não havia sinais de recuperação da economia.

Química e Derivados, Milton Yoshio Uehara, Coordenador- técnico da Clariant, Pigmentos de efeito
Milton Yoshio Uehara: moda tirou pigmentos de efeito dos eletroeletrônicos

Apoio automotivo – “Para nós, 2009 acabou sendo um ano muito bom, considerando a expectativa ruim que tínhamos nos primeiros meses do ano”, avaliou Milton Yoshio Uehara, coordenador- técnico da Clariant, representante da empresa alemã Eckart para a comercialização e distribuição de pigmentos metálicos e perolizados. Segundo o executivo, as vendas de pigmentos de efeito da empresa alcançaram neste ano os mesmos níveis do ano anterior. Para ele, a ajuda governamental ao setor automobilístico chegou na hora certa. “Tivemos problemas no primeiro trimestre, mas, com a recuperação do mercado automotivo, as nossas vendas para os fabricantes de tintas evoluíram na mesma proporção”, afirma Uehara.

A Clariant destaca a sua linha de perolizados Phoenix CFE, livres de cromo trivalente, indicada para sistemas aquosos, e também os pigmentos metálicos Hydrolan, que podem ser aplicados em sistemas de base aquosa e em base solvente, sendo direcionados principalmente para o segmento automotivo original (OEM). Este último possui uma vantagem logística, pois pode ser transportado por via aérea, o que não é possível nas linhas tradicionais aquosas. Ele informou que a companhia também faz grandes apostas na linha de preparações aquosas de pigmentos perolizados, bronzes e alumínios desenvolvidos para o setor imobiliário. “Trata-se de uma área de atuação relativamente nova no Brasil. Poucos fabricantes de tintas têm essa tecnologia no momento”, afirmou.

Segundo Uehara, as vendas dos produtos citados acima tentam compensar uma grande lacuna deixada pelo mercado de eletroeletrônicos, setor no qual os pigmentos de efeito metálico da Clariant tinham forte participação até o ano passado. O motivo, contudo, nada tem a ver com a crise financeira: em 2009, explodiram as vendas de aparelhos pintados com a cor preta brilhante, conhecida como black piano, como os monitores de computador, televisores de LCD, de plasma e aparelhos de home theater. “Nós vendíamos um grande volume desses pigmentos metálicos aos fabricantes de tintas para eletroeletrônicos e agora este mercado praticamente se fechou”, lamentou.

Antonio Labecca Filho, gerentecomercial da Aldoro, única empresa a produzir pigmentos metálicos no Brasil, diz que “a crise é assunto do passado”. “Neste momento, o nosso foco de discussão é a preparação de boas bases para 2010”, ressalta. Para ele, os efeitos da crise foram bastante minimizados a partir do segundo semestre. “Desde meados deste ano, estamos vivendo um crescimento animador e a expectativa é de igualar ou, pelo menos, nos aproximarmos dos níveis de 2008, porque o último trimestre confirmará seu histórico de melhor período do ano e, portanto, superará o do ano passado, quando surgiu a crise mundial”, prognosticou.

Ainda de acordo com Labecca Filho, no segmento automobilístico ainda há uma preferência notória pela cor prata e outras cores metálicas, o que tem favorecido os negócios da empresa. “Estima-se que 65% dos carros produzidos no Brasil sejam pintados com cores metálicas, a grande maioria na cor prata”, afirmou o executivo da companhia, com fábrica em Rio Claro-SP. Entre os produtos da Aldoro, destaque para a linha Stanlux Silver, com pastas non-leafi ng (somente alumínio) de alta tecnologia para uso em tintas automotivas, tanto originais como para repintura. “Trata-se de um pigmento de alto valor agregado, muito importante para os nossos negócios”, enfatizou Labecca Filho. Em termos de volume de vendas, o gerente da companhia destaca a linha Stanlux Paste, de pastas tipo leafi ng (alumínios e purpurinas) e non-leafi ng, que traz várias opções de granulometria e efeito metálico.

A vantagem desse pigmento é a sua grande abrangência de aplicações, sendo destinado para formulações de tintas industriais, protetivas, marítimas, imobiliárias, decorativas e de impressão. “Os pigmentos metálicos do tipo leafi ng se orientam no topo ou na superfície do fi lme de tinta seca e paralelamente ao substrato. Já os tipos non-leafi ng se orientam no interior e por toda a espessura do filme de tinta seca, possibilitando a obtenção de cores metálicas variadas por meio do tingimento com pigmentos orgânicos de alta transparência”, explicou.

Segundo Labecca Filho, no segmento industrial, além da característica de geradores de efeito, os pigmentos metálicos podem ser aplicados em situações nas quais o chamado “efeito barreira” pode favorecer muito a resistência e a durabilidade do revestimento. “O grande poder de cobertura do alumínio leafi ng também favorece a adequação perfeita em situações adversas por que passam as peças pintadas, como a pintura de botijões de gás e de equipamentos de usinas de álcool”, afirma.

Ainda de acordo com Labecca Filho, os pigmentos metálicos requerem condições muito específicas na sua produção e no seu uso. “No processo de produção de tintas, recomendamos que seja feita uma pré-dispersão dos pigmentos metálicos em solvente compatível com o sistema da formulação, numa relação de 1:1 a 1:2 entre pigmento e solvente, sempre em baixa velocidade e sem cisalhamento”, explicou. Dessa forma, será preservada a integridade das partículas e o seu poder de geração de efeitos, sem risco de redução ou perda do efeito metálico. Após esta fase de pré-dispersão, pode-se completar a tinta com os outros componentes. Na fase de formulação ou desenvolvimento das tintas metálicas, os técnicos devem estar atentos a detalhes para a seleção dos outros componentes, buscando aqueles que mais favoreçam a orientação das partículas do pigmento metálico e, ao mesmo tempo, atendam a todos os requerimentos de resistência e aderência ao substrato exigidos da película de tinta aplicada e seca.

Química e Derivados, Adriano Padua Pinheiro, executivo responsável pela unidade de negócios de pigmentos e resinas para a América do Sul da Basf, Pigmentos de efeito
Adriano Padua Pinheiro: mica sintética acaba com o branco amarelado

Adriano Padua Pinheiro, executivo responsável pela unidade de negócios de pigmentos e resinas para a América do Sul da Basf, informou que as vendas de pigmentos de efeito da companhia só voltaram à normalidade no último trimestre do ano. “Tivemos um primeiro semestre bastante prejudicado pelas incertezas no segmento automotivo, de pintura e repintura, nosso principal cliente”, afirma. A partir do segundo semestre houve melhora substancial dos negócios. “Mas apenas no último trimestre do ano começamos a perceber uma situação de normalização”, pondera. Ainda assim, diz o executivo, a recuperação da indústria automobilística deu-se somente no mercado interno. “A exportação de veículos para fora da América do Sul ainda não foi totalmente recuperada, pois as montadoras dependem da retomada nos mercados norte-americano, europeu e no Oriente Médio”, enfatiza Pinheiro. “Ou seja, ainda esperamos um novo aumento nas vendas de veículos, que são pintados principalmente no Brasil, para fora do continente”, acrescenta.

Entre os produtos da Basf, destaque para os produtos da Ciba, que foram incorporados recentemente pela companhia, como o Ximara Fireball, pigmento de natureza orgânica, cujo processo de cristalização permite a produção de estruturas com efeito visual brilhante, resultando em nuances que variam desde o laranja até o vermelho, conforme o ângulo de observação. Pinheiro também aposta no pigmento de efeito Glacier Exterior Frost White, produto que enaltece o branco por ser formulado com mica sintética, sem impurezas de óxido de ferro, que normalmente deixam a tinta branca com tons de amarelo.

Química e Derivados, Edson Cordeiro, Gerente da área de pigmentos da empresa Merck, Pigmentos de efeito
Edson Cordeiro: energia e substratos mais claros explicam reajustes

Diferentemente das outras grandes indústrias do setor químico ouvidas para esta reportagem, a Merck informou que encerrará 2009 com crescimento de 10% a 15% na área de pigmentos de efeito em relação ao ano anterior. “Tivemos um efeito spot logo no início da crise, quando todos estavam ainda atônitos e surpresos. Porém, ao longo do ano registramos um desempenho bastante favorável, em especial graças ao bom desenvolvimento da indústria automotiva e de cosméticos”, explicou o gerente da área de pigmentos da empresa, Edson Cordeiro. Ele também atribui a evolução dos negócios “ao comprometimento com a qualidade e reprodutibilidade lote a lote, o que torna a companhia a referência de mercado”. Segundo Cordeiro, a empresa prevê para 2010 um novo crescimento de dois dígitos. “Vamos manter o desempenho na área automotiva e na de cosméticos, mas pretendemos elevar as vendas de pigmentos de segurança e funcionais, como os antiestáticos, absorvedores de UV, entre outros”, adiantou.

 

Química e Derivados, Milton Ribeiro, gerente-técnico para o setor de tintas de impressão daempresa Clariant, Pigmentos de efeito
Milton Ribeiro: preço do cobre afeta os bronzes das tintas gráficas

Aumento nos custos – Segundo Pinheiro, da Basf, algumas matérias-primas utilizadas na fabricação de pigmentos de efeito subiram de preço ao longo de 2009. Portanto, esses produtos devem sofrer reajustes em relação aos valores atuais. “Diria que a tendência é de aumento de preço dos pigmentos de efeito no mercado brasileiro”, afirmou o executivo, sem defi nir as matériasprimas que passaram por majoração de preço. Pinheiro também não revela o percentual de reajuste a ser aplicado. “Teremos que repassar aos nossos clientes pelo menos parte da elevação dos custos das matérias-primas, mas são operações comerciais realizadas caso a caso”, afirma, prevendo dificuldade nas negociações com os fabricantes de tintas. Ainda segundo o executivo da Basf, a valorização do real perante o dólar não afetou o mercado nacional de pigmentos de efeito, embora a grande maioria dos produtos negociados no Brasil seja fabricada na Europa e nos Estados Unidos.

Cordeiro, da Merck, que também não produz os pigmentos localmente, confi rma o aumento nos insumos produtivos, como energia e alguns substratos. “Porém esses acréscimos não foram repassados aos clientes em 2009”, afirmou, sem revelar, entretanto, a política de reajustes para 2010. Para ele, o comportamento do câmbio “será sempre um fato importante nos negócios”. A empresa importa pigmentos das suas unidades de fabricação na Alemanha, Japão, Estados Unidos e, mais recentemente, na China. “O que pode afetar mais fortemente é a possível defasagem no período compreendido entre o processo de formação de nossos estoques e a venda efetiva dos mesmos”, avaliou.

Na área de tintas para impressão, a Clariant acusou aumento nos preços das purpurinas (bronze powder), que têm como base o cobre. Essa matéria-prima subiu consideravelmente no mercado internacional neste ano. “Por isso, é preciso que sejam feitos alguns repasses, embora ainda não saibamos avaliar o tamanho dos reajustes”, afi rma Milton Ribeiro, gerente-técnico para o setor de tintas de impressão da empresa.

Segundo Labecca Filho, da Aldoro, a desvalorização do dólar perante o real não tem atrapalhado os negócios da empresa, apesar de a companhia produzir localmente os pigmentos metálicos. “Temos conseguido manter o nível de competitividade e o mercado brasileiro tem reconhecido os nossos esforços, neutralizando a potencial vantagem comercial que produtos importados poderiam apresentar”, afirmou. “Também podemos destacar a garantia de estoques e o serviço de entregas ágil e efi ciente, com atendimento na Grande São Paulo e algumas cidades do interior do estado em até 48 horas”, acrescentou.

As grandes empresas de pigmento de efeitos, sobretudo as que atendem os fabricantes de tintas automotivas, não se dizem preocupadas com a invasão no mercado brasileiro de produtos de origem asiática. “Nessa área de atuação, a gente não vê impacto relevante de concorrentes asiáticos, pois trabalhamos com produtos que exigem um altíssimo nível de investimento e alta tecnologia, além de comprometimento com as questões relativas à preservação ambiental”, afirma Pinheiro, da Basf. Milton Uehara, da Clariant, tem a mesma opinião. “São produtos especiais, que requerem qualidade e garantias, principalmente no setor automobilístico”, confirmou. No entanto, segundo Cordeiro, da Merck, os pigmentos asiáticos já têm uma considerável fatia de mercado no setor de plásticos e de impressão, e a qualidade desses produtos vem melhorando dia a dia. “Por esse motivo, a Merck, ciente da importância do mercado asiático, adquiriu recentemente um dos maiores produtores de pigmentos perolados da China, a Taizhu, localizada na cidade de Taicang”, disse o executivo.

Novas tendências – Milton Uehara, da Clariant, enxerga novas tendências de cores no curto prazo para o setor automotivo no Brasil, em substituição principalmente à cor prata convencional. “Há um crescimento das tonalidades de preto nos carros. Não o preto tradicional, mas sim misturado com pigmentos metálicos e perolizados.” Segundo Pinheiro, da Basf, percebe-se, por exemplo, nas cartelas de cores das montadoras, um enorme leque de opções de cores derivadas do prata. “Dentro dessa opção de cor, há cinco, seis e até oito tons diferentes, puxados para o azul, o amarelo e o verde”, afi rma. Ainda de acordo com o executivo, há uma tendência para a volta ao mercado automotivo das cores verdes e azuis perolizadas, que já foram destaque no passado recente, no início dos anos 2000.

Os dois grandes eventos esportivos previstos para o Brasil, a Copa do Mundo, em 2014, e a Olimpíada, em 2016, também devem alavancar consideravelmente as vendas de pigmentos de efeito no Brasil, produtos que tradicionalmente são largamente utilizados em períodos festivos. “Estamos falando de tendências de cores para daqui até seis anos, mas que já começam a ser pensadas agora”, diz o responsável pelo setor na Basf.

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