Petroquímica – Faltam gás e energia para destravar os investimentos

 

Química e Derivados, Petroquímica, Gás, Energia, InvestimentosO setor petroquímico nacional está sem gás para crescer. Apesar de as projeções de demanda apontarem a necessidade de duplicar a capacidade de produção de resinas termoplásticas e demais derivados apenas para atender à evolução do mercado brasileiro até 2020, o ritmo dos investimentos não deslancha. Um dos motivos mais relevantes para explicar essa letargia é a falta de suprimento garantido de matérias-primas para alimentar os futuros fornos de craqueamento, geradores dos insumos básicos do setor.

A lista de entraves ao desenvolvimento vai além. Levantamento realizado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) aponta que os custos da eletricidade e do gás natural no país são proibitivos. Sem mencionar que esses insumos produtivos sofrem episódios de escassez. Há também a elevada carga tributária, o custo do capital, os efeitos da valorização do real e as deficiências notórias em infraestrutura especialmente de transportes.

O resultado dessas pressões é o baixo volume de investimentos programados pelo setor. O total de projetos anunciados pelas associadas da Abiquim para o período de 2011 a 2016 chega a US$ 22 bilhões, insuficientes para reverter o déficit comercial do setor. Considerando apenas os produtos químicos de uso industrial (os que são consumidos por outros segmentos industriais para a fabricação de produtos finais), as importações devem somar US$ 33,1 bilhões em 2011, contra exportações de US$ 13,3 bilhões, perfazendo um resultado negativo de US$ 19,8 bilhões. E esse déficit está crescendo: em 2010, ele ficou em US$ 14,7 bilhões; em 2009, US$ 13,4 bilhões.

Vendas em alta – Medido em dólares, o faturamento líquido dos produtos químicos industriais brasileiros registrou acréscimo de 24,5% entre 2011 e 2010, passando de US$ 61,2 bilhões para a previsão de US$ 76,2 bilhões, segundo a Abiquim. Em reais, o total de 2011 ficou em R$ 125,4 (estimativa de dezembro), 16,4% superior ao do ano anterior. A curva do indicador é ascendente desde 2009, quando os R$ 93,8 bilhões obtidos representaram o pior desempenho do setor desde 2004. Do total desse grupo, informa a Abiquim, os produtos petroquímicos representam aproximadamente 65%.

Química e Derivados, Fernando Figueiredo, Abquim, Petroquímica
Figueiredo: portos incentivados abrem caminho para importações

O panorama não é dos mais animadores. A crise europeia permanece como uma sombra sobre a economia mundial, capaz de desencadear um profundo período recessivo. Os Estados Unidos ameaçam sair do vermelho, embora ainda carreguem seus monumentais déficits fiscal e comercial. Embora muitas unidades produtivas em todo o planeta tenham sido desativadas desde 2008, a oferta de produtos químicos e, principalmente, petroquímicos permanece elevada. “A crise global aumentou a disponibilidade de produtos que passaram a ser direcionados ao Brasil e a outros emergentes, nos quais ainda há crescimento de demanda”, apontou Fernando Figueiredo, presidente executivo da Abiquim.

Como de hábito, os produtores internacionais tentam rodar cheias as suas fábricas para diluir seus custos fixos. Isso implica vender barato os excedentes em mercados não tradicionais. No caso brasileiro, algumas atitudes amplificam os efeitos danosos dessa concorrência. “Alguns estados assumiram regimes tributários especiais danosos à indústria local, mediante os quais as importações ingressam no mercado local em situação de vantagem em relação aos produzidos aqui”, criticou Figueiredo.

Os tais “portos incentivados” registraram aumentos díspares na importação. Segundo o presidente executivo da Abiquim, Itajaí-SC passou de 11º a 4º maior porto importador de produtos químicos do Brasil. “Quase 22% de todas as resinas plásticas importadas entram por Itajaí”, informou. O Senado Federal está examinando a questão e deve decidir o destino desses “incentivos” em 2012.

Os números de faturamento também precisam ser adequadamente contextualizados. Como aponta Figueiredo, para o crescimento de 24,5% em faturamento líquido, a produção física local só avançou 2,3%. Desse percentual, caso fossem retirados os intermediários para fertilizantes, o resultado seria negativo, -3%.
O recorde de importações químicas também merece a ressalva: ele aponta oportunidades de investimento para a indústria brasileira. Porém essas oportunidades não estão sendo aproveitadas pelos fatores já apontados.

Investimentos pífios – O montante de investimentos programados pela indústria química no Brasil até 2016, de US$ 22 bilhões, inclui uma parcela de US$ 2,9 bilhões de recursos já aplicados em projetos ainda não inaugurados. Isso perfaz a média de US$ 4,4 bilhões por ano, muito baixa para as pretensões nacionais.

Considerando todo o agregado químico nacional (produtos de uso industrial e os de uso final), o faturamento consolidado perfaz US$ 129 bilhões, valor que posiciona o setor brasileiro na sétima posição do ranking mundial, entre a França (US$ 135 bilhões) e a Índia (US$ 125 bilhões). Mantido o ritmo atual, parece mais fácil perdermos a posição para a Índia do que bater os franceses.

O rol dos investimentos em novas capacidades petroquímicas no Brasil não anima muito. Estão previstas para 2012 as partidas da expansão de monômeros e polímeros vinílicos (MVC/PVC) da Braskem, em Alagoas; da unidade de polietileno tereftalato têxtil e para embalagens (PET e PETg) da Petrobras, em Suape-PE; e da planta de butadieno da Braskem em Triunfo-RS.

No caso da Braskem, o projeto alagoano inclui uma nova fábrica de PVC, com a respectiva linha de monômero, para 200 mil t/ano. Com isso, a capacidade de produção de PVC da companhia passará das atuais 510 mil t/ano (incluindo a unidade de PVC de Camaçari-BA) para 710 mil t/ano, a partir de maio de 2012. Trata-se de investimento orçado em US$ 470 milhões. Esse projeto aproveitará de forma mais vantajosa as quase 100 mil t/ano de dicloroetano exportadas até então.

No caso do butadieno, a Braskem aproveitará uma corrente interna de processo rica em C4 para alimentar uma unidade capaz de produzir 100 mil t/ano da diolefina, muito usada na indústria de pneus automobilísticos. Esse investimento consumirá R$ 300 milhões e tem início de operações marcado para julho de 2012. Com essa fábrica, a companhia ampliará em quase 30% sua capacidade produtiva de butadieno, saindo das atuais 340 mil t/ano para 440 mil t/ano.

O projeto de PET da Petrobras possui histórico mais complexo e ainda ficará inacabado. Trata-se de uma unidade de produção de poliéster integrada à de ácido tereftálico purificado (PTA), com linha de fios e filamentos têxteis (POY) a jusante, no valor total de R$ 4,9 bilhões. Está prevista para o final de 2011 a inauguração da produção de 700 mil t/ano de PTA (a Petroquímica Suape), mas a partida da unidade de polimerização de poliéster/PET ficará pronta apenas em 2012, para 450 mil t/ano. A linha de POY para 240 mil t/ano acompanhará a polimerização. Essas duas unidades pertencem à Cia. Têxtil de Pernambuco (Citep, da estatal).

Química e Derivados, Déficit Comercial, Petroquímica, Abquim
Clique no gráfico para ampliar em outra janela

Seria preciso incluir na lista as unidades de metanol e amônia/ureia anunciadas pela Petrobras. Haverá um acréscimo de capacidade de 790 mil t/ano de metanol a partir de 2017, além de três unidades de fertilizantes nitrogenados com partidas para 2014, 2015 e 2017, ampliando a oferta de amônia (capacidade para 600 mil t/ano) e ureia (para 1.973 mil t/ano), usando gás natural.

Demais interessados em usar gás natural da estatal como insumos de processos químicos podem aguardar sentados. O presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, já informou ao mercado que a estatal não possui mais disponibilidade de gás natural para contratação firme para os próximos cinco anos. “Temos o compromisso de garantir o suprimento das termelétricas instaladas, estejam elas operando ou não, quer dizer que não podemos oferecer esse gás a mais ninguém, a não ser em regime interruptível”, explicou.

Sem gás – Além de não contar com garantia de suprimento para uso como matéria-prima petroquímica, a indústria brasileira ainda amarga a elevação do custo do gás como insumo energético. “Nos últimos cinco anos, o preço do gás natural no Brasil subiu de US$ 4 paraUS$ 12 por milhão de BTUs, enquanto nos Estados Unidos ele caiu para a faixa de US$ 5 por MM BTU”, criticou o coordenador da comissão de economia da Abiquim e presidente da Rhodia no Brasil, Marcos De Marchi.

A mágica energética norte-americana responde pelos nomes de shale gas (gás de xisto) e tight gas, duas fontes não convencionais de gás natural que tiveram um grande impulso nos últimos anos, em resposta à elevação dos custos de energia. Essas reservas estão sendo mapeadas, mas indicam um potencial gigantesco. Os analistas ainda se dividem quanto ao poder desse gás barato para reanimar a petroquímica dos EUA, justificando a construção de novas capacidades produtivas de escala mundial, mas são unânimes quanto à capacidade de estancar o fechamento de fábricas na linha do eteno (polietilenos, glicóis etilênicos e outros), derrubando cotações internacionais.

“O preço cobrado pela Petrobras não está longe da realidade mundial, que não é exatamente a dos Estados Unidos”, comentou Luiz Fernando Marinho Nunes, gerente de planejamento estratégico e gestão de portfólio da área de abastecimento e petroquímica da Petrobras. “Os preços do Brasil sempre foram mais ligados ao mercado europeu.”

Química e Derivados, Petroquímica, Rhodia, Marcos De Marchi, Abquim
De Marchi: gás natural no Brasil está muito mais caro que nos EUA

 

Marinho também recomenda colocar na coluna dos custos as dificuldades de trazer o gás natural dos campos em alto-mar para a costa, vencendo distâncias que podem chegar a 400 km. Além disso, é preciso equacionar a disponibilidade de gás não consumido pelas termelétricas, de operação descontínua, com a demanda petroquímica, contínua.

Há uma expectativa muito grande pelo aproveitamento do gás natural obtido nos campos do pré-sal. “Já foi anunciada a construção de um duto submarino para conduzir o etano de alguns campos para o sítio do Comperj, em Itaboraí-RJ, onde alimentará um cracker petroquímico e unidades a jusante”, reiterou. “Mas ainda não sabemos exatamente o volume de etano que será disponibilizado para que se possa calcular o tamanho dessas instalações, qualquer palpite agora é apenas especulativo”, afirmou.

O projeto do Comperj, aliás, nasceu como fonte de insumos básicos para a petroquímica, mas foi reformulado para a atual configuração de refinaria convencional, porém com baixa oferta de leves aproveitáveis pela indústria. O primeiro trem de refino, para 165 mil barris de petróleo leve por dia, está em construção com a prioridade de fornecer diesel e querosene de aviação, com previsão de partida anunciada para 2014.

A Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, para 230 mil bpd, segue em construção, com partida programada para 2012, mas também não prioriza suprimentos petroquímicos.

A situação é ainda pior nas refinarias premium I e II, destinadas ao Maranhão (600 mil bpd) e Ceará (300 mil bpd), com início de produção estimado para depois de 2017. Essas refinarias terão um perfil de refino muito diferente da configuração atual, usando tecnologias de hidrogenação catalítica que geram derivados de alta qualidade, com cortes mais precisos, ou seja, com menos coprodutos.

“Não haverá disponibilidade de olefinas como acontece nas unidades com craqueamento catalítico fluido usual”, comentou Marinho. “Mas haverá uma grande disponibilidade adicional de nafta petroquímica.” O Brasil ainda importa entre 30% e 40% da nafta que é processada nos três crackers de carga líquida. Como as condições de mercado e os custos não são os mais favoráveis à implantação de cracker de nafta grass roots, ele admite como hipótese mais provável que esse acréscimo de oferta seja absorvido pela redução de importações e eventuais acréscimos de capacidades nos crackers existentes. Apenas no Comperj está previsto um cracker de nafta, além da linha de etano. Com isso, serão originadas 900 mil t/ano de polipropileno, 960 mil t/ano de polietilenos, 400 mil t/ano de estireno, entre outros derivados.

Além disso, a Petrobras confirmou o investimento na ampliação da linha de poliestireno da Innova em 250 mil t/ano, no polo de Triunfo-RS. “Como a Braskem está produzindo eteno de álcool, há uma sobra de eteno no polo para esse projeto, e o benzeno se não estiver totalmente disponível poderá ser trazido de outras regiões com facilidade”,comentou Marinho. Isso representa a duplicação da Innova, que chegará a 500 mil t/ano de PS ao final de 2014, nas estimativas da estatal.
Química e Derivados, Abquim, petroquímica

Clique no gráfico para ampliar em outra janela




Em espera – O grupo Unigel espera a definição do comportamento do mercado de acrílicos e estirênicos para anunciar novos investimentos. “Ainda estamos digerindo a aquisição dos negócios da Dow na linha do estireno, ainda temos alguns movimentos de integração para fazer”, explicou Marc Slezynger, vice-presidente do grupo.

A aquisição, feita em 2009, elevou a capacidade produtiva de estireno de 120 mil para 280 mil t/ano. O grupo possui capacidade instalada para produzir 210 mil t/ano de poliestireno (Guarujá-SP e São José dos Campos-SP). “Estamos estudando a possibilidade de produzir resina ABS (acrilonitrilabutadieno estireno) no site do Guarujá, mas dependemos do mercado”, comentou.

O grupo também mantém forte posição nos acrílicos, contando com capacidades para produzir 95 mil t/ano de acrilonitrila e 90 mil t/ano de MMA (metacrilato de metila) na Bahia, além de outras 25 mil t/ano de MMA e 60 mil t/ano de acrilonitrila no México.

“Sentimos que 2011 começou muito bem, com demanda firme e preços remuneradores, mas a situação começou a se inverter a partir de agosto, até chegar a novembro com forte desaceleração no Brasil e preços em queda no mundo por causa da crise europeia”, comentou Slezynger. Como o grupo tradicionalmente exporta para a Europa, essa variação foi importante.

“O excesso de oferta global derruba os preços também por aqui, estamos percebendo que o primeiro trimestre de 2012 deve ser muito fraco, mas pode haver uma retomada de negócios já no segundo trimestre”, prevê.

A percepção é compartilhada por outras empresas do setor. A Braskem resolveu antecipar para o início de dezembro a parada de manutenção em um de seus trens de produção de Camaçari-BA, voltando à operação plena apenas em 2012. As unidades baianas da Unigel, dependentes dos insumos fornecidos pela Braskem, também ficarão paradas.

Aliás, em termos de investimentos petroquímicos, a Braskem está mais animada com o México, onde tem 65% de participação no projeto Etileno XXI, em associação com a Idesa. O projeto terá um cracker de etano (tecnologia da Technip) integrado com a produção de um milhão de t/ano de polietilenos (em três linhas de polimerização, com tecnologias Lupotech T, Innovene S e G), mediante investimentos de US$ 3 bilhões. A preparação do terreno, no estado de Veracruz, está em andamento, bem como começou a seleção dos fornecedores para os equipamentos críticos. O projeto tem partida prevista para o primeiro semestre de 2015.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.