Petroquímica – Petroquímica nacional estará vulnerável até 2020

O Brasil não tem condições de competir com a indústria petroquímica do Oriente Médio, caso ocorra uma entrada no mercado local de grandes volumes de produtos importados daquela região em curto prazo. Em compensação, o setor poderá ganhar fôlego para brigar de igual para igual a partir de 2021. Até lá, o governo e a Petrobras precisam manter alguma política de proteção, como forma de impedir a invasão de petroquímicos básicos, notadamente nafta e eteno, assim como as resinas derivadas desses produtos.

A opinião é de João Luiz Zuñeda, sócio-diretor da Maxiquim, uma das principais consultorias do país especializadas na análise de cenários da indústria química. Os relatórios da Maxiquim são empregados para afinar decisões estratégicas dos grandes players de primeira e segunda geração do setor e da maioria dos sindicatos de transformadores de resinas termoplásticas do país.

Como justificativa para sua posição, Zuñeda lembra que existem novos crackers que entraram em operação em 2007, no Oriente Médio. Até 2011, as demais unidades projetadas para a região também estarão em funcionamento. Como efeito, a capacidade de processar nafta sobe 30 milhões de toneladas por ano no mercado mundial, até a virada desta década, fato que deverá pressionar para baixo os preços dos produtos ao longo da cadeia.

A Arábia Saudita, sozinha, terá condições de adicionar sete milhões de toneladas de nafta em seus novos crackers. A China, uma grande consumidora de petroquímicos e com unidades de produção defasadas, está fechando plantas velhas para aumentar sua capacidade de produção e irá inaugurar unidades de última geração para mais seis milhões de toneladas de nafta processada. Algumas dessas plantas erguidas com capital chinês foram construídas no Irã, onde as empresas europeias e dos EUA estão fora de qualquer tipo de atividade por razões de natureza política. O Irã tem ainda seus investimentos próprios e vai oferecer mais quatro milhões de toneladas de nafta.

As 13 milhões de toneladas restantes serão processadas no Catar, Emirados Árabes, Kuwait e outras plataformas produtivas do Golfo Pérsico, com investimentos corporativos norte-americanos, por meio da Dow e ExxonMobil, por exemplo. Os europeus têm forte atuação por meio da Shell, British Petroleum, entre outras, além da própria Sabic, pertencente aos reis do petróleo sauditas.

Química e Derivados, João Luiz Zuñeda, sócio-diretor da Maxiquim, Petroquímica
João Luiz Zuñeda: expansão o Oriente Médio ameaça setor no Brasil

A vantagem dos árabes e iranianos, segundo Zuñeda, é que por conta dos novos ativos produtivos e do capital acumulado no período em que o petróleo esteve cotado em US$ 150 por barril, eles conseguiram chegar a um custo de venda da nafta na casa dos US$ 250/t, algo impraticável para a Europa, EUA e América Latina. Para se ter uma ideia da disparidade, na Europa o custo da nafta entregue para a indústria de primeira geração já esteve em US$ 1.000/t, em 2006, porém baixou para US$ 800 nos últimos meses.

No Brasil, o preço da nafta registrou um pico de preço de US$ 1.200/t, em 2008. Chegou a despencar para US$ 420/t nos três primeiros meses de 2009, mas estabilizou também em US$ 800 a partir de abril. Esse preço ainda valia no mês de maio. Como explica Zuñeda, por conta da crise nos principais mercados, o cenário atual de superoferta se reflete negativamente na rentabilidade e nas vendas das empresas brasileiras.

Com relação ao excesso de nafta e eteno, o problema tende a se agravar no curto prazo. Ele explica: em 2008, a demanda mundial de nafta pela indústria petroquímica foi de 115 milhões de toneladas. Em 2009, o consumo será de quatro milhões de toneladas a menos, ou seja, 111 milhões. Com a entrada dos volumes proporcionados pelas novas plantas e adicionando a queda de demanda, poderá ocorrer uma nova bolha de superoferta de aproximadamente 34 milhões de toneladas de nafta e, por conseguinte, de derivados petroquímicos ao longo da cadeia. Desse volume, dois terços serão transformados em eteno e posteriormente em polietileno, a resina mais popular entre os termoplásticos.

Diante de tal cenário, Zuñeda alerta que os acordos bilaterais do Brasil, tais como os que vêm sendo alinhavados com a Arábia Saudita, neste momento, podem ser perniciosos para a petroquímica nacional, por derrubar as barreiras alfandegárias de todos os produtos de cada país, embora favoreçam outros elos da economia, como a agroindústria. Para Zuñeda, nos próximos dez anos o Brasil irá criar as condições necessárias para realizar preços petroquímicos mais competitivos, após cumprir um período de transição compreendido por três etapas.

A primeira etapa, conforme o sócio da Maxiquim, foi cumprida. Corresponde à consolidação de todas as empresas em dois grandes conglomerados, notadamente a Braskem e a Quattor, com participação societária da Petrobras próxima de um terço de todo o sistema corporativo.

A segunda parte é a reformulação do critério de formação do preço da nafta, um velho tabu estimulado pela Petrobras, o qual começou a ser rompido na virada de 2008 para 2009. De acordo com Zuñeda, uma nova equação foi estipulada, saindo do chamado preço spot, o qual amarrava os valores da nafta em margens muito apertadas de negociação ao longo da cadeia. A fórmula é mantida em sigilo, contudo a Braskem revelou que basicamente os novos valores deixarão de contabilizar tão somente os critérios de leitura de custos praticados na Europa e nos Estados Unidos.

A terceira etapa prevista por Zuñeda é de longo prazo, começará a gerar frutos a partir de 2021 e envolve o início das operações do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e o começo da produção em escala das novas jazidas de petróleo descobertas no país. Neste aspecto, ele destaca a tecnologia 100% nacional do Comperj, com investimentos preliminares divulgados em torno de US$ 8 bilhões, para produzir petroquímicos básicos obtidos de petróleo pesado de Marlim ou do próprio pré-sal, o que diminuiria os custos. Outro ponto a favor se relaciona à consolidação da aliança da Braskem com a indústria petroquímica na Venezuela, e também com a estrutura existente no Peru, para confirmar o Brasil como maior potência do setor no Hemisfério Sul.

Conforme Zuñeda, a Quattor também deverá alargar seus passos na América Latina para encontrar parceiros, pois essa é a lógica da nova petroquímica pós-crise. Isso é: formar grandes conglomerados por meio de alianças transnacionais e fusões. Como assinala o consultor, no longo prazo surgirá uma nova cesta de custos de produção e preços muito mais baixos, de tal forma que permita à petroquímica nacional condições de se igualar ao patamar competitivo do Oriente Médio.

Otimista, Zuñeda prevê que, a partir de 2021, o país poderá vender nafta a US$ 250 por tonelada e enfrentar a concorrência dos pesos pesados do petróleo agrupados na Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). Entretanto, ele enfatiza a necessidade de respeitar esse período de transição de dez anos, com alguma política protecionista. “O mercado não irá resolver tudo e a pergunta que se faz é qual petroquímica o governo quer, uma nova investindo no Brasil, ou uma velha sem competitividade para afundar quando acabar a crise”, raciocina.

Cenário do petróleo – Recentemente, a Maxiquim publicou em seu site na internet uma leitura de cenário para as oscilações dos preços do petróleo, tema pertinente aos interesses da cadeia petroquímica. O documento alerta para o ambiente de euforia protagonizado por ocasião da última queda do preço do Brent para US$ 34 por barril. “Essas mesmas pessoas, grande parte economistas, entendem que o atual momento econômico não permite preços superiores a este patamar.”

No entanto, o documento alerta que a Opep e outros países atuantes na exploração e produção de petróleo tinham condições e conseguiram elevar novamente os preços e estabilizá-los em US$ 60 por barril. O documento alerta que os emergentes, notadamente a Rússia, foram os grandes responsáveis pela escalada do petróleo para a casa dos US$ 150 por barril a partir de 2005.

Como ganharam muito dinheiro com o valor especulativo, essas empresas estão capitalizadas para manter investimentos com o preço do óleo bruto a US$ 80 por barril como patamar máximo. Entretanto, o texto assinala que enquanto persistir a crise, o preço deverá ficar por volta de US$ 60.

Os consultores da Maxiquim lembram que a estabilidade do preço do petróleo é reforçada por estatísticas como a queda de 14% no consumo de gasolina nas bombas dos EUA. Além disso, comparadas a 2008, as reservas de petróleo voltaram aos níveis de 1990 e são 34% superiores a 2008. Preços muito superiores aos atuais US$ 60, nem a Opep os quer porque comprometeriam a recuperação da principal economia do planeta.

Ou seja, uma parte dos grandes produtores quer elevar o atual patamar de preços, mas a estagnação na economia americana cria um equilíbrio de forças pela manutenção do preço atual. Dito de outra maneira, o cenário de curto prazo, projetado pela Maxiquim, é de estabilidade do preço do petróleo, favorável a um período de calmaria nas negociações de valores ao longo da cadeia, que se reflete diretamente nos preços petroquímicos.

Com os atuais patamares do preço do petróleo, a Maxiquim concluiu que os produtos petroquímicos, da mesma forma, acompanharam as oscilações. Enquanto a nafta brasileira oscilou para cima entre US$ 420 e US$ 800/t, nos três primeiros meses de 2009, o eteno sofreu queda de preço, pois em janeiro último estava cotado em US$ 1.320,00. Em abril foi vendido a US$ 915,00. O propeno teve redução de US$ 1.206,00 para US$ 708,00 e o butadieno sofreu forte redução de US$ 1.096,00 para US$ 627,00. Por outro lado, o benzeno e o estireno subiram na cotação.Respectivamente, foram de US$ 348,00 para US$ 406,00 e de US$ 842,00 para US$ 912,00. Todos os valores correspondem a preços médios por tonelada.

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