Petroquímica: Perspectivas 2009 – Indústria brasileira sente a crise, mas pode ter alívio com apoio estatal

Química e Derivados, Petroquimica

A palavra “crise” voltou a ser pronunciada pelo setor químico nacional depois de quase cinco anos de resultados positivos. Todos os leitores habituais de jornais e revistas sabem que o problema afeta toda a economia mundial, tendo início no setor financeiro dos Estados Unidos, em setembro de 2008. Poucos, porém, conseguem se lembrar que a euforia provocada pela abundância de crédito barato fez girar rápida e vigorosamente a máquina global de produção durante os dez anos anteriores. De calçados a arranha-céus, de patinetes a limusines, todos os produtos multiplicaram suas vendas. Junto com eles, os infalíveis produtos químicos.

O decênio prodigioso (1998 a 2008, aproximadamente) explica a voracidade dos investidores em anunciar projetos de novas unidades químicas e petroquímicas. Devem entrar em operação, entre 2008 e 2009, quase 9 milhões de t/ano de eteno, localizadas principalmente no Oriente Médio. Porém, as novas fábricas, projetadas para alimentar uma demanda global insaciável, entrarão em marcha em um ambiente claramente hostil. O preço de mantê-las com alta ocupação de capacidade será o fechamento de várias outras unidades ao redor do planeta, menores e menos eficientes.

A duração e a intensidade da crise global ditarão os rumos dessa indústria nos cinco continentes. Há quem considere que a petroquímica da Europa, com crackers relativamente pequenos, antigos e alimentados com cargas líquidas, além de situada no alcance imediato dos produtos do Oriente Médio, sem falar nas suas restrições de caráter ambiental, venha a ser a mais afetada do mundo. Porém, alguns analistas comentam que a situação europeia não é tão dramática. Para eles, o fato de o preço do petróleo (e da nafta) ter perdido mais de dois terços de seu valor entre julho e dezembro de 2008 (o barril do Brent caiu de US$ 147 para menos de US$ 50 no período; em janeiro ficou abaixo de US$ 40) reavivou a competitividade dos europeus, sem falar na vantagem de dominar amplamente a tecnologia produtiva. Além disso, ao processar nafta em vez de gás natural, essa indústria oferece grande número de produtos para muitas cadeias produtivas. As linhas estreantes, com base em gás natural, se restringem aos polietilenos e ao monoetilenoglicol.

Nas indústrias de especialidades químicas, a fase da bonança aliada aos esforços de globalização econômica incentivou a formação de grandes conglomerados, cujas negociações se valeram do crédito farto e da valorização de suas ações nas bolsas, que serviram de lastro para novos endividamentos, além de atrair a atenção de fundos de investimento. Fusões e aquisições no setor químico foram negociadas com base em múltiplos de EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) que frequentemente passaram de onze, muito além dos patamares históricos (por volta de sete, nos bons anos).

Quando a tempestade financeira se alastrou para o setor produtivo, quem estava mais “pendurado” sentiu o golpe. Negociações foram desfeitas, como o trato Hexion-Huntsman, ou a desistência da estatal do Kuwait em formar com a Dow Chemical um gigante petroquímico (a K-Dow), fato que poderá ter reflexos na aquisição anunciada da Rohm and Haas pela Dow. A LyondellBasell pediu concordata em janeiro (chapter 11 da legislação americana), protegendo-se contra credores apressados. No entanto, há negociações que atravessam placidamente a tormenta, como a compra da Ciba pela Basf.

O impulso consolidador atingiu também a distribuição de produtos químicos. Univar e Brenntag se destacaram dos concorrentes pelo fato de serem controladas por investidores financeiros e por rivalizarem nas aquisições espetaculares, a exemplo da compra da ChemCentral pela Univar. Ambas terão de digerir esses investimentos em um ambiente menos favorável.

Química e Derivados, Faturamento líquido de 2008 - Em US$-Bilhões, Petroquimica
Faturamento líquido de 2008 - Em US$-Bilhões. Clique para ampliar.

Esforço nacional – O fator determinante da sanidade dos balanços das companhias químicas em 2009 será ditado pelo desempenho de seus clientes. Caso a demanda por produtos diversos recupere a vitalidade, será possível evitar um desastre. No caso brasileiro, medidas como a redução de impostos nas vendas de carros novos, a dilação de prazo de recolhimento de tributos federais e estaduais (em alguns estados) e a facilitação para operações de crédito ao consumidor têm o claro objetivo imediato de atiçar o fogo da demanda nacional.

Química e Derivados, Nelson Pereira dos Reis, Vice-presidente executivo da Abiquim e presidente do Sinproquim, Petroquimica
Nelson Pereira dos Reis: Câmara precisa aprovar o marco regulatório do gás

Em prazo mais amplo, obras civis necessárias, mas sempre adiadas, como a revitalização da malha ferroviária, das rodovias e portos, além de investimentos em eletricidade, ou seja, na infraestrutura nacional, injetarão muitos recursos na economia brasileira, contribuindo para conter o desemprego.Em uma visão mais ampla, a economia nacional se apresenta hígida, com bons alicerces para enfrentar o período de crise, como avaliou o vice-presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Nelson Pereira dos Reis, também presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Químicos do Estado de São Paulo (Sinproquim). “Mas precisamos tomar muito cuidado”, aconselhou.Durante o Encontro Anual da Indústria Química (Enaiq 2008), organizado pela Abiquim em dezembro, Reis comemorou a aprovação pelo Senado Federal do marco regulatório para o gás natural. A norma permitirá a aplicação de taxas diferenciadas para o gás vendido como insumo industrial. Resta acompanhar a tramitação na Câmara dos Deputados. “Foram anos de trabalho da Abiquim para obter essa aprovação”, comentou, salientando que o PIB químico é o terceiro maior entre as indústrias de transformação do país.

Como ameaça, ele aponta a possível retomada da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio, porém submetida a negociações por segmentos. Nesse quadro, o Brasil poderá ser induzido a reduzir o imposto de importação sobre produtos industrializados em um ano em que a demanda mundial estará profundamente deprimida, pondo em risco a produção nacional.

A indústria química brasileira, em sentido amplo, apresentou faturamento líquido de US$ 123 bilhões em 2008, segundo estimativas da Abiquim. Em sentido estrito, os chamados produtos químicos de uso industrial representaram US$ 61,6 bilhões, um acréscimo de 11,8% em relação ao desempenho de 2007. Em reais, o aumento foi de 3,3%, chegando a R$ 110,9 bilhões de faturamento líquido. A diferença de desempenho é explicada pela variação cambial do período.

Marcos De Marchi, presidente da Rhodia na América Latina e coordenador da comissão de assuntos econômicos da Abiquim, apontou uma queda de 8,1% na produção física e de 9,1% nas vendas internas do setor. “Essa retração é explicada pela queda de demanda no quarto trimestre e pelas paradas programadas das centrais petroquímicas durante o ano”, explicou De Marchi.

Química e Derivados, Marcos De Marchi, Presidente da Rhodia na América Latina e coordenador da comissão de assuntos econômicos da Abiquim, Petroquimica
Marcos De Marchi: paradas das centrais e da demanda frearam a produção

Todos os anos, o quarto trimestre apresenta uma redução de produção e de vendas avaliada, em média, entre 5% e 10%. Em 2008, a queda foi ainda maior, segundo a Abiquim. Como o faturamento cresceu a despeito da queda de vendas, pode-se inferir que os preços médios cresceram durante o ano, pelo menos até outubro.

A balança comercial do setor químico nacional manteve a tendência deficitária, com importações US$ 19,8 bilhões superiores às exportações. “Os importados respondem por 28% do consumo aparente nacional de produtos acompanhados pela entidade”, informou De Marchi.

“A indústria química brasileira exporta muito, foram US$ 10,4 bilhões em 2008, 6% de toda a exportação nacional”, afirmou Carlos Mariani Bittencourt, presidente do conselho diretivo da Abiquim. “Porém representamos 20% de todas as importações nacionais.” Ele lamentou que, apesar de todos os esforços do setor, os investimentos recentes e em curso não serão suficientes para acompanhar o crescimento da demanda nacional, exigindo manter esse déficit. Apesar disso, ele considerou 2008 como um bom ano para o setor, cujo faturamento líquido permitirá subir alguns postos no ranking mundial. Em 2007, o Brasil ficou em nono lugar, muito perto da Itália.

Química e Derivados, Carlos Mariani Bittencourt, Presidente do conselho diretivo da Abiquim, Petroquimica
Carlos Mariani Bittencourt pede incentivo para agregar valor ao produto local

Em análise sucinta, Mariani citou o setor farmacêutico, que representa 14% do faturamento da indústria química nacional (em sentido amplo). “As importações farmacêuticas apresentaram preço médio de US$ 137 mil por tonelada, enquanto as suas exportações foram feitas na média de US$ 31 mil por tonelada”, calculou, para concluir pela necessidade de investimentos para melhorar o conteúdo tecnológico da produção nacional.

O dirigente da Abiquim considerou que o setor de fertilizantes responde por grande parte das importações químicas, mas, sem eles, seria impossível obter os recordes de produção agrícola que, por sua vez, geram grandes saldos de exportação. “Há muitos produtos químicos na mesma situação, ou seja, cujos déficits comerciais são transformados em excedentes exportáveis em outras cadeias produtivas”, avaliou.

No caso dos fertilizantes nitrogenados, sua produção local não deslancha pela falta de gás natural de baixo custo. Outros derivados de petróleo, como a nafta, também precisam ser ofertados em volume suficiente e preço compatível para justificar investimentos de vulto no setor. “Governo e Petrobras precisam estudar meios de apoiar o desenvolvimento industrial, oferecendo estímulos para investir ou, pelo menos, para não desistir”, disse.

Petrobras responde – Na qualidade de fornecedor de petróleo e insumos petroquímicos, mas também como acionista dos dois conglomerados petroquímicos nacionais – Braskem e Quattor –, a Petrobras reafirmou sua intenção de proteger o mercado interno, mantendo-o abastecido a preços competitivos. “Decorrem da crise o aumento do custo de capital, a queda de liquidez e da demanda por produtos exportados pelo Brasil”, afirmou José Sérgio Gabrielli, presidente da estatal.

A falta de apetite mundial pelos produtos brasileiros precisa ser compensada pelo fortalecimento do mercado interno. O cenário de crise altera os projetos e planos de investimento de todas as companhias mundiais de petróleo e petroquímica, segundo o executivo. “É natural que a produção se concentre onde a matéria-prima seja mais barata, no caso do petróleo, no Oriente Médio, com predomínio do gás natural como fonte petroquímica”, considerou. A China deve absorver parte dos acréscimos da produção de etileno e de resinas plásticas, apostando na capacidade de absorção de produtos pela sua demanda interna.

Química e Derivados, José Sérgio Gabrielli, Presidente da Petrobras, Petroquimica
José Sérgio Gabrielli: petroquímica voltou a se aproximar das refinarias

No caso brasileiro, os indicadores apontam que a atividade econômica ia muito bem até outubro, quando declinou, embora a variação cambial abrupta tenha oferecido proteção contra importados. “Para nós, é importante que Braskem e Quattor mantenham seus planos de crescimento para aproveitar as variações cíclicas, estando com fábricas prontas quando houver a recuperação da demanda”, afirmou. Como acionista, a Petrobras pretende incentivar projetos petroquímicos no país.

Na sua avaliação, o mercado mundial de etileno deve ficar ofertado a partir de 2009, provocando a queda do índice de ocupação das centrais, incluindo as brasileiras. A recuperação desses índices ao patamar de 2007 só acontecerá por volta de 2012. Com isso, a tendência de preço da nafta é declinante, e deve ser sentida brevemente no mercado local.
De um ponto de vista mais amplo, Gabrielli considera que a petroquímica mundial se aproximou muito da atividade de refino de petróleo em todo o mundo. “O Brasil estava indo pela contramão, mas agora adotou a mesma lógica”, disse. Embora não tenha em mãos a revisão do plano de negócios da companhia (em reavaliação desde outubro), ele apontou os investimentos da Petrobras em projetos petroquímicos, como os de Suape-PE, onde atua na formação de um cluster têxtil e de produção de PET para garrafas. A estrela da lista é o Comperj, projeto fluminense de refinaria de óleo pesado para a produção de matérias-primas petroquímicas que deve entrar em operação por volta de 2013.

No seu core business, a Petrobras apresenta uma situação tranquila. É a única grande petroleira cujo principal mercado é o interno. Também se destaca por poder ampliar a produção sem precisar de novas descobertas. “Podemos aumentar a produção em 7,7% ao ano até 2015 sem mexer no pré-sal, com total segurança”, explicou. A produção nacional é de 2,3 bilhões de boe/dia, com potencial para chegar a 4,1 boe até 2015.

Química e Derivados, Comércio exterior de químicos industriais - Em US$ Bilhões, Petroquimica
Comércio exterior de químicos industriais - Em US$ Bilhões. Clique para ampliar.

O pré-sal é a região mais promissora do Brasil, porém exigirá grandes investimentos no desenvolvimento de tecnologia para permitir sua extração e transporte. Gabrielli comentou que a Petrobras é líder mundial em exploração em águas profundas, usando plataformas flutuantes tipo FPSO, escoando o óleo por navio e o gás, por dutos. Cada FPSO custa perto de US$ 7 bilhões. “Para explorar o pré-sal, precisaríamos de umas cinquenta dessas plataformas, fica caro demais, por isso, precisamos criar uma nova forma de exploração”, explicou. Além disso, os poços do pré-sal na Bacia de Santos ficam a 350 km da costa, mais que o dobro da distância dos poços da Bacia de Campos. A perfuração da grossa camada de sal também exige usar materiais mais resistentes, tanto pelo cisalhamento quanto pela presença de gás carbônico.

Em tempos de petróleo barato, a companhia deve aumentar seus investimentos em áreas menos custosas, evitando transferir os pesados custos para os bolsos de seus consumidores. A estatal impõe alto percentual de conteúdo nacional (65%) em seus investimentos, gerando a esperança de que a fabricação local de equipamentos específicos venha a crescer significativamente, impulsionando o crescimento de todas as atividades econômicas.

Previsões difíceis – No início de 2009, ainda não se consegue enxergar o tamanho e a profundidade da crise, ou mesmo estimar com precisão os seus efeitos na economia nacional. Pedro Malan, ex-ministro da fazenda e membro do conselho de administração do Itaú-Unibanco, salienta que o Brasil dominou a inflação há quinze anos e o ambiente institucional e regulatório da economia é modelar, tanto que os bancos locais não exibem os mesmos níveis de créditos duvidosos dos seus congêneres norte-americanos. “A situação brasileira é boa, mas não se pode afirmar que nenhum país, nenhum mercado, passará incólume por essa crise”, avaliou.

Ele prevê o fim do período de dificuldades quando os preços dos ativos econômicos atingirem um valor sustentável e houver demanda por eles; quando forem dimensionadas as perdas de todos os agentes financeiros mundiais; quando forem definidas as formas de desalavancagem financeira (para cada dólar captado, os bancos dos EUA emprestavam trinta); e quando o setor financeiro mundial passar por uma dolorosa consolidação, em um processo de destruição criadora schumpeteriana.

“Com certeza, 2009 será um ano difícil e as empresas deverão tomar decisões muito boas de curto, médio e longo prazos para sobreviver e estar prontas para aproveitar as oportunidades que surgirão quando houver a retomada da economia mundial”, afirmou Malan.

Nas páginas seguintes, QD apresenta detalhes da situação atual e perspectivas de setores intimamente ligados à atividade química, no papel de clientes, como a produção de tintas e de cosméticos, ou no de fornecedores de máquinas e equipamentos, por exemplo. Além das expectativas em relação à infraestrutura nacional, que afeta a todos.

Leia mais: Europa prevê queda na produção química

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.