Petroquímica: Perspectivas 2009 – Europa prevê queda na produção química

Química e Derivados, Petroquimica

Desafios e incertezas caracterizarão 2009 para a indústria química do Velho Continente. A crise financeira em curso reduz substancialmente o poder de compra dos europeus e agrava a desaceleração de setores fundamentais para a economia, como têxtil, construção civil, eletrodomésticos e automotivo. Somente na Itália, por exemplo, as montadoras registraram uma retração de 13,4% no número de veículos licenciados em 2008.

Os efeitos da turbulência dos mercados internacionais, obviamente, atingirão da mesma forma as indústrias químicas de base e downstreams, que agora enfrentam as consequências da baixa liquidez dos próprios clientes, a restrição do crédito bancário, a força da moeda única europeia e a sua interferência na balança de exportações do continente. Segundo os dados divulgados pelo European Chemical Industry Council (Cefic), em meados de setembro de 2008, a produção europeia de produtos químicos (excluindo aqueles farmacêuticos) mostrava uma queda de 3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Durante os primeiros dez meses de 2008, os preços dos produtos químicos sofreram um incremento médio de 7,7% nos países da União Europeia. A nafta virgem, por exemplo – produto de refinaria mais vendido na Europa – sofreu um aumento de 86% em um ano, enquanto os preços dos polímerosregistraram um aumento de cerca 4,7%.

Estudos realizados pelo Eurostat, organização estatística da Comissão Europeia, indicam um inexpressivo crescimento de 0,5% para o setor em 2008, o menor desde 2003. O segmento que mais pesou nesta desaceleração foi a química para consumo, que registrou um decréscimo de 1,2% e expõe em primeiro plano a deterioração do poder de compra das famílias europeias. Além disso, com a menor demanda por materiais químicos, algumas empresas europeias decidiram interromper temporariamente a própria produção, enquanto os sindicatos acompanham com preocupação o futuro de alguns gigantes da indústria química americana com filiais na Europa. Folgas na linha de produção não são raras em algumas empresas.

No que se refere às exportações, o continente manteve boas trocas comerciais com países emergentes, como a Turquia, a China e a Rússia, mas houve redução dos negócios com alguns dos próprios membros da União Europeia. Com o fortalecimento do euro, uma das poucas vantagens dos produtores europeus é a possibilidade de compra, a preços competitivos, de matéria-primas de outros fornecedores não-membros. No ano que passou, as importações provenientes de países extra-UE representavam aproximadamente 42% do comércio exterior de produtos químicos do continente.

Para 2009, é previsto um declínio correspondente a aproximadamente 1,3% na produção da indústria química europeia. “Não será como no início dos anos 80, quando se verificou a última grande crise do setor”, explica David Thomas, economista da consultoria britânica Oxford Economics. “Naquela ocasião, a produção de substâncias químicas aumentou cerca de 10% em um trimestre depois que o governo retirou as medidas adotadas para controlar a inflação.”

Os especialistas do setor acreditam que, somente em 2010, a indústria química europeia voltará a ser mais dinâmica. Desta vez, sustenta o economista, estamos diante de grandes problemas estruturais. “Os governos tiveram de pedir tantos empréstimos que as suas dívidas reduzirão a velocidade do crescimento econômico e por isso acreditamos que antes de 2012 o PIB mundial não voltará ao crescimento anual de 4% registrado em 2007.

Química e Derivados, Previsão da oferta química na Europa, Petroquimica
Previsão da oferta química na Europa. Clique para ampliar.

Até mesmo os países emergentes, como a China e a Índia, não devem esperar resultados entusiasmantes em 2009. O American Chemistry Council (ACC) estima que a produção química chinesa crescerá algo em torno de 9,7% em 2009; um resultado que representa menos da metade do crescimento registrado no setor entre 2005 e 2007. Por sua vez, o mercado indiano deverá sofrer um decréscimo de 4% em relação ao ano anterior.

Esses números, contudo, não indicam que estes mercados perderam fôlego. Basta pensar que, nos últimos três anos, segundo a European Medicines Agency, cerca de 80% dos princípios ativos para a indústria farmacêutica europeia são importados principalmente da Índia e da China. “Os produtores chineses detêm mais de 50% do mercado europeu de pigmentos orgânicos convencionais”, afirma Fritz Brenzikofer, diretor-executivo da consultoria suíça IQChem.

Uma das preocupações mais presentes na indústria química norte-americana e europeia está relacionada à redução dos estoques por parte das empresas. O fenômeno de destocking atingiu plenamente a demanda, agravando a crise. “Em vez de comprar, clientes como as montadoras preferem controlar seus inventários, porque, obviamente, essa é outra maneira de obter liquidez”, opina Alan Eastwood, conselheiro econômico da Associação das Indústrias Químicas (CIA) do Reino Unido. “Esse comportamento tem reflexos diretos na indústria química porque estamos no topo da cadeia de suprimentos, mas cedo ou tarde os clientes deverão comprar novamente e esperamos que isso aconteça logo”, completa. Os especialistas acreditam que o destocking será superado somente a partir do segundo trimestre, mas que a demanda posterior será ainda muito mais fraca e que as empresas comprarão moderadamente, de acordo com as exigências do mercado e sem a necessidade de recompor os próprios estoques.

Parece ser consensual que, ao longo dos próximos semestres, serão mais raros os períodos de crescimento vigoroso. Segundo Henrik Meinche, economista sênior da associação das indústrias químicas alemãs (VCI), depois de quatro anos de crescimento contínuo, em 2009 a expectativa para o mercado alemão é de uma retração de 2,5%, considerada normal. “De qualquer maneira, a situação não é tão ruim quanto parece, pois ganhamos competitividade e desenvolvemos novas tecnologias em áreas como nanomateriais, eletrônica e energia verde”, avalia Meinche.

Enquanto a Alemanha aposta na corrida tecnológica para reverter a crise, na Itália o cenário gera preocupações. Em termos monetários, em 2008 o valor da produção química italiana diminuiu 1,6% e, para 2009, as perspectivas não são melhores. O centro de estudos da associação Federchimica sustenta que, em 2009, ocorrerá uma redução de 1,9% na demanda interna e uma redução de 3,5% na produção química nacional. Para a associação, a questão mais urgente no momento é a colaboração das esferas política e institucional. Deteriorar a confiança de indústrias estratégicas em um momento de tensões e em um ambiente temerário seria agravar ainda mais uma crise sistêmica.

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