Petroquímica: Gás barato e acesso a mercados estimulam a investir no México

Química e Derivados, Vista aérea do complexo Braskem-Idesa, em Nachital (Veracruz, México)
Vista aérea do complexo Braskem-Idesa, em Nachital (Veracruz, México)

Pena que não fica no Brasil. Essa frase é dita e repetida muitas vezes pelos brasileiros que trabalham ou visitam o complexo petroquímico Braskem-Idesa, construído dentro do prazo e do orçamento na pequena cidade de Nanchital (Veracruz, México), em sítio muito próximo do rio Coatzacoalcos. Em meados de novembro, os geradores de vapor foram colocados em marcha de modo a suprir as operações de limpeza das tubulações e equipamentos das instalações, dando início ao seu comissionamento. A partida do cracker e das unidades a jusante está prevista para dezembro.

Instalado nos arredores de três unidades petroquímicas da Pemex (Cangrejera, Morelos e Pajaritos) e provido de ampla estrutura logística (estradas de rodagem e de ferro, além de portos especializados com saída para o Golfo do México), o complexo em fase de conclusão representou investimento de US$ 5,2 bilhões, o maior projeto privado daquele país na atualidade. É composto de um cracker de etano para gerar 1.050 mil t/ano de eteno, olefina que alimentará dois trens de polietileno de alta densidade (PEAD, 750 mil t/ano, no total) e um de polietileno de baixa densidade convencional (PEBD, 300 mil t/ano).

Além da escala mundial, o complexo conta com um trunfo magnífico: um contrato de suprimento de 66 mil barris/dia de etano de gás de refinaria com duração de 20 anos e preço estipulado com base na cotação do gás em Mont Belvieu (Texas, EUA), com um desconto. Ou seja: o complexo terá sua principal matéria-prima a um valor mais baixo que a mais favorável referência mundial do ramo na atualidade.

O complexo vai gerar toda a eletricidade que consumirá, com algum excedente para ser injetado na rede de distribuição. Isso será feito porque a estatal petroleira fornecerá metano suficiente – com preço convidativo – para acionar uma turbina a gás (aeroderivada) e duas a vapor (que também será usado no processo).

Química e Derivados, Bischoff: tecnologia moderna se traduz em alta eficiência
Bischoff: tecnologia moderna se traduz em alta eficiência

Também é importante contar com mercado consumidor praticamente garantido. O México consome 2,1 milhões de t de polietilenos anualmente, dos quais 67%, ou 1,4 milhão de t, são importados. Mesmo considerando que o país é um dos mais abertos do mundo à entrada de produtos de outras origens, um produtor local tem a vantagem óbvia do custo de transporte. No caso da Braskem-Idesa, o etano local garantirá vantagem ainda maior.

Essa vantagem poderá ser mais ampla. O complexo utiliza as mais modernas tecnologias do mundo em suas unidades de processo. O cracker foi construído sob licença e projeto da Technip, conta com seis fornos de pirólise, dotados com as maiores serpentinas internas já fabricadas para essa aplicação.

“A título de exemplo, a Unidade Insumos Básicos de Camaçari-BA tem capacidade para 1,2 milhão de t/ano de eteno a partir de nafta, mas opera com duas linhas com 11 fornos cada uma, com um consumo de energia consideravelmente maior; a relação etano/eteno da Unib de Camaçari é de 1,3, enquanto a daqui do México deverá ficar em 1,2 ou menor”, explicou Roberto Bischoff, presidente da associação Braskem-Idesa.

Bischoff tem longa folha de serviços no setor petroquímico, tendo sido responsável pela construção das unidades de polipropileno e de PEAD/PELBD no Pólo Petroquímico de Triunfo, na década de 1990, passando por posições de comando nos polos paulista e baiano. O complexo de Nanchital está sob seu comando desde antes da terraplanagem, executada em 2012.

Química e Derivados, Paiva Leite: plantas gêmeas produzirão grades diferentes
Paiva Leite: plantas gêmeas produzirão grades diferentes

Produção de resinas – As unidades gêmeas de PEAD têm capacidade prevista para 400 e 350 mil t/ano. Embora idênticas, devem produzir volumes diferentes. “Pretendemos especializar cada unidade em determinados grades, uma delas deverá fazer polímeros bimodais, cujo tempo de residência no reator é maior, e também produzirá maior variedade de produtos, com tempos de campanha menores que a outra unidade, que ficará com a produção dos grades de maior demanda, com campanhas mais longas”, explicou Cleantho de Paiva Leite Filho, diretor de relações institucionais, novos negócios e comunicação externa da Braskem-Idesa.

Ambas as unidades de PEAD contam com tecnologia Inovenne S, licenciada pela Ineos, de slurry (em pasta ou lama), usando isobutano como solvente de processo. Os carros-tanques ferroviários com o solvente já estavam estacionados no pátio do complexo em meados de novembro. Segundo Paiva Leite, os estudos de mercado local e internacional apontam a existência de grandes excedentes de PELBD, especialmente os gerados em unidades com tecnologia de alternância (swing) com PEAD. Isso explica a opção pela tecnologia da Ineos, que também permite produzir grades adequados aos clientes mexicanos.

A produção de PEBD convencional seguiu a mesma orientação. Há anos que os investimentos mundiais nessa resina vêm diminuindo. Com o aumento da demanda – pequeno a cada ano, mas estável –, os preços subiram e justificam a opção. A tecnologia selecionada foi a Lupotech T, da LyondellBasell, com reator tubular de alta pressão cercado por grossas paredes de concreto, como um bunker.As resinas de alta densidade serão vendidas principalmente para produtores de frascos e tambores para produtos de limpeza, químicos e alimentos, mas também para caixas d’água, baldes e tubos. O PEBD, por sua vez, será consumido para fabricar sacaria industrial e filmes de alta transparência para contato direto com alimentos, produtos congelados e de uso agrícola. O polímero de baixa densidade convencional é o material mais adequado para a confecção da camada intermediária de embalagens laminadas, por apresentar adesividade natural.

“No PEAD, produziremos inicialmente 12 grades que atenderão às principais aplicações de extrusão, sopro e rotomoldagem dos nossos clientes”, explicou Paiva Leite. Ele comanda o pré-marketing do projeto desde o início, em 2012, com resinas importadas de outras unidades produtoras com tecnologias idênticas às adotadas pelo complexo petroquímico. Esse trabalho permitiu conhecer a indústria mexicana de transformação de plásticos, que é muito diversificada e pulverizada. “Identificamos a existência de 500 transformadores de grande porte, que são os clientes em potencial do nosso empreendimento”, comentou. “Já fazemos negócios com 350 destes.”

Os planos da Braskem-Idesa – consórcio no qual a brasileira detém 75% de participação, ao lado do grupo mexicano, com 25% – preveem colocar de início cerca de 500 mil t/ano no mercado do México. Em cinco anos, essa quantidade deverá subir para 900 mil t/ano.

Isso não quer dizer que o projeto ficará ocioso. A taxa de ocupação esperada para 2016 chega a 90%, mesmo considerando a curva de aprendizado da partida, que será conduzida de forma escalonada. A proximidade e a facilidade de escoamento da produção para os Estados Unidos garantem a colocação de grandes volumes da resina mexicana.

“O complexo Braskem-Idesa é o primeiro grande investimento petroquímico da nova era do setor, que será abastecida com o shale gas americano, com preços baixos”, afirmou Paiva Leite. Há quase duas dúzias de projetos de crackers de gás e de plantas de polietileno em construção nos Estados Unidos, mas poucos partirão antes de 2017. Portanto, o investimento prestes a entrar em operação terá dois anos para aproveitar a maré e o vento de popa. E, quando a concorrência aumentar, pode se voltar apenas ao mercado doméstico.

Logística de ponta – A infraestrutura local favorece esse raciocínio. E a Braskem-Idesa investiu para tirar o máximo proveito dela. A área reservada para atividades logísticas se destaca pela flexibilidade no aproveitamento dos modais de transporte. O complexo conta com 21 silos para abrigar 550 t de resinas cada, além de um armazém capaz de manter 14 mil t.

A plataforma operacional, com 20 hectares ocupados, permite carregar carretas rodoviárias ou vagões de trem (rail cars) – aliás, a joint venture está comprando 1.300 vagões e o seu terminal ferroviário pode abrigar 450 unidades estacionadas. Nas imediações há um porto especializado em cargas químicas e também um terminal de railferry, barcas capazes de levar até 110 vagões de trem para os Estados Unidos em apenas dois dias. O projeto de toda a parte logística contou com apoio da Katoen Natie, que será encarregada de conduzir essas operações.

É preciso salientar que o México possui tratados comerciais com países que, somados, representam 70% do PIB mundial. Ou seja, caso a demanda norte-americana esmoreça, há vários outros mercados para direcionar a produção.

Química e Derivados, Fadigas: Braskem venderá mais no exterior do que no Brasil
Fadigas: Braskem venderá mais no exterior do que no Brasil

Brasil fica mais longe – Enquanto a Braskem-Idesa prepara a partida do seu projeto tinindo de novo, no Brasil a atividade petroquímica amarga outro adiamento para a decisão sobre o contrato de suprimento de nafta que está sendo negociado com a Petrobras. O prazo fatal foi postergado para meados de dezembro, mas não há a menor garantia de que o impasse seja resolvido até lá.

“Este projeto que estamos concluindo aqui no México poderia ter sido construído no Rio de Janeiro, mas não tivemos acordo para recebermos gás natural em quantidade suficiente e preço competitivo”, comentou Carlos Fadigas, presidente da Braskem. Como esse problema vem se arrastando há anos (ou décadas), a companhia acelerou seus investimentos fora do Brasil. E está sendo bem sucedida. A partir de 2016, com as plantas mexicanas rodando cheias, pela primeira vez em sua história a companhia obterá mais de 50% de seu faturamento com vendas realizadas fora do Brasil – considerando a exportação de resinas fabricadas no país, mas também sua produção nos Estados Unidos, México e na Alemanha.

Nos Estados Unidos, a Braskem produz 1,5 milhão de t/ano de PP, operando cinco plantas (adquiridas da Sunoco e da Dow). E está planejando construir a sexta linha de produção no Texas. “Temos espaço no site para abrigar outra unidade para fazer mais de 400 mil t/ano, que nos permitira otimizar a produção das outras cinco”, disse. A oferta de propeno nos EUA é grande, há vários projetos de desidrogenação de propano em andamento.Nas condições atuais, a Braskem começa a pensar em produzir polietilenos nos Estados Unidos, também no Texas, em La Porte. Segundo Fadigas, os clientes norte-americanos de PP também consomem 4,5 milhões de t/ano de polietilenos e gostariam de ter a Braskem como fornecedora desses materiais. “Teremos condições de suprir uma parte dessa demanda com a produção no México”, afirmou.

O complexo mexicano é o primeiro investimento grass roots (desde o início, partindo do zero) da Braskem fora do Brasil. Segundo Fadigas, o governo mexicano abriu licitação internacional para o projeto em 2008, com anúncio da proposta vencedora em 2009. O consórcio entre a Braskem e o grupo mexicano Idesa foi firmada em 2010. “Nesse mesmo ano começamos a estudar a participação no Comperj”, recordou-se. Cinco anos depois, o complexo mexicano está pronto, enquanto o infausto projeto fluminense amputou a parte petroquímica e morreu a golpes de incompetência e corrupção. “No momento, nem pensamos mais no Comperj, mas poderíamos duplicar a produção que já temos na Baixada Fluminense, que usa etano de gás natural”, salientou.

Os sucessivos adiamentos do contrato de suprimento de nafta (ainda a principal matéria-prima petroquímica do Brasil) geram alto grau de insegurança em todo o setor. O projeto que a Styrolution montaria no Brasil com participação da Braskem para produzir estirênicos foi suspenso, sem data para ser retomado. “Sem matérias-primas com preço competitivo e garantia de suprimento, a petroquímica brasileira está ameaçada de fechamento”, ressaltou Fadigas. E na ponta da lista estão as unidades do pólo paulista, consideradas de menor porte e menos competitivas. “Basta saber que a produção mexicana de resinas seria hoje duas vezes mais rentável que a média brasileira.”

Além do México, a companhia estuda participar de projetos petroquímicos no Peru, onde a Odebrecht constrói o Gasoducto del Sur, importante ligação dos campos de produção de gás natural na Amazônia peruana para as grandes cidades e polos industrias daquele país. Na Venezuela, a companhia venceu as licitações internacionais para projetos de PP e polietilenos, mas hoje é remota a possibilidade de que eles sejam retomados.

Sustentabilidade – O investimento de US$ 5,2 bilhões no México não mediu esforços para garantir a sustentabilidade. A começar pela parte econômica e financeira, já asseguradas. Os aspectos ligados aos cuidados com o pessoal, com as pessoas que vivem na região e com o meio ambiente também foram respeitados.

A construção do gigante petroquímico exigiu um exército de trabalhadores. Um time de engenheiros brasileiros da Braskem foi deslocado para lá para acompanhar os trabalhos. Ao seu lado, representantes técnicos dos licenciadores tecnológicos e dos demais parceiros na construção das unidades. As obras forma tocadas por um consórcio liderado pela Odebrecht Engenharia Industrial (40%), Technip (40%) e ICA Fluor (20%, empresa mexicana subsidiária da americana Fluor Corporation). No pico dos trabalhos, 17 mil trabalhadores de 26 nacionalidades diferentes atuaram no complexo, exigindo montar uma estrutura compatível de acomodações.

Um dos orgulhos do projeto foi o baixo índice de acidentes com afastamento na fase final das obras, de 0,39 casos por milhão de horas trabalhadas. Na fase inicial, o índice chegou a 5,01, mas a aplicação de 3,5% das horas totais em treinamentos conseguiu reverter esse quadro. A média da Braskem é de 0,69, um excelente índice, compatível com atividades de operação de unidades estabelecidas, com pessoal muito treinado. Para uma construção, o índice da Braskem-Idesa (média de 0,99) foi considerado muito melhor que a média. Tanto assim que recebeu o DuPont Global Safety Award 2015.

Quando estiver em operação regular, o complexo empregará 700 profissionais diretamente e outros 2.100 indiretamente. “A maior parte desse pessoal virá das populações estabelecidas em um raio de 25 km de distância das instalações”, afirmou Paiva Leite.

O complexo se preocupou com o destino dos trabalhadores da obra, 90% deles recrutados nas vizinhanças, oferecendo toda a documentação comprobatória dos trabalhos e competências desenvolvidas e apoio para recolocação. As populações do entorno foram estimuladas a desenvolver negócios próprios, como granjas avícolas, criação de tilápias, confecção de uniformes e projetos de reciclagem, estimulando a economia regional. Há projetos de transformação de plásticos em fase de implantação no entorno que empregarão parte do pessoal, um deles, mais adiantado, fornecerá a sacaria para embalar as resinas produzidas pelo complexo.

As comunidades vizinhas também foram favorecidas pelo complexo mediante a melhoria da infraestrutura, como saneamento básico e suprimento de eletricidade.Quanto ao meio ambiente, além de construir as instalações adequadas para tratamento de água e de efluentes, o consórcio atuou para a preservação de espécies da fauna e flora, catalogando-as e transferindo exemplares para áreas seguras. A companhia reservou 30 hectares como reserva ambiental, mas adquiriu mais 100 hectares (além da área inicial) apenas para essa finalidade.

A região do complexo tem grande importância para estudos arqueológicos, que receberam apoio do projeto, a ponto de as descobertas na área inicial de 190 hectares terem sido reunidas em um livro. Os achados arqueológicos forma conduzidos com autorização e orientação do INAH (Instituto Nacional de Arqueologia e História) e permitiram entender melhor os deslocamentos populacionais na região antes da chegada de Colombo.

Integração local – O complexo petroquímico firmado entre companhias de dois países não deverá ser uma espécie de consulado brasileiro no México. Segundo a Braskem, a intenção é de substituir paulatinamente os brasileiros dos postos de comando por profissionais mexicanos. O comando da área de utilidades e do cracker já está em mãos de diretores de origem local, amplamente qualificados para a tarefa. As linhas dos polímeros serão incialmente comandadas por brasileiros experientes, mas serão substituídos aos poucos.

Química e Derivados, Previsão de mercado de PE no México

A área de controle de qualidade e desenvolvimento de produtos ocupa um moderno laboratório instalado no complexo. A integração das duas áreas permite compartilhar alguns dos muitos instrumentos analíticos, como os cromatógrafos a gás e líquidos de alta performance, analisadores de raios X e outros. As instalações contam com todo o aparato para estudo e caracterização dos polímeros, bem como de máquinas para ensaios em extrusão e injeção. Até agora, esses ensaios dependiam da remessa de amostras para o laboratório da Braskem no Brasil. Com o laboratório em plena atividade, espera-se maior aproximação com os clientes e aceleração dos desenvolvimentos locais.

Um dos pontos fortes do complexo está na área de automação e controle dos processos. Por ser de última geração, incluiu as tendências mais modernas no ramo. Por exemplo, a sala de controle do complexo é integrada. No mesmo ambiente, uma sala grande e confortável para abrigar 50 pessoas, foram instaladas ilhas de comando dedicadas a cada segmento operacional: utilidades, cracker, PEAD e PEBD.

A instrumentação e controle de campo foi encomendada à Emerson Process, que forneceu seu sistema Delta V e grande parte das válvulas de controle, com a marca Fisher. Segundo a Braskem, como a quantidade de válvulas e instrumentos era muito grande – e havia imposição de alguns licenciadores para aquisição de marcas específicas – foi preciso complementar o suprimento com outros fornecedores, em especial europeus, com alta qualidade e custos razoáveis.

O nível MES (gerenciamento empresarial) do projeto foi atribuído à Triconex, muito conhecida na área de refino e também pelos sistemas de parada segura (auto shut off). A interligação com sistemas de campo foi bastante simples, segundo especialistas do complexo.

A comunicação de dados para o sistema corporativo (ERP) será administrada com uma suíte de programas da AspenTech, especializada na aquisição e tratamento de dados de processos industriais. Os recursos instalados permitirão desenvolver práticas de controle avançado, que levam a operação das plantas ao máximo rendimento possível. Embora a suíte carregue um banco de dados extenso, gerado por operações de outras plantas semelhantes – ferramenta útil para treinar operadores –, os melhores resultados em controle avançado só aparecem depois dois anos de operação real nas próprias unidades.

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