Petroquímica – Consultores apontam tendências durante encontro da Apla

A 30ª Reunião Anual Latino-Americana de Petroquímica, promovida pela Associação Petroquímica Latino-Americana (APLA), entre 6 e 9 de novembro, no Rio de Janeiro-RJ, apresentou um panorama de negócios completo do setor. O temário incluiu os temas tradicionais ligados à estratégia de negócios, mas também tocou em novos pontos nevrálgicos da atividade, compreendendo a responsabilidade social e ambiental das companhias.

Química e Derivados, Robert J. Bauman, ChemSystems / Nexant / Polymer Consulting International, o mundo está redescobrindo a América Latina
Bauman: América Latina terá concorrência mais acirrada

Nos salões do Hotel Sofitel Rio foi possível conversar com alguns dos mais conhecidos consultores petroquímicos mundiais. Robert J. Bauman (ex-ChemSystems, ex-Nexant), agora atuando em empresa própria, a Polymer Consulting International, sediada em Spring (Texas, EUA) alertou para o fato de todo o mundo querer vender seus produtos (resinas e transformados) para a América

Latina, especialmente no Brasil. As taxas de crescimento das economias regionais em um período de baixa na atividade econômica dos países mais desenvolvidos explica esse súbito interesse. “O mundo está redescobrindo a América Latina”, enfatizou Bauman. “E vocês devem se preparar para enfrentar uma concorrência cada vez mais acirrada.”

Como a região não pode ser classificada como produtora de baixo custo, como é o caso do Oriente Médio, Bauman recomenda aperfeiçoar a produção, melhorar o atendimento aos clientes e ser mais criativo na oferta de grades de resinas e de formas de negociação, também visando à exportação. “Defendam o seu mercado, sejam os melhores, porque quem não tem baixo custo precisa ser diferente”, afirmou.

Há iniciativas em todos os continentes para a defesa de posições de mercado. “O sistema Reach é uma tentativa dos europeus para proteger sua petroquímica”, explicou. Ele apontou unidades na França que deveriam ter sido fechadas há vinte anos, por ineficiência. Na Itália, há um produtor de polietilenos que ainda recebe o eteno por caminhões, mas é o principal empregador da cidade de Brindisi. “Embora a transformação de plásticos empregue quinze vezes mais gente que a petroquímica, os congressos europeus preferem incentivar a continuidade dessas operações”, criticou.

A consolidação de negócios pode ser vista como um fator positivo para o setor. “A integração em um único grande produtor nacional, como foi feito com a Braskem, é um caso único no mundo e deve trazer excelentes resultados para os acionistas e funcionários, embora os compradores de resinas reclamem”, avaliou. Ele pondera que no mercado dos EUA não sobrou nenhuma indústria petroquímica não integrada – quem não se integrou, sofre para garantir o suprimento de matérias-primas.

Bauman também ressaltou que o ciclo de baixa do setor perdura há mais de 750 dias e não há previsão de nova alta importante de preços. “Entre 2009 e 2010, os resultados foram até melhores do que o esperado, mas isso foi obtido pelo fechamento de fábricas, atrasos na partida de novas capacidades e uma recuperação de demanda mais rápida que a prevista”, explicou. Ao mesmo tempo, o consultor aponta a iminência do aporte de mais de 20 milhões de t/ano de polietilenos e de 13 milhões de t/ano de polipropileno em todo o mundo, abrangendo os projetos em fase de conclusão. Quanto mais fábricas entrarem em operação, mais longe ficará a recuperação de preços e margens.

Para 2011, ele espera uma acomodação de mercados e queda de preços com a entrada em operação de vários projetos do Oriente Médio e da Ásia, que sofreram adiamentos para não dar partida no período mais crítico da crise mundial.

Os produtores situados no Oriente Médio continuarão mantendo o ritmo de construção de capacidades petroquímicas, pois têm acesso direto a matérias-primas de baixo custo. Com isso, podem levar suas resinas para qualquer lugar do mundo, sem perder a competitividade. “Os sauditas, principalmente, mantêm uma política inteligente de crescimento que inclui a entrada em especialidades químicas como o pentaeritritol e as alfaolefinas, nesse caso com tecnologia própria”, comentou. Já o Irã é apontado como aplicador de um modelo de negócios confuso, com problemas para integrar os crackers com as linhas de polimerização.

O panorama de mercado mostra um aperto no suprimento mundial de polietileno de baixa densidade, cujo desempenho financeiro tende a ser o melhor entre as resinas, seguido pelo PVC, também escasso. “O Chile vai buscar PEBD até em Israel; a América Latina recebia muita resina da Coreia, mas esse material agora está sendo consumido na própria Ásia”, explicou Bauman. Nos EUA, o polipropileno segue curto, pela falta de novas refinarias que pudessem gerar propeno adicional.

Projetos sul-americanos – O consultor Jorge Bühler-Vidal, diretor da Polyolefins Consulting, de New Brunswick (New Jersey, EUA), apontou os principais investimentos factíveis na parte meridional da América do Sul. Eles visam principalmente à produção de amônia e ureia obtidas de gás natural no Brasil, Peru, Argentina e Bolívia. Na região, o Brasil se destaca como o maior investidor do setor nos próximos anos, devendo aplicar mais de US$ 6 bilhões em projetos como a Petroquímica Suape, Comperj e as unidades de amônia/ureia da Petrobras.

Química e Derivados, Jorge Bühler-Vidal, Polyolefins Consulting, investimentos na América do Sul
Bühler-Vidal: falta gás para petroquímica argentina crescer

O segundo país com maior volume de projetos a médio prazo é o Peru: amônia e derivados em Pisco e Marcona, e um cracker de gás com polietilenos, este com a participação da Braskem. Ao todo, os investimentos montam a mais de US$ 5 bilhões. “O presidente Alan Garcia quer fazer a petroquímica peruana avançar, logo ele que no passado afugentou investidores”, ironizou Bühler-Vidal.

A Bolívia, assim como o Peru, tem boas reservas de gás, embora estejam sendo reavaliadas atualmente, com a possibilidade de redução. O governo Morales mantém projetos de amônia e também deseja contar com a parceria da Braskem em um cracker e produção de polietilenos. “Ainda há muitas indefinições sobre esse projeto, o governo Evo Morales quer rever leis para promovê-los”, afirmou.

A Argentina apresenta apenas um projeto de investimento factível, segundo o consultor. Trata-se de uma planta para 1,5 mil t/dia de amônia e ureia, em Rio Grande, na Terra do Fogo. O projeto de US$ 650 milhões foi licenciado pela KBR (Halliburton).

“O principal problema argentino é o gás natural e sua precificação”, explicou Bühler-Vidal. Há muitos anos, o governo argentino fixou o preço do gás natural para venda aos consumidores em um patamar muito baixo, incapaz de remunerar os investimentos de exploração. Como é barato, o uso do gás foi amplamente difundido para aquecimento residencial e de alimentos, tornando-se escasso. Para que a população não sofra demais, principalmente durante o inverno, a indústria petroquímica tem seu suprimento cortado no pico da demanda, operando abaixo de sua capacidade anual.

“A situação na Argentina é tão ruim, que nem se pesquisam mais jazidas de gás, e as reservas estão baixas, exigindo importações da Bolívia e até do Chile, além de regaseificar GNL de fora”, explicou. O Chile importa gás natural liquefeito (GNL) e o exporta para suprir o vizinho. Até o Uruguai anunciou um grande terminal para regaseificação de GNL para venda para a Argentina, que já foi exportadora de petróleo há algumas décadas.

Bühler-Vidal reconhece que esse problema começou antes dos governos do casal Kirchner. “Mas eles estão no poder há quase oito anos e nada fizeram para mudar”, criticou. “Hoje em dia, o clima para investimentos está muito ruim na Argentina, no Equador e na Venezuela”, comparou. “É melhor investir em Cuba!”

Ele elogiou a continuidade dos investimentos da Petrobras, inalterados mesmo com a alternância de governantes. “O foco da companhia está na produção e isso não muda, tanto que o pré-sal é o resultado de décadas de estudos. Além disso, quando o presidente Lula viaja para outros países não carrega com ele um séquito de ministros, mas leva empresários, fato que mostra a disposição de apoiar os negócios”, afirmou.

Na parte setentrional da América do Sul, o maior potencial de desenvolvimento petroquímico está na Venezuela e suas grandes reservas de gás e petróleo. A consultora Rina Quijada, CEO da Intellichem, de Houston (Texas, EUA) lamenta que os megaprojetos de produção de poliolefinas desse país tenham sido postergados. “Pelo menos, foi inaugurada neste ano a planta para 800 mil t/ano de metanol e estão em andamento as unidades de fertilizantes”, comentou.

A consultora espera o final da expansão da refinaria de Cartagena, da estatal Ecopetrol, da Colômbia, para ver se a petroquímica local tomará impulso. “Aumentará a disponibilidade local de nafta, mais cara que o etano, mas o governo pretende apoiar projetos que serão definidos em 2011”, avaliou.

No México, ela vê bom ambiente para o desenvolvimento de projetos. É o caso da Braskem-Idesa, com o Etileno XXI. “Em Minatitlan, a refinaria terá uma expansão até 2011, aumentando a disponibilidade de propeno para a Pemex”, informou.

Shale gas recoloca os EUA na trilha dos investimentos e muda o panorama mundial

 

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