Indústria Petroquímica: Ciclo de baixa ameaça indústria local

Petroquímica: Ciclo de baixa global ameaça indústria local com importações

O mercado petroquímico mundial virou a chave. Anos seguidos de investimentos em novas capacidades produtivas com base em matérias-primas abundantes levaram à geração de excedentes que, agora, pressionam para baixo os preços dos produtos derivados, entre eles as resinas plásticas.

Ainda não há previsão segura de quando o ciclo se inverterá e os preços voltarão a subir, carregando com eles os lucros das companhias do setor, mas isso não deve ocorrer antes de 2028.

A ciclicidade é típica de um setor em que a demanda evolui de forma contínua, mas as capacidades produtivas andam aos saltos, ou em caráter discreto, no sentido estatístico.

Quando a diferença entre oferta e demanda é positiva, os preços desabam, retardando investimentos adicionais até que o mercado avance e consuma os excedentes. Assim, a situação se inverte, os preços sobem e os investimentos voltar a ganhar impulso.

Há algumas décadas, o consultor Robert Bauman ganhou fama por ter previsto com exatidão a inversão de dois ou três ciclos. Na época, houve quem defendesse que a duração dos ciclos do setor seria de sete anos. Porém, de lá para cá houve mudanças profundas, a começar pelo uso cada vez maior do etano de gás natural como matéria-prima e pelo aumento de escala dos crackers e das unidades de polimerização. A descoberta do shale gas nos Estados Unidos, fonte abundante e barata, revolucionou o setor nos últimos vinte anos. As capacidades produtivas que entram em operação são cada vez maiores, tornando os saltos de oferta mais intensos.

A geografia da indústria também mudou, apontando para a Ásia como o novo hot spot de demanda e investimentos. Como o maior player regional, a China, nem sempre orienta sua economia pelas razões usuais de mercado, a elaboração de prognósticos sobre a duração da atual fase de baixa fica ainda mais nebulosa.

Do ponto de vista estratégico, a situação da América do Sul – e do Brasil, seu mais relevante participante – ficou mais difícil. Com a Venezuela e seu oceano de petróleo e gás fora de qualquer hipótese de investimentos, a região se esforça para não perder o parque industrial instalado ao longo das décadas anteriores.

Petroquímica: Ciclo de baixa ameaça indústria local ©QD Foto: Divulgação
Cordeiro: incentivos ao setor elevam arrecadação tributária

“O momento geoeconômico não favorece em nada a região”, avaliou André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

“Os EUA estão em guerra comercial com a China, evidenciada pela imposição de um imposto adicional de 25% para a importação de qualquer produto chinês, instituído no governo Trump e mantido na gestão Biden.”

Além de evitar a concorrência chinesa, a administração americana colocou óbices à exportação de gás liquefeito, de modo a incentivar a agregação de valor no país, mediante investimentos em capacidades produtivas de fertilizantes nitrogenados, produtos químicos diversos e resinas termoplásticas.

“Mais recentemente, a administração Biden lançou um trilionário programa de investimentos em infraestrutura que inclui até a expansão da geração de energia nuclear, dinamizando sua economia”, comentou Cordeiro.

Por sua vez, a China responde com ampliação do parque de refino para suprir a enorme frota de veículos leves e pesados, que consomem gasolina e óleo diesel. Com isso, tem um volume muito grande de nafta e de propeno para utilização petroquímica.

“Os chineses estão comprando petróleo russo com um desconto de 48% em relação ao produto de referência, é uma vantagem considerável que permite gerar excedentes exportáveis”, comentou.

A Europa teve sua petroquímica afetada pelas restrições às importações de gás e petróleo da Rússia depois que esta invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022. Na época, os preços do gás e dos derivados petroquímicos no continente europeu dispararam, mas voltaram a se acomodar ao longo do ano.

“O gás natural europeu está cotado por volta de US$ 8 por milhão de BTU, é caro em relação aos EUA, mas é quase a metade do preço que pagamos aqui no Brasil”, avaliou o presidente-executivo.

Sem vantagem nas matérias-primas, a tendência do continente europeu é de transferir parte da sua produção petroquímica para o Oriente Médio, nos países com os quais mantêm acordos comerciais e de transferência de tecnologia.

“Ao mesmo tempo, a Europa protege seu mercado com sistemas restritivos a importações por medidas não-tarifárias, como o sistema Reach”, apontou Cordeiro.

Como salientou, todos esses países combinam bem as suas políticas industrial e comercial. “No caso do Brasil, nós não temos uma política industrial e a política comercial foi desidratada no governo anterior”, criticou. “Somos um mercado aberto, as importações químicas crescem ano a ano.”

Vitórias recentes

Em 2023, o setor químico teve atendidas duas importantes reivindicações: a volta do Regime Especial da Indústria Química (Reiq, que alivia a cobrança de PIS/Cofins na primeira geração) e a retomada da alíquota de 11,2% do imposto de importação para os produtos químicos.

“Em agosto de 2022, o imposto de importação caiu para 3% a 4%, exceto para o poliestireno, ficando muito abaixo da referência mundial e sem se verificar nenhuma alteração estrutural de custos que justificasse essa medida, nem ao menos se ouviu o setor produtivo local”, salientou Cordeiro.

“Ficamos sem proteção comercial alguma entre agosto de 2022 e abril de 2023, no caso do polipropileno, até setembro deste ano, em pleno ciclo de baixa, com o gás natural americano cotado a US$ 2,5 por milhão de BTU, gerando produtos que invadiram o mercado brasileiro”, apontou.

Estudo realizado com uma cesta de aproximadamente 70 produtos químicos no período apontou um aumento de 60% em toneladas importadas, com redução média de preços de 30%. “Em alguns casos, como o dos plastificantes, as importações aumentaram em 150%”, disse.

Além disso, o setor sofre com os problemas econômicos específicos do Brasil. Com eles, a demanda interna por químicos registrou queda de 5% em volume no primeiro semestre deste ano, porém as importações cresceram entre 8% e 9%.

A retirada da proteção aos produtos químicos nacionais acabou sendo ruim até para o governo federal. “Dados da Receita Federal mostram que houve um recuo de R$ 2 bilhões na arrecadação de impostos com a retirada do Reiq e com a redução das alíquotas do imposto de importação, sem mencionar as perdas com a arrecadação de ICMS pelos estados, só o Rio Grande do Sul divulgou perdas de R$ 1 bilhão em 2022 decorrentes dessas medidas”, salientou Cordeiro. Essa queda de arrecadação era previsível.

Como explicou, mesmo com a alíquota de 11,2%, a proteção comercial aos insumos químicos ainda é baixa. Produtos que ingressam pela Zona Franca de Manaus-AM são isentos, bem como os originados no Mercosul e nos Países Andinos. “Com isso, a alíquota efetiva de proteção fica entre 6,5% e 7%, abaixo dos padrões internacionais”, ressaltou.

O presidente-executivo da Abiquim considera que o Estado, como regulador de mercado e poder arrecadador, é sempre conservador. Ou seja, busca sempre manter a situação presente, com a tendência de elevar as alíquotas para recuperar a arrecadação, sem olhar para a elasticidade de demanda pelo produto agravado.

O certo é estimular o aumento do volume da produção e, assim, o valor arrecadado”, recomendou.

Ele citou como exemplo o Inflaction Reduction Act, lei dos EUA que prevê a alocação de um volume entre US$ 500 bilhões e US$ 1 trilhão em subsídios durante 10 anos para a atividade econômica naquele país.

“Com isso, eles estão prevendo um aumento de US$ 11 trilhões na arrecadação tributária no mesmo período”, explicou. “Deveríamos montar programas setoriais no mesmo modelo, condicionando o aumento de produção com o da arrecadação, seria possível subsidiar até 100% do investimento, o capex”, apontou, salientando que a China e a Índia também adotam modelos semelhantes.

O setor industrial, incluindo a atividade química/petroquímica, tem encontrado no vice-presidente Geral Alckmin, também ministro de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, um interlocutor atento e atuante na busca por soluções.

“Temos um diálogo constante com ele e encontramos boa receptividade aos nossos pleitos, a exemplo dos casos do Reiq e do imposto de importação”, comentou.

Quando ao custo elevado do gás natural no Brasil, Cordeiro informou que a Abiquim participa da Coalização pela Competitividade do Gás Natural, ao lado de outros setores consumidores para discutir com a Petrobras e órgãos oficiais o aumento da oferta do insumo e a redução do seu preço, que hoje inviabiliza investimentos.

“Até há pouco tempo, não sabíamos sequer se haveria gás para ser comercializado, hoje sabemos que seria possível aproveitar até 125 milhões de m3/dia, mas isso exigiria investimentos pesados em gasodutos e unidades de processamento, as UPGNs”, disse. Esse volume ainda precisa ser discutido com a Petrobras, por conta dos limites técnicos e necessários para manter a pressão nos reservatórios de petróleo em exploração.

Havendo gás disponível, os primeiros projetos de industrialização serão do metano para a geração de fertilizantes nitrogenados e amônia. Depois, haverá oportunidades para consumo das frações de C2 a C5, ou seja, do etano aos líquidos leves.

“No mundo todo, quem banca a construção das unidades separadoras das frações do gás são as correntes de C2 a C5, em favor do metano, que é a fração de maior volume”, apontou. “Com gás garantido e preços adequados, os investimentos aparecem.”

Petroquímica: Ciclo de baixa ameaça indústria local ©QD Foto: Divulgação
Petroquímica na Bahia

Cordeiro também salientou a importância de preservar a indústria química local, tanto pela sua relevância estratégica – evidenciada na pandemia –, quanto pela econômica. “O total de ativos da indústria química brasileira soma US$ 180 bilhões, isso não pode ser depreciado”, afirmou.

Os indicadores da indústria nacional, quando comparados aos dos concorrentes internacionais, mostram a qualidade e a sustentabilidade da produção local. “Nossa produção emite 35% menos gases do efeito estufa em relação á Europa, e 50% menos que a média mundial”, apontou, com base em estudos realizados por consultoria internacional.

Em parte pela necessidade de se manter competitiva, a indústria química brasileira se esforçou para manter operações mais eficientes, tendo investido na descarbonização dos processos produtivos, sem mencionar as fontes energéticas.

“Porém, quando se troca o produto local pelo importado, opta-se por favorecer uma pegada de carbono maior, às vezes derivada do carvão”, criticou Cordeiro. Ele também explica que, ao reduzir a ocupação das capacidades produtivas em razão da maior participação de mercado dos importados, a indústria local deixa de operar no ponto ótimo de rendimento e eficiência, piorando seus indicadores.

Indústria petroquímica: Ciclo de baixa

A consultoria internacional Icis prevê que o excesso de capacidade instalada global das seis principais matérias-primas petroquímicas (etileno, propileno, butadieno, benzeno, xilenos mistos e tolueno) chegará a 218 milhões de toneladas em 2023 e se manterá nesse patamar até 2025, pelo menos.

A explicação do consultor John Richardson, especialista da Icis na região asiática, divulgada em março deste ano, vai além do investimento acelerado em novas plantas e aponta para uma redução significativa da demanda interna da China, que possivelmente não voltará a acelerar como antes.

O consultor apontou que, em 1990, a China representava apenas 5% do consumo mundial das seis matérias-primas petroquímicas fundamentais. Em 2022, esse percentual chegou a 35%. Isso se refletiu na demanda das sete principais resinas plásticas (PEAD, PEBD, PELBD, PP, fibras de poliéster, PS e PVC), das quais o consumo chinês abocanhava uma fatia bem fina, de 6%, da demanda mundial em 1990. Em 2005, a China se tornou o maior consumidor global dessas resinas e, em 2021, representou 42% de toda a demanda.

Richardson argumenta que a indústria petroquímica mundial cometeu um erro grave de avaliação de mercado ao apostar que a demanda chinesa permaneceria crescendo na casa dos dois dígitos indefinidamente, de modo a satisfazer os desejos de consumo de mais de um bilhão de habitantes. O estouro da bolha da construção civil e o rápido envelhecimento populacional chinês colocaram em xeque a expectativa de crescimento continuado. Mas as capacidades continuaram sendo erguidas.

O consultor avalia que a demanda chinesa se apoiava nitidamente na fabricação de itens para exportação, mais do que no consumo interno. Mesmo assim, estímulos oficiais foram oferecidos e a evolução da capacidade de produção chinesa foi espantosa. Considerando novamente as seis matérias-primas principais do setor, o gigante asiático detinha apenas 5% da capacidade produtiva mundial em 1990. Porém, em 2022, esse percentual chegou a 38%. E os investimentos seguem acelerados, contribuindo para formar o atual quadro de capacidade excedente recorde de 218 milhões de t neste ano, superando as 191 milhões de t em 2022.

No caso dos EUA, a Icis aponta que a vantagem de contar com gás natural de baixo custo permite ao país manter seus investimentos em novas plantas, tendo a exportação de produtos para garantir sua ocupação. No ano passado, as exportações americanas de polietileno bateram a casa das 11 milhões de toneladas. No PVC, as vendas ao exterior chegaram a 2,2 milhões de t, enquanto o PP teve 1,7 milhões de t exportadas.

Dados da consultoria apontam que o polietileno foi o principal produto químico exportado pelos EUA em 2022, seguido pelo metanol (perto de 3 milhões de t), soda cáustica, etilenoglicois e PVC (estes entre 2,2 e 2,4 milhões de t).

Pelos cálculos da Icis, no caso do PE, o país precisa manter uma exportação de 45% da produção para manter a ocupação das plantas em 90%. Para tanto, enfrentam desafios com as cadeias logísticas e com a concorrência chinesa e seus excedentes. A China deverá adicionar aproximadamente 140 milhões de t na sua capacidade produtiva de químicos e fertilizantes em 2023.

A vantagem do gás natural para a produção de etileno nos EUA é grande. A Icis estimou, em março de 2023, que o etileno feito com gás oferece margem de US$ 800/t, muito acima dos US$ 200/t obtidos com a olefina produzida no noroeste europeu e dos US$ 100/t no nordeste asiático, regiões que alimentam seus crackers com nafta. Essa diferença garante a competitividade das resinas feitas nos EUA. E essa vantagem pode subir, pois o preço do petróleo está em alta com a guerra da Ucrânia e a resistência saudita a aumentar sua produção para compensar o boicote ao suprimento russo.

No entanto, a demanda norte-americana por petroquímicos não está em forte expansão. Em 2022, superado o trauma da Covid-19, o mercado entrou em modo de desestocagem, levando a reduzir o ritmo de produção e a exportar mais.

A consultoria não espera uma retomada significativa das vendas naquele país quando terminarem os estoques, mas uma estabilização. Por isso, após a partida dos projetos em construção até 2026, não há previsão de uma nova onda de investimentos em crackers nos EUA. Ao mesmo tempo, os produtores locais devem investir em tecnologias limpas, favorecendo mais a produção de hidrogênio e o avanço das iniciativas para captura e armazenamento de carbono.

Indústria petroquímica: Impactos no Brasil

O ciclo de baixa afetou o desempenho das operações da Braskem, com impacto maior aqui do que no exterior. A ocupação das linhas de etileno nas unidades brasileira apontou queda no segundo trimestre deste ano (2T23), chegando a 72%, contra 77% do trimestre anterior. Em relação ao mesmo período do ano passado (o 2T22), a diferença foi menor, de apenas dois pontos percentuais.

As unidades na Europa e nos Estados Unidos (que lidam exclusivamente com propileno e seus polímeros) operaram com 80% de ocupação, em linha com os períodos anteriores. A operação mexicana, que produz eteno e resinas a partir de gás natural, alcançou uma taxa de utilização de 86% de sua capacidade, bem acima dos 72% do 1T23 e dos 67% do 2T22. Isso se explica pelo fato de a companhia ter conseguido melhorar o suprimento de etano para alimentar o cracker.

A avaliação da companhia para o 2T23 é de uma demanda global mais fraca pelas resinas e produtos químicos petroquímicos, refletindo o aumento de taxas de juros em vários países como resposta ao aumento da inflação. Além disso, houve desestocagem das cadeias produtivas a jusante, retraindo as vendas. E a China, por sua vez, frustrou expectativas de recuperação industrial pós-Covid, mantendo tímido avanço de consumo, enquanto continua investindo em novas capacidades produtivas.

Em comunicado oficial, a Braskem avaliou que, “no 2T23, a taxa de operação no Brasil foi inferior à do 1T23, principalmente pela retração da demanda no período e de instabilidades operacionais, que resultaram na redução de 13% no volume de vendas totais de resinas e dos principais químicos no mercado brasileiro. No entanto, a taxa média de utilização de capacidades nos Estados Unidos e Europa permaneceu em linha com o 1T23 e o volume de vendas aumentou 3%, influenciado pelo maior volume de vendas nos EUA. Vale destacar a performance operacional do segmento México que apresentou aumento na taxa de utilização de 14 p.p., dado o maior fornecimento de matéria-prima nacional e importada, que resultou no aumento de 8% no volume de vendas de PE no período”.

No 2T23, a demanda por resinas de PE, PP e PVC somou 1.394 mil t, 8% abaixo das 1.515 mil t do 1T23, mas 4% acima das 1.346 mil t registradas no 2T22. Isso levou à queda da utilização de capacidades no Brasil, dado para a qual também contribuíram alguns problemas isolados com suprimento de matérias-primas nas centrais petroquímicas de Triunfo-RS e do Rio de Janeiro no trimestre. A importação de resinas também ajudou a reduzir o volume de vendas de resinas produzidas no Brasil em 10% na comparação com o 2T22 (queda de 879 mil t para 789 mil t).

Para 2023, a Braskem prevê investir o total de R$ 4 bilhões, dos quais R$ 1,7 bilhão foi desembolsado no primeiro semestre, especialmente na preparação da parada programada de manutenção da central petroquímica de Camaçari-BA e também da planta de PVC de Alagoas, além de movimentos para melhoria da produtividade e confiabilidade dos ativos. No 2T23, foram feitos investimentos estratégicos na linha etileno verde, em Triunfo-RS (expansão de 30% na capacidade, chegando a 260 mil t/ano), na aquisição de insumos estratégicos (catalisadores), eficiência energética e inovação.

A Unipar também acusou os efeitos do ciclo de baixa em seus negócios.

Petroquímica: Ciclo de baixa ameaça indústria local ©QD Foto: Divulgação
Russomano: juros altos afetam os setores consumidores

“A indústria petroquímica está vivenciando o já previsto ciclo de baixa de preços das commodities nos mercados internacionais, que afeta todas as empresas mundiais do segmento. Além disso, temos enfrentado um agravante com a continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia que impacta as cadeias produtivas e provoca aceleração de inflação afetando insumos e demanda mundialmente”, salientou o CEO Maurício Russomano.

E prosseguiu: “No Brasil, seguimos enfrentando também um cenário desafiador com juros altos que desaceleram a economia e provocam queda de demanda local em todos os principais setores de consumo dos produtos de cloro, soda e PVC, como a construção civil, por exemplo. Decorrente também deste cenário adverso, a baixa demanda nos mercados globais faz com que as indústrias internacionais escoem produtos para o Brasil com preço ainda mais baixo porque são favorecidas em sua estrutura de custos, especialmente com preços reduzidos de gás natural e de energia não renovável, como carvão. Lembrando que o preço do gás natural nos EUA, por exemplo, é de US$ 2,50 por milhão de BTU e no Brasil, US$ 11 dólares.”

Mesmo pressionada por fatores externos, “a Unipar segue fazendo a sua parte, alcançando resultados sólidos e mantendo sua equação financeira e operacional saudável. Além de dar continuidade ao nosso plano de investimentos com visão de longo prazo e execução com disciplina e excelência. Nossa estratégia fundamentada nos cinco pilares: crescimento sustentável, excelência operacional, competitividade, equipe e cultura e sustentabilidade é a sustentação para nossa entrega do futuro, que é dobrar de tamanho em 10 anos”, comentou.

A Unipar também investe pesadamente em energias renováveis. Além da melhoria em sustentabilidade, a companhia espera equilibrar os valores gastos com gás e energia – a base da sua produção – que têm um preço bastante elevado no Brasil em comparação aos EUA e Europa, por exemplo, e ampliar a competitividade.

A companhia estuda oportunidades de crescimento pela expansão do seu core business atual (soda, cloro e PVC) no Brasil e na Argentina, ou em outros lugares do mundo, mas também considera a expansão em negócios adjacentes ao core e o avanço em novos negócios de química básica e petroquímica.

Nesse sentido, estão alinhados os projetos de expansão na fábrica de Santo André-SP e a construção de uma nova fábrica em Camaçari-BA que terá capacidade de produzir 20 mil t/ano de cloro e 22 mil t/ano de soda, para atender o potencial aumento de demanda gerado pelo novo Marco do Saneamento. Em Santo André, o projeto de expansão recebeu R$ 100 milhões em investimentos e será responsável por reduzir a emissão de carbono em mais de 2 mil t/ano e em 60% o consumo de água, em comparação com os fornos convencionais. “Além disso, a capacidade de produção de ácido clorídrico – insumo muito demandado na fabricação de produtos químicos usados no tratamento de água e esgoto – será ampliada em 15%”, concluiu Russomano.

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Descarbonização em alta

O grupo Unigel iniciou há alguns anos algumas iniciativas de redução de pegada de carbono em suas atividades, tanto com investimentos em suas fábricas, quando na contratação de eletricidade de fonte eólica, mediante contrato com a Casa dos Ventos.

Petroquímica: Ciclo de baixa ameaça indústria local ©QD Foto: Divulgação
Natal: descarbonização é meta mais importante do setor

“Estamos construindo uma unidade de ácido sulfúrico em Camaçari-BA para suprir nossa própria demanda e também para venda ao mercado – lembrando que o Brasil importa muito desse ácido – com um processo altamente eficiente que aproveita o calor gerado na reação para produzir vapor que usaremos em nossas instalações para substituir o vapor gerado pela queima de gás natural, essa é uma forma de descarbonização”, explicou Marcelo Natal, diretor executivo comercial de químicos da Unigel.

Natal entende que a descarbonização é o principal desafio da indústria petroquímica para as próximas décadas. “As empresas do setor já possuem suas metas, algumas mais ambiciosas do que outras, mas 2050 é o limite mais comum para que a maioria das companhias tenham descarbonizado sua produção”, explicou.

Natal admite que as atuais demandas ambientais terão efeitos sobre os negócios do setor, mas não há nenhuma possiblidade de que isso signifique a sua extinção. “Não há substitutos tão bons e econômicos para os produtos petroquímicos, porém teremos cada vez mais a substituição de resinas virgens pelas recicladas mecânica ou quimicamente”, apontou. “A reciclagem química fecha todo o ciclo, com alta qualidade.”

A maior presença de resinas recicladas no mercado tende a reduzir, no futuro, a oferta de materiais virgens. “A indústria terá de se adequar a essa situação, buscando integrar a reciclagem aos seus processos produtivos”, recomendou.

Natal observa que algumas cadeias petroquímicas estão migrando para o Oriente Médio e Distante, buscando aproveitar a disponibilidade de matérias-primas mais econômicas. A ressalva é o shale gas, que deu forte sustentação aos investimentos nos Estados Unidos, especialmente na cadeia do etileno. “A migração para o Oriente é mais forte nos derivados de propileno e nos aromáticos”, observou Natal.

O executivo comentou que a China era um grande importador de resinas plásticas, mas há uns cinco anos começou a investir pesadamente em capacidades petroquímicas. “Ela reduziu as importações e está exportando, isso desbalanceou o mercado global”, avaliou.

Ao mesmo tempo, 2023 apresenta inflação alta e retração de mercados em países importantes, como os EUA, Europa e China. Isso gera um volume enorme de excedentes que acaba sendo desovado pelo mundo, no Brasil, inclusive. “E a China continua acelerando a construção de capacidades e a exportação de vários produtos de várias cadeias produtivas, entre eles o estireno e a acrilonitrila”, prevê. A demanda mundial, por sua vez, segue crescendo, porém em ritmo menor. “O mercado de estireno, por exemplo, avança 2% ao ano, em média”, informou.

No Brasil, a demanda por derivados de estireno registra demanda crescente. A pandemia impulsionou as vendas por delivery, puxando o consumo de poliestireno extrudado (XPS) e descartáveis feitos de PS. “O mercado já voltou ao normal”, disse Natal. “Mesmo assim, o consumo de estireno no Brasil é crescente e está recebendo importações.” A Unigel tem projeto para expandir em 70 mil a 80 mil t/ano sua capacidade produtiva na Bahia, mas o mantém na gaveta enquanto observa o comportamento dos players chineses. “Temos consumo próprio para esse estireno, ocuparíamos uma capacidade ociosa nas linhas de polimerização, mas também teríamos excedentes para venda ao mercado”, explicou o diretor.

No final de agosto, a Unigel retomou a produção da unidade de poliestireno de Cubatão-SP, que estava parada desde julho. “Paramos a fábrica para ajustar o inventário, pois a demanda do segundo trimestre foi abaixo da esperada e estávamos carregando estoques muito altos, agora normalizados”, explicou. Também a unidade de fertilizantes (amônia/ureia) de Sergipe foi retomada em agosto, tendo em vista o aumento sazonal da demanda para o plantio da safra de verão.

“O preço da ureia teve uma recuperação importante, isso é fundamental, porque o preço do gás natural no Brasil é muito mais alto do que o dos concorrentes; a fábrica de nitrogenados da Bahia ainda está parada, fizemos estoque de amônia para manter a nossa demanda suprida.”

Natal observa que o momento atual é de compressão dos spreads petroquímicos (diferença entre o preço das matérias-primas e dos produtos delas derivados) e de aumento nos preços dos combustíveis. “Nos EUA, há um deslocamento de aromáticos para o pool de gasolina, que remunera melhor os produtores”, comentou.

Olhando para o futuro mais distante, Natal considera plausível um cenário em que a demanda por petróleo venha a ser reduzida – talvez pelo aumento da frota mundial de caros elétricos e pelo uso mais intenso de eletricidade de fontes renováveis – e, por consequência, afete a disponibilidade de nafta petroquímica e de aromáticos, cujo preço tenderá a subir. Isso exigirá uma adaptação da indústria e do mercado consumidor.

Bem mais atual é a complexidade para investir e operar indústrias petroquímicas no Brasil. “É muito desafiador operar por aqui; uma petroquímica saudável precisa ter gás natural com preço competitivo, seja para uso como matéria-prima, ou como energético”, ressaltou Natal. “O exemplo vem dos EUA, o shale gas barateou a produção de etileno e fez renascer a petroquímica por lá com uma vantagem econômica enorme”, finalizou.

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