Petroquímica: Camaçari abre o caminho para a reestruturação

A explicação usual da falta de poupança interna para a busca de recursos junto aos financiadores internacionais é considerada plausível por Possas, mas contestável. “Em 1968, o governo vendeu no mercado de capitais 60% das ações preferenciais da Petrobrás e 60% das preferenciais do Banco do Brasil, operações muito miores, e não faltaram compradores”, afirmou.

Já o figurino tripartite permitiu buscar capital e tecnologia no exterior, mantendo o controle dos empreendimentos em mãos nacionais. “O governo elegeu quem seriam os vencedores do setor”, disse. A gestão das companhias ficou com os “papas” do setor, oriundos do sistema Petrobrás. Acordos de acionistas complexos e emaranhados engessaram as empresas, impedindo mudanças rápidas e indesejadas pelo comando central. O resultado disso foi a criação de um setor eivado de problemas de governança corporativa, com baixíssima transparência das suas decisões. “Até hoje, não dá para saber se os resultados das companhias são bons mesmo ou se refletem fatores conjunturais”, comentou. O formato permitia transferir lucratividade de uma geração para outra, de acordo com a escolha dos controladores, prejudicando os investidores.

Nas bolsas de valores, a característica é a baixa liquidez desses papéis. “Não se vende porque é muito barato, e não se compra porque o resultado é ruim”, relatou. Atualmente, a exceção é a Copene, bem negociada no mercado.

O movimento de concentração de negócios é elogiado pelo investidor, como saída racional para a deficiência genética dos empreendimentos. “O problema é a extrema complexidade das operações, que não está sendo bem assimilada nem pelos especialistas”, criticou. Para ele, a exposição inicial do projeto Braskem foi considerada “lamentável”, por gerar mais dúvidas que esclarecimentos. “A reestruturação precisa ser feita, pois só quando o setor estiver montado com dois grandes grupos, o Nordeste-Sul e o Sudeste, será possível atrair investidores”, afirmou. Contribuirá para tanto a adoção de novas leis de governança corporativa e das sociedades anônimas, que darão aos minoritários instrumentos judiciais para monitorar a gestão. “Por enquanto, é melhor não comprar, nem vender esses papéis”, aconselhou.

O processo de contração dos negócios petroquímicos, no entender de Possas, ainda depende da decisão da Petrobrás em participar mais ativamente ou não do setor. Para ele, a participação da estatal na Rio Polímeros é lógica, por significar valorização do gás natural. No entanto, para as centrais de nafta ainda não há uma posição clara. “Hoje só a Petrobrás ganha dinheiro, pois a nafta representa de 70% a 80% dos custos totais das centrais”, explicou.

Mesmo em âmbito internacional, a atividade petroquímica não é considerada atraente para investidores. “Trata-se indústria madura, pouco inovadora, em processo de commoditização, mas é relativamente segura e capaz de gerar caixa para outros negócios”, avaliou o investidor. Ele salientou que o risco é crescente, dado o excesso de capacidade já instalada em alguns mercados. A ciclicidade típica também repele investidores, porém a petroquímica ainda supera a siderurgia, e as variações entre picos e vales são menos dramáticas que as verificadas em celulose e papel.

No caso brasileiro, a gestão dos empreendimentos do setor melhorou nos últimos anos mas, em contrapartida, os problemas estruturais foram agravados. Basta citar a elevação do preço da nafta, o encarecimento e a escassez da eletricidade, e a redução da oferta de capital internacional para financiar investimentos. “Falta capital próprio porque a geração de caixa está fraca e os minoritários fogem das propostas”, comentou. Mesmo assim, Possas declarou-se satisfeito com a atual direção da companhia e com os dividendos recebidos depois de 1999. “Rende alguma coisa como 12% ao ano, é uma poupança melhorada”, afirmou.

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