Petroquímica: Camaçari abre o caminho para a reestruturação

Copesul quer bancar mais Nafta na Refap

A Companhia Petroquímica do Sul (Copesul), central de matérias-primas do Pólo Petroquímico de Triunfo-RS, tem US$ 100 milhões disponíveis para investir na ampliação da Refinaria Alberto Pasquallini da Petrobrás (Refap S/A), de Esteio-RS. Segundo o presidente da Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima, a ampliação da Refap, a um

custo de US$ 600 milhões, não prevê acréscimo de oferta do principal destilado de petróleo consumido na planta industrial da Copesul. “Ainda não conversamos com a Refap, mas posso assegurar que esse assunto será tratado como prioridade”, garantiu Cirne Lima.

O investimento na Refap, acrescentou, ajudaria a Copesul a substituir boa parte da nafta importada. Atualmente, a central de matérias-primas processa 5,3 milhões de m³ de nafta/ano.

Com 40 mil acionistas, a Copesul conta com 950 funcionários e está operando na faixa de 1 milhão e 135 mil toneladas de eteno/ano, 40% da produção nacional da olefina no Brasil, 28% da América Latina, o que faz da Copesul a 14ª produtora mundial de eteno. Seu faturamento é de R$ 2,9 bilhões, com vendas concentradas em 83% no Rio Grande do Sul, 6% no Sul e Sudeste e 11% exportados para os países do Mercosul, em especial a Argentina. Com lucro líquido de R$ 99 milhões, foi uma das primeiras empresas do Brasil a receber a ISO 14001, a certificação internacional da produção industrial ecologicamente correta.

Ao comentar a aquisição da Copene pela Odebrecht, Luiz Fernando Cirne Lima explicou que a Copesul será afetada indiretamente pela criação da nova empresa. “Em vez de termos como patrão a OPP, vamos ter essa nova empresa com um outro nome”, assinalou Cirne Lima, ao comentar a consolidação de todos os ativos petroquímicos do grupo numa só companhia, a Braskem. Para o executivo, as notícias sobre uma possível venda do braço petroquímico da Ipiranga, maior sócia da Odebrecht na Copesul, para o grupo baiano não passam de especulações.

Convidado a integrar o Conselho de Administração da nova Copene, Cirne Lima avaliou que a Odrebrecht não fará qualquer investimento de porte antes de conhecer o tamanho da despesa para reestruturar a central de matérias-primas do Pólo Petroquímico de Camaçari-BA. “Qualquer modificação importante no setor petroquímico brasileiro não ocorrerá antes do final de 2002”, apostou. “Interpretei o convite como um desejo de fazer a articulação da nova empresa com a Copesul.

Poderemos trabalhar em conjunto buscando sinergias.” Para Cirne Lima, trabalhando de forma articulada não ocorreriam problemas com a legislação de defesa da concorrência. O presidente da Copesul argumentou que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tem considerado os mercados regionais em seus pareceres.

O diretor-executivo da Abiquim, Guilherme Duque Estrada, enfatizou o ingresso da indústria química brasileira no ranking das dez maiores do mundo. No entanto, identificou dois aspectos negativos do setor que precisam ser superados: o crescente déficit externo e a baixa rentabilidade. Em 1991, a importação do setor chegou a US$ 3,6 bilhões, com exportações de US$ 2,1 bilhões, provocando um rombo de US$ 1,5 bilhão na conta de mercado exterior. No ano passado, advertiu o diretor-executivo da Abiquim, o buraco saltou para US$ 6,6 bilhões, sendo que no mesmo período a rentabilidade média ficou em 9,59%. “É um desempenho muito insatisfatório”, reclamou Duque Estrada. “Essa situação desencorajou os investimentos porque é a rentabilidade que gera a atratividade”, acrescentou o consultor da Abiquim, Arthur Candal. Ele afirmou que a rentabilidade sobre as vendas médias no Brasil é de apenas 0,56%, contra 4,8% dos Estados Unidos. (Fernando Castro)

Falta de transparência afugenta investidores

O alto endividamento dos grupos petroquímicos brasileiros poderia ter sido evitado caso as companhias tivessem buscado o apoio de investidores privados, por meio das bolsas de valores. Diferente da mentalidade norte-americana ou da européia, os empresários brasileiros desprezam essa alternativa e, pior, desrespeitam os sócios minoritários.

Química e Derivados: Petroquímica: Possas - minoritários não foram respeitados.
Possas – minoritários não foram respeitados.

“Apesar de ter havido melhora nos últimos anos, ainda falta transparência e boa governança nas companhias”, criticou Paulo J. Possas, investidor privado e acionista minoritário da Petroquímica União. Os processos de fusões e aquisições empreendidos desde 1990, por exemplo, foram conduzidos sem nenhuma satisfação aos minoritários.

“O empresariado brasileiro insiste em manter mentalidade ‘donal’, só se satisfaz com o controle majoritário do capital”, lamenta.

O leilão das posições do Econômico na Copene, segundo Possas, reafirmou as práticas de “capitalismo de compadres”, já denunciadas por ele em artigo publicado em 1999 no jornal Gazeta Mercantil. Ele classificou os interessados em três tipos: o primeiro, formado pelos grandes acionistas da Norquisa, envolvidos diretamente na aquisição, alguns dos quais manobraram para reduzir o preço de venda, usando as dívidas como argumento. Um segundo grupo identifica-se com com os acionistas não-majoritários, porém expressivos, como a Petroquisa e os fundos de pensão Petros e Previ, os quais conseguiram aumentar seu poder na sociedade por meio de acordos. Já o terceiro tipo agrupa os minoritários, investidores anônimos, que não tiveram nenhum direito garantido na negociação. “Nos leilões das empresas de telecomunicação e de algumas empresas do setor elétrico, não foi esse o procedimento”, afirmou Possas. Nesses casos, os minoritários tiveram direito à venda conjunta, com preço mais baixo, mas ainda assim justo.

Os erros estruturais da petroquímica brasileira começaram pela adoção do formato de gerações independentes, incentivado pelo ex-presidente Geisel, antes dirigente da Petrobrás. “Esse modelo é coisa típica de burocrata”, criticou o investidor. “O mercado de capitais poderia ter bancado os proejtos petroquímicos, mas os militares não tinham cultura de mercado e precisaram inventar um modelo financiável”, afirmou.

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