Petroquímica: Camaçari abre o caminho para a reestruturação

O resultado é o agravamento do déficit comercial químico do Brasil. “A previsão da Abiquim é de registrar US$ 1 bilhão a mais no saldo devedor, chegando a US$ 7,5 bilhões em 2001”, informou o executivo, também membro da comissão de comércio exterior da associação. Os números apontados pela entidade mostram elevação das importações setoriais de US$ 5,7 bilhões de janeiro a julho de 2000, para US$ 6,1 bilhões em igual período deste ano. Já as exportações caíram de US$ 2,3 bilhões para US$ 2,1 bilhões. “Tradicionalmente, no segundo semestre ocorre agravamento do déficit comercial”, afirmou.

Química e Derivados: Petroquímica: Coelho - crise pode ajudar Brasil a médio prazo.
Coelho – crise pode ajudar Brasil a médio prazo.

Boa notícia para o setor consiste no anúncio de revisão nos tributos incidentes sobre petróleo e derivados, a vigorar a partir de 2002. Por meio da nova regulamentação, o PIS e o Confis deixarão de incidir sobre o preço da nafta petroquímica. “Ainda não temos detalhes, mas aparentemente, isso será bom para o setor”, disse. A necessidade de mudanças na política tributária fica evidente no estudo realizado pela Abiquim sobre o valor adicionado na atividade química brasileira no ano passado. Em média, desse valor, 44% ficaram com o governo, por meio dos tributos diretos e indiretos; 24% bancaram juros; 20% foram destinados ao pagamento do trabalho; e apenas 13% remuneraram o capital investido. “Isso é pouco para estimular novos investimentos no setor”, comentou Wongtschowski.

O executivo Armando Guedes Coelho, da Suzano, espera problemas para o setor no curto prazo, mas acredita que o Brasil poderá sair da crise favorecido em horizonte mais amplo. “Nos próximos cinco meses deverá haver retração de mercado e encarecimento de matérias-primas, com reflexos ruins no mercado”, disse Coelho. “Depois de estabilizada a situação, o quadro fica positivo, até para o Brasil, porque os países desenvolvidos vão preferir investir em lugares com os quais tenham mais afinidade cultural.”

Dessa forma, o Brasil desponta como excelente alternativa, melhor que o Sudeste Asiático, pela proximidade física e cultural, aliada à estabilidade política. Além disso, o consumo per capita de derivados petroquímicos no País ainda é baixo, metade do registrado na Argentina, e um décimo do dos EUA, significando existência de mercado local para absorver a produção. “No médio prazo, a situação é boa para o Brasil, mas quem estiver muito endividado em dólar passará por maus momentos”, afirmou.

Coelho também admite a possibilidade de cenário pior, por causa do alto risco envolvendo os principais países exportadores de petróleo do Oriente Médio, evidentes alvos estratégicos. “A metade do petróleo consumido nos Estados Unidos é importada da região, por isso eles mantêm duas frotas navais permanentemente por lá”, comentou. Em situação crítica, pode haver restrições de oferta. “Só o temor dessa possibilidade já faz o óleo subir”, disse. Caso a flutuação seja muito grande, a petroquímica mundial vai sofrer. O reflexo para o Brasil é amplificado pelo desequilíbrio das taxas de câmbio.

O desempenho do mercado de produtos petroquímicos no Brasil é considerado satisfatório pelo diretor de marketing da OPP, Alexandrino Alencar. “O problema é o excesso de oferta, porque várias fábricas novas foram inauguradas no passado recente, além da nova produção argentina”, explicou. Na sua análise, a transformação de plásticos no País mudou de perfil, tendo investido em máquinas de grande capacidade produtiva. “Demanda tem, margem, não”, disse. A culpada seria a Petrobrás, que estaria dolarizando o preço da nafta, atualizando-o a cada 30 dias. “O ideal para o setor seria contar com reajustes anuais da nafta, como foi feito com o gás natural das termoelétricas”, disse. A partir da formação da Braskem, o executivo espera ter maior poder de negociação com a estatal. “Seremos os compradores de 80% das 10 milhões de t/ano de nafta vendidas no País”, disse. Aliás, a Copene já conta com estrutura para importar nafta diretamente. Além disso, as centrais petroquímicas passarão a competir com a estatal na comercialização de gasolina, ponto capaz de gerar atritos.

Outra fonte de preocupação para a petroquímica é o excesso de tributos cobrados, muitos dos quais incidentes em cascata, agravando a situação de toda a cadeia industrial. Por causa disso, segundo Alencar, parte da transformação de plásticos caiu para a economia informal. “O mal da crise argentina, conjugada com a guerra no Oriente Médio, é desviar a atenção dos nossos problemas, adiando uma resolução”, lamentou.

Investimentos a caminho – “Desde 30 de março, quando decidimos entrar no leilão, nós estamos concentrados em consolidar as operações na Bahia”, informou Alencar. Com a vitória confirmada, no final de julho, começaram os trabalhos de avaliação interna, que verificarão duplicidades estruturais, permitindo reduzir custos.

No final de 2001, será a vez de incorporar à Copene os ativos da OPP, Trikem e Nitrocarbono, formando, enfim, uma companhia petroquímica mundial, de classe mundial, já denominada Braskem. São previstos alguns conflitos com sócios minoritários (com poder de veto) nessa ocasião, pelo fato de representar aporte de capital, que poderia ser acompanhado ou não pelos demais acionistas. Caso optem por não bancar a chamada de capital, haverá diluição de participações. “Depois dessas mudanças, será a hora de voltar a investir na produção”, afirmou.

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