Petroquímica: Camaçari abre o caminho para a reestruturação

Problema residual do pólo de Camaçari consiste na acomodação de interesses de companhias fora do bloco de controle Mariani-Odebrecht. É o caso de Oxiteno, Politeno e Polibrasil-BA, principalmente. O grupo Suzano integrou o chamado Grupo Protocolo até o malogrado segundo leilão do espólio do Econômico, ofertando sua participação na Politeno (35% do capital votante) em conjunto com o sócio japonês Sumitomo (30%), que permitiriam colocar no bolo mais 12,5% de capital ordinário da Norquisa. Expirado o prazo de venda conjunta, o grupo de origem papeleira resolveu tentar a venda isolada, sem sucesso. Logo após o leilão, representantes do grupo Odebrecht negaram a intenção de comprar a posição majoritária na Politeno, pelo menos a curto prazo, deixando poucas alternativas para a companhia.

“Da nossa parte, entendemos que a Politeno é um excelente negócio; tanto podemos vender nossa parte, quanto comprar o restante das ações”, disse Armando Guedes Coelho, diretor do grupo Suzano para negócios petroquímicos. Aliás, em setembro, o grupo anunciou que dividirá seus negócios em duas empresas independentes: uma para papel e celulose e a outra para petroquímicos. “A participação na Politeno poderá até entrar em um eventual acordo de aglutinação de negócios entre os pólos de São Paulo e o que estamos construindo no Rio com a Unipar e a Petrobrás”, explicou.

Química e Derivados: Petroquímica: Wongtschowski - estímulo para os investimentos produtivos é baixo.
Wongtschowski – estímulo para os investimentos produtivos é baixo.

De qualquer forma, para Coelho, o relacionamento, tanto da Politeno, quanto da Polibrasil (associação paritária entre Suzano e Basell) com a Nova Copene/Braskem (apelidada Copenão) é considerado muito bom. “Temos contratos de fornecimento de matérias-primas de longo prazo que certamente serão cumpridos”, comentou. Além desses negócios, a Copene detém aproximadamente 20% do capital da Petroflex (produtora de borracha SBR), ao lado do grupo Suzano (20%) e Unipar (10%). A empresa passa por longo período de rearranjo estrutural e comercial, que começa a dar bons resultados. Apesar disso, os novos controladores da Copene aparentam desintereesse pelo negócio, embora seja a central baiana a principal fornecedora de butadieno e, em contrapartida, a Petroflex seja, de longe, a maior consumidora dessa diolefina. Essas características tornam as participações interessantes como moeda de troca em eventual acordo entre os grupos.

O diretor-superintendente da Oxiteno, Pedro Wongtschowski, também afirma manter relacionamento cordial com os novos condutores da petroquímica baiana. “Possuímos, por meio do grupo Ultra, 10% do capital da Norquisa, portanto temos o máximo interesse em uma Copene forte e sadia, capaz de gerar dividendos”, afirmou. Do ponto de vista da Oxiteno, as modificações por que passa a central não a afetam diretamente. “Fizemos ampliação recente [1997] que absorveu o último eteno disponível na Copene e, de lá para cá, o crescimento dos principais mercados não foi nada fantástico”, explicou. “Temos posições muito fortes nos mercados em que atuamos e a companhia é rentável.” De agora em diante, a Oxiteno segue analisando opções para investimentos futuros.

Especialista em negócios petroquímicos, Wongtschowski considerou alto o preço mínimo exigido no leilão. Tanto que, após a negociação, o preço das ações iniciaram queda abrupta, agravada pela crise internacional. Uma grande empresa internacional de análise de mercados, ligada ao Crédit Lyonais, divulgou relatório em agosto recomendando a venda de posições na Copene, entendendo elevados demais os preços pagos pelos direitos de venda conjunta exercidos no contexto do leilão, além de considerar em estágio inicial a consolidação da companhia.

Depois de ter desistido do leilão, o grupo Ultra verificou forte valorização de suas ações em bolsa de valores, até porque iria distribuir dividendos alentados. “O mercado de gás liquefeito de petróleo (GLP) tem grande potencial de crescimento, mas sua exploração não inibe os investimentos petroquímicos do grupo, são áreas independentes”, salienta Wongtschowski.

Situação instável – A expectativa da petroquímica mundial para os próximos meses já era débil, refletindo a desaceleração da economia americana, e tornou-se lamentável depois do atentado às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. “Apesar dessa crise imprevisível, não esperamos resultados dramáticos para o setor em âmbito mundial”, afirmou o superintendente da Oxiteno. Há redução do nível de atividade mundial, compatível com a queda de consumo, mas essa situação não deve perdurar. “Os Estados Unidos evitarão maior desaquecimento econômico, a Inglaterra já baixou sua taxa de juros e a Opep mantém o preço do petróleo em patamar responsável”, comentou.

Em âmbito global, verifica-se a queda de preços petroquímicos, comprimindo margens de lucro e dificultando exportações de países como o Brasil. Em escala local, apesar de alguns setores apresentarem bom desempenho, como a atividade agrícola, outros estão em queda, como a indústria automobilística e a de construção civil, gerando forte impacto no setor químico. “O nível de investimentos estrangeiros no Brasil também está caindo, pressionando as cotações do dólar frente ao real”, disse o executivo. Com isso, empresas endividadas em moeda forte sofrem mais, com situação agravada pelo fato de os empréstimos para países emergentes terem minguado. Nem mesmo a alternativa das captações por meio de emissão de ADRs deve ser cogitada, pois o alto risco desses papéis exige a oferta de remuneração excessiva, inviabilizando o negócio.

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