Petroquímica: Camaçari abre o caminho para a reestruturação

Novos controladores da Copene preparam a integração com as empresas de segunda geração, seguindo a tendência global da concentração de negócios petroquímicos. Processo pode envolver o pólo gaúcho e atiça concorrentes a formar pólo Sudeste.

Química e Derivados: Petroquímica: petroquimica_abertura. O nó baiano da petroquímica brasileira começou a ser desatado no dia 25 de julho deste ano. Em lance ousado, os grupos Mariani e Odebrecht, a princípio vendedores de suas participações, acabaram por comprar as posições ofertadas pelo Banco Central, arrecadadas do acervo de liquidação do Banco Econômico. O negócio deu partida em amplo processo de reestruturação do pólo petroquímico de Camaçari-BA, o maior do Hemisfério Sul, que está longe de terminar.

Tão difícil quanto reorganizar as empresas do pólo é entender as operações realizadas. Não foi à toa que as participações cruzadas nas empresas de primeira e segunda geração deram origem à expressão “nó baiano”. A complexidade de relacionamentos foi até um dos motivos alegados por companhias internacionais para ficar de fora dos dois leilões anteriores, ambos fracassados. O outro motivo, esse compartilhado pelo Grupo Ultra, também desistente, foi o preço de R$ 785 milhões estabelecido como lance mínimo pelo Banco Central. Além de comprar essa parte, o eventual comprador também deveria respeitar os direitos de venda conjunta, formado por participações dos grupos Odebrecht e Mariani, montando a pouco mais de R$ 968 milhões.

Unidos, Mariani e Odebrecht formaram a Nova Camaçari Participações, por meio da qual bancaram o preço mínimo do leilão, arrematando a maioria das ações da holding Conepar (56,31%) e da Proppet (produtora de PET). Com isso, a Nova Camaçari assumiu 66,7% do capital da Polialden, fabricante de PEAD, e 31% do capital da Politeno (PELBD/PEAD e PEBD).

Ao mesmo tempo, a Odebrecht Química acertou a compra de 16,03% do capital da holding Norquisa, alienada como direito de venda conjunta por parte da Trikem. Os 23,69% de participação na Norquisa em poder da Polialden também ficaram com o braço químico da Odebrecht que, aliado à particpação do grupo Mariani, assumiu o controle (com 55,78% dos votos) da holding, majoritária no capital da Copene. Essas operações foram financiadas pelos bancos Citbank e ABN Amro.

Simultaneamente, por força do direito de venda conjunta, a Nova Camaçari comprou os 31,92% do capital da Conepar que estavam em poder da Intercapital (pertencentes a Mariani/Odebrecht e CBP), além dos 11,76% em poder do BNDES, assumindo a totalidade do capital dessa empresa.

Após o leilão, em segundo movimento, dessa vez autorizado pelo conselho de administração, a Copene comprou toda a Nova Camaçari, incluindo os ativos recém-adquiridos e os financiamentos correspondentes, no valor de R$ 1,4 bilhão.

No final dessa maratona, os novos controladores anunciaram para o futuro a adoção de novo nome comercial para a Copene e ativos incorporados: Braskem. Sob essa denominação deve se consolidar grande parte do pólo petroquímico baiano, a começar pela plena incorporação da Polialden e da Proppet, aprovadas pelos acionistas minoritários da antiga Copene (Petroquisa e fundos de pensão, como Previ e Petros) no final de setembro.

Química e Derivados: Petroquímica: Alencar - Braskem já nascerá com participação de 30% na Copesul.
Alencar – Braskem já nascerá com participação de 30% na Copesul.

Na segunda fase da reestruturação, a ser efetivada no final de 2001, serão integradas à Braskem as empresas Nitrocarbono, Trikem e OPP. Na terceira fase, serão adquiridas as participações dos minoritários japoneses (Mitsubishi e Nisso Iwai) na Polialden, além de negociada a posição dos demais acionistas da Copene, os quais precisarão aportar recursos financeiros para não ver diluídas suas participações acionárias na central.

Ao cabo da hercúlea tarefa, restará um gigante petroquímico integrado, a Braskem, que terá por objetivo estratégico ampliar seu campo de atuação, promovendo a fusão com o pólo petroquímico gaúcho, de Triunfo-RS.

“A Braskem já conta com participação de 30% no capital votante da Copesul, antes mantida pela Odebrecht”, explicou o diretor de marketing da OPP, Alexandrino de Alencar. Uma evidência dessa aproximação Nordeste-Sul foi o ingresso da presidente da Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima, no conselho de administração da nova Copene.

Os executivos não esperam problemas junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para a aprovação dessas operações, por dois motivos básicos. O primeiro reside nos movimentos de fusões e aquisições feitos pelas grandes companhias internacionais petroquímicas, de modo a garantir a competitividade, exigindo iniciativas simétricas por parte das companhias nacionais. O segundo motivo parte da existência do Mercosul, que obriga a enxergar os países-membros como apenas um só mercado. Dessa forma, a presença da Dow Chemical na Argentina, com planta de larga escala de termoplásticos (polietilenos) em Bahía Blanca, garante suficiente concorrência. Essa concorrência, aliás, motivou queixa de dumping por parte da OPP junto à Secretaria de Comércio Exterior (Secex). “Já no ano passado, as vendas de polietileno da Dow no Brasil foram muito altas, apesar da variação cambial, principalmente porque o mercado argentino está em crise, não absorvendo a produção”, disse Alencar.

A união das empresas de Camaçari, se realizada da forma como pretendida pelos controladores, apresenta sinergias óbivas, com reflexos muito positivos para o empreendimento. “Já calculamos que, em dez anos, as economias obtidas pela aglutinação de empresas somam US$ 500 milhões”, comentou o diretor. Metade dessa soma se refere a impostos incidentes em cascata, recolhidos em cada transferência entre primeira e segunda gerações.

Problema residual do pólo de Camaçari consiste na acomodação de interesses de companhias fora do bloco de controle Mariani-Odebrecht. É o caso de Oxiteno, Politeno e Polibrasil-BA, principalmente. O grupo Suzano integrou o chamado Grupo Protocolo até o malogrado segundo leilão do espólio do Econômico, ofertando sua participação na Politeno (35% do capital votante) em conjunto com o sócio japonês Sumitomo (30%), que permitiriam colocar no bolo mais 12,5% de capital ordinário da Norquisa. Expirado o prazo de venda conjunta, o grupo de origem papeleira resolveu tentar a venda isolada, sem sucesso. Logo após o leilão, representantes do grupo Odebrecht negaram a intenção de comprar a posição majoritária na Politeno, pelo menos a curto prazo, deixando poucas alternativas para a companhia.

“Da nossa parte, entendemos que a Politeno é um excelente negócio; tanto podemos vender nossa parte, quanto comprar o restante das ações”, disse Armando Guedes Coelho, diretor do grupo Suzano para negócios petroquímicos. Aliás, em setembro, o grupo anunciou que dividirá seus negócios em duas empresas independentes: uma para papel e celulose e a outra para petroquímicos. “A participação na Politeno poderá até entrar em um eventual acordo de aglutinação de negócios entre os pólos de São Paulo e o que estamos construindo no Rio com a Unipar e a Petrobrás”, explicou.

Química e Derivados: Petroquímica: Wongtschowski - estímulo para os investimentos produtivos é baixo.
Wongtschowski – estímulo para os investimentos produtivos é baixo.

De qualquer forma, para Coelho, o relacionamento, tanto da Politeno, quanto da Polibrasil (associação paritária entre Suzano e Basell) com a Nova Copene/Braskem (apelidada Copenão) é considerado muito bom. “Temos contratos de fornecimento de matérias-primas de longo prazo que certamente serão cumpridos”, comentou. Além desses negócios, a Copene detém aproximadamente 20% do capital da Petroflex (produtora de borracha SBR), ao lado do grupo Suzano (20%) e Unipar (10%). A empresa passa por longo período de rearranjo estrutural e comercial, que começa a dar bons resultados. Apesar disso, os novos controladores da Copene aparentam desintereesse pelo negócio, embora seja a central baiana a principal fornecedora de butadieno e, em contrapartida, a Petroflex seja, de longe, a maior consumidora dessa diolefina. Essas características tornam as participações interessantes como moeda de troca em eventual acordo entre os grupos.

O diretor-superintendente da Oxiteno, Pedro Wongtschowski, também afirma manter relacionamento cordial com os novos condutores da petroquímica baiana. “Possuímos, por meio do grupo Ultra, 10% do capital da Norquisa, portanto temos o máximo interesse em uma Copene forte e sadia, capaz de gerar dividendos”, afirmou. Do ponto de vista da Oxiteno, as modificações por que passa a central não a afetam diretamente. “Fizemos ampliação recente [1997] que absorveu o último eteno disponível na Copene e, de lá para cá, o crescimento dos principais mercados não foi nada fantástico”, explicou. “Temos posições muito fortes nos mercados em que atuamos e a companhia é rentável.” De agora em diante, a Oxiteno segue analisando opções para investimentos futuros.

Especialista em negócios petroquímicos, Wongtschowski considerou alto o preço mínimo exigido no leilão. Tanto que, após a negociação, o preço das ações iniciaram queda abrupta, agravada pela crise internacional. Uma grande empresa internacional de análise de mercados, ligada ao Crédit Lyonais, divulgou relatório em agosto recomendando a venda de posições na Copene, entendendo elevados demais os preços pagos pelos direitos de venda conjunta exercidos no contexto do leilão, além de considerar em estágio inicial a consolidação da companhia.

Depois de ter desistido do leilão, o grupo Ultra verificou forte valorização de suas ações em bolsa de valores, até porque iria distribuir dividendos alentados. “O mercado de gás liquefeito de petróleo (GLP) tem grande potencial de crescimento, mas sua exploração não inibe os investimentos petroquímicos do grupo, são áreas independentes”, salienta Wongtschowski.

Situação instável – A expectativa da petroquímica mundial para os próximos meses já era débil, refletindo a desaceleração da economia americana, e tornou-se lamentável depois do atentado às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. “Apesar dessa crise imprevisível, não esperamos resultados dramáticos para o setor em âmbito mundial”, afirmou o superintendente da Oxiteno. Há redução do nível de atividade mundial, compatível com a queda de consumo, mas essa situação não deve perdurar. “Os Estados Unidos evitarão maior desaquecimento econômico, a Inglaterra já baixou sua taxa de juros e a Opep mantém o preço do petróleo em patamar responsável”, comentou.

Em âmbito global, verifica-se a queda de preços petroquímicos, comprimindo margens de lucro e dificultando exportações de países como o Brasil. Em escala local, apesar de alguns setores apresentarem bom desempenho, como a atividade agrícola, outros estão em queda, como a indústria automobilística e a de construção civil, gerando forte impacto no setor químico. “O nível de investimentos estrangeiros no Brasil também está caindo, pressionando as cotações do dólar frente ao real”, disse o executivo. Com isso, empresas endividadas em moeda forte sofrem mais, com situação agravada pelo fato de os empréstimos para países emergentes terem minguado. Nem mesmo a alternativa das captações por meio de emissão de ADRs deve ser cogitada, pois o alto risco desses papéis exige a oferta de remuneração excessiva, inviabilizando o negócio.

O resultado é o agravamento do déficit comercial químico do Brasil. “A previsão da Abiquim é de registrar US$ 1 bilhão a mais no saldo devedor, chegando a US$ 7,5 bilhões em 2001”, informou o executivo, também membro da comissão de comércio exterior da associação. Os números apontados pela entidade mostram elevação das importações setoriais de US$ 5,7 bilhões de janeiro a julho de 2000, para US$ 6,1 bilhões em igual período deste ano. Já as exportações caíram de US$ 2,3 bilhões para US$ 2,1 bilhões. “Tradicionalmente, no segundo semestre ocorre agravamento do déficit comercial”, afirmou.

Química e Derivados: Petroquímica: Coelho - crise pode ajudar Brasil a médio prazo.
Coelho – crise pode ajudar Brasil a médio prazo.

Boa notícia para o setor consiste no anúncio de revisão nos tributos incidentes sobre petróleo e derivados, a vigorar a partir de 2002. Por meio da nova regulamentação, o PIS e o Confis deixarão de incidir sobre o preço da nafta petroquímica. “Ainda não temos detalhes, mas aparentemente, isso será bom para o setor”, disse. A necessidade de mudanças na política tributária fica evidente no estudo realizado pela Abiquim sobre o valor adicionado na atividade química brasileira no ano passado. Em média, desse valor, 44% ficaram com o governo, por meio dos tributos diretos e indiretos; 24% bancaram juros; 20% foram destinados ao pagamento do trabalho; e apenas 13% remuneraram o capital investido. “Isso é pouco para estimular novos investimentos no setor”, comentou Wongtschowski.

O executivo Armando Guedes Coelho, da Suzano, espera problemas para o setor no curto prazo, mas acredita que o Brasil poderá sair da crise favorecido em horizonte mais amplo. “Nos próximos cinco meses deverá haver retração de mercado e encarecimento de matérias-primas, com reflexos ruins no mercado”, disse Coelho. “Depois de estabilizada a situação, o quadro fica positivo, até para o Brasil, porque os países desenvolvidos vão preferir investir em lugares com os quais tenham mais afinidade cultural.”

Dessa forma, o Brasil desponta como excelente alternativa, melhor que o Sudeste Asiático, pela proximidade física e cultural, aliada à estabilidade política. Além disso, o consumo per capita de derivados petroquímicos no País ainda é baixo, metade do registrado na Argentina, e um décimo do dos EUA, significando existência de mercado local para absorver a produção. “No médio prazo, a situação é boa para o Brasil, mas quem estiver muito endividado em dólar passará por maus momentos”, afirmou.

Coelho também admite a possibilidade de cenário pior, por causa do alto risco envolvendo os principais países exportadores de petróleo do Oriente Médio, evidentes alvos estratégicos. “A metade do petróleo consumido nos Estados Unidos é importada da região, por isso eles mantêm duas frotas navais permanentemente por lá”, comentou. Em situação crítica, pode haver restrições de oferta. “Só o temor dessa possibilidade já faz o óleo subir”, disse. Caso a flutuação seja muito grande, a petroquímica mundial vai sofrer. O reflexo para o Brasil é amplificado pelo desequilíbrio das taxas de câmbio.

O desempenho do mercado de produtos petroquímicos no Brasil é considerado satisfatório pelo diretor de marketing da OPP, Alexandrino Alencar. “O problema é o excesso de oferta, porque várias fábricas novas foram inauguradas no passado recente, além da nova produção argentina”, explicou. Na sua análise, a transformação de plásticos no País mudou de perfil, tendo investido em máquinas de grande capacidade produtiva. “Demanda tem, margem, não”, disse. A culpada seria a Petrobrás, que estaria dolarizando o preço da nafta, atualizando-o a cada 30 dias. “O ideal para o setor seria contar com reajustes anuais da nafta, como foi feito com o gás natural das termoelétricas”, disse. A partir da formação da Braskem, o executivo espera ter maior poder de negociação com a estatal. “Seremos os compradores de 80% das 10 milhões de t/ano de nafta vendidas no País”, disse. Aliás, a Copene já conta com estrutura para importar nafta diretamente. Além disso, as centrais petroquímicas passarão a competir com a estatal na comercialização de gasolina, ponto capaz de gerar atritos.

Outra fonte de preocupação para a petroquímica é o excesso de tributos cobrados, muitos dos quais incidentes em cascata, agravando a situação de toda a cadeia industrial. Por causa disso, segundo Alencar, parte da transformação de plásticos caiu para a economia informal. “O mal da crise argentina, conjugada com a guerra no Oriente Médio, é desviar a atenção dos nossos problemas, adiando uma resolução”, lamentou.

Investimentos a caminho – “Desde 30 de março, quando decidimos entrar no leilão, nós estamos concentrados em consolidar as operações na Bahia”, informou Alencar. Com a vitória confirmada, no final de julho, começaram os trabalhos de avaliação interna, que verificarão duplicidades estruturais, permitindo reduzir custos.

No final de 2001, será a vez de incorporar à Copene os ativos da OPP, Trikem e Nitrocarbono, formando, enfim, uma companhia petroquímica mundial, de classe mundial, já denominada Braskem. São previstos alguns conflitos com sócios minoritários (com poder de veto) nessa ocasião, pelo fato de representar aporte de capital, que poderia ser acompanhado ou não pelos demais acionistas. Caso optem por não bancar a chamada de capital, haverá diluição de participações. “Depois dessas mudanças, será a hora de voltar a investir na produção”, afirmou.

O primeiro projeto a deslanchar deve ser o desgargalamento da Copene, de modo a ofertar mais 100 mil t/ano de eteno. “Com isso deverá haver uma sobra da olefina para permitir ampliação da Trikem (PVC) e iniciar o projeto de monômero de estireno, por parte da Dow e da Basf”, afirmou Alencar. Essas hipóteses são viáveis em horizonte de dois a três anos.

Em prazo pouco maior, é possível pensar em nova fase de desgargalamento da central, acrescendo outras 200 mil t/ano de eteno. Além disso, a sobra de propeno da Copene poderia suportar nova fábrica de PP, aproveitando a existência de um projeto elaborado pela antiga Polialden que, nos velhos tempos da reserva de mercado, já contava com a benção do extinto Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI). “A nova fábrica poderá ser até maior, se a unidade baiana da Polibrasil for comprada pela Copene”, comentou Alencar.

Será a hora de a OPP fazer a escolha entre integrar-se à central baiana ou aproveitar propeno de refinaria em Paulínia-SP, onde firmou protocolo de intenções com a Petrobrás, válido até 2005. Comenta-se no setor que a estatal gostaria de uma definição breve, para encontar uso mais rentável para essa corrente, hoje incorporada ao pool de GLP. “O projeto de Paulínia está no forno, aguardando as conclusões dos estudos de mercado”, explicou Alencar, salientando que a construção da fábrica é rápida, estimada em menos de dois anos.

Paulínia também seria a sede de novo pólo petroquímico, conforme outro protocolo de entendimento mantido com a estatal. “Esse projeto já foi deslocado de lá para a fronteira entre Mato Grosso do Sul e a Bolívia”, comentou o diretor. Seria a melhor forma de aproveitar o gás natural boliviano, retirando as frações de uso petroquímico para fazer resinas plásticas, abastecendo o mercado agrícola regional.

A área de aromáticos também pode ser alvo de mudanças, recebendo investimentos para a fabricação do ácido tereftálico purificado (PTA), permitindo produzir poliéster têxtil e polietileno tereftalato (PET) por rota mais econômica que a atual, via DMT da Nitrocarbono.

Todos esses projetos da Braskem deverão ser alavancados por emissão de ADRs no mercado de capitais do exterior. “Temos dívidas contraídas para fazer fábricas novas, que nos tornaram mais competitivos”, afirmou. “O processo de fusão melhora a alavancagem financeira.”

Sudeste cresce – Consultores do setor apostam na consolidação de empreendimento petroquímico concorrente na região Sudeste do Brasil, a começar pela integração entre Petroquímica União e a projetada Rio Polímeros. A sinergia seria interessante pela localização dos empreendimentos e pela complementariedade das tecnologias, uma com base em nafta e outra alimentada a gás natural. No entanto, a central paulista também apresenta nós a desatar em sua composição acionária, que consumiriam recursos dos controladores, atitude pouco atraente no momento. Uma possibilidade de integração passaria pela maior participação da Petrobrás, uma negociação difícil.

A Rio Polímeros deve fechar a engenharia financeira nas próximas semanas, com a possibilidade de iniciar obras a partir de novembro. “Trata-se de contrato internacional de financiamento complexo, que exigiu muitas revisões para estabelecer qual o melhor modelo societário e as garantias necessárias”, afirmou Armando Guedes Coelho. O que nasceu como conjunto de duas empresas independentes, tornou-se uma só entidade, da separação do etano do gás natural até a fabricação de polietilenos, empreendimento conjunto da Petrobrás, Suzano e Unipar. Um dos entraves para o projeto foi o questionamento feito junto ao Cade, pela Copesul, já devidamente superado, segundo Coelho.

Melhor sorte teve o projeto da nova fábrica de PP da Polibrasil, em Mauá-SP. Em setembro foram concluídas as negociações com os agentes financeiros internacionais, permitindo prever para daqui a 26 meses o início de operações da unidade para 300 mil t/ano de PP, feitos com tecnologia Basell. O acordo acertado com a Petrobrás há dois anos estabelece que a Polibrasil vai construir separador de propeno de fluxos de refinaria da estatal, que ficará dispensada de investir. “O spliter será da Petrobrás, que pagará por ele pelo fornecimento de propeno”, explicou Coelho. “Enquanto não remunera o investimento, a instalação fica arrendada à estatal, depois passa para o seu patrimônio.” Segundo o executivo da Suzano, a venda como propeno é duas vezes mais rentável para a Petrobrás que sua comercialização como GLP. Aliás, a remuneração pela olefina será feita por meio de participação no valor de venda do PP.

Para chegar a 300 mil t/ano, a Polibrasil deverá desativar a fábrica velha, para pouco mais de 100 mil t/ano, do pólo paulista. Desse modo, a unidade nova vai usar duas fontes diferentes de propeno. Como o projeto reduz a quantidade de um dos componentes do GLP, Coelho apressa-se em afastar qualquer risco de desabastecimento do popular gás de cozinha. “O GLP tem problemas de logística, não de oferta mundial”, disse. A Petrobrás, inclusive, é sócia do projeto Mega, criado para aproveitar o gás natural da província de Neuquén em associação com a YPF e a Dow.

Pelo acordo, a YPF (Repsol) ficará com a fração C4, vendendo-a para alimentar os sistemas de aquecimento de prédios e casas argentinas, sujeitos a invernos rigorosos. A Dow fica com o etano separado do gás, enquanto à Petrobrás cabem cerca de 600 mil t/ano de propano/butano, para uso industrial (após separação) e como GLP, que se tornará abundante no País. “Quanto mais usos, melhor”, disse.

A refinaria de Capuava, que processa 3 mil t/dia de petróleo, será a fornecedora complementar de propeno para a Polibrasil. “A refinaria foi alterada com tecnologia do Cenpes para craquear direto o resíduo da destilação atmosférica, aumentando a produção de frações leves”, informou Coelho. Mesmo assim, para chegar na quantidade contratada de 140 mil t/ano, a estatal deverá trazer um pouco do gás da refinaria de Cubatão-SP.

Química e Derivados: Petroquímica: Rubb - Copene reformulada suporta novos investimentos petroquímicos.
Rubb – Copene reformulada suporta novos investimentos petroquímicos.

Da parte da PqU, na qual o grupo Suzano também é acionista (por meio da Polibrasil), estão sendo estudadas ampliações modestas, a partir de gás residual de São José dos Campos. Espera-se aumentar de 100 mil a 150 mil t/ano a produção de eteno na central, exigindo a construção de gasoduto e separadores adequados. “Talvez não valha a pena”, comenta Coelho.

Próximo round – Embora ruidoso, o leilão dos ativos do grupo Econômico ainda não encerrou a pendência com o Banco Central. Falta definir o destino de outro ativo petroquímico relevante, a Ciquine, produtora de plastificantes, cuja venda ficou para outra oportunidade. “Com a venda da Copene e reestruturação do pólo da Bahia, finalmente o Brasil começou a resolver um problema e poderá reativar o setor”, comentou Reinaldo Rubbi, diretor-superintendente da Elekeiroz, que prevê a ampliação da capacidade da central baiana para além dos desgargalamento anunciados.

Na opinião de Rubbi, é necessário ter maior oferta de matérias-primas para permitir novos investimentos na região. “Da nossa parte, estamos esperando o leilão da Ciquine e buscamos novas oportunidades de negócios a partir da nova dinâmica empresarial de Camaçari”, afirmou.

A Elekeiroz sofre em duas linhas com a importação de produtos argentinos, cujo mercado encolheu com a crise econômica. “A Argentina tem problema estrutural de balança de pagamentos, como qualquer país da América Latina”, disse. Apesar disso, ele qualificou o desempenho dos negócios da companhia como bom, apesar do difícil cenário que se apresenta.

Consolidação baiana corrige vício original

Em Camaçari, depois da transferência do controle da Copene para os grupos Odebrecht e Mariani, já se fala na reorganização empresarial pela união de seis empresas em um único CNPJ, como afirma o ex-superintendente da central Ary Silveira. As empresas seriam a própria Copene e mais Trikem, OPP, Polialden, Nitrocarbono e Proppet.

Hoje a Copene já é dona integral da Proppet e controladora de Nitrocarbono e Polialden, esta com participação minoritária da Mitsubishi. A incorporação da Trikem e OPP, ambas controladas diretamente pela Odebrecht, também ocorreria naturalmente, com base em permutas e trocas de ações (swap).

A formação desta empresa tão abrangente e coesa será a base de algo cogitado há anos, em função de corrigir-se “uma distorção deliberadamente incluída na etapa inicial da formação da petroquímica brasileira”, depõe Silveira, testemunha e personagem desse processo histórico, gestor executivo da implantação e primeiro superintendente da Copene.

A distorção resultou na formação de um conjunto de empresas monoprodutoras distintas, em vez de uma organização empresarial coesa, abrangente, como requer um negócio tão complexo como a petroquímica. Decorreu do próprio modelo tripartite que conduziu a formação das empresas, um expediente arranjado para possibilitar que, além de nacional, o controle da nascente petroquímica fosse privado, “sem as limitações da coisa pública” que inevitavelmente a amarrariam.

Justamente para incluir no modelo é previsível a inclusão de uma sétima, a Politeno, principalmente porque já haveria consciência da controladora, a Suzano, de que, mais do que antes, sua opção preferencial está no ramo do papel e celulose. Menos previsível é como se posicionará a Oxiteno, a duplicada produtora de monoetilenoglicol do Grupo Ultra, que disputou não muito amistosamente a compra da Copene com a dupla Odebrecht/Mariani.

Previsível é também considerar que a reorganização de Camaçari inclua a estratégica implantação de uma fábrica de ácido tereftálico Purificado (PTA), único insumo que falta para assegurar na Bahia a formação de um complexo de PET, poliéster e afins, e que no Brasil só é produzido pela Rhodiaco (Rhodia-Amoco). O pólo de Camaçari já dispõe de monoetilenoglicol, da Oxiteno; de 230 mil t/ano de paraxileno, obtidos pela unidade de xilenos da Copene; além da Nitrocarbono, produtora do do dimetiltereftalato (DMT); da Proppet, fabricante de PET e da Engenpack, onde se produzem pré-formas de garrafas.

O exercício de futurologia deixa margem também para a previsão de que a depender do jogo que for armado no tabuleiro Camaçari -Triunfo uma segunda grande petroquímica nacional deve surgir baseada na aglutinação da Petroquímica União com os projetos ainda em fase de planejamento: Rio Polímeros, Paulínia e o do Mato Grosso, fronteira com a Bolívia. “Eu diria que a reorganização teria desdobramentos, não ficaria no eixo Camaçari-Triunfo”, atesta Ary Silveira.  (José Valverde)

Copesul quer bancar mais Nafta na Refap

A Companhia Petroquímica do Sul (Copesul), central de matérias-primas do Pólo Petroquímico de Triunfo-RS, tem US$ 100 milhões disponíveis para investir na ampliação da Refinaria Alberto Pasquallini da Petrobrás (Refap S/A), de Esteio-RS. Segundo o presidente da Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima, a ampliação da Refap, a um

custo de US$ 600 milhões, não prevê acréscimo de oferta do principal destilado de petróleo consumido na planta industrial da Copesul. “Ainda não conversamos com a Refap, mas posso assegurar que esse assunto será tratado como prioridade”, garantiu Cirne Lima.

O investimento na Refap, acrescentou, ajudaria a Copesul a substituir boa parte da nafta importada. Atualmente, a central de matérias-primas processa 5,3 milhões de m³ de nafta/ano.

Com 40 mil acionistas, a Copesul conta com 950 funcionários e está operando na faixa de 1 milhão e 135 mil toneladas de eteno/ano, 40% da produção nacional da olefina no Brasil, 28% da América Latina, o que faz da Copesul a 14ª produtora mundial de eteno. Seu faturamento é de R$ 2,9 bilhões, com vendas concentradas em 83% no Rio Grande do Sul, 6% no Sul e Sudeste e 11% exportados para os países do Mercosul, em especial a Argentina. Com lucro líquido de R$ 99 milhões, foi uma das primeiras empresas do Brasil a receber a ISO 14001, a certificação internacional da produção industrial ecologicamente correta.

Ao comentar a aquisição da Copene pela Odebrecht, Luiz Fernando Cirne Lima explicou que a Copesul será afetada indiretamente pela criação da nova empresa. “Em vez de termos como patrão a OPP, vamos ter essa nova empresa com um outro nome”, assinalou Cirne Lima, ao comentar a consolidação de todos os ativos petroquímicos do grupo numa só companhia, a Braskem. Para o executivo, as notícias sobre uma possível venda do braço petroquímico da Ipiranga, maior sócia da Odebrecht na Copesul, para o grupo baiano não passam de especulações.

Convidado a integrar o Conselho de Administração da nova Copene, Cirne Lima avaliou que a Odrebrecht não fará qualquer investimento de porte antes de conhecer o tamanho da despesa para reestruturar a central de matérias-primas do Pólo Petroquímico de Camaçari-BA. “Qualquer modificação importante no setor petroquímico brasileiro não ocorrerá antes do final de 2002”, apostou. “Interpretei o convite como um desejo de fazer a articulação da nova empresa com a Copesul.

Poderemos trabalhar em conjunto buscando sinergias.” Para Cirne Lima, trabalhando de forma articulada não ocorreriam problemas com a legislação de defesa da concorrência. O presidente da Copesul argumentou que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tem considerado os mercados regionais em seus pareceres.

O diretor-executivo da Abiquim, Guilherme Duque Estrada, enfatizou o ingresso da indústria química brasileira no ranking das dez maiores do mundo. No entanto, identificou dois aspectos negativos do setor que precisam ser superados: o crescente déficit externo e a baixa rentabilidade. Em 1991, a importação do setor chegou a US$ 3,6 bilhões, com exportações de US$ 2,1 bilhões, provocando um rombo de US$ 1,5 bilhão na conta de mercado exterior. No ano passado, advertiu o diretor-executivo da Abiquim, o buraco saltou para US$ 6,6 bilhões, sendo que no mesmo período a rentabilidade média ficou em 9,59%. “É um desempenho muito insatisfatório”, reclamou Duque Estrada. “Essa situação desencorajou os investimentos porque é a rentabilidade que gera a atratividade”, acrescentou o consultor da Abiquim, Arthur Candal. Ele afirmou que a rentabilidade sobre as vendas médias no Brasil é de apenas 0,56%, contra 4,8% dos Estados Unidos. (Fernando Castro)

Falta de transparência afugenta investidores

O alto endividamento dos grupos petroquímicos brasileiros poderia ter sido evitado caso as companhias tivessem buscado o apoio de investidores privados, por meio das bolsas de valores. Diferente da mentalidade norte-americana ou da européia, os empresários brasileiros desprezam essa alternativa e, pior, desrespeitam os sócios minoritários.

Química e Derivados: Petroquímica: Possas - minoritários não foram respeitados.
Possas – minoritários não foram respeitados.

“Apesar de ter havido melhora nos últimos anos, ainda falta transparência e boa governança nas companhias”, criticou Paulo J. Possas, investidor privado e acionista minoritário da Petroquímica União. Os processos de fusões e aquisições empreendidos desde 1990, por exemplo, foram conduzidos sem nenhuma satisfação aos minoritários.

“O empresariado brasileiro insiste em manter mentalidade ‘donal’, só se satisfaz com o controle majoritário do capital”, lamenta.

O leilão das posições do Econômico na Copene, segundo Possas, reafirmou as práticas de “capitalismo de compadres”, já denunciadas por ele em artigo publicado em 1999 no jornal Gazeta Mercantil. Ele classificou os interessados em três tipos: o primeiro, formado pelos grandes acionistas da Norquisa, envolvidos diretamente na aquisição, alguns dos quais manobraram para reduzir o preço de venda, usando as dívidas como argumento. Um segundo grupo identifica-se com com os acionistas não-majoritários, porém expressivos, como a Petroquisa e os fundos de pensão Petros e Previ, os quais conseguiram aumentar seu poder na sociedade por meio de acordos. Já o terceiro tipo agrupa os minoritários, investidores anônimos, que não tiveram nenhum direito garantido na negociação. “Nos leilões das empresas de telecomunicação e de algumas empresas do setor elétrico, não foi esse o procedimento”, afirmou Possas. Nesses casos, os minoritários tiveram direito à venda conjunta, com preço mais baixo, mas ainda assim justo.

Os erros estruturais da petroquímica brasileira começaram pela adoção do formato de gerações independentes, incentivado pelo ex-presidente Geisel, antes dirigente da Petrobrás. “Esse modelo é coisa típica de burocrata”, criticou o investidor. “O mercado de capitais poderia ter bancado os proejtos petroquímicos, mas os militares não tinham cultura de mercado e precisaram inventar um modelo financiável”, afirmou.

A explicação usual da falta de poupança interna para a busca de recursos junto aos financiadores internacionais é considerada plausível por Possas, mas contestável. “Em 1968, o governo vendeu no mercado de capitais 60% das ações preferenciais da Petrobrás e 60% das preferenciais do Banco do Brasil, operações muito miores, e não faltaram compradores”, afirmou.

Já o figurino tripartite permitiu buscar capital e tecnologia no exterior, mantendo o controle dos empreendimentos em mãos nacionais. “O governo elegeu quem seriam os vencedores do setor”, disse. A gestão das companhias ficou com os “papas” do setor, oriundos do sistema Petrobrás. Acordos de acionistas complexos e emaranhados engessaram as empresas, impedindo mudanças rápidas e indesejadas pelo comando central. O resultado disso foi a criação de um setor eivado de problemas de governança corporativa, com baixíssima transparência das suas decisões. “Até hoje, não dá para saber se os resultados das companhias são bons mesmo ou se refletem fatores conjunturais”, comentou. O formato permitia transferir lucratividade de uma geração para outra, de acordo com a escolha dos controladores, prejudicando os investidores.

Nas bolsas de valores, a característica é a baixa liquidez desses papéis. “Não se vende porque é muito barato, e não se compra porque o resultado é ruim”, relatou. Atualmente, a exceção é a Copene, bem negociada no mercado.

O movimento de concentração de negócios é elogiado pelo investidor, como saída racional para a deficiência genética dos empreendimentos. “O problema é a extrema complexidade das operações, que não está sendo bem assimilada nem pelos especialistas”, criticou. Para ele, a exposição inicial do projeto Braskem foi considerada “lamentável”, por gerar mais dúvidas que esclarecimentos. “A reestruturação precisa ser feita, pois só quando o setor estiver montado com dois grandes grupos, o Nordeste-Sul e o Sudeste, será possível atrair investidores”, afirmou. Contribuirá para tanto a adoção de novas leis de governança corporativa e das sociedades anônimas, que darão aos minoritários instrumentos judiciais para monitorar a gestão. “Por enquanto, é melhor não comprar, nem vender esses papéis”, aconselhou.

O processo de contração dos negócios petroquímicos, no entender de Possas, ainda depende da decisão da Petrobrás em participar mais ativamente ou não do setor. Para ele, a participação da estatal na Rio Polímeros é lógica, por significar valorização do gás natural. No entanto, para as centrais de nafta ainda não há uma posição clara. “Hoje só a Petrobrás ganha dinheiro, pois a nafta representa de 70% a 80% dos custos totais das centrais”, explicou.

Mesmo em âmbito internacional, a atividade petroquímica não é considerada atraente para investidores. “Trata-se indústria madura, pouco inovadora, em processo de commoditização, mas é relativamente segura e capaz de gerar caixa para outros negócios”, avaliou o investidor. Ele salientou que o risco é crescente, dado o excesso de capacidade já instalada em alguns mercados. A ciclicidade típica também repele investidores, porém a petroquímica ainda supera a siderurgia, e as variações entre picos e vales são menos dramáticas que as verificadas em celulose e papel.

No caso brasileiro, a gestão dos empreendimentos do setor melhorou nos últimos anos mas, em contrapartida, os problemas estruturais foram agravados. Basta citar a elevação do preço da nafta, o encarecimento e a escassez da eletricidade, e a redução da oferta de capital internacional para financiar investimentos. “Falta capital próprio porque a geração de caixa está fraca e os minoritários fogem das propostas”, comentou. Mesmo assim, Possas declarou-se satisfeito com a atual direção da companhia e com os dividendos recebidos depois de 1999. “Rende alguma coisa como 12% ao ano, é uma poupança melhorada”, afirmou.

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