Petróleo : Refap cresce com Petrobrás e Repsol

Fundada em 1968, no auge da expansão do projeto estatal do setor petrolífero brasileiro, a Refinaria Alberto Pasqualini, localizada em Esteio-RS, foi transformada em Sociedade Anônima em janeiro último, com autonomia administrativa em relação ao sistema Petrobrás da qual é subsidiária.

A nova estrutura corporativa vem sendo considerada como o laboratório de testes para uma possível privatização da indústria estatal de petróleo brasileira.

Na apresentação oficial aos clientes e à imprensa, dia 6 de junho, o presidente da Refap S/A, Hildo Henz, confirmou que o conjunto do sistema Petrobrás irá se adequar aos novos tempos, partindo para sua internacionalização definitiva, em 2001.

Se os órgãos de defesa econômica do Brasil e da Argentina não se opuserem, até agosto o grupo hispano-argentino Repsol-YPF, irá realizar uma troca de ativos com a empresa gaúcha, o que na prática funcionará como fusão parcial entre as duas companhias.

Com a efetivação do acordo, o parceiro estrangeiro passará a ter assento na diretoria e ficará responsável pela área industrial, contando ainda com duas das sete cadeiras do Conselho de Administração.

A transação comercial prevê o repasse de 30% do controle acionário da Refap S/A ao conglomerado estrangeiro, 140 postos da bandeira BR no Rio Grande do Sul, e outros 110 nos diversos estados brasileiros.

Química e Derivados: Petróleo: Henz - Refap S.A nasce pensando na ampliação.
Henz – Refap S.A nasce pensando na ampliação.

Pelo acerto, o grupo hispano-argentino terá direito a explorar dez poços de petróleo no país, sendo que oito desses já estão fornecendo óleo bruto para a Repsol-YPF no campo de Albacora Leste, Bacia de Campos, no Rio de Janeiro.

Na contrapartida, a Refap, irá operar 100% da refinaria argentina EG3, processando 30 mil metros cúbicos/dia de petróleo. Além disso, assumirá o controle de 700 postos de abastecimento, passando a ocupar 11% do mercado, no principal país da bacia do Rio da Prata. Para a Repsol, a parceria é reconhecidamente vantajosa.

A médio prazo, deverá se transformar na segunda empresa em refino de petróleo no Brasil, processando 70 mil barris/dia, ultrapassando os dois únicos grupos privados que refinam petróleo no Brasil, a Ipiranga S/A e a Refinaria de Manguinhos, esta do grupo Peixoto de Castro.

A ampliação da capacidade produtiva da unidade de Esteio já começou independentemente da efetivação do negócio. Desde janeiro, as máquinas das empreiteiras ocuparam uma parte dos 580 hectares da área da refinaria e estão preparando o terreno para o começo das obras de instalação das novas unidades de refino.

Até o final de 2003, a Refap S/A irá processar 30 mil metros cúbicos por dia de derivados de petróleo, 50% a mais do que os 20 mil metros cúbicos dia/produzidos atualmente, passando a atender à demanda da Repsol-YPF.

Com o incremento na produção, proveniente da ampliação, a Refap se constituirá na quinta maior refinaria de petróleo do país. Hoje ela ocupa a nona colocação entre as onze indústrias em atividade em solo brasileiro.

A ampliação da refinaria a um custo de US$ 650 milhões compreende um conjunto de unidades, abrangendo a completa cadeia produtiva da industrialização do petróleo, o que irá alterar significativamente o seu perfil econômico.

Segundo Henz as negociações para o financiamento total do projeto estão avançadas com o Japan Bank International Corporation, instituição de fomento escolhida para disponibilizar os recursos. Conta também com incentivos fiscais do governo estadual da ordem de US$ 130 milhões.

Química e Derivados: Petróleo:Paralelamente à ampliação da capacidade instalada, a Refap irá passar nos próximos três anos por uma profunda alteração em seu perfil produtivo, o que os técnicos definem como conversão da refinaria.

A nova estratégia comercial da empresa prevê a diminuição da fabricação de óleo combustível, em queda no mercado com o crescimento da demanda pelo gás natural. Está previsto ainda o aumento na oferta de óleo diesel, gasolinas, GLP e nafta.

A Refap S/A deverá iniciar também a produção de propeno, este último dependendo de acordo comercial com a central de matérias-primas do pólo petroquímico gaúcho, a Copesul.

“Somos uma nova empresa, mas que tem uma história de operação de mais de 30 anos no refino de petróleo e derivados, herança da antiga estrutura”, assinalou Henz.

Campeã em segurança – A Refap S/A atende ao Rio Grande do Sul e oeste de Santa Catarina com sua produção de 20 mil m³/dia, equivalente a 90% do mercado regional.

Os 10% restantes são garantidos pela produção da Ipiranga, com refinaria de Rio Grande, a 500 quilômetros de Porto Alegre. Além disso, a refinaria de Esteio responde por 18% do ICMS arrecadado no Rio Grande do Sul. É também a maior empresa em faturamento médio anual do Estado, US$ 2,2 bilhões.

Com tudo isso, a menina dos olhos da administração da refinaria é a complexa estrutura de segurança montada, que tem como objetivo evitar os acidentes industriais seguidos de catástrofes ambientais provocados por outras unidades da Petrobrás no Rio de Janeiro e Paraná.

Para isso, na Refap S/A foi criado um sistema de defesa para detectar as falhas nos equipamentos, antes mesmo que esses acusem qualquer problema, exigindo aparelhos de alta especialização como analisador de vibração, medidor de espessura com ultra-som, analisadores de óleos lubrificantes, termografia, para detectar altas temperaturas a longas distâncias, e cromatografia de gases por raio-X.

Há ainda uma parafernália eletrônica, pioneira em todo o complexo Petrobrás, denominada Sistema Centralizado – CFTV – que proporciona checagem constante, em tempo real, de patrimônio e unidades, reduzindo a quase zero a possibilidade de um acidente.

O CFTV opera em todas as áreas da Refap e BR Distribuidora, sendo constituído por 45 câmeras móveis e fixas, que captam imagens dentro e fora dos equipamentos. Muitas dessas câmeras são dotadas de lentes especiais capazes de suportar altas temperaturas, até mesmo no interior de fornos.

As câmeras móveis monitoram os sistemas de efluentes, permitindo registrar todas as etapas do processo. As imagens captadas são transmitidas por circuitos óticos para uma central instalada na Casa Integrada de Controle (CIC).

Combinado com os sistemas sofisticados a Refap S/A mantém um programa de treinamento permanente dos funcionários, que estão habilitados a enfrentar acidentes, contando ainda com uma equipe de voluntários acionada em ocorrências mais graves.

Química e Derivados: Petróleo: grafico07. A operação da Refap necessita de água, vapor e energia elétrica nos processos de refino. A água em estado de vapor alimenta as caldeiras que geram a energia elétrica, responsável pelo suprimento completo da refinaria. O vapor a 445º C sob 60 kg de pressão movimenta as turbinas e faz o aquecimento de produtos necessários no processo de refino.

São quatro caldeiras com capacidade de 80 toneladas/hora cada uma, e três geradores elétricos com capacidade de 7,2 MWh, carga mais do que suficiente para garantir o funcionamento da planta industrial.

Apesar da complexidade da operação, nos últimos cinco anos a refinaria registrou apenas uma redução de carga. Segundo o presidente da Refap, o sistema é de alta confiabilidade porque segue as exigências da NR 13 – norma certificadora de caldeiras e vasos de pressão, que avaliza o SPIE – Serviço Próprio de Inspeção de Equipamentos, conquistada em maio de 2000.

“Para nós, segurança e meio ambiente são um valor que está no mesmo nível dos resultados econômicos”, justifica Henz. A declaração do executivo é mais que uma frase de efeito. No ano passado, a Refap foi considerada a refinaria de petróleo mais segura da América Latina pela auditoria internacional Solomon Associates, especializada na aferição de empresas da indústria petrolífera. Outro dado importante: do total que será investido em sua ampliação, US$ 40 milhões serão destinados ao aumento do controle da segurança e gestão ambiental.

Além disso, a Refap S/A mantém uma série de programas na área ambiental, alguns para aplicação interna, abrangendo as unidades da planta industrial e outros em convênio com prefeituras e órgãos ambientais, como é o caso dos programas de despoluição do Rio do Sinos e do Arroio Sapucaia.

Há três anos, a Petrobrás instalou um modelo de equipamento de última geração em pontos estratégicos da cidade de Porto Alegre, em convênio com a prefeitura local. Esses aparelhos conferem a qualidade do ar na capital gaúcha, apontando os principais focos de poluição e emissão de gases.

Usina térmica – Outro projeto da Refap S/A que está saindo do papel em caráter de urgência, no vácuo da crise de energia, é a usina termelétrica a ser inaugurada no final de 2001. A unidade será movida a gás natural, fornecido pelo gasoduto proveniente da Bolívia, que já está fornecendo combustível na região metropolitana de Porto Alegre, desde junho do ano passado.

A um custo de US$ 300 milhões, a unidade geradora deverá entrar em operação no final de 2001, processando 60 MWh de energia elétrica. Denominada UTE – Unidade Termoelétrica -, na primeira etapa de operação irá gerar 160 MWh. Em sua capacidade máxima ofertará 500 MWh.

No aspecto energia, a Refap S/A também se destaca como campeã em economia, tendo sido agraciada com dois dos quatro prêmios concedidos internamente pela Petrobrás, em 1999, para programas de contenção de gastos com energia elétrica. Em 2000, a economia de energia chegou a US$ 2,7 milhões.

Os recursos a aplicar na Alberto Pasqualini são uma pequena parcela dos investimentos da indústria de petróleo brasileira. Somente em 2001, a previsão do setor é mobilizar US$ 5,5 bilhões no seu crescimento econômico e no incremento da produção, valor esse que deverá ser a média dos próximos cinco anos.

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