Química

Petróleo & Energia – Crise econômica e reservatórios cheios nas hidrelétricas põem gás natural em ritmo lento

Bia Teixeira
15 de fevereiro de 2010
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    Mexilhão, que já provocou muita polêmica desde sua descoberta, quando as reservas foram superestimadas e depois reavaliadas para baixo – ganhando a jocosa alcunha de Mexilhinho – estava prevista para entrar em operação em março (veja box), mas a partida desse megaempreendimento foi adiada para maio ou junho.

    A diretora rebate as constatações de que está “sobrando” gás natural no país e costuma preferir o termo “flexibilidade” para tratar do excedente do combustível. “Hoje temos uma curva de produção mais flexível e adaptável às exigências do mercado”, pontua.

    Para reforçar essa defesa, ela exemplificou que no dia 24 de janeiro a Petrobras foi chamada pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), para abastecer com gás usinas térmicas que gerariam apenas 24 MW. Quinze dias depois, porém, este volume saltou para pouco acima de 3 mil MW, responsáveis por consumir algo em torno de 16 milhões de m³/dia de gás.

    A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) exige que a Petrobras tenha disponível 30 milhões de m³/dia para abastecer usinas térmicas que têm uma capacidade de geração de 8 mil MW.  Mas as perspectivas de geração são de apenas 800 MW diários, abaixo da média de 960 MW diários em 2009.

    No cenário industrial as perspectivas são um pouco melhores. Segundo a Petrobras, há possibilidade de o mercado não-térmico recuperar maior proximidade – mais ainda abaixo – da demanda de 2008, quando houve recorde histórico do consumo de gás no país.

    Obs.: volumes obtidos em terra e mar, considerando temperatura de 20°C e pressão de 1 atm. Fonte: ANP – Boletim Mensal de Produção( até 3 de fevereiro de 2010)

    Produto caro – De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), o volume de gás natural comercializado no acumulado do ano de 2009 atingiu a média diária de consumo de 36,7 milhões de m³, uma retração de 26% em relação à média do ano de 2008.

    Essa retração fez com que a Petrobras realizasse em 2009 pelo menos dez leilões de gás para o mercado spot a preços menores. Com isso, neste início de ano parte do combustível fornecido às indústrias ficou cerca de 35% abaixo do valor cobrado do mercado não-flexível.

    Para a Abegás, os preços do insumo foram os principais vilões, aliados à desaceleração da produção industrial e à redução da utilização de usinas térmicas. Em 2009, como nos anos anteriores, o principal consumidor do gás natural continuou sendo o setor industrial, com 23,5 milhões de m³/dia, (15,3% a menos do que em 2008). Outro segmento a apresentar retração foi o automotivo, cuja média diária ficou em 5,7 milhões de m³, 12,98% menor do que em 2008.

    O preço do gás foi contestado pelas indústrias como sendo um dos mais altos do mundo, e por isso deixado de lado em favor de outros mais competitivos. Segundo representantes do segmento industrial, o valor cobrado no país é inferior apenas ao da Coreia do Sul.

    Segundo levantamento da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), o gás vendido no Brasil custa em média US$ 12,46 por milhão de BTU, bastante superior ao de concorrentes importantes como México, Chile, Canadá, Estados Unidos e França. A Abrace chegou a contratar no ano passado uma análise da Gas Energy Latin America que deverá embasar uma reclamação formal à SDE (Secretaria de Direito Econômico) sobre o assunto em 2010.

    Vai sobrar – Para a consultoria Gas Energy Latin America, o cenário de sobra do gás tende a se acentuar nos próximos anos, apesar das perspectivas de crescimento econômico, que puxam o consumo direto de gás industrial e residencial, além de contribuir para a elevação da demanda de energia elétrica, o que pode exigir o acionamento de térmicas.

    De acordo com outros estudos da Gas Energy feitos no ano passado, o excedente no país em 2010 deve chegar a 40 milhões de m³/dia. Para 2011, a previsão é de sobrar 60 milhões de m³/dia. O cálculo considera 10 milhões de m³/dia que deixaram de ser importados da Bolívia, 20 milhões de m³/dia de GNL contratados com flexibilidade de entrega e mais 10 milhões de m³/dia de campos com produção suspensa. A sobra também considera o volume queimado nos campos em que o gás é associado ao petróleo e, portanto, não pode deixar de ser produzido.

    “Novas plataformas estão entrando em operação e algumas delas são voltadas para a produção de gás, como Mexilhão e o sistema Tambaú/Uruguá (todas na Bacia de Santos). Mantidas as mesmas condições atuais de acionamento de térmicas apenas quando os níveis dos reservatórios estiverem baixos e de preço elevado para a demanda industrial, a demanda não deve crescer para absorver esse aumento da oferta”, disse a sócia-diretora da Gas Energy, Sylvie D’Apote.

    A Abegás ressalta, porém, que apesar desse panorama, as distribuidoras continuaram investindo em infraestrutura para disponibilizar o gás natural em todas as regiões do país. O número de extensão de redes ultrapassou os 18 mil quilômetros e o número de clientes, em todos os segmentos de consumo, já soma mais de 1,7 milhão no Brasil. O crescimento acumulado do número de consumidores de 2008 para 2009 foi de 21,35%, enquanto que o de rede foi 7,87%.

    Dutos instalados – A Petrobras também continua ampliando sua malha de dutos. Somente nos dois primeiros meses do ano, o presidente da República participou de pelo menos duas inaugurações de porte envolvendo a malha Sudeste. O primeiro deles, Paulínia-Jacutinga, com 93 quilômetros, terá capacidade para transportar 5 milhões de m³/dia e deverá contribuir para ampliar o mercado de gás do sul de Minas, cuja média diária de consumo deverá crescer, a cada ano, na média 500 mil m³/dia a partir de 2011. O novo gasoduto atenderá principalmente à demanda industrial da região, onde se concentram empresas de alumínio, mineração, cerâmica e alimentícia.



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