Petroleiras do Oriente Médio reforçam posição global – Petroquímica

Química e Derivados, Petroleiras do Oriente Médio reforçam posição global - Petroquímica

Enquanto a onda do craqueamento de gás natural nos Estados Unidos apoiada no crescimento do shale gas ganha muita atenção, as grandes produtoras de petróleo e gás do Oriente Médio alinham megaprojetos que poderão alterar a paisagem petroquímica global a partir de 2025.

Comanda essa mudança a crescente percepção que a demanda por petróleo nos transportes vai se acomodar com a eletrificação de veículos e o aumento da eficiência do uso dos combustíveis. Assim, o futuro dos hidrocarbonetos não está na gasolina e no diesel, mas nos produtos químicos, cuja demanda deve continuar crescendo com o PIB. E está claro que as grandes petroleiras não estão mais satisfeitas em ser apenas provedoras de matérias-primas para as indústrias a jusante na cadeia produtiva.

Os US$ 45 bi de Abu Dhabi – A Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dahbi (ADNOC) quer obter o máximo valor possível a partir do barril de petróleo mediante a produção petroquímica, disse o CEO, o sultão Ahmed Al Jaber. A companhia embarcou em um plano de investimento de US$ 45 bilhões com o objetivo de mais do que triplicar sua capacidade petroquímica no site de Ruwais, de 4,5 milhões de toneladas/ano em 2016 para 14,4 milhões de t/ano em 2025, além de adicionar novas cadeias produtivas a jusante em químicos para construção, insumos para campos de petróleo, surfactantes e detergentes.

Em fevereiro de 2019, a joint venture paritária (50/50) Borouge firmou contratos de engenharia básica e design (FEED) para a quarta fase de sua expansão em Ruwais, que incluirá um cracker de alimentação flexível para 1,8 milhões de t de etileno por ano e uma capacidade total de 3,3 milhões de t/ano de olefinas e aromáticos. Será o primeiro cracker no país a usar cargas mistas, combinando etano, butano e nafta.

“O Oriente Médio está ficando sem gás natural barato. Todos os novos projetos têm alimentação mista, com uma combinação típica aproximada de 35% etano e 65% de propano, butano e nafta, que não é tão vantajosa quanto o etano”, disse Hassan Ahmed, analista da Alembic Global Advisors, empresa de pesquisa de investimentos com sede nos EUA.

Enquanto ADNOC e a Borealis, sua parceira na joint venture, planejam terminar a configuração do downstream em um prazo de três meses após a assinatura do contrato de FEED, incluindo unidades de polietileno (PE) e polipropileno (PP).

Aramco investe US$ 100 bi – O complexo produtivo do tipo óleo cru para químicos (crude oil to chemicals, COTC) planejado pela Saudi Aramco e Sabic em Yanbu (Arábia Saudita) é, talvez, o mais observado projeto do mundo e pode ter profundas implicações no setor petroquímico.

Em março, a Aramco concordou em comprar do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita uma posição de 70% na Sabic, uma transação de US$ 69,1 bilhões, assumindo o controle e efetivamente consolidando os gigantes de energia e químicos do reino saudita em uma potência internacional integrada.

Com um orçamento estimado em US$ 30 bilhões e um processo para converter 400 mil barris por dia de óleo cru em 9 milhões de t/ano de químicos e óleos básicos, o megacomplexo Aramco/Sabic deve dar partida em 2025. O plano inicial era converter 45% de cada barril em derivados petroquímicos. No entanto, a Aramco pretende expandir esse percentual por meio do aprimoramento de sua tecnologia própria. A companhia acredita ser possível chegar a uma taxa de conversão de 60% a 70% de óleo em petroquímicos com essa tecnologia.

Produtos petroquímicos representam em média 10% a 15% da produção mundial das refinarias, com amplas diferenças entre complexos integrados. “Nos últimos anos, refinadores vêm aumentando a participação de petroquímicos na sua produção, em detrimento dos combustíveis tradicionais. Algumas das novas refinarias da China podem chegar a 40% de químicos”, como afirmou Stefano Zehnder, vice-presidente de consultoria da Icis. “Na Arábia Saudita, o conceito básico original de refino está evoluindo rapidamente; fica claro que a Aramco busca alcançar a escala comercial das suas tecnologias de COTC.”

“Com potencial para incrementos adicionais a partir da base de 45% de conversão, isso indica capacidades de petroquímicos e óleos básicos além de 9 milhões de t/ano. A configuração final será definida pelo balanço desejado da produção de petroquímicos, óleos básicos e combustíveis”, aduziu Zehnder.

Ahmed, da Alembic Global Advisers, salienta que iniciativas COTC singificam “integração e tentativa de aumentar a eficiência das operações tanto no upstream quanto no downstream”. Isso se explica porque “cada nova instalação no Oriente Médio os coloca em um ponto mais elevado na curva de custos”, resultado do uso de cargas mistas.

A Aramco planeja investir US$ 100 bilhões em petroquímica nos próximos dez anos, como afirmou o CEO Amin Nasser durante o encontro anual da Gulf Petrochemicals Association (GPCA), realizado em Dubai, em novembro de 2018.Um mês antes, Aramco e a transnacional de origem francesa Total assinaram um acordo de desenvolvimento conjunto para a engenharia básica e design (FEED) da planejada joint venture entre elas para um complexo petroquímico em Jubail (Arábia Saudita). O projeto de US$ 5 bilhões, com partida prevista para 2024, compreende um cracker de cargas mistas (50% etano, 50% de gases de refino) para 1,5 milhão de t/ano de etileno e unidades a jusante.

O complexo petroquímico é um desdobramento da joint venture entre ambas na refinaria Satorp e elas esperam investimentos adicionais de US$ 4 bilhões em petroquímicos e especialidades químicas provenientes de outros investidores. A Aramco, além disso, está em processo de fusão com a gigante saudita de petroquímicos e polímeros Sabic.

Projetos globais – A Aramco e a ADNOC não estão apenas plantando investimentos nos seus quintais, mas também erguem megacomplexos ao redor do mundo. O mais ambicioso entre eles é o memorando de entendimento assinado em junho de 2018 entre Aramco, ADNOC e um consórcio de companhias de petróleo da Índia (Indian Oil, Hindustan Petroleum e Bharat Petroleum) para erguer um complexo de refino e petroquímicos de US$ 44 bilhões na Índia, com capacidade para produzir 18 milhões de t/ano de produtos petroquímicos. Juntas, Aramco e ADNOC terão 50% do projeto, ficando a outra metade com os parceiros indianos. O governo indiano prevê o início da construção para 2020, em Raigad (Índia), para conclusão em 2025.

Ahmed, da Alembic Global Advisors, recomenda cautela com as expectativas geradas por memorandos de entendimento. “O príncipe herdeiro da Arábia Saudita fez um passeio pela Ásia e assinou vários desses memorandos, porém muitas vezes esse tipo de acordo não se materializa. Nós, tipicamente, não os levamos muito a sério antes de ver o aço sendo colocado no chão”, disse.

Química e Derivados, Petroleiras do Oriente Médio reforçam posição global - Petroquímica

A China é outro alvo das petroleiras do Oriente Médio. Em fevereiro deste ano, a Aramco assinou um acordo com os grupos chineses Norinco e Panjin Sincen para desenvolver um complexo totalmente integrado de refino e petroquímica com orçamento de mais de US$ 10 bilhões, em Liaoning (China), com partida esperada para 2024.

Os parceiros criarão uma companhia, a Huajin Aramco Petrochemical (35% Aramco, 36% Norinco e 29% Panjin Sincen), como parte do projeto que inclui uma refinaria para 300 mil barris/dia, com um cracker para 1,5 milhão de t/ano de etileno e uma unidade para 1,3 milhão de t/ano de paraxileno. A Aramco suprirá até 70% do petróleo a ser consumido pelo complexo.

Além disso, a Aramco herdará dois megaprojetos que estavam sendo planejados pela Sabic, em fase de fusão de negócios.

Com a chinesa Fuhaichuang Petrochemical, a Sabic estudava construir um complexo petroquímico em Fujian (China), como disse uma fonte da parceira chinesa. O projeto ficaria em Gulei (Zhangzhou) e incluiria uma cracker para 1,8 milhões de t/ano de etileno, uma unidade de 600 mil t/ano de desidrogenação de propano e linhas de derivados. O acordo final ainda não foi concluído.

Entretanto, outro megaprojeto da Sabic já está em andamento. Na Costa do Golfo dos EUA, a Sabic e a ExxonMobil constroem um cracker de etano para 1,8 milhões de t/ano de etileno, localizado no condado de San Patricio (Texas, EUA), com uma planta de MEG e dois trens de produção de polietileno. O projeto deverá estar pronto no último trimestre de 2021, com partida programada para o primeiro semestre de 2022.

Além da união entre Aramco e Sabic, as petroleiras do Oriente Médio podem tentar adquirir ativos petroquímicos ocidentais. A Aramco assumiu os negócios de borracha sintética da alemã Lanxess ao comprar os 50% de participação da parceira na joint venture Arlanxeo, em dezembro, enquanto a Sabic ficou com 25% da Clariant, companhia de especialidades químicas e catalisadores com sede na Suíça, em setembro de 2018.

A lista de grandes negócios anteriores inclui a compra da americana GE Plastics pela Sabic, em 2007, e a aquisição da canadense Nova Chemicals pelo fundo IPIC de Abu Dhabi (hoje Mubadala), em 2009.

“Eles ainda devem estar interessados, mas nós não devemos esperar que eles avancem muito além da sua zona de conforto em olefinas e poliolefinas e, possivelmente, poliuretanos. Acreditamos que eles olhem mais para os EUA do que para a Europa”, disse Ahmed, da Alembic Global Advisors.

Está claro que as petroleiras do Oriente Médio têm ambições gigantescas na petroquímica, com planos para colocar em marcha capacidades enormes de produção em 2025. No entanto, ainda é preciso verificar quais projetos na verdade partirão e sob qual cronograma.

“O diabo está nos detalhes em termos do que será construído, adiado ou cancelado. Todos nós conhecemos o jogo de companhias despejando grandes números para evitar que os concorrentes construam capacidades em demasia”, disse Ahmed.

AUTOR

Joseph Chang é editor global da Icis Chemicals Business, parte da maior empresa global de informações sobre o mercado petroquímico, integrante da Reed Business Information, braço do RELX Group. Este texto foi produzido com a contribuição dos editores da Icis Nigel Davis, Nurluqman Suratman, Niall Swan e Fanny Zhang.

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