Química

IYC 2011 – Pesquisa – Com estrutura e verbas, ciência avança no país

Marcelo Fairbanks
15 de junho de 2011
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    Revista Química e Derivados - Cláudio Mota, Professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro

    Mota: verbas privadas são bem-vindas, porém com limites

    Além das fontes oficiais, existe o interesse de grandes empresas em bancar pesquisas de universidades e institutos especializados. “É ótimo que as empresas banquem pesquisas, mas a universidade não pode virar uma sucursal dos centros de pesquisas dessas companhias”, criticou Mota. Ele entende como legítimo o interesse das empresas em projetos que as beneficiem diretamente, mas isso nem sempre é interessante para os pesquisadores. “Há muitos casos que são apenas prestação de serviços, não geram uma tese ou uma publicação relevante”, advertiu.

    A preocupação não é meramente acadêmica. Sem contar com uma sólida produção científica (atestada por teses, trabalhos publicados, orientações de mestrados e doutorado), o pesquisador poderá perder o credenciamento nos órgãos oficiais de financiamento. “Mais tarde, ele não poderá conseguir nem uma bolsa para um eventual orientado”, afirmou.

    Mesmo assim, Mota confia mais no bom-senso dos pesquisadores e das universidades do que na instituição de normas rígidas adicionais. “Isso já está sendo discutido pelo governo e dentro das universidades”, comentou. Para ele, os próprios cientistas e os departamentos aos quais eles estão vinculados é que devem estabelecer limites. “No máximo, deveriam ser exigidas cargas horárias mínimas para ensino e extensão, ou mesmo para serviços”, admitiu. Ele mesmo tem realizado alguns desses serviços, porém sem prejuízo das atividades usuais. “Acaba sendo trabalho extra, mas é interessante”, afirmou.

    Mota também recomenda aos pesquisadores científicos delimitar claramente o escopo dos serviços prestados. “A universidade deve fazer ciência, desenvolvendo trabalhos até o estágio de bancada; fazer scale up não é sua vocação”, salientou.

    Galembeck considera o relacionamento com grandes empresas uma parte importante do cenário atual, mas recomenda que os pesquisadores deem atenções também às indústrias químicas de pequeno e médio porte. Ele aponta dois caminhos para estabelecer essa ligação. As empresas podem procurar diretamente as universidades, ou dirigir-se a institutos de pesquisa setorializados, ainda raros por aqui. “A Alemanha, os Estados Unidos e Taiwan, por exemplo, mantêm esse tipo de instituição”, comentou. No Brasil, ele citou o caso do Instituto de Pesquisas Florestais (Ipef), instalado na Esalq/USP, que conseguiu resultados muito importantes com eucalipto. “Esses institutos poderiam até ser virtuais, apenas coordenariam os trabalhos de desenvolvimento científico e tecnológico, aproveitando os recursos materiais existentes e dispersos”, considerou.

    O ponto de partida seria adotar um critério simples: “Deveríamos começar com as áreas nas quais somos competitivos mundialmente, mantendo pesquisas para não perdermos espaços”, recomendou.

    Existem iniciativas nesse sentido. “Temos o Centro de Tecnologia do Bioetanol operando no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, na Unicamp, que é o embrião de um grande instituto do etanol”, informou Zucco. O CTBE, bem estruturado fisicamente, contando até com planta piloto, estuda aspectos variando desde o cultivo da cana até o processamento químico do caldo, queima de resíduos e a geração de álcool de biomassa.

    “A verba para inovação deveria ser carimbada, ou seja, ter finalidade específica”, aconselhou Zucco. Há várias fontes de recursos, várias delas prevendo a participação de empresas como fonte complementar. “Há resistências, porque as empresas querem investir apenas naquilo que lhes traga resultados imediatos”, explicou. Existem fortes debates sobre isso nas fundações estaduais, segundo comentou. Na Fapesc, na qual atua, a ideia é manter uma equidistância entre os pleitos de ciência e tecnologia. “Ambos precisam de apoio, mas é preciso estabelecer uma política pública para institucionalizar essa postura”, recomendou.

    No plano federal, Zucco mencionou os cortes orçamentários produzidos pelo governo nos órgãos financiadores, estimados em 23%. “Os projetos que estavam contratados seguirão seu rumo normal, mas está mais difícil conseguir verbas federais para novas pesquisas em 2011”, salientou. As fundações estaduais estão mantendo seus investimentos.

    Como exemplo, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) informou que a área química representa cerca de 7% de todos os desembolsos do órgão (entre auxílios e bolsas), média mantida ao longo dos últimos cinco anos. Em 2010, a área química recebeu R$ 49.993.711,00 da Fapesp, bem melhor que os quase R$ 42 milhões de 2009 e os R$ 40,7 milhões de 2008. Em 2005, esse valor foi de R$ 32,5 milhões.

    A Fapesp informou também que as modalidades de apoio a projetos têm duração variável. Os auxílios regulares duram até 24 meses, enquanto projetos temáticos podem ser apoiados por 60 meses. Todas as propostas, encaminhadas por pesquisadores ligados a instituições de ensino superior e pesquisa no estado de São Paulo, são analisadas pelo sistema de peer review, considerando a originalidade e o mérito científico, bem como seu orçamento.



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