Química

IYC 2011 – Pesquisa – Com estrutura e verbas, ciência avança no país

Marcelo Fairbanks
15 de junho de 2011
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    Daí a importância de cada pesquisador encontrar a sua vocação, e achar oportunidades para desenvolvê-la. “No meu caso, hoje sou conhecido por pesquisas feitas com glicerina, mas esse tema é recente na minha carreira, voltada para catálise”, disse Mota. Ao estudar a produção de biodiesel, ele percebeu que o Brasil estava na iminência de produzir uma quantidade enorme de glicerina como subproduto; e isso abriu uma oportunidade para pesquisar usos economicamente viáveis para ela. Entre outras possibilidades, ele desenvolveu um caminho para a produção de propeno obtido da glicerina. “O pesquisador precisa seguir o que a sociedade precisa e, ao mesmo tempo, formar novos cientistas e transferir conhecimento”, ressaltou.

    Personalidade conta – As qualidades esperadas em um cientista não se restringem ao campo de conhecimento, mas também à sua capacidade de trabalhar em equipe e preservar bons relacionamentos. “Atualmente, qualquer projeto importante depende de muitas competências diferentes, nem sempre encontradas no mesmo lugar”, explicou Galembeck. Isso incentiva a desenvolver trabalhos em rede, mas requer qualidades pessoais adequadas.

    “Um pesquisador competente precisa ser, pelo menos, tratável, ter um temperamento adequado ao convívio com os demais”, salientou. Ao mesmo tempo, Galembeck espera encontrar uma boa dose de autoestima e autoconfiança nesses profissionais. “Eles precisam ser capazes de superar críticas e fracassos, sendo persistentes nos seus objetivos”, comentou. “Um bom caráter é tão importante quanto a inteligência.”

    As diferenças de personalidade também influem no tipo de trabalho a desenvolver. “Em geral, quem faz pesquisa acadêmica não tem interesse pela pesquisa direcionada, são coisas diferentes, a primeira dá mais liberdade”, admitiu César Zucco. E, normalmente, ela tem menor apelo econômico que a segunda. “No mundo todo é assim, por exemplo, a Coreia banca a chamada pesquisa pura”, informou.

    Revista Química e Derivados - Fernando Galembeck, professor e pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp)

    Galembeck: país não tem plano de longo prazo para seguir

    O modelo atual de avaliação e seleção de projetos feitos por pares (cientistas da mesma área do conhecimento, o peer review) ainda é considerado o mais equilibrado por Zucco. “Claro que ele atende mais a quem tem competência para arrecadar os recursos”, comentou. O modelo não impede a replicação de pesquisas com o mesmo foco. “A redundância nem sempre é evitável, mas não deveria acontecer, é desperdício de recursos”, lamentou. Mesmo assim, ele não entende ser esse um motivo para instituir uma coordenação rígida da pesquisa. “Acho que todos precisam saber o que os outros já estão fazendo, mas não tenho certeza se instituir um controle a mais é a melhor solução”, afirmou.

    As pesquisas em rede tendem a ganhar mais força no futuro, pelas vantagens oferecidas. “Não se financia um projeto só, mas vários ao mesmo tempo, com esforços coordenados, e os resultados são compartilhados”, avaliou. Zucco também considera que os laboratórios de pesquisa brasileiros estão equipados com um moderno arsenal analítico, resultado da aplicação de recursos da Finep (linha CTInfra). “O melhor uso desses equipamentos é feito em rede”, considerou.

    “Atualmente, é mais fácil comprar um microscópio eletrônico do que manter o salário de um microscopista”, criticou Galembeck. O modelo de liberação de recursos não ajuda a resolver esse problema. “Por isso, não há mercado no Brasil para os ‘supertécnicos’, especializados em análises”, disse. Os alunos de pós-graduação não se empenham em aprender técnicas muito complicadas, porque não será com isso que eles ganharão dinheiro depois.

    Ele aponta três pilares para o financiamento adequado das pesquisas. Para começar, tanto a pesquisa científica quanto a tecnológica precisam ter metas claras para serem corretamente avaliadas, até mesmo para ver se os recursos estão sendo corretamente aplicados. Outro ponto importante é contar com múltiplas fontes de financiamento, item já previsto no sistema atual brasileiro. “Isso evita o estrangulamento de projetos por falta de verbas”, explicou Galembeck. Além disso, as universidades precisam contar com algum orçamento próprio para suas pesquisas, para que elas tenham continuidade a longo prazo, aspecto importante no caso de ideias muito novas, que precisam de tempo de maturação maior. “Não é o caso de pagar tudo, como se fazia na URSS e que levou à acomodação”, explicou.

    Ele comentou que o sistema atual impõe prazos curtos, pressionando os pesquisadores. “Nos projetos de longa duração, os resultados aparecem bem depois de os relatórios terem sido enviados para as agências financiadoras”, disse. “Esses relatórios acabam contendo coisas antigas, ou pesquisas mais simples, pouco audaciosas.” Há casos, segundo ele, de cientistas que só pedem financiamento para estudos cujos resultados já tenham sido obtidos. A verba recebida acaba sendo direcionada para novos projetos. E não se corre o risco de não ter nada para colocar no relatório.

    Fontes abertas – Os cofres dos financiadores oficiais de pesquisas científicas e tecnológicas estão abertos, como há muito tempo não se via. O professor Cláudio Mota aponta os principais, a começar pelo Finep. Irrigado pelo Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia e pelos fundos setoriais, o Finep tem distribuído recursos para equipamentos e projetos. Até o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mantém ativa a linha Funtec, pela qual financia parcerias entre empresas e universidades – do total, 90% é bancado pelo banco e 10% pelas empresas parceiras, tudo a fundo perdido, para custeio de projetos. O CNPq liberou até o ano passado um volume de recursos importantes para pesquisas, com vários projetos na casa de um milhão de reais. “São valores altos, antigamente o valor individual dos projetos era muito menor, às vezes mal pagava a bolsa de um pós-graduando”, avaliou Mota. Também as fundações estaduais aumentaram o volume disponível de recursos (por conta do bom desempenho nas arrecadações), permitindo a compra de equipamentos de bom tamanho.



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