Química

IYC 2011 – Pesquisa – Com estrutura e verbas, ciência avança no país

Marcelo Fairbanks
15 de junho de 2011
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    Assim, embora seja apontado como o 13º maior produtor de tecnologia em todo o mundo, o Brasil ainda carrega a pecha de não transformar seus desenvolvimentos científicos em aplicações tecnológicas. “Precisamos de um modelo novo”, admite o pesquisador. O modelo atual é muito dependente das universidades, cuja função primordial é a formação de pessoal, ao lado da pesquisa. “A pesquisa é método de aprendizado, não existe universidade sem pesquisa”, afirmou.

    Zucco avaliou que a disponibilidade de recursos financeiros é grande, mas faltam recursos humanos preparados para aproveitá-los. E o gerenciamento da alocação de verbas também precisa ser muito aprimorado, para evitar desperdícios. “Fizemos um estudo há dois anos e verificamos que os países desenvolvidos contam com 0,4% de sua população envolvida com pesquisas”, comentou. Nas suas contas, transportando esse percentual para o Brasil, seria preciso contar com 800 mil pesquisadores ativos. “Estimamos que trabalhem no país entre 150 mil e 180 mil doutores, ou seja, estamos muito longe do ideal”, salientou. Como a formação de doutores não passa de 12 mil por ano, essa diferença demoraria mais de 30 anos para ser suprida.

    Revista Química e Derivados - César Zucco, Pesquisador e Professor da Universidade Federal de Santa Catarina

    Zucco: faltam institutos para gerar e transmitir tecnologia

    “A pesquisa científica brasileira vai muito bem, conta com vários centros qualificados e em grande atividade, produzindo trabalhos de alto nível, sendo publicados e reconhecidos internacionalmente”, avaliou o professor e pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp) Fernando Galembeck. Cientista experiente e respeitado, ele sente no modelo atual brasileiro uma falta de focalização dos esforços, embora saliente que alguns segmentos, como a nanotecnologia, a petroquímica e a catálise, já tenham definido muito bem sua área de concentração.

    “Sem um foco definido, não há como obter resultados com significado econômico ou estratégico”, afirmou. Ele também ressaltou que nenhum país é totalmente autossuficiente em ciência e tecnologia, sendo preciso buscar respostas fora de suas fronteiras. “Precisamos criar alguma tecnologia para ter o que oferecer em troca, senão teremos que pagar mais caro por aquilo de que necessitamos”, comentou, repetindo ensinamento recebido de Nei Galvão Silva, da antiga Indústria Química Santo Amaro, na qual realizou seu primeiro estágio.

    Desse ponto de vista, a multiplicação de centros de pesquisa no país é elogiável, mas falta um planejamento e coordenação mais evidente dos trabalhos desenvolvidos. “Não precisa ser uma camisa de força, pois o pesquisador precisa ter liberdade para trabalhar, mas não pode ser um processo totalmente anárquico, sob pena de gerar pesquisas idênticas, com desperdício de recursos”, afirmou. A focalização muita estreita, por sua vez, destruiu a pesquisa científica da antiga União Soviética, como informou. Ele citou a união de esforços empreendida para sequenciar o genoma da Xylella fastidiosa, bactéria causadora da doença do amarelinho das plantas cítricas como exemplo de articulação bem coordenada de trabalhos com metas bem definidas. “E o objetivo foi alcançado, além de ter sido criada uma competência em técnicas de biologia molecular em vários lugares”, considerou.

    química e derivados, doutores em química

    Tabela: Distribuição geográfica e participação relativa dos doutores em Química no Brasil – Clique para ampliar

    Galembeck citou o programa Vision 2020, elaborado em 2002, nos Estados Unidos, sob a liderança da indústria de lá, com forte apoio do governo norte-americano. A ideia era apontar as tecnologias que estariam no auge dali a duas décadas e como preparar o país para desenvolvê-las. “Aqui no Brasil nós não projetamos para o futuro, só reunimos pessoas que defendem suas posições ou, no extremo, defendem seus projetos”, criticou. Ele concorda que há dinheiro disponível para pesquisas, mas parte dele é mal usado. “Os orientadores deveriam definir temas ligados a objetivos estratégicos, mas eles sofrem muitas pressões de várias origens”, afirmou. Caso houvesse um documento de visão para inspirá-los, como o Vision 2020, seria mais fácil superar essas pressões.

    “Os editais de convocação pública para pesquisas adotados pelas FAPs e pelo CNPq têm enfatizado objetivos de maior relevância para a sociedade, e isso é bom”, avaliou o professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro Cláudio Mota. Embora alguns reclamem de um “dirigismo estatal”, ele salienta que no mundo todo a pesquisa precisa dar respostas às necessidades sociais. “Estive no congresso americano de catálise deste ano e 90% dos trabalhos eram relacionados à conversão de biomassa em combustíveis, porque reduzir a poluição e a dependência do petróleo é um objetivo fundamental para eles”, informou.

    O argumento definitivo é direto e claro: “Quem não quiser pesquisar o que está no edital, que procure outras fontes de financiamento.” Mota vê na situação atual muitas diferenças em relação à encontrada por ele nos anos 80, quando fez o seu doutorado. “Naquela época havia pouquíssimos doutores no Brasil, portanto o importante era formar pesquisadores, sem dar muita importância para o que estava sendo pesquisado”, afirmou. No estágio atual, como há um grande número de grupos de pesquisas instalados e operantes, é preciso que eles deem retorno à sociedade. “Hoje, nas universidades de ponta, só se entra em pesquisa com, no mínimo, um doutorado”, disse.

    Atualmente, segundo Mota, embora a química seja uma ciência com amplos campos de aplicação e interesse, não há grandes lacunas em pesquisa no país. “Temos especialistas em quase todas as áreas, mesmo as mais recentes, como nanotecnologia, materiais, biomassa e sínteses orgânicas para fármacos”, comentou. Nas áreas tradicionais – química orgânica, físico-química e catálise –, há mais pesquisadores atuando e, por isso, mais trabalhos publicados. “Mas sempre há muita coisa para pesquisar”, disse.



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