Têxtil

Perspectivas 2017 – Têxtil: Entrevista

Quimica e Derivados
17 de março de 2017
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    QD – No setor de fibras químicas, as importações também se reduziram devido ao câmbio?

    Lineu Frayha – Com a desvalorização cambial ocorrida entre o final de 2015 e início de 2016, tendo atingido a casa de R$ 4/US$, houve um ganho de competitividade da indústria nacional e uma redução das importações de fibras químicas, porém, com o câmbio voltando para a faixa de R$ 3/US$, as importações já retornaram ao nível anterior.

    QD – Em qual segmento cresceu mais o consumo de fibras no Brasil?

    Lineu Frayha – Em termos percentuais, o setor de não-tecidos foi o que apresentou o maior crescimento nos anos recentes.

    QD – No Brasil, empresas do setor químico já eliminaram substâncias nocivas como formaldeídos. O senhor pode nos dar exemplos de soluções inovadoras nas áreas de tingimento ou lavanderia?

    Jefferson Zomignan – Devemos entender claramente, no caso do formaldeído, que o efeito nocivo se dá quando a substância se encontra livre e fica depositada sobre o tecido. No entanto, as formulações modernas, por exemplo, resinas e grande parte de fixadores de corantes substantivos e reativos, são produzidos com base nesse insumo, mas mediante reações químicas, ele se transforma em substância completamente inerte e segura. Persiste, no entanto, o uso de produtos com base em nonilfenol etoxilado e isso nos preocupa. Ele já foi completamente banido de países desenvolvidos, mas aqui ainda permanece. Sabemos das dificuldades, todavia há de se ter consciência de que é prejudicial à saúde e ao meio ambiente e deve ser excluído por completo, mesmo que isso implique aumento de custo no primeiro momento. Notamos em todas as empresas químicas e beneficiadoras um acúmulo considerável de experiência no uso dos produtos químicos. Há criação de processos diferenciados, desde a implantação de processos sustentáveis, com recuperação e reúso da água utilizada no sistema de beneficiamento – chegando perto de 40% em alguns casos–, até processos que diminuem consideravelmente o consumo de energia, pela redução do tempo e da temperatura, assim como grande redução da quantidade de água utilizada no processamento têxtil.

    QD – Aponta-se para a redução do uso de fibras naturais e maior avanço das fibras sintéticas no mercado têxtil. O senhor acredita que esta tendência seja verificada também no Brasil, cuja tradição algodoeira ainda é forte?

    Jefferson Zomignan – Sim, há muitos anos percebemos o aumento expressivo de uso de fibras químicas (poliéster ou poliamida), por exemplo, nos artigos esportivos, em certos artigos femininos e nas misturas com algodão e viscose. Até há poucos anos, principalmente na região Sul, de forte tradição em malharia, a composição era predominantemente de algodão, no entanto, hoje há muita mistura com PES e forte substituição pelas viscoses. Com a melhoria contínua das fibras químicas, no quesito conforto (toque) e absorção de umidade, podemos dizer que já temos uma nova realidade na composição dos artigos têxteis no Brasil.

    QD – As fibras oriundas de garrafas PET – que surgiram há cerca de 10 anos como grande aposta para a sustentabilidade, não alcançaram no Brasil o consumo desejado. Por quê?

    Lineu Frayha – Não concordo com essa afirmação. As fibras produzidas mediante a reciclagem de garrafas PET hoje já representam cerca de 45% da capacidade de produção das fibras de poliéster no Brasil, que é da ordem de 150.000 t/ano. Todo o crescimento dessa indústria nos últimos anos foi por meio da produção de fibras recicladas de poliéster, e essa participação continua crescendo. A despeito dos avanços obtidos com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, ainda não temos bem desenvolvida a cultura da coleta seletiva e temos ainda baixo investimento do poder público em infraestrutura para alavancar a coleta de materiais recicláveis. Apesar disso, o Brasil é um dos líderes mundiais na reciclagem do PET, com um índice superior a 50% de reciclagem em relação ao consumo total de garrafas.

    QD – A evolução da estamparia digital tem proporcionado novos mercados para os produtos químicos?

    Jefferson Zomignan – A estamparia digital é o futuro de toda cadeia de beneficiamento têxtil, desde o tingimento até a estamparia. O grande nicho para os químicos está relacionado ao preparo do tecido (ou malha) para receber o corante. Como nos informa uma das pessoas mais especializadas do mercado, José Clarindo de Macedo, diretor da Sintequímica do Brasil, a estamparia digital direta começou em nosso país em 2012/2013. No início, o consumo de produtos para pré-tratamento era pequeno, pois tínhamos poucas impressoras instaladas, mas ano após ano, a tecnologia se expandiu e diversos fornecedores de químicos passaram também a olhar para este mercado. Hoje o Brasil é uma das potências mundiais em estamparia digital direta, com crescimento estimado em 20% ao ano. Estima-se que existam hoje cerca de 320 impressoras no Brasil. Para cada tipo de corante é oferecido um tipo específico de pré-tratamento e essa escolha é vital para o sucesso da impressão com contornos, definição, brilho de cor, solidez etc. Quanto às tintas digitais destinadas à estamparia digital direta, tanto para a impressão rolo a rolo, como para DTG (direct to garment), elas não são produzidas no Brasil, mas estão disponíveis por meio de fornecedores autorizados.



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    Um Comentário


    1. Monique Rozendo

      Entrevista extremamente útil, esclareceu muito quanto ao mercado de fibras químicas. Obrigada!



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