Perspectivas 2017 – Têxtil: Entrevista

Texto: Marcia Mariano

Os presidentes da Associação Brasileira de Químicos e Coloristas Têxteis (ABQCT), Jefferson Zomignan, e da Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas (Abrafas), Lineu Frayha, relataram como a retomada da produção nacional de têxteis e vestuário contribuiu para melhorar os negócios do setor químico. A ABQCT conta com 138 empresas químicas e 315 beneficiadoras têxteis, enquanto a Abrafas representa 12 das 15 indústrias de fibras químicas que atuam no mercado brasileiro.

Engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP e atuando na área do poliéster desde 1987, Lineu Frayha passou por grandes indústrias de fibras químicas como Rhodia-Ster e Rhodiaco. Em 2009, assumiu a direção do negócio Fibras e Reciclados da M&G no Brasil, posição que ocupa até hoje.

Jefferson Zomignan formou-se técnico em química e tecnólogo têxtil pela Fatec de Americana-SP. Ele iniciou sua carreira como gerente de fábrica de beneficiamento têxtil em 1986. Depois de trabalhar em empresas importantes do setor químico, atuando nas áreas de desenvolvimento de produtos e marketing, juntou-se a outros sócios para fundar, em 2008, a Werken Química Brasil, empresa voltada para a indústria de beneficiamento têxtil.

Ambos responderam às perguntas enviadas por Química e Derivados, apontando os caminhos que podem levar o setor a um futuro promissor, como se vê a seguir:

Química e Derivados, Perspectivas 2017 - Têxtil: Entrevista
Lineu Frayha

QD – Como vai a produção brasileira de fibras químicas?

Lineu Frayha – O Brasil vem perdendo competividade nos últimos anos em vários setores industriais por falta de uma política industrial que olhe o país como um todo e não apenas para alguns poucos nichos específicos. As fibras acrílicas e de viscoses foram duas vítimas desta acentuada perda de competitividade. Uma política de juros estratosféricos, com um câmbio supervalorizado há anos, somada a altos custos logísticos, uma legislação tributária, trabalhista e ambiental sem precedentes, um alto custo de energia e uma baixa proteção contra a concorrência desleal de países exportadores, principalmente asiáticos, entre outros fatores, são ameaças constantes à indústria nacional, entre elas a de fibras artificiais e sintéticas, que tem feito um esforço hercúleo para se manter minimamente competitiva neste cenário altamente desafiador.

QD – Há espaço no Brasil para o desenvolvimento de fibras inovadoras? O país poderá se fortalecer como um player em novos produtos na área de fibras químicas?

Lineu Frayha – O Brasil tem feito importantes investimentos tanto na indústria de fibras quanto nas fiações, buscando suprir a necessidade do mercado brasileiro. São exemplos disso o importante investimento que está sendo feito pelo Complexo PQS (maior polo integrado de poliéster da América Latina), para a produção de filamento de poliéster em Pernambuco. Cito também o investimento feito pela M&G na produção de fibras finas, bem como os realizados pela Ecofabril e Unnafibras na produção de fibras conjugadas e bicomponentes. Nas fiações, várias delas fizeram e continuam fazendo investimentos importantes na instalação de máquinas de última geração e alta produtividade, como a tecnologia MVS (sistema de fiação por jato de ar). O Emana (fio inteligente de poliamida 6.6 da Rhodia/Solvay) é outro exemplo de produto com características pioneiras, desenvolvido totalmente no Brasil. Temos também fibras com características bactericidas, como a Alya Health, além de fibras com características antichama (ou autoextinguíveis) em estágio final de desenvolvimento, entre outras fibras especiais. Portanto, acho que o Brasil não só poderá, mas já é um player relevante neste segmento.

QD – Após três anos consecutivos de variações negativas, o setor têxtil e de vestuário brasileiro apresentou melhoras a partir do segundo semestre de 2016. Qual foi o impacto na indústria química?

Química e Derivados, Perspectivas 2017 - Têxtil: Entrevista
Jefferson Zomignan

Jefferson Zomignan – A indústria química, voltada a atender às beneficiadoras têxteis, sofreu bastante nos últimos anos, mas 2016 se revelou surpreendentemente muito bom para os negócios da química têxtil. Houve aumento de consumo de insumos, auxiliares, corantes, estamparia e engomagem. Os grandes magazines reduziram as importações e voltaram a beneficiar grande parte de seus artigos no Brasil. Desta forma, o impacto foi bastante positivo, fazendo com que a indústria contabilizasse um crescimento superior a dois dígitos em 2016. Vale ressaltar que as margens caíram muito, uma vez que as matérias-primas são compradas em dólar e não houve repasse aos compradores. Estimamos o mercado em torno de US$ 1,5 bilhões a US$ 2,0 bilhões por ano.QD – No setor de fibras químicas, as importações também se reduziram devido ao câmbio?

Lineu Frayha – Com a desvalorização cambial ocorrida entre o final de 2015 e início de 2016, tendo atingido a casa de R$ 4/US$, houve um ganho de competitividade da indústria nacional e uma redução das importações de fibras químicas, porém, com o câmbio voltando para a faixa de R$ 3/US$, as importações já retornaram ao nível anterior.

QD – Em qual segmento cresceu mais o consumo de fibras no Brasil?

Lineu Frayha – Em termos percentuais, o setor de não-tecidos foi o que apresentou o maior crescimento nos anos recentes.

QD – No Brasil, empresas do setor químico já eliminaram substâncias nocivas como formaldeídos. O senhor pode nos dar exemplos de soluções inovadoras nas áreas de tingimento ou lavanderia?

Jefferson Zomignan – Devemos entender claramente, no caso do formaldeído, que o efeito nocivo se dá quando a substância se encontra livre e fica depositada sobre o tecido. No entanto, as formulações modernas, por exemplo, resinas e grande parte de fixadores de corantes substantivos e reativos, são produzidos com base nesse insumo, mas mediante reações químicas, ele se transforma em substância completamente inerte e segura. Persiste, no entanto, o uso de produtos com base em nonilfenol etoxilado e isso nos preocupa. Ele já foi completamente banido de países desenvolvidos, mas aqui ainda permanece. Sabemos das dificuldades, todavia há de se ter consciência de que é prejudicial à saúde e ao meio ambiente e deve ser excluído por completo, mesmo que isso implique aumento de custo no primeiro momento. Notamos em todas as empresas químicas e beneficiadoras um acúmulo considerável de experiência no uso dos produtos químicos. Há criação de processos diferenciados, desde a implantação de processos sustentáveis, com recuperação e reúso da água utilizada no sistema de beneficiamento – chegando perto de 40% em alguns casos–, até processos que diminuem consideravelmente o consumo de energia, pela redução do tempo e da temperatura, assim como grande redução da quantidade de água utilizada no processamento têxtil.

QD – Aponta-se para a redução do uso de fibras naturais e maior avanço das fibras sintéticas no mercado têxtil. O senhor acredita que esta tendência seja verificada também no Brasil, cuja tradição algodoeira ainda é forte?

Jefferson Zomignan – Sim, há muitos anos percebemos o aumento expressivo de uso de fibras químicas (poliéster ou poliamida), por exemplo, nos artigos esportivos, em certos artigos femininos e nas misturas com algodão e viscose. Até há poucos anos, principalmente na região Sul, de forte tradição em malharia, a composição era predominantemente de algodão, no entanto, hoje há muita mistura com PES e forte substituição pelas viscoses. Com a melhoria contínua das fibras químicas, no quesito conforto (toque) e absorção de umidade, podemos dizer que já temos uma nova realidade na composição dos artigos têxteis no Brasil.

QD – As fibras oriundas de garrafas PET – que surgiram há cerca de 10 anos como grande aposta para a sustentabilidade, não alcançaram no Brasil o consumo desejado. Por quê?

Lineu Frayha – Não concordo com essa afirmação. As fibras produzidas mediante a reciclagem de garrafas PET hoje já representam cerca de 45% da capacidade de produção das fibras de poliéster no Brasil, que é da ordem de 150.000 t/ano. Todo o crescimento dessa indústria nos últimos anos foi por meio da produção de fibras recicladas de poliéster, e essa participação continua crescendo. A despeito dos avanços obtidos com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, ainda não temos bem desenvolvida a cultura da coleta seletiva e temos ainda baixo investimento do poder público em infraestrutura para alavancar a coleta de materiais recicláveis. Apesar disso, o Brasil é um dos líderes mundiais na reciclagem do PET, com um índice superior a 50% de reciclagem em relação ao consumo total de garrafas.

QD – A evolução da estamparia digital tem proporcionado novos mercados para os produtos químicos?

Jefferson Zomignan – A estamparia digital é o futuro de toda cadeia de beneficiamento têxtil, desde o tingimento até a estamparia. O grande nicho para os químicos está relacionado ao preparo do tecido (ou malha) para receber o corante. Como nos informa uma das pessoas mais especializadas do mercado, José Clarindo de Macedo, diretor da Sintequímica do Brasil, a estamparia digital direta começou em nosso país em 2012/2013. No início, o consumo de produtos para pré-tratamento era pequeno, pois tínhamos poucas impressoras instaladas, mas ano após ano, a tecnologia se expandiu e diversos fornecedores de químicos passaram também a olhar para este mercado. Hoje o Brasil é uma das potências mundiais em estamparia digital direta, com crescimento estimado em 20% ao ano. Estima-se que existam hoje cerca de 320 impressoras no Brasil. Para cada tipo de corante é oferecido um tipo específico de pré-tratamento e essa escolha é vital para o sucesso da impressão com contornos, definição, brilho de cor, solidez etc. Quanto às tintas digitais destinadas à estamparia digital direta, tanto para a impressão rolo a rolo, como para DTG (direct to garment), elas não são produzidas no Brasil, mas estão disponíveis por meio de fornecedores autorizados.

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