Perspectivas 2017 – Petrobras: Estatal quer ficar mais enxuta e eficiente para atingir metas financeiras e operacionais

Química e Derivados, Unidade de destilação atmosférica da Rnest, em Pernambuco
Unidade de destilação atmosférica da Rnest, em Pernambuco

A Petrobras faz ajustes em seus negócios e estruturas internas com o objetivo de reduzir o endividamento, aumentar a produtividade e a rentabilidade das suas operações. Isso inclui a venda de ativos considerados não-vitais, a exemplo de participações em empresas petroquímicas, de fertilizantes e produtoras de biocombustíveis (etanol e biodiesel).

A diretoria da estatal, sob o comando do respeitado executivo Pedro Parente, adotou essa postura como resposta à difícil situação em que a companhia foi colocada, após administrações pródigas e ruinosas havidas nos últimos 13 anos. A ilusória – porque temporária e cíclica – situação de preços elevados do petróleo no mercado global, beirando US$ 150 por barril em 2008, levou o país todo a acreditar na fábula do Eldorado do Ouro Negro, representado por campos de elevada produção, porém situados muito longe da costa e a profundidades extremas, sem mencionar a complexidade operacional. A região do pré-sal seria a redenção econômica do Brasil, um cheque especial que começou a ser aproveitado antes mesmo de o primeiro óleo ter chegado às plataformas de exploração.

A ilusão de riqueza se mostrou mais deletéria do que cair no golpe do bilhete premiado. Maximizado pelas bazófias de líderes políticos e turbinado pela corrupção em escala gigante, grande parte do parque industrial metalmecânico e de construção naval local voltou seus esforços e capitais para atender à demanda futura alardeada pelo setor petroleiro, jamais efetivada na escala prometida. Com essa frustração, essas indústrias foram arrastadas para uma crise profunda.

Nos tempos do eldorado petroleiro, a Petrobras ampliou irresponsavelmente seu endividamento, desde os US$ 20 bilhões de 2010, até ostentar a dívida bruta de US$ 132 bilhões em 2015, para uma geração de caixa operacional próxima de US$ 20 bilhões. Nesse ano, a alavancagem da companhia (dívida líquida/Ebitda) chegou a 5,3.

Enquanto isso, por determinação do governo federal de então, interessado em manter elevada popularidade, os preços dos principais derivados de refino foi congelado em valor abaixo do custo de obtenção, gerando um déficit de caixa considerável – atualmente, os preços de derivados são apontados com base no custo de substituição por importados. Além disso, por força do binômio corrupção-ineficiência, a companhia calcula que apenas um terço do endividamento daquela época será capaz de gerar resultados. Os dois terços restantes foram desviados ou aplicados em obras que não estão concluídas (e talvez não venham a ser).

O sonho começou a se tornar um pesadelo com o sucesso da exploração de petróleo e gás natural de fontes não-convencionais nos Estados Unidos, englobando o shale gas e o tight oil. O baixo custo de extração de óleo e gás revelado nessa atividade tornou-a atraente para o setor petroleiro, ganhando impulso e escala a partir de 2010. Com isso, a cotação do petróleo leve despencou para a faixa dos US$ 60/barril, até o mínimo de US$ 30/barril, em meados de 2016. Os projetos da estatal brasileira, elaborados em um quadro mais risonho, começaram a adernar.

Química e Derivados, Parente: parque de refino só crescerá mediante parcerias
Parente: parque de refino só crescerá mediante parcerias

Pedro Parente observa que a chegada do shale gas e de outras fontes não-convencionais derrubou os investimentos globais do setor petroleiro desde então. É preciso considerar também os esforços mundiais para redução das emissões de carbono, que reduziram o consumo de derivados de petróleo, embora, como afirma Parente, “a grande mudança no setor foi provocada na curva de oferta”.

“As companhias petroleiras de atuação internacional estão emagrecendo”, afirmou o presidente da Petrobras. Os grandes nomes do ramo estão vendendo ativos, reduzindo e otimizando investimentos, aprimorando suas operações e adotando rígida disciplina financeira. “A Petrobras também estaria fazendo isso mesmo que não fosse por conta da corrupção da qual foi vítima”, avaliou.

Aliás, Parente enfatiza a condição de vítima da companhia, ressaltando que a Petrobras só obteve prejuízos com a corrupção, chegando a um ponto crítico, a ponto de afetar o moral dos colaboradores. Essa posição é sustentada na Class Action (ação coletiva) contra ela movida por investidores nos Estados Unidos, onde a corte de apelação de Nova York acolheu o recurso apresentado pela estatal. Quase a metade das ações movidas nessa corte contra ela já foram extintas mediante acordo entre as partes. Em relação aos processos movidos por órgãos do governo americano, como o Departamento de Justiça (DOJ) e a SEC (a CVM de lá), a Petrobras declara estar colaborando com as investigações. Ao todo, a companhia aprovisionou mais de US$ 360 milhões para cobrir essas indenizações. Cabe lembrar que investidores e outras origens iniciaram a abertura de processos em outras localidades, a exemplo da Holanda.

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A baixa dos preços do óleo e do gás assustou os produtores do Oriente Médio, mas também freou o ímpeto da expansão de novos campos nos Estados Unidos. Segundo Parente, a exploração do óleo e gás de xisto americano é viável a menos de US$ 40/barril, mas só começa a incentivar investimentos de vulto quando ultrapassa os US$ 50/bbl.

Como houve um excedente de oferta global de petróleo estimado em 2,3 milhões de barris/dia, ao final de 2015, maior que a produção brasileira, os preços seguiram pressionados para baixo em 2016. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) conseguiu firmar um acordo entre seus membros para reduzir em 2 milhões de bbl/dia a sua oferta, de modo a recuperar rentabilidade. As cotações globais começaram a reagir em janeiro, apontando US$ 50/bbl para o tipo Brent. “É preciso verificar qual será a reação dos produtores americanos”, afirmou Parente.

O quadro de incertezas mundiais e nacionais sobre a atividade econômica em geral e sobre a petroleira em particular segue robusto. Na escala internacional, a reposta do mercado às medidas prometidas pelo recém-empossado presidente Donald Trump ainda oscila muito. O comportamento da economia da China, outro motor global, se mostra errático, com uma tentativa do governo de lá para impulsionar a atividade empresarial mediante a injeção de recursos.

No campo nacional, as incertezas permanecem, embora tenha havido algum alívio com o recuo do índice inflacionário e da taxa primária de juros. A política ainda permanece em terreno movediço. Tudo isso afeta o humor dos investidores e protela o avanço de projetos.

A Petrobras pretende obter cerca de US$ 40 bilhões mediante desinvestimentos e formação de parcerias, com as quais aliviaria o consumo de capital. Na área internacional, vendeu em dezembro a Petrobras Chile Distribuición (para o fundo Southern Cross Group, por US$ 470 milhões) e a refinaria japonesa Nansei Sekiyu (para a Tayo Oil Company, por US$ 165 milhões).

No Brasil, alienou o complexo de poliésteres/PET da Petroquímica Suape e Citepe para subsidiária da mexicana Alpek, por US$ 385 milhões. A subsidiária de biocombustíveis (PBio) vendeu sua participação de 45,97% na produtora de açúcar e etanol Guarani S/A para a Tereos Participations (do grupo francês Tereos), por US$ 202 milhões, que detinha o restante do capital. Antes disso, a PBio já celebrara acordo para incorporar à Usina São Martinho a sua participação de 49% na Nova Fronteira Energia, joint venture mantida por ambas. Com isso, a PBio receberá ações da São Martinho no valor aproximado de US$ 130 milhões, que poderão ser alienadas ao mercado, sem restrições. A companhia tem buscando para desenvolver e explorar campos de petróleo, reduzindo sua necessidade de inversão de capital e futuros endividamentos. Apesar dos esforços, a companhia não atingiu a meta de US$ 15 bilhões de desinvestimentos e parcerias estipulada para 2016, ficando em US$ 13,6 bilhões. Até 2018, as alienações e parcerias devem represent
ar um aporte de US$ 19,5 bilhões à estatal.

Apesar das incertezas, a Petrobras obteve êxito na colocação de US$ 4 bilhões em títulos no mercado internacional com vencimentos em cinco e dez anos, com taxas de retorno de 6,125% e 7,345%, respectivamente. A ideia é usar esses recursos para resgatar papéis de emissões anteriores, de modo a alongar o perfil de vencimentos da dívida, além de reduzir o pagamento de juros.

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Produção avança – Apesar de anunciar a redução de investimentos de US$ 98,4 bilhões (no plano 2015-19) para US$ 74,1 bilhões (plano atual, 2017-21), a estimativa de produção futura não sofreu nenhuma alteração, tendo por meta chegar a 3,34 milhões e barris de óleo equivalente por dia (boed, compreendendo óleo, condensados e gás natural) no Brasil – partindo dos 2,52 milhões de boed atuais.

Isso é explicado por Parente pelo aumento da eficiência operacional da companhia, pela redução do custo de extração de US$ 14 para US$ 9,6 por barril, e pela maior produtividade dos novos poços. Isso será suficiente para suprir o mercado local de derivados, estimado em 2,4 milhões de bpd em 2021.

Um problema está na capacidade de refino da estatal que está esgotada. “Atualmente, a demanda nacional supera em aproximadamente 10% a capacidade do parque de refino e essa diferença está sendo suprida mediante importações de derivados, hoje vantajosas em termos financeiros”, comentou. Isso representa um volume entre 200 mil e 300 mil bpd de derivados.

Embora tenha mercado carente, a companhia não pretende investir na ampliação da capacidade de refino. “Vamos concluir a primeira fase da Rnest (Abreu e Lima), passando de 100 mil para 130 mil bpd, e outros projetos, como o Comperj, só serão continuados se houver a participação de parceiros”, informou. O Comperj, aliás, é o símbolo do desperdício de recursos promovido pelas gestões anteriores. Nele foram investidos US$ 13 bilhões, mas nada está operando ainda. Segundo Parente, a Petrobras deverá concluir apenas a Unidade de Produção de Gás Natural nesse site.

Voltando aos campos de produção, Parente comemorou a aprovação da nova lei que regulamenta a exploração do pré-sal, tirando da Petrobras a exclusividade de operar todos os projetos. “Isso permitirá a possibilidade de explorar essa riqueza para o maior proveito do país”, considerou. Ele explicou: cada campo do pré-sal exige investimento de US$ 10 bilhões, em média. Desse valor, 44% são recolhidos na forma de tributos estaduais e federais. Outros 16% são gastos em encomendas para fornecedores brasileiros. “Portanto, no mínimo, 60% desses US$ 10 bilhões volta imediatamente para a economia local”, salientou.

A companhia informou ter alcançado em 2016 a produção recorde média de 2.144256 barris de petróleo por dia, 0,75% acima do verificado em 2015 e dentro da meta planejada no início do período. Em 28 de dezembro de 2016, a produção obtida chegou ao inédito volume de 2,4 milhões de bpd, dos quais quase 1,3 milhão de barris foi retirada do pré-sal. A produção de própria de gás natural chegou a 77 milhões de m³/dia, 1% acima da registrada em 2015.

Ao mesmo tempo, 2016 foi encerrado com redução de reservas provadas da Petrobras de 13,279 bilhões de boe para 12,514 bilhões de boe (pelo critério da ANP/SPE). Em parte, a venda de participações em campos na Argentina e na Venezuela impactou essa diminuição, bem como a produção anual maior. Mesmo assim, a companhia segue com reservas suficientes para suprir mais de 13 anos do consumo atual.

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Indústria sem gás – O avanço na produção não significa imediatamente um alívio para as necessidades industriais de gás natural, tanto como energético quanto na forma de matéria-prima. “Haverá gás para a atividade industrial caso as condições de preço sejam ajustadas, não há restrição de disponibilidade”, afirmou Parente.

O plano da Petrobras indica um aumento na oferta de gás natural de 600 mil boed até 2021, volume capaz de despertar o apetite de muitos consumidores. Mas a questão do preço permanece em aberto e é influenciada pela matriz tributária e pela existência de intermediários obrigatórios (distribuidores regionais).

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