Transformação – Ter condições competitivas para frear o avanço dos importados é a maior preocupação do setor

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - Transformação: Ter condições competitivas para frear o avanço dos importados é a maior preocupação do setor
A indústria brasileira de transformação de plásticos pôs os pés em 2014 com muitos desafios pela frente, o maior deles o de melhorar a sua competitividade, cada vez mais ameaçada pela concorrência internacional. Há muito que se fazer para recuperar a capacidade dos moldadores de plástico de produzir a custos competitivos, tanto para abastecer o mercado doméstico como para ter condições de concorrer com os seus pares internacionais, expandir as exportações e reduzir um déficit alarmante na balança comercial de transformados plásticos, que saltou para R$ 5,05 bilhões em 2013, contra R$ 4,41 no ano anterior, um aumento de 14,7%. Em dólar, o déficit subiu 4,8%, de US$ 2,25 para US$ 2,36 bilhões. Em peso, a balança comercial ficou negativa 476 mil toneladas de transformados plásticos, em 2013, e 470 mil toneladas, no ano anterior.

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoNão é uma tarefa fácil. São quase doze mil empresas, com maior concentração em São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, para uma fatia minúscula de médio e grande porte. Pelos dados da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), as indústrias de grande porte correspondem a mero 1% e as de médio, 5%. Pequenas e microempresas compõem o restante do setor. Com esse perfil, a terceira geração petroquímica depende de um forte apoio do restante da cadeia produtiva para ganhar musculatura competitiva.

O presidente da entidade, José Ricardo Roriz Coelho, começa o ano preocupado com o menor ânimo do empresário brasileiro para investir ante as projeções de baixo crescimento do país e, particularmente, das exportações brasileiras, que crescem em ritmo muito inferior às importações, encolhendo a balança comercial do país. Em 2013, as importações de bens e serviços alavancaram 11%, contra apenas 4% nas exportações. Com um agravante particularmente relacionado ao mercado de plásticos, segundo observa Roriz: “No caso do transformado plástico, o valor do produto exportado está se mostrando menor que o valor do produto importado.”

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoO documento Panorama Econômico Global, divulgado recentemente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), sustenta expectativas de robustecimento do processo de recuperação econômica mundial e projeta um crescimento para a economia global de 3,7% em 2014, e de 3,9% em 2015. Mas o avanço previsto para o PIB brasileiro é mais modesto, de 2,3% neste ano e 2,8% no próximo, e fica atrás do percentual estimado para os países emergentes, com perspectivas de expansão média de 5,1%, em 2014, e 5,4%, em 2015. Por conta desse cenário, Roriz acredita que o setor industrial deve repetir neste ano o desempenho do ano passado. “O setor de transformados plásticos acompanhará o ritmo observado na economia.”

Repetir o desempenho significa elevar a produção física do setor em apenas 1,8%, fechada em 6,76 milhões de toneladas em 2013 (volume 1,6% acima do de 2012), enquanto o consumo aparente de transformados plásticos cresceu 1,5% no ano passado e atingiu 7,236 milhões de toneladas. Em valores, a Abiplast projeta para este ano um crescimento de 9% no consumo aparente de transformados plásticos.

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoMas os indicativos apontam uma captura desse avanço pelos produtos importados. Produtores internacionais de transformados plásticos em melhores condições competitivas têm absorvido a maior parte do crescimento interno. Desse modo, a balança comercial dos transformados plásticos continua desfavorável, com previsões para um déficit 7% maior neste ano, segundo os cálculos de Roriz.

Sem esmorecer, a entidade planeja vários movimentos para atenuar as dificuldades. Sua agenda de “ações estruturantes” inclui programas de qualificação de mão-de-obra em parceria com diversas instituições (consta da pauta um mapeamento das demandas regionais); desenvolvimento de programas com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e universidades para promover uma melhoria da gestão empresarial; um programa de incentivo à inovação; além de ações em prol do meio ambiente, como a promoção do Acordo Setorial de Logística Reversa, em atendimento à Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoO roteiro traçado pelo presidente da Abiplast para melhorar o desempenho do seu setor ainda contém ações que pretendem romper barreiras que impedem as indústrias de alçarem patamares mais elevados de competitividade, mas estão atreladas ao apoio do governo. O segmento pleiteia a isonomia entre IPI de matérias-primas e produtos finais, a revisão da lógica tributária da atividade de reciclagem (hoje a resina reciclada é sobretaxada ao pagar os mesmos impostos que a resina virgem) e condições de acesso a matérias-primas a preços competitivos.

Contra o monopólio – O pedido relativo à obtenção de resinas a preços melhores carrega a intenção de por um fim às medidas de proteção comercial para o PVC e para o polipropileno e desacelerar as altas hoje sucessivas estabelecidas nos preços das resinas brasileiras. Roriz aceita a necessidade de ganho de escala e musculatura competitiva em âmbito global do fabricante brasileiro de matérias-primas, mas acha fundamental manter o mercado internacional como opção competitiva ao produto local.

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoO presidente da Abiplast critica os aumentos, na média 18%, ao longo de 2013, imputados aos preços das principais commodities, na opinião dele abusivos e impostos por conta da falta de concorrência. A Braskem já é a única produtora nacional de polietileno e polipropileno e, caso o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) aprove a recente aquisição da Solvay, também será a única fabricante local de PVC – a propósito, de toda a América Latina. “Preocupa a reserva de mercado brasileiro para a Braskem, um monopólio que não investe no Brasil, mas sim no México, nos Estados Unidos, na Alemanha, e estamos ficando cada vez mais distantes dos grades mais inovadores lançados no mercado mundial”, provoca Roriz. O acesso às inovações, diz, é estratégico para melhorar a competitividade dos transformadores que procuram diferenciais para os seus produtos e novos desenvolvimentos.

Mas o mercado está aberto às importações, ok? Então, os transformadores insatisfeitos podem comprar no exterior resinas a preços melhores, afinal o mercado está aberto à concorrência internacional. A realidade, porém, não é bem assim. Com uma produção local deficitária em cerca de 450 mil toneladas anuais, segundo estimativas de Roriz, o antidumping contra as importações de PVC dos Estados Unidos e do México perdura há vinte anos. Em 2010, o governo acatou solicitação de medidas de defesa comercial em favor da produtora nacional da resina e imputou uma taxa de 10,66% às importações de polipropileno dos Estados Unidos e, recentemente, a Câmara de Comércio Exterior aprovou outro pedido de antidumping provisório para o polipropileno da África do Sul, da Coreia do Sul e da Índia.

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - Transformação“Esse direito provisório restringe o acesso a outras fontes de fornecimento da matéria-prima além dos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, Índia, Coreia e África do Sul existem produções excedentes de polipropileno; o restante do mercado é comprador, existe déficit de resina; desse modo, com o antidumping fica cerceada a compra no mercado internacional”, reclama Roriz.

Segundo informa o presidente da Abiplast, o anúncio do direito provisório de antidumping de PP acontece em um momento de forte pressão de alta nos preços domésticos de matéria-prima e provocou uma alta considerável no valor da resina: “Injetou de 8% a 9% na veia.” Em seus cálculos, as principais commodities brasileiras custam, em média, 35% acima do patamar internacional.

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoExiste no mercado a prática de cobrança da chamada “taxa de conforto”, uma porcentagem acrescida ao preço da resina nacional, mas a indústria de transformação acha demais o acréscimo entre 10% e 15% acima do valor internado e ainda as alíquotas de importação e antidumping.

Juntos, os polietilenos, o polipropileno e o PVC representam mais de 80% da matéria-prima utilizada pelo setor. Os transformadores não conseguem repor os seus custos nas mesmas proporção e velocidade que sofrem os aumentos. O ambiente de forte competição que permeia a indústria moldadora de plástico, aliado à pressão cada vez maior do mercado por preços melhores, como o setor automotivo, entre outros, impõem um freio ao repasse das elevações nos seus custos. Para dar uma ideia da situação, Roriz diz que contra um aumento de 17% nos preços do polipropileno no ano passado, os preços da transformação subiram 5,04%.

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoNão à toa, a indústria de transformação de plástico registra uma rentabilidade 30% abaixo da média da indústria de transformação brasileira como um todo. “Temos os custos mais altos e os preços equalizados pelo mercado internacional; é necessário restabelecer um bom nível de rentabilidade, adequado para atrair novos investimentos em modernização”, atesta, enfatizando que a situação atual ameaça a saúde financeira das empresas e o desenvolvimento de todo o setor.

A maior contratação de funcionários pela indústria da transformação em 2013 (alta de 2,2%) em um cenário de avanço das importações também preocupa Roriz, pois significa que a indústria, por conta da baixa rentabilidade, está contratando mais em detrimento de investir em máquinas e equipamentos mais modernos e em processos de gestão para melhoria do processo produtivo, proposições para ganhar competitividade.

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoNão à toa, a produtividade do setor encolheu 0,5% em 2013. O índice recuou de 18,87 (volume produzido em tonelada/pessoal ocupado), registrado em 2012, para 18,77 em 2013. Enquanto isso, os investimentos na aquisição de máquinas avançaram apenas 4,8% no período – R$ 1,88 bilhão para R$ 1,97 bilhão. E sem mudanças que impulsionem as indústrias transformadoras de plásticos, os níveis de investimentos devem se manter, e a de produtividade, idem.

Ele enfatiza que o crescimento do país dependerá dele ter uma indústria do plástico competitiva, porque a ela estão atrelados os principais segmentos industriais do país – autopeças, agronegócio, embalagens, construção civil, brinquedos. Os setores de infraestrutura (tubos, perfis e outros materiais plásticos para construção), de construção civil e de embalagens para alimentos tendem a desempenhar um papel relevante no crescimento da indústria de plástico neste ano, como explica: “Tem uma serie de investimentos em marcha em infraestrutura, em estádios, aeroportos e outras, e com a alta do câmbio fica mais vantajoso processar e embalar alimentos no país, ao invés de importar alimentos prontos embalados, como vinha ocorrendo.”

Química e Derivados, Perspectivas 2014 - TransformaçãoCrescimento pífio – A produção de transformados plásticos no país evoluiu apenas 1,6% em 2013, passando de um volume de 6,66 milhões de toneladas em 2012 para 6,76 milhões de toneladas no ano passado, com destaque para uma elevação significativa no segundo trimestre, que registrou 1,745 milhões de toneladas, contra 1,626 milhões de toneladas nos três primeiros meses do ano. “A indústria de transformação estocou no segundo trimestre na expectativa de um ano bom, apostando que o mercado iria deslanchar, o que não ocorreu.” De fato, a produção do setor encolheu no restante do ano. Em reais, a alta maior, de 8,6%, embute elevação de custos e repasse de parte desse aumento para os preços. O montante subiu de R$ 56,46 bilhões em 2012 para R$ 61,33 bilhões.

E as importações continuam em compasso acelerado, em ritmos superiores às exportações, provocando imensos rombos na balança comercial do setor. Para ter ideia do estrago: em 2007, a conta no vermelho era de 1,24 bilhão de reais (0,65 bilhão de dólares). No ano passado o déficit atingiu, como já mencionado, R$ 5,05 bilhões (2,36 bilhões de dólares). Em 2013, a indústria brasileira exportou 255 mil toneladas de transformados plásticos, equivalente a US$ 1,44 bilhão. Os montantes até representaram uma evolução no comparativo com 2012, quando o setor comercializou no exterior 238 mil toneladas de produtos, que resultou em US$ 1,34 bilhão. Porém, as importações passaram de 708 mil toneladas, em 2012, para 731 mil toneladas em 2013, correspondendo a US$ 3,59 bilhões e US$ 3,80 bilhões, nessa ordem.

“Cada vez mais estamos importando produtos de maior valor agregado”, infere Roriz. O presidente da Abiplast aponta os filmes, laminados de PVC, BOPP e utilidades domésticas entre os mercados mais afetados pela concorrência externa. “Os laminados de PVC sofrem bastante”, lamenta. A importação avança e absorve a maior parcela do crescimento do consumo brasileiro. O levantamento da entidade aponta uma elevação no consumo aparente de 9,1% em valores (subiu de R$ 60,8 bilhões, em 2012, para R$ 66,3 bilhões, em 2013) e 1,5% em volume: evoluiu de 7,130 milhões de toneladas para 7,236 milhões de toneladas, nessa ordem.

Os transformadores brasileiros, como atesta Roriz, estão habilitados à tarefa de suprir a contento o mercado doméstico e ganhar espaço no comércio internacional, para tanto só dependem de que se desatem os nós que impedem o seu desenvolvimento. A solução passa pela integração entre os elos da cadeia. “As margens não podem ficar retidas apenas no segmento que tem o maior lobby ou força política, mas distribuídas na cadeia produtiva como um todo”, desafia.

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