Química

Perspectivas 2014 – Entrevista: Setor químico nacional precisa resolver questões além da matéria-prima

Marcelo Fairbanks
19 de fevereiro de 2014
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    QD – Isso esgota as dificuldades?
    PW – Não. Um dos fatores que mais assusta os investidores é a falta de estabilidade das regras e políticas oficiais. Grandes projetos, como os petroquímicos, têm maturação lenta, não convivem com mudanças bruscas. No caso dos tributos, há mudanças quase todos os dias. Aspectos regulatórios das atividades empresariais também são modificados com muita frequência. Isso gera instabilidade e incerteza. Investidores não gostam disso.

    QD – As mudanças nos tributos podem ser positivas. O alívio no PIS/Pasep e Cofins na primeira e segunda gerações foi considerada a redenção do setor em 2013.
    PW – O setor precisava realmente disso, mas observe que esse benefício é transitório. A norma que instituiu a redução do PIS/Pasep e da Confins [Medida Provisória 613, de maio de 2013, convertida na Lei 12.859, de setembro do mesmo ano] prevê a redução desses tributos para 0,18% e 0,82%, respectivamente, até 2015. Em 2016, eles subirão para 0,54% e 2,46%. No ano seguinte: 0,90% e 4,10%, chegando em 2018 a 1% e 4,6%. O benefício acaba aqui. Seu efeito é apenas anestésico, melhora os resultados por algum tempo, mas não resolve os problemas da indústria nacional.

    QD – O tamanho do mercado brasileiro não serve de contrapeso para atrair investidores?
    PW – Temos uma demanda significativa em âmbito mundial. Mas ela não é garantida, depende da evolução do PIB. Há uma capacidade de atração, mas é preciso lembrar que a Europa ainda está em crise e as companhias transnacionais possuem muita capacidade ociosa por lá. É mais econômico ocupar essas plantas, mesmo vendendo os volumes adicionais pelo custo variável, do que construir novas fábricas em outros países.

    QD – O governo federal contratou um estudo setorial para direcionar investimentos no setor químico. O sr. espera resultados extraordinários?
    PW – Esse estudo é muito sério, está sendo executado por um consórcio de instituições importantes, como a Bain e a Gas Energy. É bom que estudos como esse sejam feitos. A ideia é estudar oportunidades de investimento pelo lado da demanda, a partir da análise das importações e de 533 produtos que deixaram de ser fabricados no país. Esse estudo deve ficar pronto em alguns meses. A etapa seguinte será induzir investimentos nos produtos que se revelarem mais importantes para o país, mediante a atração de companhias que os fabricam em outros países, fazendo um road show e oferecendo incentivos, creio. Mas, para ser sincero, quem já é do ramo não deverá encontrar grandes novidades.

    QD – O discurso do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) dá prioridade aos projetos de especialidades e de química fina. Parece que voltamos aos anos 1980, ou não?
    PW – É um déjà vu. Estamos repetindo o passado, espero que sem os mesmos erros.

    QD – No passado, a culpa de os projetos de química fina não terem deslanchado foi atribuída à falta de intermediários feitos no país. O sr. participou desses esforços. Foi essa a razão determinante do fracasso?
    PW – A química fina requer uma escala de produção ótima. Não é em qualquer país que se encontram os intermediários. Eles são fabricados onde há motivos para isso: matérias-primas, tecnologia ou uma demanda muito grande. De lá são exportados para os demais. Fazer intermediários aqui só para suprir o mercado interno não dá certo. É preciso exportar para alcançar a escala mínima de operação. Também se deve considerar que a química fina possui um fator de insegurança típico: o cliente altera a rota de produção dele a qualquer momento, sem prévio aviso, e deixa de consumir o produto rapidamente. Quando isso acontece, não há mais para quem vender. É um risco permanente.

    QD – Quando se tentou impulsionar a química fina no Brasil, nos anos 1980, essas questões já eram conhecidas?
    PW – Sim. Mas aquele modelo tinha por suporte a política de substituição de importações e a possibilidade de impor tarifas muito altas de importação para proteger a produção local. Esse tempo acabou. Ainda bem.

    QD – Nas condições atuais, o setor deve entrar em desespero?
    PW – De jeito nenhum. Apesar de todas as dificuldades que mencionei, algumas companhias químicas vão muito bem, obrigado. Entre elas estão, sem dúvida, a Oxiteno, a Lanxess e a Basf. Esta, aliás, está fazendo o maior investimento petroquímico em curso no país, o projeto de ácido acrílico e acrilatos, em Camaçari-BA.



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