Perspectivas 2013 / Química – México, a bola da vez

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Depois de muito alarde e poucos resultados, o Brasil perdeu a preferência dos investidores internacionais interessados em projetos produtivos na América Latina.

Quem ocupou, desde 2012, esse lugar foi o México, que obteve crescimento econômico entre 3,5% e 4% no Produto Interno Bruto no ano, somando US$ 1,75 trilhão. Esse país tem por meta manter taxas de crescimento anuais entre 6% e 7%, para se tornar a sétima economia mundial em 2050.

Em números aproximados, o Brasil tem área quatro vezes maior que a do México, e conta com o dobro em população. Mas seu PIB cresceu pífios 0,98% a 1% em 2012, perfazendo o total estimado em US$ 2,4 trilhões; e a expectativa de crescimento de mercado, apontada no Boletim Focus do Banco Central, é de 3,5% em 2013.

As intervenções oficiais em mercados e empresas trouxeram de volta ao país um clima parecido com o dos anos 80, auge da substituição de importações a qualquer preço.

Enquanto o governo brasileiro alimenta uma nostalgia do passado, o México se esforça para implementar reformas estruturais importantes. A primeira foi a trabalhista, aprovada há poucos meses, após exaustivas negociações. Estão na agenda do país mudanças profundas no setor de energia, na política fiscal e na área educacional, todas elas consideradas fundamentais para alavancar o crescimento do tigre da Península do Yucatán.

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Alexanderson: geografia e gás barato ajudam país a crescer

“Temos no México vantagens geográficas, demográficas e de matérias-primas suficientes para impulsionar o desenvolvimento da indústria química apesar da crise mundial”, afirmou Miguel Benedetto Alexanderson, presidente da Asociación Nacional de la Industria Química (Aniq).

Vizinho dos Estados Unidos, o maior mercado consumidor mundial, o país mantém com ele profundo relacionamento comercial.

Segundo o dirigente, o México importa dos EUA quase tanto gás natural quanto produz, com preços abaixo de US$ 3 por milhão de BTU.

Outra vantagem geográfica mexicana consiste no acesso direto aos oceanos Atlântico e Pacífico, o que lhe permite fazer negócios tanto com a Europa quanto com os países asiáticos com grande facilidade logística. E o comércio internacional é bem aproveitado pelos mexicanos.

José Luis Uriegas Uriegas, presidente do grupo Idesa, gigante empresarial privado mexicano, informa que, além de participar do Nafta (Acordo de Livre Comércio para a América do Norte), o México possui doze tratados de livre comércio com 44 países, 28 acordos para promoção e proteção recíproca de investimentos e nove acordos de comércio nos termos da Aladi. “O comércio internacional representa 58,6% do PIB, enquanto isso soma apenas 18% da economia brasileira”, comparou. Em 2011, esse país respondeu sozinho por 60% das exportações da América Latina.

Embora tenha reservas abundantes de gás natural e uma conhecida indústria de petróleo (embora em declínio), as exportações mexicanas se concentram em produtos manufaturados (81%), com apenas 16% em derivados de petróleo.

Apesar da crise internacional, Uriegas enxerga claras oportunidades para o México crescer nos próximos dez anos. Para tanto, são esperados novos acordos internacionais de comércio, inclusive com o Brasil, além de aprofundar o Nafta, fortalecer a Aliança do Pacífico (com o Chile e o Peru), e a criação do Acordo Transpacífico (TPP), com onze países.

Uriegas admite que a eletricidade mexicana é cara, gerada por termelétricas alimentadas por óleo combustível. “E faltam gasodutos para levar o insumo para outras regiões”, comentou. Faltam também melhorias ferroviárias e portuárias. Além das reformas previstas, ele ainda considera importante para o país contar com uma política de segurança pública mais eficaz, incluindo o combate à corrupção e à impunidade.

Do ponto de vista petroquímico, Uriegas entende que o país possui muito etano, mas é preciso explorá-lo. “O marco legal prevê que só a Pemex pode produzir óleo e gás no país, mas o governo e o congresso nacional já se mostram dispostos a rever isso, admitindo associações com empresas privadas”, afirmou.

Enrique Peña Nieto assumiu a presidência do México em 1º de dezembro, trazendo de volta ao poder o Partido Revolucionário Institucional (PRI), apeado da presidência em 2000. “Já nos reunimos previamente com ele, que se manifestou favorável aos pontos de vista defendidos pela Aniq em energia, meio ambiente e logística, com uma visão bem diferente daquela do velho PRI”, disse Alexanderson.

Uriegas entende que a elevação dos custos de mão de obra na China favorece a evolução manufatureira mexicana. Ele informou que a diferença de salário entre México e China era de 238% em 2002, e foi reduzida para a casa dos 10% em 2012. “Além disso, um contêiner de 53 pés leva de quatro a cinco dias de viagem, ao custo de US$ 3.058,00 para ir de Monterrey a Chicago. Um contêiner de 40 pés leva 22 dias para chegar ao mesmo destino, vindo da China, ao custo de US$ 5.239,00”, explicou.

Alexanderson concorda com o empresário, mas aponta a necessidade de reestruturar as contas nacionais. “Atualmente, 38% da receita federal é proveniente da Pemex”, informou. Outro problema que precisa ser equacionado é a redução, verificada nos últimos anos, do número de químicos e engenheiros químicos no país. “Estamos conversando com as universidades para mudar o currículo e tentamos motivar os jovens a optar pelas carreiras ligadas à indústria”, comentou.

A Aniq criou o Instituto de Competitividade da Indústria Química, voltado para a capacitação especializada de profissionais nas áreas de logística (cadeias de suprimento), energia, vendas químicas, recursos humanos, comércio exterior, seguridade e saúde ocupacional. “Revisamos as carreiras e identificamos oportunidades para apresentar às universidades e estas puderam criar cursos novos com alta empregabilidade”, explicou. Outra linha de formação está voltada para profissões afins, como motoristas, instrutores e profissionais liberais que atuem no setor (advogados, contadores etc.). A Aniq também desenvolve competências e a certificação de padrões operacionais para atendimento a emergências químicas, operadores de destilações, de mesas de controle, expedição e operadores aduaneiros. Há cursos para diplomados que duram apenas seis meses e são oferecidos nas formas presencial e não presencial, com o respaldo de universidades.

Ele explicou que a formação superior nas universidades privadas mexicanas tem mais credibilidade que nas públicas, mas cada curso completo custa em média US$ 75 mil. Daí a importância de contar com modalidades de formação que sejam mais adequadas às necessidades das indústrias químicas, que passam a receber jovens bem formados e prontos para o trabalho. “Os alunos também procuram cursos com melhor possibilidade de emprego futuro, e isso nos ajuda a dialogar com as instituições de ensino”, afirmou.

A Aniq oferece estudos e serviços especializados em análise de mercados, salários e compensações, comércio exterior, riscos ambientais e satisfação do cliente. Outros serviços incluem análise e diagnóstico de consumo de energia, competitividade operacional e ambiental, entre outros, todos conduzidos por especialistas com larga experiência no ramo. A entidade fortalece parcerias com universidades, faculdades, centros de pesquisas e com associações congêneres, para atingir o objetivo de crescer entre 15% e 20% a formação de profissionais. “80% da receita da Aniq é obtida pela venda de serviços e só 20% vem das contribuições mensais dos associados, ou seja, precisamos oferecer serviços cada vez melhores”, avaliou Alexanderson.

A reforma laboral recentemente instituída no México deve apresentar bons resultados em pouco tempo. “O modelo de sindicalização ficou mais parecido com o dos EUA: o trabalhador e a empresa podem escolher livremente o sindicato ao qual querem se filiar, e podem mudar mais tarde, caso não fiquem satisfeitos”, explicou. Ele também disse que, antes da reforma, cada trabalhador só fazia uma única tarefa dentro de uma companhia, elevando o custo total do trabalho. Agora, será possível fazer várias operações. “O trabalhador também poderá se qualificar e conseguir promoções, o que antes era muito difícil, tal a rigidez do sistema”, salientou.

Etileno XXI avança – O maior projeto petroquímico em curso no México (e em toda a América Latina) é o complexo Etileno XXI, em Vera Cruz, uma associação entre o grupo mexicano Idesa (35%) e a brasileira Braskem (65%), que receberão etano de gás natural da Pemex a preços competitivos. Com isso, começará a produzir um milhão de t/ano de eteno e cerca de um milhão de toneladas de polietilenos (PEAD, PEBD) a partir de 2015. “O México consome quase 2 milhões de t/ano de polietilenos, mas só produz cerca de 600 mil t/ano, exigindo grandes importações”, comentou Uriegas. O complexo será direcionado para suprir uma grande parte do mercado interno.

Roberto Bischoff, presidente da Braskem-Idesa, confirma para junho de 2015 a partida dos fornos de etano, com tecnologia Technip, e de suas três unidades de polietilenos (tecnologias Ineos e LyondellBasell). “A compra dos equipamentos críticos foi concluída ao custo de US$ 600 milhões, abaixo do orçado, pois fomos beneficiados pela queda dos investimentos mundiais provocada pela crise”, comentou.

Os equipamentos foram encomendados em vários países: a torre de separação de eteno, com 80 metros de altura em peça única, foi comprada na Índia e exigirá uma operação logística especial para levá-la do porto ao local da obra. O reator tubular para PEBD virá da Alemanha, enquanto vários compressores estão sendo fabricados na Itália. “Temos um compromisso de comprar US$ 40 milhões em equipamentos brasileiros, com financiamento do BNDES, e vamos comprar bem mais do que isso, incluindo bombas da KSB e motores da WEG, por exemplo”, salientou.

Cleantho de Paiva Leite Filho, diretor de desenvolvimento de negócios, confirma que o gás que alimentará o projeto será o etano, com baixo custo de transporte. “Metade do gás consumido no México vem dos EUA, sendo consumido principalmente na metade Norte do país. Faltam dutovias de transporte do gás, que estão sendo construídas”, comentou.

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