Perspectivas 2013 / Química – Indústria nacional pede insumos mais baratos para recuperar competitividade

Química e Derivados, Perspectivas 2013 - Química

A indústria química brasileira registrou mais um déficit recorde em sua balança comercial. Em 2012, foram US$ 28,2 bilhões de diferença entre importações (US$ 43 bilhões) e exportações (US$ 14,8 bilhões), ou seja, 6,4% de aumento sobre o déficit recorde anterior, de 2011, no valor de US$ 26,5 bilhões.

O desempenho é sintomático de uma indústria que perde relevância no total do Produto Interno Bruto (PIB), ficando na casa dos 2,5%. Em âmbito mundial, o faturamento anual de US$ 157 bilhões no ano passado foi suficiente para levar o setor nacional da oitava para a sexta posição no ranking, superando a França e a Itália.

A intenção de sobrepujar a Coreia do Sul, no quinto lugar, com US$ 172 bilhões poderá, porém, dar lugar ao desconforto de perder o posto para a Índia, cujo faturamento químico em 2012 chegou a US$ 152 bilhões e está em franco crescimento, situação bem diferente da brasileira.

A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) apresentou ao governo federal, em 2010, uma proposta desenvolvimentista, com o intuito de reduzir importações e alavancar a economia nacional, aproveitando o efeito multiplicador do setor químico.

Em linhas gerais, o setor pleiteava a desoneração tributária das matérias-primas da primeira e segunda geração petroquímica, dos investimentos em novas capacidades produtivas e da energia elétrica industrial, bem como a melhoria da infraestrutura nacional, além de apoio aos projetos de produção química com base em fontes renováveis.

Muito pouco, ou quase nada, mudou desde então, e a entidade reapresenta esses pleitos, na esperança de recuperar o ânimo setorial para crescer.

Química e Derivados, Henri Armand Slezynger, gás deve ter preço menor
Slezynger: gás como insumo das indústrias deve ter preço menor

“O governo fez algumas coisas, baixou juros e promete reduzir o custo da eletricidade, mas isso ainda é muito pouco para um setor industrial que paga salários em média iguais ao dobro da média nacional e alavanca outras indústrias a jusante, como tintas e cosméticos”, lamentou Henri Armand Slezynger, presidente da Abiquim, no Encontro Anual da Indústria Química (Enaiq).

Ele observou que o ambiente de crise internacional afeta muito toda a indústria mundial, especialmente o setor químico. “No Brasil, a situação foi ainda pior, porque passamos quase a metade do ano com uma taxa de câmbio desfavorável, que incentivou as importações”, comentou. Além disso, o tímido crescimento do PIB brasileiro, estimado em 1%, pouco ajudou. “A indústria química agrega valor, não podemos mais ser um mero exportador de commodities”, disse Slezynger.

Como se a situação já não fosse suficientemente ruim, o setor ainda se defronta com nova ameaça: a descoberta de imensas reservas de gás de xisto (shale gas) e óleo de xisto (shale oil) nos Estados Unidos. Usando técnicas de perfuração horizontal combinadas com o faturamento hidráulico mediante a injeção de líquidos sob altíssima pressão no subsolo, as companhias petroleiras americanas estão logrando êxito nessa atividade exploratória. A expectativa dos Estados Unidos, anunciada pela administração Obama, é a de alcançar a autossuficiência energética a partir de 2017, acabando (ou reduzindo muito) com as importações de petróleo e gás de locais distantes e conturbados, como os países do Oriente Médio.

Além do impacto social e geopolítico que isso representa, no campo petroquímico a ameaça para a indústria brasileira é enorme. “Existem quase 20 projetos para transformar etano em eteno nos Estados Unidos até 2016, além de várias iniciativas para converter antigos crackers de nafta para gás”, informou Slezynger. “A questão é: como ficará o mercado mundial sem a demanda dos EUA?”

Nesse cenário, contar com gás natural barato (nos EUA está entre US$ 4 e US$ 6 por milhão de BTU) será essencial para garantir a sobrevivência da petroquímica brasileira. A Abiquim tem lutado para que seja criado um sistema diferenciado de preços para o gás natural usado como matéria-prima industrial, para viabilizar sua transformação em químicos. “O consumo de gás como insumo industrial representa apenas 5% do total comercializado no país e não chegaria a 10%, na melhor das hipóteses, ou seja, tem baixo impacto nesse mercado”, avaliou. A exploração da região do pré-sal levará a um grande excedente de gás, cujo aproveitamento é crucial para o setor.

Slezynger aponta ainda outras ameaças. A Argentina possui grandes reservas de shale gas e pretende explorá-las. Bolívia, Peru, Venezuela e México contam com suprimento de gás convencional com grande possibilidade de conversão em resinas termoplásticas e químicos de interesse global, como fertilizantes, metanol e MEG. “O Brasil também tem shale gas na bacia do Paraná, no Parnaíba e na Amazônia, mas o sistema de concessões está travado e seria preciso construir gasodutos, com impacto nos custos”, considerou.

Sem as mudanças almejadas pelo setor, pouco será possível mudar. As estimativas da Abiquim indicam que o investimento setorial em 2012 somou US$ 4,8 bilhões e os projetos anunciados para ocorrer entre 2013 e 2016 somam US$ 16,5 bilhões, quantia insuficiente para duplicar a capacidade produtiva setorial até 2020, como previsto no Pacto Setorial.

Desequilíbrio – Marcos De Marchi, vice-presidente da Abiquim e coordenador da comissão de economia da entidade, aponta um sério desequilíbrio na balança comercial química do Brasil.

Química e Derivados, Marcos De Marchi, Abiquim, produção se concentra nas commodities
De Marchi: produção local se concentra nas commodities

“A média de preços das nossas exportações é de US$ 1.050 por tonelada, enquanto as importações têm preço médio de US$ 2.500/t, sem considerar os fertilizantes”, apontou. Isso indica a baixa sofisticação do setor.

Investimentos em pesquisa, desenvolvimento e tecnologia poderiam contribuir para reduzir essa diferença de valores, capacitando o setor a produzir itens de química fina, mais valiosos.

“Nos últimos anos, os investimentos em P&D do setor no Brasil ficaram abaixo de 1% do total de vendas e estão em queda, enquanto no Japão esse percentual chega a 4,1%; nos EUA, 2,1%; e na Europa, mesmo com a crise, 1,5%”, comentou o presidente executivo da Abiquim, Fernando Figueiredo.

Segundo De Marchi, o consumo aparente nacional de petroquímicos ficou praticamente estagnado entre 2011 e 2012. “Verificamos a queda da atividade industrial, pois aumentaram muito as importações de produtos finais e isso representa um sério risco de desindustrialização para o país”, enfatizou.

Ele informou que a taxa de ocupação de capacidades no setor químico ficou em 82% durante o ano passado, uma ociosidade avaliada como moderada. “Há dez anos registramos ocupação acima de 80%, mas nem assim os investimentos se intensificam”, afirmou. De Marchi atribui esse fato à perda de competitividade setorial, justificada pela falta de matérias-primas competitivas em disponibilidade e preço, péssima infraestrutura e tributação excessiva, estes os pontos mais críticos, embora existam outros.

Figueiredo comentou a criação de um conselho de competitividade, sob o comando do BNDES e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), com participação da Abiquim, Abiplast, Anda (fertilizantes), Sindag (defensivos agrícolas), Abrafati, CUT, Força Sindical e UGT. Esse grupo debateu os problemas do setor e concluiu pela necessidade de aumentar os investimentos locais, buscar a substituição de importações, reduzir custos de matérias-primas, reforçar a atividade de P&D, melhorar a infraestrutura e incentivar a inserção internacional das empresas do ramo.

Segundo o presidente executivo, o gás natural brasileiro custa quatro vezes mais caro que nos EUA.

Química e Derivados, Fernando Figueiredo, Abiquim, baixo investimento em P&D
Figueiredo: baixo investimento em P&D limita avanço do setor

“Só o custo do transporte do gás até o ponto de consumo custa tanto quanto o insumo”, salientou.

A burocracia emperra também o registro de moléculas de defensivos agrícolas, sendo necessário criar um órgão específico para essa tarefa, segundo o conselho. Os pleitos estão sendo analisados pelo governo federal.

As deficiências de infraestrutura causam problemas graves ao setor. O apagão elétrico nordestino do final de outubro derrubou a Unidade de Insumos Básicos de Camaçari-BA, da Braskem, ou seja, parou o polo petroquímico baiano. Segundo Rui Chammas, vice-presidente de insumos básicos da companhia, os efeitos desse apagão foram muito menores do que os provocados pelo apagão do início de 2011. “De lá para cá, estabelecemos novos procedimentos de parada segura que se provaram mais eficazes”, explicou. “Com isso, só perdemos um forno, que coqueou, mas essa parada não programada tomou uma semana para reestabelecer a produção da Unib.” Uma semana parada significa a perda de um quarto da produção do polo em um mês, ou quase 2% da sua produção anual.

José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), lamenta que o custo do capital para investimento no Brasil ainda seja muito elevado, apesar dos esforços recentes do governo federal para baixar juros. “Tanto para investimento quanto para capital de giro, o custo financeiro é equivalente a 7,5% do preço final dos produtos industrializados no Brasil”, informou.

Nos últimos dez anos, o crescimento das vendas internas desses produtos foi enorme, resultado da inserção de quase 50 milhões de pessoas na classe média nacional. “Porém, 40% desse crescimento foi atendido por importações. Em 2011, 100% do incremento de vendas foi atendido por importações”, lamentou. Com isso, a tendência é o setor industrial reduzir sua participação no PIB, hoje estimada em 13,9%.

O setor petroquímico não dispõe de matérias-primas baratas, usa nafta, gasóleo e condensados mais caros, e ainda recebe gás natural entre US$ 9 e US$ 10,50 por milhão de BTU, por conta disso, a competitividade nacional está em queda. “A produção petroquímica brasileira estagnou desde 2004”, comentou. Em comparação, Roriz Coelho citou o Oriente Médio, com matérias-primas baratas, e a Ásia, com baixo custo de investimento e operação, como focos de crescimento mundial.

“Os investimentos só aparecem se o custo total de produção for baixo”, explicou. Por isso, o shale gas recupera a indústria petroquímica norte-americana, da mesma forma que a China aproveita seu carvão e o potencial de shale gas para se manter ativa. “A tecnologia de produção está disponível para todos e a logística global ficou muito mais eficiente que há dez ou vinte anos, aumentando a concorrência entre as regiões”, considerou.

Ao mesmo tempo, Roriz considera que o Brasil possui grandes reservas de óleo e gás, acima de 100 bilhões de barris de óleo equivalente, sem contar com reservas de shale gas, além de gozar de estabilidade política e mercado interno crescente. Ele concorda com os pleitos apresentados pela Abiquim e adiciona a eles mais um: “é preciso estimular toda a cadeia de produção e transformação de plásticos, do contrário serão importados produtos acabados e a demanda por resinas desaparecerá”.

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Balança comercial da indústria química em geral

Segue o tango – A indústria petroquímica argentina quer voltar aos velhos tempos em que liderava a América do Sul. O governo federal instituiu o Plano de Estruturação Industrial para 2020, abrangendo 11 setores da atividade que somam aproximadamente 80% do PIB industrial daquele país. Segundo José Maria Fumagalli, presidente da Cámara de la Industria Química y Petroquímica (CIQyP) da Argentina, enquanto o PIB nacional cresceu 3,2%, a produção física setorial registrou aumento de 2% entre janeiro e setembro de 2012 sobre igual período do ano anterior. As vendas locais, porém, caíram 1% em dólares, mesma tendência das exportações (queda de 6%). O PIB argentino para 2012 é estimado em US$ 450 bilhões.

“O plano do governo com o PEI é duplicar o PIB industrial para US$ 140 bilhões, elevando o saldo comercial dos atuais US$ 12,5 bilhões para US$ 28 bilhões até 2020”, informou. Na área química, o principal efeito será a eliminação do déficit comercial. Isso exigirá esforços para a formação de profissionais qualificados, que já vêm sendo empreendidos desde 2003.

Em relação ao comércio exterior, o atual governo instituiu três mecanismos de controle. Cada importação precisa começar com a apresentação de uma declaração jurada antecipada de necessidade de importação (Djai), na qual se apresentam aos órgãos oficiais detalhes sobre o produto desejado, seus preços no mercado local e de que modo essa importação ajudará o país a exportar outros produtos. Além disso, os controles aduaneiros foram reforçados e o preço para liquidação das exportações foi encurtado para 30 dias entre empresas vinculadas (matriz e filiais) e 90 para as demais, em média.

Segundo Fumagalli, a CIQyP criou um mecanismo permanente de operação comercial para apoio às empresas associadas. “Vimos que o sistema se regulou e está funcionando normalmente”, declarou. O mecanismo fornece várias informações necessárias sobre produtos e mercados e apresenta pleitos para situações específicas. “Pedimos 83 intervenções a pedido dos sócios – 71 deles foram satisfeitos, 11 permanecem em negociação e um fracassou”, disse.

O problema da Argentina reside em ter caído na tentação de maquiar os dados macroeconômicos, especialmente os relacionados à inflação. “As estimativas apontam uma taxa de inflação anual acima de 20% na Argentina, mas não há informações seguras, uma vez que o governo de lá interrompeu a apresentação das estatísticas qualificadas”, lamentou o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, na palestra de abertura da reunião anual da Associação Petroquímica Latino-Americana, realizada em novembro último, no Rio. “Eles quebraram o termômetro em vez de baixar a febre.”

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Desempenho dos produtos químicos de uso industrial

Segundo o economista, a inflação média em toda a região não passa de 6%. Isso mostra que esse deixou de ser um problema crônico regional, como ocorreu nos anos 80 e 90. Ele aponta para a América Latina um crescimento econômico inferior, mas próximo a 4% em 2012. Para 2013, ele aposta em aumento de 4% a 4,5% para a região. “O nível de emprego segue crescendo na região, mostrando seu dinamismo, e o desemprego está entre 6,5% e 7%, muito melhor que na Europa, com seus 12% de média”, considerou. Ao mesmo tempo, ele observa que os salários reais na região são crescentes, prejudicando a competitividade das indústrias. Mas é exatamente o reforço da demanda interna que tem garantido bons resultados para a região.

Giannetti salienta que a crise econômica mundial, iniciada em 2008, chegou aos países em desenvolvimento apenas em 2012, derrubando os seus indicadores macroeconômicos. A região continua sendo atraente para investidores privados, contando com dívidas pública e fiscal inferiores às da Comunidade Europeia, por exemplo. “A região possui recursos naturais, política macroeconômica mais lúcida que no passado, inflação controlada (com exceções), todos esses fatores positivos para atrair investimentos”, comentou. Como problemas regionais, ele aponta a baixa disponibilidade de mão de obra qualificada, poucos esforços de P&D para agregar valor aos recursos naturais, dificuldades logísticas e alto custo do trabalho, somados a eventuais intervenções governamentais no mercado e ingerência oficial sobre empresas. O resultado da soma de prós e contras é favorável ao desenvolvimento regional para os próximos anos.

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