Química

Perspectivas 2012 – Investimentos químicos seguem aquém da demanda nacional

Marcelo Fairbanks
15 de janeiro de 2012
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    Há ameaças no ar. Produtos petroquímicos da China, Índia e Oriente Médio estão sendo escoados para a América Latina por não encontrar demanda nos seus mercados tradicionais, em especial na recessiva Europa. Os Estados Unidos recolocam em marcha seus crackers de etano com o aproveitamento das reservas de gás de xisto (shale gas), ricas nessa fração. Isso provocará mudanças no mercado mundial dos polietilenos.

    De forma geral, segundo o presidente da Apla, a América Latina deve manter demanda crescente por petroquímicos nos próximos anos. Derivados do metano, principalmente amônia/ureia e metanol, têm consumo garantido, porém apenas Venezuela e Trinidad e Tobago apresentam excedentes exportáveis. O Chile tem uma sólida indústria metaneira, mas parcialmente parada por falta de gás, antes suprido pela Argentina. Em 2012, uma das unidades ociosas de metanol da Methanex será desmontada e transferida para Geismar (Louisiana, EUA) para aproveitar a disponibilidade de gás. “O Brasil aguarda o pré-sal para ganhar um impulso”, comentou. Colômbia, Peru, Bolívia e Equador têm projetos para suprir o déficit petroquímico regional, mas seu desenvolvimento é lento.

    Além do consumo olefínico, a procura por aromáticos está em alta na região. “Isso requer ampliação do processamento de nafta, porém esta é escassa no mundo”, considerou. Países como Brasil, Argentina e Venezuela anunciaram planos para a ampliação do parque de refino de petróleo ou a montagem de novas refinarias completas, capazes de ofertar mais nafta no continente.

    Wongtschowski sumariza a situação latino-americana com a manutenção de seu crescimento econômico pelos próximos cinco anos, pelo menos, exigindo ampliar a produção local ou ampliar as importações para suprir a demanda interna. Alguns países têm condições de ampliar a produção química/petroquímica mediante o aproveitamento de matérias-primas alternativas, com algumas vantagens, incluindo desde o etanol brasileiro até o shale gas argentino. No entanto, esses esforços enfrentarão crônicas deficiências de infraestrutura e dificuldades políticas localizadas. “A demanda doméstica é a alavanca para motivar os governos regionais a apoiar investimentos na produção”, afirmou.

    Revista Química e Derivados, Fernando Figueiredo, Abiquim, demanda vai gerar empregos

    Figueiredo: faltam matérias-primas com preço adequado

    Fernando Figueiredo, presidente executivo da Abiquim, complementa: “A permanecerem as condições atuais, o crescimento da nossa demanda vai gerar empregos em outros países.” O faturamento de quase US$ 160 bilhões da indústria química (em sentido amplo) em 2011 a colocou na sétima posição mundial. “Porém corremos o risco de sermos ultrapassados em breve pela Índia”, comentou.

    A Abiquim mantém um programa de metas para 2020, o Pacto Nacional da Indústria Química, com a intenção de colocar o setor nacional entre os cinco maiores do planeta até lá, quando existirão excedentes exportáveis e forte participação de produtos de química verde. Segundo Figueiredo, as condições para isso são favoráveis: há petróleo e gás natural (com o pré-sal, principalmente), etanol e óleos vegetais, mercado em crescimento, três grupos consolidados de capital nacional (Braskem, Unigel e Ultra) e as maiores companhias multinacionais presentes no país há mais de cinquenta anos. Para atingir essas metas, porém, a entidade estima a necessidade de investimentos da ordem de US$ 167 bilhões no setor, além de outros US$ 32 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. “Os investimentos setoriais estão ficando abaixo do esperado, pois só contamos com projetos no valor de US$ 25 bilhões anunciados até 2015”, lamentou.

    Os pleitos setoriais incluem contar com matérias-primas em volume e preços adequados, com visão de longo prazo. A lista também pede melhorias na infraestrutura nacional, apoio oficial para P&D, com desoneração fiscal, e ampliação da concessão de financiamentos de longo prazo com juros reduzidos para pequenas e médias (as grandes já os obtêm). Sem esperanças de contar com uma reforma tributária, o setor pede, ao menos, que sejam eliminadas distorções graves, como ocorre em alguns portos que isentam de tributos as importações.

    Gás não falta – A América Latina pode contar com suprimento próprio de petróleo e gás natural até 2020, caso sejam desenvolvidos os projetos de exploração e produção atualmente previstos. No caso do Brasil, a Petrobras anunciou planos ambiciosos para os próximos cinco anos, com ênfase nas áreas do pós-sal. A região do pré-sal só ganhará relevância nos planos da companhia a partir de 2016. Até lá deverão ser superados os grandes desafios tecnológicos de operação em região inóspita e complexa.

    A indústria petroquímica aguarda ansiosa a oportunidade de contar com gás natural para seus projetos em prazo mais curto. Por volta de 2015, o Comperj começará a receber por duto gás obtido na Bacia de Campos em volume capaz de suportar unidade de craqueamento para gerar etileno e dar origem a um complexo petroquímico. O Comperj terá uma refinaria de petróleo que produzirá como coproduto a nafta, que poderá alimentar um cracker. Aliás, como a empresa pretende ampliar seu parque de refino em um milhão de barris por dia para poder processar mais de 3 milhões de bpd até 2020, espera-se um aumento significativo da oferta de nafta para os fornos de pirólise nacional (ver QD-514, de outubro de 2011). Ressalte-se que o Brasil importa, em média, 30% de seu consumo interno de nafta.

    O consultor internacional especializado em energia Roberto D. Brandt salienta que a América Latina mais do que duplicou a produção e o consumo de gás natural, mas as reservas provadas da região aumentaram em apenas 9,8% entre 1990 e 2010. Ele também considera o preço do gás na região muito elevado e com perspectivas incertas de valores, por falta de definições oficiais claras. “A situação brasileira é melhor que a de outros países da região, há uma grande previsibilidade e uma política estabelecida para o setor petroleiro”, comentou Brandt. “Especificamente para o gás natural, porém, falta uma visão de longo prazo para o uso petroquímico, pois o gás ainda é visto apenas como fonte auxiliar para geração elétrica.”



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