Perspectivas 2012 – Investimentos químicos seguem aquém da demanda nacional

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O rol das informações que se desenrola a seguir tem a pretensão de apoiar essas reflexões preparatórias, apontando segmentos promissores e oportunidades de atuação. Reconhecemos que muitas das advertências também elencadas são redundantes, meras repetições de anos anteriores: tributos elevados, serviços públicos deficientes, alto custo de capital, entre outros. Porém, eles permanecem atazanando a vida dos brasileiros e contribuindo para que projetos estratégicos de investimento sigam engavetados, enquanto as importações aumentam sua participação no mercado nacional. Engrossamos também o coro dos que salientam não existir país desenvolvido sem uma indústria química forte. Esperamos pelo dia no qual não precisaremos mais ter de repetir tudo isso.

Química e petroquímica – O encerramento de 2011 trouxe uma boa e outra má notícia. A boa: a demanda brasileira por produtos químicos e seus derivados manteve o ritmo de crescimento. A ruim: essa demanda adicional foi quase toda atendida por importações. Portanto, existe mercado para justificar investimentos em novas capacidades produtivas químicas e petroquímicas.

Dados divulgados em janeiro pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) apontam para um déficit recorde na balança comercial química do país: US$ 26,5 bilhões, 28,3% maior que o registrado para 2010 e 14,2% acima do déficit de 2008 (de US$ 23,2 bilhões, recorde agora batido). As importações químicas de 2011 somaram US$ 42,3 bilhões (25,5% sobre o ano anterior), enquanto as exportações cresceram 21%, com US$ 15,8 bilhões. Segundo a entidade setorial, os intermediários para fertilizantes continuam sendo os grandes responsáveis por esse déficit, com importações no valor total de US$ 8,7 bilhões, com 78,5% de acréscimo sobre 2010.

Essa situação é semelhante em toda a América Latina, como informou o presidente da Associação Petroquímica Latino-Americana (Apla), Pedro Wongtschowski, também presidente do grupo Ultra. “A demanda geral por produtos é crescente em toda a região, mas a oferta regional não acompanha o ritmo, aumentando as importações”, comentou. Com isso, entre 2005 e 2010 o déficit comercial regional passou de US$ 20 bilhões para US$ 56 bilhões.

Os dados apresentados pelo presidente da Apla vão além. Em 2005, a região era importadora líquida de 3,6 milhões de toneladas de produtos químicos, sendo que dois países do grupo eram exportadores líquidos em volume. Em 2010, o déficit passou para 12,5 milhões de t, e tanto o Brasil quanto o México se tornaram grandes importadores líquidos.

Revista Química e Derivados, Pedro Wongtschowski, Apla, Grupo Ultra, oferta regional não acompanha o ritmo
Wongtschowksi: crescimento da região depende de importações

A produção regional de etileno entre 2006 e 2011 teve crescimento pífio: de 6.432 mil t/ano para 6.832 mil t/ano, incluindo as 200 mil t/ano adicionais da Braskem, obtidas pela desidratação do etanol. “A região precisa assegurar o suprimento de matérias-primas petroquímicas para suportar novos projetos, lembrando que quase 50% da nafta consumida (58% no caso brasileiro) é importada”, ponderou Wongtschowski. A nafta alimenta 70% da capacidade dos crackers instalados na região.

A América Latina, por sua vez, tem seus trunfos. É habitada por uma população quase duas vezes maior que a dos Estados Unidos, porém com um produto interno bruto regional (PIB) de cerca de um terço do registrado pelos EUA. Isso representa um imenso potencial de consumo ainda represado. Wongtschowski cita o caso brasileiro, no qual os programas de transferência de renda e a manutenção da atividade econômica entre 2005 e 2010 tiraram um contingente de 45 milhões de pessoas da faixa da pobreza, além de conduzir 39 milhões de habitantes para a classe média. “A renda cresceu em todas as camadas sociais e o consumo de químicos também”, afirmou.

Ele também apontou como pontos positivos a descoberta de reservas de gás natural de fontes não convencionais na região, o potencial para gerar matérias-primas de fontes naturais aproveitáveis pelo setor, o andamento de projetos petroquímicos de grande envergadura (Comperj e Etileno XXI), a consolidação empresarial com formação de alianças corporativas regionais e internacionais. Essas grandes companhias, como Braskem e Mexichem, têm escala de produção e estrutura financeira para suportar melhor os momentos de crise e também para suportar novos projetos.

O setor petroquímico tem fortalecido laços na região, a exemplo da associação da Braskem com a Idesa na Etileno XXI, que está sendo construída em Vera Cruz (México) para produzir um milhão de t/ano de polietilenos a partir de 2015. “Rotas alternativas de suprimento estão sendo criadas, por exemplo, para trazer paraxileno e glicol do Oriente Médio para suprir a produção de PET em Suape-PE que deve começar em 2012”, considerou.

Há ameaças no ar. Produtos petroquímicos da China, Índia e Oriente Médio estão sendo escoados para a América Latina por não encontrar demanda nos seus mercados tradicionais, em especial na recessiva Europa. Os Estados Unidos recolocam em marcha seus crackers de etano com o aproveitamento das reservas de gás de xisto (shale gas), ricas nessa fração. Isso provocará mudanças no mercado mundial dos polietilenos.

De forma geral, segundo o presidente da Apla, a América Latina deve manter demanda crescente por petroquímicos nos próximos anos. Derivados do metano, principalmente amônia/ureia e metanol, têm consumo garantido, porém apenas Venezuela e Trinidad e Tobago apresentam excedentes exportáveis. O Chile tem uma sólida indústria metaneira, mas parcialmente parada por falta de gás, antes suprido pela Argentina. Em 2012, uma das unidades ociosas de metanol da Methanex será desmontada e transferida para Geismar (Louisiana, EUA) para aproveitar a disponibilidade de gás. “O Brasil aguarda o pré-sal para ganhar um impulso”, comentou. Colômbia, Peru, Bolívia e Equador têm projetos para suprir o déficit petroquímico regional, mas seu desenvolvimento é lento.

Além do consumo olefínico, a procura por aromáticos está em alta na região. “Isso requer ampliação do processamento de nafta, porém esta é escassa no mundo”, considerou. Países como Brasil, Argentina e Venezuela anunciaram planos para a ampliação do parque de refino de petróleo ou a montagem de novas refinarias completas, capazes de ofertar mais nafta no continente.

Wongtschowski sumariza a situação latino-americana com a manutenção de seu crescimento econômico pelos próximos cinco anos, pelo menos, exigindo ampliar a produção local ou ampliar as importações para suprir a demanda interna. Alguns países têm condições de ampliar a produção química/petroquímica mediante o aproveitamento de matérias-primas alternativas, com algumas vantagens, incluindo desde o etanol brasileiro até o shale gas argentino. No entanto, esses esforços enfrentarão crônicas deficiências de infraestrutura e dificuldades políticas localizadas. “A demanda doméstica é a alavanca para motivar os governos regionais a apoiar investimentos na produção”, afirmou.

Revista Química e Derivados, Fernando Figueiredo, Abiquim, demanda vai gerar empregos
Figueiredo: faltam matérias-primas com preço adequado

Fernando Figueiredo, presidente executivo da Abiquim, complementa: “A permanecerem as condições atuais, o crescimento da nossa demanda vai gerar empregos em outros países.” O faturamento de quase US$ 160 bilhões da indústria química (em sentido amplo) em 2011 a colocou na sétima posição mundial. “Porém corremos o risco de sermos ultrapassados em breve pela Índia”, comentou.

A Abiquim mantém um programa de metas para 2020, o Pacto Nacional da Indústria Química, com a intenção de colocar o setor nacional entre os cinco maiores do planeta até lá, quando existirão excedentes exportáveis e forte participação de produtos de química verde. Segundo Figueiredo, as condições para isso são favoráveis: há petróleo e gás natural (com o pré-sal, principalmente), etanol e óleos vegetais, mercado em crescimento, três grupos consolidados de capital nacional (Braskem, Unigel e Ultra) e as maiores companhias multinacionais presentes no país há mais de cinquenta anos. Para atingir essas metas, porém, a entidade estima a necessidade de investimentos da ordem de US$ 167 bilhões no setor, além de outros US$ 32 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. “Os investimentos setoriais estão ficando abaixo do esperado, pois só contamos com projetos no valor de US$ 25 bilhões anunciados até 2015”, lamentou.

Os pleitos setoriais incluem contar com matérias-primas em volume e preços adequados, com visão de longo prazo. A lista também pede melhorias na infraestrutura nacional, apoio oficial para P&D, com desoneração fiscal, e ampliação da concessão de financiamentos de longo prazo com juros reduzidos para pequenas e médias (as grandes já os obtêm). Sem esperanças de contar com uma reforma tributária, o setor pede, ao menos, que sejam eliminadas distorções graves, como ocorre em alguns portos que isentam de tributos as importações.

Gás não falta – A América Latina pode contar com suprimento próprio de petróleo e gás natural até 2020, caso sejam desenvolvidos os projetos de exploração e produção atualmente previstos. No caso do Brasil, a Petrobras anunciou planos ambiciosos para os próximos cinco anos, com ênfase nas áreas do pós-sal. A região do pré-sal só ganhará relevância nos planos da companhia a partir de 2016. Até lá deverão ser superados os grandes desafios tecnológicos de operação em região inóspita e complexa.

A indústria petroquímica aguarda ansiosa a oportunidade de contar com gás natural para seus projetos em prazo mais curto. Por volta de 2015, o Comperj começará a receber por duto gás obtido na Bacia de Campos em volume capaz de suportar unidade de craqueamento para gerar etileno e dar origem a um complexo petroquímico. O Comperj terá uma refinaria de petróleo que produzirá como coproduto a nafta, que poderá alimentar um cracker. Aliás, como a empresa pretende ampliar seu parque de refino em um milhão de barris por dia para poder processar mais de 3 milhões de bpd até 2020, espera-se um aumento significativo da oferta de nafta para os fornos de pirólise nacional (ver QD-514, de outubro de 2011). Ressalte-se que o Brasil importa, em média, 30% de seu consumo interno de nafta.

O consultor internacional especializado em energia Roberto D. Brandt salienta que a América Latina mais do que duplicou a produção e o consumo de gás natural, mas as reservas provadas da região aumentaram em apenas 9,8% entre 1990 e 2010. Ele também considera o preço do gás na região muito elevado e com perspectivas incertas de valores, por falta de definições oficiais claras. “A situação brasileira é melhor que a de outros países da região, há uma grande previsibilidade e uma política estabelecida para o setor petroleiro”, comentou Brandt. “Especificamente para o gás natural, porém, falta uma visão de longo prazo para o uso petroquímico, pois o gás ainda é visto apenas como fonte auxiliar para geração elétrica.”

O aproveitamento em larga escala do shale gas nos Estados Unidos, a partir de 2008, mexeu com as estruturas do mercado mundial de gás. O especialista aponta o impacto nos preços do insumo nos EUA, que chegaram a US$ 12,7 por milhão de BTU antes da crise de 2008 e despencaram para a faixa de US$ 3 a US$ 4 por milhão de BTU (no final de outubro, a cotação no Henry Hub era de US$ 3,65). E a disponibilidade desse gás é imensa. Os EUA têm reservas tecnicamente recuperáveis de 862 trilhões de pés cúbicos (TCF) apenas do shale gas – existem outros tipos de fontes não convencionais, como o tight gas e os depósitos em leitos de carvão. Como esse gás apresenta um teor considerável de etano, a petroquímica americana está em fase de reativação.

A América Latina possui 278,9 TCF de reservas de gás convencional, das quais quase 70% localizadas na Venezuela, que responde por apenas 13,2% da produção regional do gás (7,6 TCF em 2010). México, Trinidad e Tobago e Argentina produzem mais gás do que ela, embora tenham reservas muito menores.

Revista Química e Derivados, Roberto D. Brandt, consultor internacional, preço do gás muito elevado
Brandt: shale gas dos EUA reformulou o mercado global

Grande parte dos problemas da região, porém, são de ordem política. Instabilidades locais, políticas públicas confusas e ineficiência gerencial emperram o avanço dos investimentos na produção de gás. A Argentina, por exemplo, vive há alguns anos uma crise de suprimento de hidrocarbonetos, mas não há interessados em projetos de exploração e produção. “A Argentina tem muito gás convencional para ser explorado, mas ele não vai aparecer enquanto for vendido por US$ 2 por MMBTU, preço médio recebido pelos produtores”, criticou Brandt.

Há uma saída para os argentinos. O governo de lá aceitou praticar preços diferenciados para gás de fontes novas. “É bom, mas o certo seria liberar os preços em geral, protegendo apenas o consumidor mais pobre”, comentou. Segundo informou, os consumidores residenciais argentinos pagam em média US$ 2 por MMBTU, enquanto as indústrias recebem gás por US$ 4 por MMBTU, quando conseguem assegurar o suprimento. Há uma tarifa diferenciada para os usuários de gás importado, mas Brandt tem dúvidas se o controle do uso das formas segmentadas será eficaz, sem desvios.

Isso justifica o empenho dos argentinos em desenvolver as técnicas necessárias para a retirada do shale gas, em especial a perfuração horizontal e o sistema de faturamento. Os principais grupos internacionais fornecedores desses sistemas já iniciaram a importação de dispositivos e começarão em breve as operações. Estimativas do Ministério da Energia dos EUA (Department of Energy, DOE) apontam que a Argentina possui reservas recuperáveis de tamanho similar às dos EUA, somando 774 TCF. O México tem 681 TCF e o Brasil, 226 TCF.

“Porém, explorar shale gas é difícil para os países latino-americanos”, informou Brandt. Essa exploração usa uma grande quantidade de caminhões pesados e em deslocamento constante, além de requerer volumes imensos de água, equipamentos e insumos químicos. As notórias deficiências logísticas se traduzirão em custos elevados, situação bem diferente da encontrada pelos produtores norte-americanos, que têm a vantagem adicional de contar com uma vasta rede de gasodutos para escoar a produção. “O esforço para montar a estrutura adequada de produção é comparável ao requerido por uma usina nuclear”, exemplificou o consultor.

Comparando as duas regiões geográficas, o consultor verifica o forte crescimento da exploração de fontes não convencionais de gás natural na América do Norte, que começa a enfrentar pesadas críticas quanto ao desempenho ambiental dessa atividade. Na América Latina, ele considera o aproveitamento dessas fontes como uma possibilidade para médio e longo prazo, dependendo da superação de desafios tecnológicos, logísticos e políticos. Do ponto de vista de suportar uma expansão petroquímica vigorosa, as fontes convencionais latino-americanas não são suficientes, segundo Brandt.

No caso da Bolívia, ele lamenta que a falta de políticas oficiais para apoiar a exploração e produção de petróleo e gás comprometa a oferta no longo prazo. Atualmente, a estatal boliviana se esforça para atender os contratos existentes firmados com Brasil e Argentina. “Podem aparecer projetos gás-químicos na Bolívia, porém é preciso saber se o Brasil ainda comprará gás deles depois de iniciada a exploração do pré-sal”, comentou.

Propileno apertado – Como ressaltou o consultor Robert Baumann, da Polymer Consulting, o shale gas não é um fenômeno exclusivamente americano. “China, Polônia e Argentina estão investindo nele, com boas perspectivas”, avaliou. Essa modalidade de gás alterou profundamente a relação entre o preço do petróleo e o do gás natural. “Essa relação hoje está perto de sete, bom para os players petroquímicos dos EUA”, comentou.

Até o preço do etano está se descolando do preço do gás natural (basicamente formado por metano), uma vez que encontra forte demanda. “Mesmo assim, a América do Norte já apresenta o segundo menor custo de produção de petroquímicos em todo o mundo e isso incentiva a investir, especialmente em polietilenos”, comentou.

No entanto, os derivados de propileno, a segunda mais importante olefina, sofrem cada vez mais com a pouca disponibilidade do insumo. Crackers americanos priorizaram a produção de etileno e, com isso, caiu a oferta do propileno. As apostas no futuro desses negócios estão depositadas em processos específicos para a produção da olefina. Nota-se uma grande procura por processos de produção como metátese com dímeros de etileno, ou desidrogenação de propano. Há apostas também em fontes alternativas, como a glicerina, ou o desenvolvimento da produção direta de acrilonitrila obtida do propano. A Dow contratou em janeiro a UOP para contar com a tecnologia C3 Oleflex para uma unidade de produção de 750 mil t/ano de propileno por desidrogenação de propano a ser instalada no Texas até 2015, como informou o consultor Jorge Bühler-Vidal, da Polyolefins Consulting.

No Brasil, havia alguma disponibilidade de propileno em Camaçari-BA, mas a Braskem firmou contrato com a Basf para fornecer a olefina para alimentar a fábrica de ácido acrílico que será implantada no local. Outra parcela do propileno disponível (até agora exportado) será usada para ampliar a produção de polipropileno da Braskem no polo baiano, de 135 mil para 200 mil t/ano, na antiga unidade com tecnologia slurry.

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