Perspectivas 2011 – Química / Petroquímica – Importados aproveitam real forte para suprir aumento de demanda e inibem investimentos

química e derivados, química, petroquímica, perspectivas 2011A indústria química brasileira conseguiu superar com folga a retração de negócios de 2009. Ao crescer 21,8% em faturamento (em reais) e 5,8% em produção física, o setor conseguiu superar os resultados de 2008, até então considerado o melhor da história dos produtos químicos para fins industriais. Porém, o aumento da demanda exigiu a ampliação das importações de químicos, gerando um déficit comercial de US$ 14,3 bilhões, segundo estimativa da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

O déficit comercial dos químicos industriais de 2010 ficou abaixo do registrado em 2008, mas já aponta uma tendência de elevação preocupante, cuja reversão depende da ação conjunta de empresas e governo. “A produção nacional precisa crescer US$ 138 bilhões até 2020, isso exige investimentos diretos de US$ 167 bilhões, só para acompanhar a evolução da demanda”, comentou Bernardo Gradin, presidente do conselho diretor da Abiquim.

No entanto, ele mesmo apontou problemas que persistem sem solução no país. “A tendência é de ampliação do déficit comercial químico e o real valorizado não ajuda em nada para revertê-la”, criticou. A atuação chinesa no comércio mundial de produtos é apontada como danosa, exigindo posicionamento mais firme, como o que está sendo adotado pelos Estados Unidos. O clima de competição entre a produção de matérias-primas (leia-se petróleo e minérios) e as cadeias industriais por capitais e incentivos oficiais não beneficia o interesse nacional de longo prazo. Um dos efeitos, segundo Gradin, pode ser notado na postergação de investimentos das multinacionais, que preferem desenvolver seus projetos em outros países. “Estamos nos ‘reprimarizando’ em commodities”, lamentou o executivo.

química e derivados, perspectivas 2011, química, petroquímica, déficit comercial
Gráfico 1: Déficit comercial cresce - Clique para ampliar

Em termos estratégicos, a forte dependência das commodities representa um sério risco para o país. As flutuações de preços são típicas nessa classe de produtos, comercializados em grandes volumes e valores geralmente mais baixos que os manufaturados. “Isso deixa a balança comercial brasileira vulnerável”, avaliou Gradin.

Durante o Encontro Anual da Indús­tria Química (Enaiq), em dezembro, ele defendeu que a Abiquim, ao lado de outras entidades empresariais, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e suas federações estaduais, exija um compromisso firme do governo com uma agenda composta de cinco itens principais: a desoneração tributária; a redução dos juros; a oferta de matérias-primas a preços competitivos; estímulos para a inovação; e investimentos pesados em infraestrutura. “O governo precisa desenvolver um plano coordenado para atacar esses problemas e apoiar o desenvolvimento nacional a longo prazo”, ressaltou.

 

química e derivados, químicos de uso industrial, perspectivas 2011
Gráfico 2: Químicos de uso industrial registraram recuperação em 2010 - Clique para ampliar

Por sua vez, a indústria química se compromete a assumir mais responsabilidades. Segundo Gradin, o setor já desenvolve várias ações dentro dessas prioridades. Em 2010, por exemplo, com o apoio do BNDES, intensificou as negociações com a Petrobras para sair dos esquemas de “perde e ganha” de definição de preços de gás natural e derivados de petróleo. Houve avanços também em infraestrutura e inovação. No Ministério do Desenvolvimento da Indústria e do Comércio (Mdic), conseguiu apoio para projetos de inovação, gás natural e comércio exterior (aprimoramento das medidas antidumping). “O ministro do Mdic disse que o governo dará incentivos mediante contrapartidas. Ora, nós oferecemos a contrapartida antes mesmo de receber os benefícios”, afirmou.

Uma das medidas pleiteadas ao governo federal é a desoneração de verbas previdenciárias que gravam as exportações do setor. Há várias propostas de modificações tributárias para incentivar investimentos e ganhos de produtividade no setor químico/petroquímico.

Todas essas medidas haviam sido apresentadas no ano passado, quando do lançamento do Pacto da Indústria Química. “Tivemos em 2010 um ano de ajustes e reestruturações no governo e também na Abiquim, agora é a hora de tomar as decisões para o futuro”, afirmou.

As empresas associadas à Abiquim anunciaram investimentos da ordem de US$ 25 bilhões para os próximos cinco anos, mas alguns deles sofrerão atrasos. “Precisamos investir US$ 167 bilhões até 2020, do contrário a demanda brasileira vai gerar empregos e impostos em outros países”, enfatizou Gradin. A indisponibilidade de insumos químicos afetará outras indústrias, como a automobilística, beneficiada pelo governo em 2010.

“O PIB brasileiro está crescendo com apoio nos gastos do governo e no consumo das famílias alavancado com financiamentos, ou seja, um dinheiro que não há, pode ser uma bolha”, criticou Gradin. Ele defendeu que todos os setores industriais precisam crescer juntos, de forma equilibrada, para sustentar sem gargalos o avanço nacional de longo prazo.

No campo tributário, ele defendeu que a tributação incida mais sobre o consumo do que sobre a produção. “Atualmente, os exportadores consomem capital de giro para pagar tributos, isso inibe novos investimentos, já afetados pela política cambial de valorização da moeda local”, comentou. Ele também reclamou dos altos custos de energia, logística e matérias-primas para os processos industriais, pesados freios para novos projetos.

Dentro das propostas do Pacto da Indústria Química, a Abiquim defende uma renovação profunda no modelo de pesquisa e desenvolvimento nacional. “A pesquisa precisa ter vida própria no Brasil, não nos basta copiar”, salientou. A média de investimento nacional em P&D não passa de 1,5% do PIB, insuficiente para as necessidades do desenvolvimento. “E falta uma proteção melhor para a propriedade intelectual”, afirmou, embora reconheça avanços do país nesse campo.

química e derivados, pacto nacional da indústria química, Bernardo Gradin, presidente do conselho diretor da Abiquim
Gradin: setor precisa investir US$ 167 bilhões até 2020

Crescimento mantido – Gradin prevê que 2011 continuará registrando elevação de consumo de produtos químicos no Brasil, ampliando o déficit comercial. “Não há grandes projetos químicos ou petroquímicos sendo construídos atualmente e esses itens são importáveis”, avaliou. Porém, isso representa um alto risco. “Hoje sobra produto químico no mundo, mas quando os mercados voltarem à atividade normal, com certeza ficaremos sem suprimento, ou pagaremos muito caro por ele.”

No cenário para este ano, ele também espera que o câmbio não apresente variações importantes. “Como há uma dependência de muitos itens importados, o governo deve evitar a desvalorização do real porque isso elevaria a inflação”, raciocinou. Portanto, todos os agentes econômicos devem se concentrar na elevação da produtividade para garantir resultados.

A ameaça dos altos custos de matérias-primas locais (petróleo e gás natural, especificamente) e do suprimento de energia foi ampliada com o avanço da produção norte-americana de shale gas. Como explicou o consultor Luis Carlos Costamilan, da Energia do Rio, trata-se do gás natural extraído de campos maduros de petróleo, mediante a aplicação de tecnologias recentes de perfuração horizontal e fraturamento de rochas de xisto. A chegada desse gás, combinada com a recessão americana, derrubou as cotações do gás natural no Henry Hub para a faixa de US$ 6 a US$ 8 por milhão de BTUs. A Petrobras comercializa seu gás natural para clientes locais na média de US$ 12 por milhão de BTUs. (Leia mais sobre o impacto do shale gas na edição de QD-504, de dezembro de 2010).

Superando desafios – Apesar das dificuldades estruturais e conjunturais da produção nacional, oito indústrias químicas instaladas no Brasil conseguiram exportar mais de US$ 3,9 bilhões durante 2010. Pelo feito, foram agraciadas com o Prêmio Abiquim de Exportação. São elas: Ajinomoto, Basf, Braskem, Dow Brasil, Lanxess, Oxiteno, Quattor e Rhodia. Além delas, a Unigel recebeu o prêmio Sucesso Exportador, por ter duplicado sua capacidade produtiva (estirênicos, metacrílicos e fertilizantes), gerando maior quantidade de excedentes exportáveis.

Na área de tecnologia, a Purcom foi premiada pela Abiquim pelo seu trabalho com sistemas de poliuretano inovadores, entre os quais cabe destacar a eliminação de emissões de gases geradores do efeito estufa na espumação do PU. A empresa tem apenas oito anos, mas já é a maior formuladora desses sistemas na América Latina, tendo ampliado suas vendas em 40% durante 2010. A Purcom investe 2% de seu faturamento total em atividades de pesquisa e desenvolvimento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.