Perspectivas 2011 – Máquinas – Juros altos e câmbio ruim jogam a sombra da desindustrialização sobre o setor

química e derivados, perspectivas 2011, máquinas, equipamentosSeria exagero dizer que a indústria de bens de capital mecânico está em crise. Na opinião dos líderes do setor, no entanto, são urgentes algumas correções de rotas para se evitar maiores problemas. O grande vilão do momento é o dólar desvalorizado, fator responsável pela forte perda de competitividade dos equipamentos nacionais perante os importados, em especial os chineses e coreanos do sul. Velhas pendengas provocadoras do chamado “custo Brasil” também incomodam. Existem notícias boas? Sim. A economia aquecida colabora com a encomenda de máquinas. Também houve sensível incentivo ao financiamento das vendas graças ao programa lançado pelo Finame no auge da crise, em meados de 2009. Com juros amigáveis, ele tem alavancado os negócios de alguns segmentos sensíveis à concorrência internacional, caso, por exemplo, das máquinas injetoras de plástico. O desafio é tornar esse programa perene.

“O setor de bens de capital sofre forte ameaça de se ‘desindustrializar’. Além do real valorizado, a indústria de máquinas e equipamentos nacional apresenta um dos maiores preços por produto praticados no mundo, por conta da taxa de juros e do excesso de tributação”, alerta Luiz Aubert Neto, presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Para ele, a concorrência desleal dos estrangeiros ameaça o setor produtivo como um todo. “Não há país desenvolvido sem uma indústria de base forte”, adverte.

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Gráfico 1: Principais origens das importações

Os juros praticados no Brasil são apontados como o vilão para o setor produtivo. “Na última década, o país pagou quase R$ 1 trilhão em juros, valor que poderia ser empregado em saúde, educação, segurança e na produção.” Mais queixas são dirigidas à carga tributária, na faixa entre 35% e 40% dos negócios realizados. “Aqui se penaliza quem investe em produção e se premia o capital especulativo”, reclama. Também são disparadas críticas contra a falta de qualidade da política educacional, o que prejudica as empresas na hora de contratar funcionários. As deficiências na infraestrutura, caso dos problemas enfrentados pelo setor de transportes, tampouco ajudam.

De acordo com o presidente da Abimaq, qualquer previsão para o setor em 2011 não passa de exercício de adivinhação. Alguns fatores permitem otimismo. O processo de exploração do petróleo na camada pré-sal está se iniciando, há forte perspectiva de crescimento da construção civil e vem por aí a organização de dois grandes eventos esportivos, a Copa do Mundo e a Olimpíada. São motivos de impulso para a economia. Mas não há perspectiva de alteração das principais diretrizes econômicas. Pelo contrário. O recrudescimento da inflação nos últimos meses traz a ameaça de nova elevação das taxas de juros. “Não temos inflação por demanda, não há fila para se comprar automóveis. Não há sentido em penalizar os brasileiros com novo aumento de juros”, dispara. Levando-se em conta os prós e os contras, o dirigente arrisca um palpite, estima crescimento este ano entre 4,5% e 5%. “Para manter um crescimento na casa dos 5% ao ano por um período longo, no entanto, os investimentos feitos em produção precisam saltar do atual nível de 18% para 23%”, ressalta.

Números – Alguns números apurados pelo Departamento de Economia e Estatística da Abimaq explicam o cenário atual. No acumulado de janeiro a outubro de 2010, as vendas do segmento atingiram a casa dos R$ 59,3 bilhões, valor 10,8% superior ao do mesmo período do exercício anterior. Apesar da recuperação, os negócios ficaram 14,6% aquém dos obtidos nos dez primeiros meses de 2008, momento anterior ao do surgimento da crise econômica mundial. “Ao equipararmos os números atuais com os de um ano atrás verificamos crescimento, pois em 2009 passamos por uma das piores crises dos últimos anos. Quando os comparamos a 2008 é possível perceber o quão longe estamos de retornar aos níveis pré-crise”, avalia.

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Tabela 1: Saldo da balança comercial - Clique para ampliar

 

 

 

 

 

 

 

A queda no faturamento em relação a 2008 não representou uma redução significativa do ritmo da produção. O índice de utilização da capacidade instalada do setor em outubro de 2010 ficou na casa dos 84,1%. Em outubro de 2009, era de 81,7% e em outubro de 2008 foi de 86,2%. Outra prova do ritmo aquecido se encontra no número de funcionários. Em outubro de 2010 o setor gerou 250 mil empregos, o mesmo patamar de outubro de 2008 e índice máximo dos últimos três anos. “As nossas empresas estão faturando menos, mas a produção não caiu. Houve redução dos preços, estamos recebendo menos pelas máquinas vendidas”, explica. Essa tem sido a arma usada para enfrentarmos os preços subvalorizados dos produtos da China e da Coreia do Sul que chegam por aqui. A produtividade por funcionário caiu de outubro de 2010 em relação a setembro de 2008 de R$ 34,8 mil para R$ 23,4 mil. Algo em torno dos 33%. “No nosso setor, ninguém vai investir se não tiver lucro”, adverte.

Os diversos segmentos da indústria de base apresentaram desempenho desigual. Isso se verifica também entre os fornecedores com forte ligação com o segmento químico. As indústrias de válvulas, por exemplo, foram bem. Suas vendas cresceram 17,9% em relação a 2009 e 12,4% quando comparadas com 2008. Já as de bens sob encomenda, com atuação de destaque em empresas fabricantes de cimento, papel e celulose e indústria petroquímica, entre outras, foram as que apresentaram a pior condição entre os setores pesquisados. Eles registraram queda de 15% em relação ao ano passado e de 13,2% sobre 2008. “Os bens sob encomenda estão sendo quase todos importados. Mesmo na indústria petrolífera, onde se propaga a recuperação da indústria nacional, a maioria dos equipamentos vem do exterior”, queixa-se.

Balança comercial – A valorização da moeda nacional, como não poderia deixar de ser, promove resultados negativos para a balança comercial dos bens de capital mecânico. O saldo do período de janeiro a outubro do ano passado foi negativo, da ordem de US$ 12,9 bilhões. Em 2009, no mesmo período, havia sido negativo de US$ 9,1 bilhões. As exportações, nos dez primeiros meses de 2010, ficaram na casa dos US$ 7,4 bilhões, contra US$ 6,2 bilhões no mesmo período em 2009 e US$ 10,3 bilhões em 2008. As importações, no mesmo período, saltaram para US$ 20,3 bilhões, contra US$ 15,6 bilhões em 2009, crescimento de 31,8%. Em 2008, as importações no período foram de US$ 18,7 bilhões. “Se não forem tomadas medidas urgentes e a economia crescer em torno de 5%, em 2011 podemos ter um déficit de US$ 19 bilhões”, calcula.

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Tabela 2: Faturamento bruto mensal - Clique para ampliar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Gráfico 2: Faturamento bruto real - Clique para ampliar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para se ter a dimensão exata das dificuldades dos empresários brasileiros para colocar seus produtos em outros países, podemos lembrar que em 2005 as vendas externas respondiam por 34% do volume de negócios da indústria de base nacional e hoje respondem por 22%. “O mercado não recupera de forma rápida o desempenho nos negócios internacionais, isso demora anos para acontecer”, lamenta Aubert. Os Estados Unidos aparecem como o principal importador de equipamentos nacionais, responsáveis por negócios de US$ 1,2 bilhão. Em seguida aparecem Argentina (US$ 898 milhões), México (US$ 450 milhões), Holanda (US$ 417 milhões), Chile (US$ 344 milhões) e Peru (US$ 315 milhões). “Estamos apresentando dependência cada vez maior dos nossos vizinhos da América do Sul. Há dois ou três anos exportávamos bem mais para Estados Unidos e Europa”, avalia o presidente da Abimaq.

O perfil das importações também vem se alterando. Em 2010, os Estados Unidos surgem como o principal fornecedor de bens de capital para as nossas indústrias, com vendas de US$ 5 bilhões. Em segundo lugar aparece a China (US$ 2,5 bilhões), seguida pela Alemanha (US$ 2,4 bilhões), Japão (US$ 1,2 bilhão), Itália (US$ 1 bilhão), Suíça (US$ 804 milhões) e Coreia do Sul (US$ 750 milhões). “É importante notar a evolução da China, há dez anos era ela a décima colocada entre os exportadores de equipamentos para o Brasil”, ressalta. A evolução é clara. O país asiático, em 2004, respondia por 2,1% das importações, hoje é responsável por 12,5%, quase seis vezes mais. Outro avanço impressionante é o dos coreanos. Em 2004, eles detinham 1,1% das importações nacionais, hoje já alcançaram os 3,7%. A evolução da Índia também é marcante, passou de 0,25% em 2004 para 1,4% em 2010. O líder Estados Unidos viu sua participação reduzida de 32,4% para 24,6%. A Alemanha caiu de 16,5% para 11,8%.

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